(conto) Fora da rotina
Encontrava-me
na cadeira dura de pau, dessas nada preguiçosas com encosto, uma de assento
rústico antigona e adquirida em segunda mão num sebo de móveis; vou chamar
'sebo' por ser loja de bugigangas. Porém isso um senão. O mais importante é
isto: andar numa solidão esdrúxula; pois não havendo comigo ninguém – diria
nenhum ser vivo, pra exagerar, o planeta infestado de micro-organismos e
insetos a voejar a rastejar, se bem que companhias más – aqui ninguém é sem ter
outra gente. Parecia haver havido na torre debandada geral no fim de semana com
feriados encostados, o que leva muitas pessoas a fugir da cidade grande. O que
interessa é não haver outra vivalma na quitinete que ocupo (ou ocupava...)
neste sexto andar, apartamento 63 para esclarecer. Então pensava. Pensava
apenas, o que poderia mais fazer o pobre ser terreno na solidão!
Nisso,
naquele instante, diria melhor, no momento macabro; nisso ouvi, nitidamente, um
barulho manso. Sim manso por não violento (embora a violência do fato!) enfim
até educado. Afinei a audição. Era algo assim como um apalpar minha porta –
empurrar carinhoso, no entanto a violência do entendimento acabaria com tal
mansidão... Digamos fosse um forçar cuidadoso; pra não provocar barulho é claro. Pareceu-me uso
dum objeto duro, de ferro ou qualquer, a tentar meter a ponta na porta lá fora,
no extremo com a parede, a fim de conseguir abri-la.
Que
fiz!
Não
fiz. Ou por outra, avisei tossindo um "tem gente aqui!" espécie de
mensagem.
Não
adiantou o expediente. Um ladrão... meu Deus! era um ladrão e eu estava na
iminência da ação dum bandido!
Pensei
nesse absurdo. Sim absurdo roubar apartamento num prédio de inquilinos pobres, alguns
com atraso no aluguel; aquele negócio de gatuno que entra em casa pobre somente
pode levar susto. Contudo mesmo um desvalorizado pente tendo preço e é perda a
lamentar. Ora, quanta bobagem pensamos no desespero da solidão.
A
rigor já não me achava só, o barulhinho irritante e tenaz e o bandido quiçá
fugido da prisão ou sabe-se lá com que intenção; enfim ele não me deixava mais
na total solidão... e que parceria! pensei.
Prosseguiu
sua tarefa ingrata num roc-roc num treque-treque sem descanso e bem objetivo.
Fui-me
impressionando. E passei a urdir plano também como o outro ali fora; aqui dentro
formulando um intuito de escape. Por não ter arma e não saber usar tivesse uma;
mas para não compactuar com a violência; e ao mesmo tempo não podendo me aquietar
cruzar os braços, enfim refleti me defender, defendendo meu patrimônio, alugado
o imóvel todavia protegeria meus bens, como roupas e utensílios, inclusive o
pente citado, e algum dinheiro, pouco mas bastante talvez a um fora da lei. Que
fazer!
Que
fazer?
Imaginei
gritar à vizinhança. No andar debaixo todos fora é sempre assim no domingo; o
de cima o último do edifício e dele não vinha som sequer dum prato ou talher
quedado ao chão. No meu pavimento sabia (pior: saberia o malfeitor tentando
abrir minha porta) sabia que os vizinhos saíram cedo, ouvira conversa e o
barulho do elevador. Portanto andava de fato só nas alturas! Aos debaixo que me
adiantaria esbravejar por socorro; embora lá da rua escutasse alguma condução e
o costumeiro barulho surdo.
Pensei
mais. Olhei a janela, despencaria por seu intermédio rumo à morte certa?
errado, respondi-me. Não faria tal.
Ah,
falei, poderia gritar pondo a cara lá fora aos poucos viventes das construções
no descanso dominical ou oportunos transeuntes. Ora ora que bobagem: numa
sociedade louca surgir uma pessoa louca a berrar na vidraça da janela e...
O
som infernal do instrumento do invasor prossegue e acresço ainda: a mente
bandida não tomara conhecimento de mim e de minha pobre tosse. Força agora com
mais vigor, antes caíra do malfeitor a ferramenta no solo com a qual furava minava
a resistência da porta e da parede no batente. Retomou a operação... lembro
agora um detalhe de memória: não partiria a arrebentar a fechadura com um tiro,
pois de sobra sabendo a área sem os locatários meus vizinhos. Retoma daí o
objeto de tortura (de minha tortura) e força mais a barra... berro...
Dei
então meu berro, o qual andava preso na garganta, um a assustar ladrões e todo
o mundo disponível. Nesse terror, acordei. Uh!
São Paulo dezembro
2018