sábado, 26 de novembro de 2016

 Orelha  (conto n° 421)    

Diria estúpida brincadeira; todavia ninguém queira explicar arrumação de estudante... E não é que lhe botaram uma orelha nos bolsos!
Provavelmente isso aconteceu não por obra do acaso, deixemos pra lá os exageros. Alguém na aula de Citologia ou na do Dr. Piteus, velhinho atrás das garrafas dos óculos, quem sabe? sujou o nome de Hipócrates, brincando em coisas sérias. O certo foi o errado aparecer depois, bem depois. Que fazer? apareceu depois.
Depois de muito andar na multidão, a tomar dinheiro em pagamento de qualquer coisa adquirida – deparou-se com a orelha! uma orelha em decomposição... devia ser duma pessoa idosa, pelas características, ou assim parecia por estar encolhida quase mumificada; mas quem sabe não estivesse assim, cansada de ouvir bandalheiras por esse mundo de Deus! – encolhidinha  encolhidinha e quente ainda pela quentura do bolso esquerdo do residente. Não. Não gostou, por certo. É lógico não haver gostado, por incômodo, no meio do povaréu. Não apreciou por já ser quase médico. Não, não deve ter sido por isso: qualquer um desgostaria pelo achado dantesco. Além do mais, tinha um porém chato. É que em lugar de desligar-se dos afazeres da escola médica e do hospital, estava ali aquela orelha indecente, arreganhada, a lembrar-lhe compromissos cirúrgicos e anatômicos. Perdeu inclusive a graça em ver as garotas cruzando consigo. Ora, não era para menos.
Nesse ponto teve início um inferno nas relações.
A diaba da orelha mostrou-se enxerida, metendo o bedelho nas coisas do moço, pondo a cara onde não fora chamada...Logo no balcão da Loja dos Presentes – ele não iria voltar à Faculdade apenas para devolver a orelha! continuou nas compras – loguinho  no balcão ele pediu uma corrente, quinquilharia para não-sei-quem familiar, ela se metendo, criticando os quilates, dizendo falsificada. Saiu, deixou a balconista falando a olhar o freguês indo embora e quem sabe pobrezinha tomando pito do patrão. Depois foi na confeitaria, com palpites nos doces, que o creme andava azedo, tinha passado barata no alimento etc. etc.; e se foi sem comer confeitos. Mais adiante impôs um não-sei-quê, o estudante comprou para não discutir. Por vingança, mudou a orelha ao bolso direito, misturado a notinhas fedidas de um cruzeiro! Benfeito. E chegou a hora da compra de lenços: um porque era riscado, o outro por ser vermelho, um terceiro por amarelo fácil aparecer sujeira e sem cor, na opinião lá da orelha. Que raiva o pobre residente sentiu! Novamente vingança do rapaz: parou num açougue, a amedrontá-la, sentir um medinho ao menos.
Entretanto já não dava para continuar a via-sacra, preferiu voltar. Não disse nada, casmurro. Assim mesmo comentou lá com os seus botões:
--Por sorte você apenas ouve, nojenta! (mesmo assim já tagarelou bastante!) se fosse uma língua que os crápulas houvessem atirado nos meus bolsos, estaria irremediavelmente perdido.

Ribeirão Preto  dezembro 1979
Pensamento n°4227.O egocêntrico, surpreso, poderá indagar a você: comete a petulância de existir!?  novembro2016 

sábado, 19 de novembro de 2016

 Conto cheirando a crônica, em poucas palavras

         É jovem a bela que de pé no apinhado ônibus vejo nesta tarde cansada. Cansada, não da beleza que se não cansa, da existência de uns vinte anos, se tanto, e não exibe nas unhas roídas que se apegam à alça onde segurando nenhum esmalte; aliás tem beleza sem pintura alguma, o que destoa e choca nos dias de hoje. Num dos dedos aparece indelével o sinal deixado por aliança que se imaginava eterna e agora só tem a marca na pele branca, mais branco o sinal que ficou. Trina o celular abre a bolsa atende e responde desesperançada “largamos”. Completa: falta só pegar o armário o fogão e o berço; vou com meu pai amanhã ver advogado. Desliga funga o desalento e guarda aquele contato com o mundo, mudo, muda; desce no bairro. Some no mundo.
Marília   novembro  2016











          
3363 – Um acabar

         Agora estava, eu estava visto eu existir, ainda; agora estava a entrar pela área daquela pré-morte ou melhor dizendo nesse pior ‘daquele para-acabar’; a acabar entre mil velhinhos e seus chorinhos e suas alegriazinhas curtas e limitadas, limitado tudo no ai, ai expressivo ou aizinho nem um pouco uma gracinha. Trazia agora um ontem carcomido por um desastre de percurso. Antes foram alegrias mansas, mansas demais pela velhice da máquina que me contém quase como relógio por décadas. Antes um ontem cheio de graças...
         Como é a promessa? é a graça do descuido ou a da ingenuidade no ser. Encontrara por aí, aí pelos recantos do interior do país, encontrara Vivance. Aceitara a fêmea da espécie cansaço por companhia, quiçá companhia inesperada então. Isto porque me propusera entregar o fardo e o bagaço sem luta. É indigno? não me importando opiniões. Contudo ela apareceu, ela desapareceu.
         Vivance me convencera ser necessária; exato quando tudo nada mais é preciso. Foram semanas meses anos tempo no incontável e mesmo no insondável tempo. Fixei-me nos seus carinhos, no costume de me alisar a barba; deslizava sempre pelo meu rosto seus dedos finos das mãos leves, como fora um barco a beijar a espuma branca na tona, ou uma borboleta bela e extravagante a oscular a flor despetalando; e o fazia em gritinhos mudos, mais na tonalidade de toques quase imperceptíveis. Mas eu sentia, me arrepiando o ser. Esse o hábito do ser, ótimo ser para um convívio nada exigente. Acostumara o casal nesse convívio a se perdoar, a  fim de perdurar naquele paraíso ou sonho divino.
         Vivance naquela tarde morna deixara o companheiro à sua preguiça ou à sua teimosia, à qual dava outro nome; e saíra a espraiar, sob o pretexto sempre absurdo do ‘volto logo’. Não tornou...
         Após, um tanto aflito não nego porque também eu existia na existência da multidão na rua, agora empurro um pouco sem educação aqueles curiosos interessados flagrar o acidente de trânsito; todos a falar todos a comentar o estrago e a anormalidade meio normal, de tanto ocorrer; todos a explicar todos dando sua versão, ninguém querendo se ater às normas e exigências dos policiais e bombeiros, todos a se empurrar para ver melhor o pior: os irraionais são menos piores que o melhor homem quando o homem se acha com o direito saber as coisas que não deve saber, ou com isso provando não saber. A custo penetro entro entre cotovelos e me embrenho de vez na brecha ocasional, para também (não disputar não:) ter o direito de enxergar pedaços de carros, a rigor um só embriagado, e pedaços de gente, a rigor também uma pessoa somente. Estragada, morta, em pedaços que já não formam o todo. Vejo postas postas a esmo no chão sujo banhado de vermelho; e outros restos como objetos de usos de um ser vivente, já desnecessários!
         Devo ter desfalecido, não sei; sei não haver chorado pois as lágrimas são melhor vertidas no íntimo e na solidão.
         O tempo passa passou. Ou não.
         Entro naquela pré-morte e não trago se não um pertence, caro aos meus pertences, levo a balançar como butim numa guerra linda perdida, a bolsa do viver feminino do único ser que me expressava carinho na vida.
Marília   novembro  2016











          

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

As Baratas

         Custou um pouco. O pouco era na época uma fração de milênios. Elas não perdoavam, brigavam mesmo entre si, na disputa de grânulos adocicados, de lixos em esparramo. Na cama, na despensa, na cozinha, andando com as patas grudentas no terreiro. Uma gelatina esbranquiçada e pegajosa, um cheiro fétido característico. De milhões a nonilhões. Fervilhantes. As mamãs carregando dezenas de filhotes no ovo grudado na traseira; papais inflamados, esvoaçando por aí. Todas cores, todos os formatos, todos os tamanhos... Não era uma invasão. Já haviam invadido e tomado a tudo...
         Um restinho humano na cidade abandonada. Em fuga desesperada, para nenhum lugar: às tontas: não havia lugar. As pragas e os nomes-feios eram apenas pragas e nomes-feios. Enquanto elas se multiplicavam e cresciam em termos numéricos astronômicos; liquidavam com o alimento  do homem. E com ele mesmo, por extensão. Família desgarrada, subindo a torre que acabava nas nuvens. Pelo menos o planeta andava silencioso. Somente uns poucos gritavam no caminhar para cima. Um cair para cima.

 São Paulo  abril 1978
Numa conversa o ser humano sempre admite, humildemente, ter muitos defeitos, encorajado na verdade; entretanto se alguém ressalta na conversa um só defeito dos defeitos aceitos, então o mesmo ser se levanta se revolta; ofendido.  nov.2016 ( pensamento n°4120)


quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Estorieta do homem na Terra. Era uma vez uns bilhõezinhos de desafetinhos, lindos lindos de morrer!
outubro2016 

terça-feira, 1 de novembro de 2016

Coisas do Tempo

         Não o tempo louquinho para chover secar aquecer ventar esfriar obrigar a gente se esconder se defender, entender ao menos, menos louco ser o tempo. Não. O nosso tempo com as coisas de agora, agora que nem o agora entende o entender da juventude no controle das coisas. Ou no abuso. Nem tão jovens ambos no casal: dir-se-ia passados no tempo sem serem velhos qual idosos de terceira idade; ele quase que sim não ela, ela “ainda boa”, aqui linguajar coloquial bastardo dum vizinho irreverente e tal e coisa.
         Assim as coisas.
         Assim ela bela e mais bela no seu pensar, não tão na opinião da oposição, essa oposição ótima a observar alguém no restaurante caro ou só movimentado no luxo. Esse alguém, belíssima apetitosa difícil ou fácil mas acompanhada, mal acompanhada, ruge quem vê, porém agora só. Essa nova bela nova indo vindo, a circular sua beleza no recinto enorme e de enorme luxo; aí o lixo...
         Aqui a velha gasta bela, ela amarela de amarelo, o amarelo a vesti-la, ela faz trinar o celularzinho do esposo – o qual não escuta pronto ou não percebe a vibração do instrumentinho, pois a olhar e acompanhar o vaivém daquele femeão...
         Indignada a de amarelo (de vermelho a circular no restaurante caro, caro, claro, a beldade observada pelo esposo dela, ela sabendo, mais amarela de raiva ou indignação...) indignada fica pelo não pronto atendimento doutro extremo da linha no celularzinho do homem se pensando macho pra valer. Indignada digita outra vez e vezes outras mais. Mais faz: usa do saber informático que toda gente usa hoje nas coisas usadas pelo tempo da gente. Não obstante encontra a barreira, ou do ocupado ou do não atendido; o que dá no mesmo. Preocupa-se a quase matrona (não admitido pela amarela matrona é lógico esse ilogismo humano). Então faz o que toda gente na habilidade e no costume do tempo faz: procura – agora tempo passado no tempo – procura outros endereços nas mídias eletrônicas do tempo de agora. Debalde. Ainda aqui não encontra nem desiste do atender do consorte; ou melhor nesse pior, encontra de sobra as referências digitadas desde seu celularzinho de última geração, encontra todos: nenhum responde! Quisera falar decerto em defesa da família sobre alguma lembrança do lar lá longe na geografia, quem sabe fulaninha beltraninho a netinha ou alguenzinho com febre lá na mansão... Mas o seu homem não atende! Ficaria e talvez tenha ficado mesmo mais preocupada pelo silêncio do companheiro... Pensa repensa imagina mil coisas na tendência pessimista da gente nas coisas que faz ou imagina fazer e, claro, sofre.
         Esgotados todos recursos num celularzinho a contatar o pretenso chefe da família para falar dos dramas na família lá longe, perto ela mais amarela, resolve gritarzinho ao seu marido doutro lado da mesa no restaurante, o macho ingerindo últimas gotas duma taça mas ao mesmo tempo de olho no femeão de vermelho, o qual se enlaça no seu acompanhante e entra na saída e some, somem no corredor, agora também percebidos por olhos amarelos, os quais finalmente conseguem o contato tantas vezes digitado por um polegar cansado.
Marília   outubro  2016











          
O pai é o filho; o filho pode existir sem o pai; o pai não pode viver sem o filho. 
Profanação in Adultério

         Não é que estivesse assim tão frio, frio sim o vento que se espremia forçava pressionava passava passando pela fresta da janela e entrava se transferindo às mãos, à mão direita, por ser ele destro, mormente aos dedos e não à mão toda e nem todos alguns deles apenas a semiamortecer; e daí! como escrever enfileirar esparramar na folha trêmula instável umas linhas para ela, a amada longe dele e só alcançável através das pernas do correio, então instituição respeitada na entrega da correspondência, a missiva que decerto sua beleza receberia. Ocorrendo que, não obstante, marcaria o papel de pauta com linhas azuladas quase invisíveis mas a garantir a harmonia do cursivo meio inclinado, por masculinamente inclinado e feio e pesado a assinalar no papel inocente puro branco do linho de antigamente; ocorrendo sim não ser pelo semiamortecimento dos dedos mais sensíveis ou menos corajosos e daí se insensibilizando como coisa material, não por amortecidos sim mas por causa do ferimento dum entre dedos – que agora a sarar, porém dolorido no ato de prender apertar segurando a caneta para rabiscar aquilo. Quase suspendeu a comunicação que registrava a ela... Tomou outra vez a caneta, segurou a folha ainda meio virgem (ferira até aí tão somente a primeira e a segunda linhas após cabeçalho de praxe “em tanto de tanto de mil e novecentos e tanto” ajuntado isso à “querida” ou “flor de meu jardim”, no que acresceria sua honestidade e sinceridade e dignidade, em vez de ‘minha’, “do seu marido”... A caneta um objeto de pau, madeira certamente escolhida entre as de lei, leve e própria ao desiderato de escrever sem marcar demais o papel inocente; a caneta de pau aparado torneado encerado pintado lustrado lustrando mais pelo uso, tendo ela uma pena chamada “mosquitinho”, fina, de metal lustroso e de brilho um pouco fosco, com sua ponta delicada mas com talhezinho em abertura no fim, andava molhada umedecida secada ou não molhada além da necessidade de uso, assim pelo tempo fora do contato com o papel; a caneta meio trêmula, não trêmula em si porém da tremura daquela mão pesada máscula peluda de homem de certa forma inseguro na segurança que concede o futuro (absolutamente incerto...) O vento o frio a manhã abaixavam a temperatura, como inimigos ali expostos ou só observando aquele jovem que poderia ser valente: era a insegurança feita proposta mal posta mas com certo desejo que a poesia não sabe disfarçar. Claro que os olhos, e mais o coração, não poderiam ao receber a correspondência saber (ao menos constatar) tais fatores negativos num jovem mancebo, aparentemente impetuoso e na verdade temeroso, ao se comunicar com sua amada posta como beleza num jardim lá longe, perto dele embora, longe e de propriedade de outro na espécie... Mas é hora de esclarecer não se pôr aqui a discussão secular quiçá milenar da propriedade. Contudo nada dela dele... No pensar de quem vendo observando acompanhando a vivência daquela flor no jardim do apaixonado, embora com dedo ferido mais ferido ainda o coração; concluir-se-ia na pressa um casal a desfrutar da felicidade completa, própria aos ligados pelo símbolo religioso do matrimônio. Aqui entraria o chocante na questão, pois a flor iria receber lá longe a carta desse mesmo mancebo apaixonado; e a torcer decerto ela e ele que o consorte (nisto sem sorte ou com pouquíssima sorte e muito azar) que o mesmo não tendo a má sorte flagrar o estafeta entregador de correspondência do correio, no seu uniforme nas cores berrantes azul e amarelo...
         Era a manhã num domingo, frio antes ventoso primeiro depois amenizante com o calor da tarde – e demorara a tanto um dia inteiro, dito um dia de domingo de descanso de alívio no compromisso na rotina semanal; todo o domingo e não seria por culpa de um dedo machucado mais ferido mais dolorido pelo friozinho e ficando semiadormecido e com dor lá no fundo, não seria esse o vilão! Enfim aí pela tarde, mais tarde por ser o fim do dia quase noite, enfim sendo aí acabar a missiva... Naturalmente rasgara mil folhas falhas na ansiedade insatisfeita, pois não se acabando, tendo em vista o objetivo do documento, o qual devera ser objetivo na linguagem, a tratar só o necessário (tudo era necessário) e não afirmar nada em sobra, apenas as palavras adequadas básicas, embora no campo do amor tudo seja importante sobremodo escorregos e abusos da poesia. Mas tudo válido para ela, a flor do jardim (seu jardim, o esposo admitido pelo pároco diria “o meu jardim”...) enquanto essa oposição certamente tão distante num tentar a posse alegando o pároco e reforçando com o juiz o cartório a lei. Em resumo, era preciso que fosse objetivo no tratamento. No entanto constatara mil vezes as linhas já postas como subjetivas, a contrariar o intuito de se mostrar sem compromisso como zangão visitante (e sem direito! o coração garantiu que não). Apesar dessa questão filosófica e abstraindo-se a letra trêmula feia desigual, quase ilegível, apesar disso gritou-lhe o imo lá dentro; deixando de lado a aparência da carta (frequentemente melindrada, melindrosa) tinha de sobra motivos para rasgar amassar fazer bola com o material já imprestável e atirar tudo no cesto, o cesto que vomitava bolotas de folhas falhas embora amorosas – um dia inteiro, domingo se rediga, ao mister de escrever se arrepender rasgar jogar, retomar, agora uma folha nova inocente pura para ser ferida pela caneta, essa inimiga pois que borrava, berrava a raiva por essa intratável inimiga, não: apenas adversária porque inimiga a pena mosquitinho a sujar macular o papel com borrões, ora por excesso de tinta ora demais azul ora azul claro quase não se dando a ler. Assim nova, a virar velha falha a folha escrita inacabada amontoada às já amontoadas no cesto abarrotado de imprestáveis. Assim também todo o domingo a escrever para ela, a flor do seu jardim (a oposição gritava: “minha flor, meu jardim!”) O coração já sangrava, a musculatura já acusava, suava o príncipe encantado sem estória e sem carochinha.
         Na segunda, atirou a preguiça e o sono da noite mal dormida e foi postar, prontinha, a carta a seu amor (a oposição linguaruda: “amor proibido”).
         Aqui um senão, se não um senão um senão por inesperado: o correio não aceitou os garranchos... tão aperfeiçoada a caligrafia, a descontar aqui o peso da mão pesada masculina mas com o alívio que fornece o amor de um macho necessitado, distante, e de coração prenhe a dar à luz o melhor no mundo dos vocábulos a uma flor do seu jardim, longe, perto a oposição esbanjava propriedades com fartos absolutos impolutos da lei e da religião, esta antes que aquela. Bem, mal entregara o documento a pesar a selar a pagar a postar a seguir na mala postal para longe (longe não tão distante: a destinatária flor do jardim do seu amado relativamente próxima por na cidade vizinha do pretendente admirador e apaixonado, isto a se repetir por valia) quase que imediato o funcionário ranzinza devolve o documento ao amoroso representante da espécie, por irregularidades. O peso sem peso ou com peso além; a falta de estampilha adequada em falta na agência; ou ainda a falha mais gritante que fora o destinatário – no caso destinatária, leia-se uma flor bela rara dum jardim de costumeira disputa de propriedade, não a propriedade do jardim, isso sem importância até mas a disputa pela propriedade da flor e nisto se diria é minha, não (responderia outrem) não senhor, é minha: eu vi primeiro! (o pároco... o cartório...) O fato nesse transe é, era, que o endereço ou errado ou instisfatório, embora a instituição a continuar uma das mais válidas na sociedade mas não aceitando: não aceitou. Não obstante rogos do amante apaixonado.
         Nova série de indecisões com o final na decisão do pretendente a amor tão difícil a conquistar (ou a manter!?) enfim ele mesmo resolve ir entregar direto ao jardim, à flor. Pronto.
         Deslocou-se à urbe também acanhada e não tão distante mas vizinha – com o fito de entregar nas mãos da flor. Claro, pensou, o ato da entrega quando longe e nos seus compromissos a oposição teimosa, a viver a arregimentar padre juiz e lei; a pô-lo contra a lei...
         Viajou. Deslocou-se. Aportou. Tremeu. Aproximou-se duma entre as mais belas flores dum jardim desnecessário, lhe assopra o coração, porque bastando a flor. Entregou a missiva como quem a prestar um favor ao correio, entregando às mãos da flor. A flor:
         Quem, oh mequetrefe, quem o remetente deste abuso mal escrito e bem ofensivo!?
         O servidor ainda a tremer:
         “Não sei... Senhora” desconheço o anãozinho grosseiro que me passou o documento no portão para entregar à senhora, Senhora.
Marília   outubro  2016