Profanação in Adultério
Não é que
estivesse assim tão frio, frio sim o vento que se espremia forçava pressionava
passava passando pela fresta da janela e entrava se transferindo às mãos, à mão
direita, por ser ele destro, mormente aos dedos e não à mão toda e nem todos
alguns deles apenas a semiamortecer; e daí! como escrever enfileirar esparramar
na folha trêmula instável umas linhas para ela, a amada longe dele e só alcançável
através das pernas do correio, então instituição respeitada na entrega da
correspondência, a missiva que decerto sua beleza receberia. Ocorrendo que, não
obstante, marcaria o papel de pauta com linhas azuladas quase invisíveis mas a
garantir a harmonia do cursivo meio inclinado, por masculinamente inclinado e
feio e pesado a assinalar no papel inocente puro branco do linho de
antigamente; ocorrendo sim não ser pelo semiamortecimento dos dedos mais
sensíveis ou menos corajosos e daí se insensibilizando como coisa material, não
por amortecidos sim mas por causa do ferimento dum entre dedos – que agora a
sarar, porém dolorido no ato de prender apertar segurando a caneta para
rabiscar aquilo. Quase suspendeu a comunicação que registrava a ela... Tomou
outra vez a caneta, segurou a folha ainda meio virgem (ferira até aí tão somente
a primeira e a segunda linhas após cabeçalho de praxe “em tanto de tanto de mil
e novecentos e tanto” ajuntado isso à “querida” ou “flor de meu jardim”, no que
acresceria sua honestidade e sinceridade e dignidade, em vez de ‘minha’, “do
seu marido”... A caneta um objeto de pau, madeira certamente escolhida entre as
de lei, leve e própria ao desiderato de escrever sem marcar demais o papel
inocente; a caneta de pau aparado torneado encerado pintado lustrado lustrando
mais pelo uso, tendo ela uma pena chamada “mosquitinho”, fina, de metal
lustroso e de brilho um pouco fosco, com sua ponta delicada mas com talhezinho
em abertura no fim, andava molhada umedecida secada ou não molhada além da
necessidade de uso, assim pelo tempo fora do contato com o papel; a caneta meio
trêmula, não trêmula em si porém da tremura daquela mão pesada máscula peluda
de homem de certa forma inseguro na segurança que concede o futuro (absolutamente
incerto...) O vento o frio a manhã abaixavam a temperatura, como inimigos ali
expostos ou só observando aquele jovem que poderia ser valente: era a insegurança
feita proposta mal posta mas com certo desejo que a poesia não sabe disfarçar.
Claro que os olhos, e mais o coração, não poderiam ao receber a correspondência
saber (ao menos constatar) tais fatores negativos num jovem mancebo, aparentemente
impetuoso e na verdade temeroso, ao se comunicar com sua amada posta como
beleza num jardim lá longe, perto dele embora, longe e de propriedade de outro
na espécie... Mas é hora de esclarecer não se pôr aqui a discussão secular
quiçá milenar da propriedade. Contudo nada dela dele... No pensar de quem vendo
observando acompanhando a vivência daquela flor no jardim do apaixonado, embora
com dedo ferido mais ferido ainda o coração; concluir-se-ia na pressa um casal
a desfrutar da felicidade completa, própria aos ligados pelo símbolo religioso
do matrimônio. Aqui entraria o chocante na questão, pois a flor iria receber lá
longe a carta desse mesmo mancebo apaixonado; e a torcer decerto ela e ele que
o consorte (nisto sem sorte ou com pouquíssima sorte e muito azar) que o mesmo
não tendo a má sorte flagrar o estafeta entregador de correspondência do correio,
no seu uniforme nas cores berrantes azul e amarelo...
Era a manhã num
domingo, frio antes ventoso primeiro depois amenizante com o calor da tarde – e
demorara a tanto um dia inteiro, dito um dia de domingo de descanso de alívio
no compromisso na rotina semanal; todo o domingo e não seria por culpa de um
dedo machucado mais ferido mais dolorido pelo friozinho e ficando
semiadormecido e com dor lá no fundo, não seria esse o vilão! Enfim aí pela
tarde, mais tarde por ser o fim do dia quase noite, enfim sendo aí acabar a
missiva... Naturalmente rasgara mil folhas falhas na ansiedade insatisfeita,
pois não se acabando, tendo em vista o objetivo do documento, o qual devera ser
objetivo na linguagem, a tratar só o necessário (tudo era necessário) e não
afirmar nada em sobra, apenas as palavras adequadas básicas, embora no campo do
amor tudo seja importante sobremodo escorregos e abusos da poesia. Mas tudo
válido para ela, a flor do jardim (seu jardim, o esposo admitido pelo pároco
diria “o meu jardim”...) enquanto essa oposição certamente tão distante num tentar
a posse alegando o pároco e reforçando com o juiz o cartório a lei. Em resumo,
era preciso que fosse objetivo no tratamento. No entanto constatara mil vezes
as linhas já postas como subjetivas, a contrariar o intuito de se mostrar sem
compromisso como zangão visitante (e sem direito! o coração garantiu que não).
Apesar dessa questão filosófica e abstraindo-se a letra trêmula feia desigual,
quase ilegível, apesar disso gritou-lhe o imo lá dentro; deixando de lado a
aparência da carta (frequentemente melindrada, melindrosa) tinha de sobra motivos
para rasgar amassar fazer bola com o material já imprestável e atirar tudo no
cesto, o cesto que vomitava bolotas de folhas falhas embora amorosas – um dia
inteiro, domingo se rediga, ao mister de escrever se arrepender rasgar jogar,
retomar, agora uma folha nova inocente pura para ser ferida pela caneta, essa
inimiga pois que borrava, berrava a raiva por essa intratável inimiga, não:
apenas adversária porque inimiga a pena mosquitinho a sujar macular o papel com
borrões, ora por excesso de tinta ora demais azul ora azul claro quase não se
dando a ler. Assim nova, a virar velha falha a folha escrita inacabada amontoada
às já amontoadas no cesto abarrotado de imprestáveis. Assim também todo o
domingo a escrever para ela, a flor do seu jardim (a oposição gritava: “minha
flor, meu jardim!”) O coração já sangrava, a musculatura já acusava, suava o
príncipe encantado sem estória e sem carochinha.
Na segunda,
atirou a preguiça e o sono da noite mal dormida e foi postar, prontinha, a
carta a seu amor (a oposição linguaruda: “amor proibido”).
Aqui um senão,
se não um senão um senão por inesperado: o correio não aceitou os garranchos...
tão aperfeiçoada a caligrafia, a descontar aqui o peso da mão pesada masculina
mas com o alívio que fornece o amor de um macho necessitado, distante, e de
coração prenhe a dar à luz o melhor no mundo dos vocábulos a uma flor do seu
jardim, longe, perto a oposição esbanjava propriedades com fartos absolutos
impolutos da lei e da religião, esta antes que aquela. Bem, mal entregara o
documento a pesar a selar a pagar a postar a seguir na mala postal para longe
(longe não tão distante: a destinatária flor do jardim do seu amado relativamente
próxima por na cidade vizinha do pretendente admirador e apaixonado, isto a se
repetir por valia) quase que imediato o funcionário ranzinza devolve o
documento ao amoroso representante da espécie, por irregularidades. O peso sem
peso ou com peso além; a falta de estampilha adequada em falta na agência; ou
ainda a falha mais gritante que fora o destinatário – no caso destinatária,
leia-se uma flor bela rara dum jardim de costumeira disputa de propriedade, não
a propriedade do jardim, isso sem importância até mas a disputa pela propriedade
da flor e nisto se diria é minha, não (responderia outrem) não senhor, é minha:
eu vi primeiro! (o pároco... o cartório...) O fato nesse transe é, era, que o
endereço ou errado ou instisfatório, embora a instituição a continuar uma das
mais válidas na sociedade mas não aceitando: não aceitou. Não obstante rogos do
amante apaixonado.
Nova série de
indecisões com o final na decisão do pretendente a amor tão difícil a
conquistar (ou a manter!?) enfim ele mesmo resolve ir entregar direto ao jardim,
à flor. Pronto.
Deslocou-se à
urbe também acanhada e não tão distante mas vizinha – com o fito de entregar
nas mãos da flor. Claro, pensou, o ato da entrega quando longe e nos seus
compromissos a oposição teimosa, a viver a arregimentar padre juiz e lei; a
pô-lo contra a lei...
Viajou.
Deslocou-se. Aportou. Tremeu. Aproximou-se duma entre as mais belas flores dum
jardim desnecessário, lhe assopra o coração, porque bastando a flor. Entregou a
missiva como quem a prestar um favor ao correio, entregando às mãos da flor. A
flor:
Quem, oh
mequetrefe, quem o remetente deste abuso mal escrito e bem ofensivo!?
O servidor
ainda a tremer:
“Não sei...
Senhora” desconheço o anãozinho grosseiro que me passou o documento no portão
para entregar à senhora, Senhora.
Marília
outubro 2016