sexta-feira, 29 de setembro de 2017

(contolouco) - Fio

Levantou-se naquele dia ensolarado a enfrentar o que enfrentar, o desemprego já sem desespero por exemplo; e mais algumas coisas, pois quase nunca a gente supõe encontrar algo especial pela frente. Cansado (mas cansado logo cedinho!) pela noite indormida acinzentando a visão e tudo o mais nos menos. Lavou-se, como sempre espalhafatosamente, se assoprou se limpou se molhou se enxugou; se penteou... ah aí um ai. Guardou os pertences e fechou o espelho do armarinho da pia; já tratara das necessidades fisiológicas e isto a contento; descontente um pouco com aquilo para o que teimamos não haver solução, coisa grave num ser com pouco mais de quarenta anos. Piscou a expulsar nuvens imaginárias e as nuvens da visão a embaraçar a visão. Saía do sanitário a se arrumar para alimentar-se e finalmente ao costumeiro 'pé na estrada' quando...
Retorna ao lavatório em rever a toalete para melhorar a aparência – e aqui não é necessário exigir beleza, não se achava lindo, nem chegando a pensar nisso. Nisso se assustou.
Notara no espelho de relance ao fechar a portinhola do armarinho da pia um fio... de fato uns fios, quatro fios mais ou menos soltos em cima da cabeça no meio daquela espécie de aeroporto de mosquitos (como era gozado por íntimos) enfim de sua área de calvície antecipada, própria da velhice e que apenas é amenizada com peruca chapéu ou boina. Minucioso, toma da tesoura a derriçar aquelas ervas daninhas ridículas no couro cabeludo.
Bem, a tosa foi aceita por três entre rebeldes; não pelo quarto fio, um que alumiava refletindo os raios solares de lá de fora. Esse por demais teimoso.
Corta a ponta, anteriormente tentara apará-lo na base porém não atendeu à lâmina da tesoura, além decerto de falha no corte desse tesouro ou por seus olhos se negarem acertá-lo. Olha, a compensar o fracasso na operação, olha em volta do crânio entre orelhas o cabelo meio negro meio acinzentado a marcar a cabeça – deixando naturalmente a área livre a realçar os quatro fios espetados ou crescidos fora de hora; mais precisamente o quarto deles, rebelde pra valer.
Prossegue na tarefa de desbastá-lo. Ora parecendo que fora vitorioso ora que não: não desaparece o fio!
Toma um par de óculos, desses que veem longe; e após outro, desses que veem perto; não vê. Realmente pensa não perceber mais o intrometido. Guarda então os objetos, os instrumentinhos de se aperfeiçoar na arte da vaidade. Já ia pôr o 'achado' na conta dos esquecimentos, quando ao fechar de novo o vidro do armário nota um reflexo de fio do fio...
Retoma o instrumental – e aí estando pronto a sair de casa atrás das encrencas do dia, encrencas como relembra tristemente o emprego no desemprego, não no desespero, ainda – retoma chateado a tesourinha os óculos e a paciência, a aniquilar de vez o quarto e último fio de cabelo no crânio quase sem cabelo.
Contudo...
Deixa de lado o problema, ou procrastina o problema. Anda anda cansa cansa torna; torna ao lar, lar azedo lar e fica inda mais azedo: o quartinho fio não só não decepado e desaparecido mas no mesmíssimo lugar. Mais nesse menos: crescera um pouco, bastante à expectativa.
Começa para si um drama próprio do homem comum, que é a aparência e o como possivelmente as demais criaturas possam vê-lo. Às vezes a gente sequer notado, além dele não haver pensado que as mulheres percebem a roupa os homens nem a roupa vendo veria o povo um fio de cabelo! mas isto não é o que pensam os pessimistas. Começa – por um singelo e mais ou menos invisível fio de cabelo, não visto pela gente a cruzar com a gente, todavia bem malvisto pelos olhos da gente... – começa seu drama, a durar a eternidade da impaciência.
Precisa naturalmente viver conviver ter as relações habituais na sociedade, embora no caso o caso de um sujeito sujeito à timidez, talvez um taciturno. Sim, tímido entretanto necessitando comer se vestir etc. e tal; antes disso e a satisfazer necessidades precisando trabalhar, não obstante desemprego; precisaria por exemplo a encher o tempo buscar colocação na crise em que vive o país. Bem. Mal constatando, se põe nas ruas, e é aqui os primeiros entre os dramas ligados a um mero fio de cabelo, ou só coto do fio (supunha haver com a tesoura cortado o quarto e impertinente fio).
De fato ninguém nota nem notaria na movimentação de rua um simples fio duro espetado pra cima a olhar o firmamento, ninguém ao se cruzar vias públicas (aquela questão de procurar lojas e bancos).
          Sim para início de conversa, porque depois complicaria um pouco... bastante.
Volta ao azedume do lar doce lar consternado, não pelo fio e também pelo fio mas sobretudo pelas promessas de colocação, o que não suficiente a vencer uma crise. Volta e, preocupado com certa incerta lembrança, vai examinar sua expressão no espelho do armarinho no sanitário e se assusta ao ver na calva brilhante o brilhante coto de fio! coto bem mais alto que antes de sair de casa... Põe o dedo no fio notável – já então podendo senti-lo e até pegá-lo com o indicador e o polegar. Aqui um fio grosso e de mais de quinze centímetros de altura, a brilhar refletindo não o sol mas o lume da lâmpada do sanitário.
Inquietante isso, todavia não se dá por vencido. Antes inclusive de comer beber algo toma a tesoura e decepa a coisa... ou melhor neste pior: a lâmina não consegue cortá-la por dura, forte, indestrutível... indestrutível! se apavora.
No entanto 'aceita' essa visita indesejável, tal qual gente que vem para um dia e permanece semanas na casa da gente; aceitação em termos, mais convivência que aceitação. Se amolda. Ajeita-se e leva sua vida como pode.
A par disso o fio de cabelo cresce engorda encorpa sobe. Impossível aos conviventes esses conviventes não notarem aquilo... A vítima disfarça escamoteia no possível e faz o impossível. Fura o próprio boné, fazendo passar o fiozão ex-fiozinho por um buraco (caprichado e inclusive artístico é verdade mas assim mesmo ridículo a envergonhar no conjunto). Sim, antes de mais nada experimentara o recurso de serrar o fio com serrinha de aço, não usaria serrote e menos ainda um machado. Contudo os recursos falham e ele cede ao buraco no dito boné.
Vive uns dias assim, poucas semanas, e já não conseguindo mais desengastalhar o chapéu. O fio deixara então ser mero fio ou apenas um fio grosso duro e a crescer sem parar: agora de fato um tronco, tronco que sai da cabeça onde as raízes, indo às alturas incomensuráveis. Aliás o extremo sumindo de vista aos pobres mortais aqui embaixo...
Nesse ponto já dissera adeus ao lar, em busca doutro menos azedo; mudando-se ao deserto entre desertos, os dessertos ele experimentara todos: o dos milionários o da miséria o da incompreensão o da vaidade o do orgulho; desertos onde todo mundo pode se recolher se agasalhar e se isolar; mas optando por fim pelo deserto do calor, sendo indivíduo friorento não escolheria o gelado, prefere o da areia; não obstante calor e isolamento. Exato, isto o melhor que arranja no arranjo, visto não aguentar mais ter de explicar e justificar a existência dum fio de cabelo, antes insignificante e talvez invisível aos outros seres na coletividade curiosa. Nos fins dos tempos já havendo um formidável tronco indo desde sua cabeça, seus miolos mais precisamente, até os píncaros no céu! Nisso não bastando óculos, óculos!? nem binóculos e até luneta a enxergar seu final nas alturas siderais além das nuvens.
Por essa ocasião e por muito tempo se livra senão do ridículo exposto ao menos da chatice que é explicar o inexplicável à gente enxerida. Não obstante o fio-tronco continua a engrossar pouco e a espichar muito. Demais.
Daí surgem novos problemas como o assédio de seres tidos por muitos como imaginários, os diabos... Descem e descem aos magotes. Um deles, mais desabrido, indo fazer careta à raiz, ele mesmo, a raiar-lhe os miolos. Pondo areia nos miolos. O homem – agora ao peso do tronco a empurrá-lo pra baixo qual bate-estacas que afunda as bases; agora quase só o que emergindo, enquanto os restos do estourado chapéu ainda a aparecer na 'tona' do deserto – o homem põe, não tivesse já posto, põe umas minhocas na cabeça: que diacho, se fala, que negócio é esse, pois sempre me disseram que o inferno fica nas profundezas do solo e entretanto esses capetas, os capetinhas sendo umas gracinhas, eles me vêm lá de cima para gozar, para insultar-me!!!

Itapecerica da Serra    setembro  2017

domingo, 17 de setembro de 2017

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