terça-feira, 10 de março de 2020

As Constrangidas


(conto) - As Constrangidas

Não poderia dizer aqui os olhos constrangidos os ouvidos constrangidos; mesmo porque dando o enunciado um choque sonante horroroso e nisto a gente desiste. Ou fala de uma vez língua mas aqui se apimentaria a conversa. Fiquemos no  constrangimento da gente no total da gente. No caso deste caso gente do sexo frágil, hoje mais forte que o forte, não só na língua não: no mundo. As constrangidas se unindo num trio contra um pobre indefeso vizinho. Essas. Essinhas, se bem nesse mal uma de um corpaço feminil de liquidar com a presença os machos ainda restantes da espécie Homo.
          Enfim temos o inferno na torre, embora 'torre' um exagero na vaidade dum edifício antigo baixo em meio aos cumes por volta, estes sim lá nas alturas. Não importa, importa estarmos no sexto andar, 6 já sendo o último numa tentativa eliminar o mando desmando quem sabe dum imprevisível sétimo, o 7 sempre mentiroso na voz da rua. No sexto.
          Aí o universo dum mundinho de intriga e má intenção; tudo a girar em torno de um inexpressivo velho a desmanchar no apartamento usado e alugado; aliás todos são inquilinos.
          E o trio constrangido? Um dos pés, se não o mais sólido e/ou podre, um é dela, eletriquinha, jovem, abusivamente diria bela a mentir. Não sabe o pobre velho sem mentir, mente aqui, não sabe é mentir o nome. Omite. O segundo pé se se quiser, certo dia, uma noite, noite a rigor e mais rigorosamente esta madrugada, trouxe por seus caprichos um macho da espécie com nome! isto abuso na verdade pois apenas ouvindo Canário ou Canalha, orelhas gastas nada sabendo mais sobre um único varão na casa (que é uma quitinete pobre do prédio pobre a pobres alugar). Contudo esse forma com aquela um casal, ora ela impõe ora ele obedece e assim se supondo obediente às outras suas namoradas (hoje dizemos namorada e não amante). Que faz, que fazem, se fazem, é esconder intenções. O abelhudo vizinho da vizinha sequer lhe conhece de nome e isto não é conhecer; esse tal ouve as entregas de material às três ou quatro da madrugada e então ela manda o homem ir buscar lá embaixo, estão no alto da torre e na alta moral. Isso depõe contra a legalidade social visto as entregas comerciais de material ocorrerem das 8 às 18 horas. Porém o quê de quê para quê, ah quantos quês!
          O terceiro pé a vizinha do 62 (todos residem no 6º andar). Criatura atormentada pelo constrangimento, daí ser uma constrangida. Briga até com o velhinho fraquinho indiferentinho; inclusive com esse pobre diabo. Não com ela, a do Canário ou Canalha e a quem sua mulher uma vez nomeando "cara de pau", não devendo concordar com o registro civil dele, ninguém assim registrado. Concluindo pensamento, a terceira trabalha fora no horário comercial enquanto a do canalha é dama da noite, da madrugada se corrige aqui. A terceira do trio e em suposto conluio – é bela. Não é fera! Não. Trata-se de certa beldade digna desses concursos de miss qualquer coisa. Apenas sorri educação no elevador a baixar ao térreo, ganhar a rua indo ao escritório, nisso sem constrangimento. Aliás os funcionários colegas no emprego se dão bem com a moça. Todavia conta no dito trio a mulher bonita por se constranger no corredor, certamente na timidez.
          Queixou-se o trio, cada qual por sua vez aos administradores, de o vizinho deixar escancarada sua porta, a talvez envergonhá-las no passar frente a essa traseira social e daí perceber a miséria do idoso...
          Ora, não deveria ser ele o constrangido? Entretanto difícil mudar um título, título daqueles teimosos de estória tão quanto fraca quanto pobre.
São Paulo  fevereiro 2020