(conto)
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As
Constrangidas
Não
poderia dizer aqui os olhos constrangidos os ouvidos constrangidos; mesmo porque
dando o enunciado um choque sonante horroroso e nisto a gente desiste. Ou fala
de uma vez língua mas aqui se apimentaria a conversa. Fiquemos no constrangimento da gente no total da gente.
No caso deste caso gente do sexo frágil, hoje mais forte que o forte, não só na
língua não: no mundo. As constrangidas se unindo num trio contra um pobre
indefeso vizinho. Essas. Essinhas, se bem nesse mal uma de um corpaço feminil
de liquidar com a presença os machos ainda restantes da espécie Homo.
Enfim temos o inferno na torre, embora
'torre' um exagero na vaidade dum edifício antigo baixo em meio aos cumes por
volta, estes sim lá nas alturas. Não importa, importa estarmos no sexto andar,
6 já sendo o último numa tentativa eliminar o mando desmando quem sabe dum
imprevisível sétimo, o 7 sempre mentiroso na voz da rua. No sexto.
Aí o universo dum mundinho de intriga
e má intenção; tudo a girar em torno de um inexpressivo velho a desmanchar no
apartamento usado e alugado; aliás todos são inquilinos.
E o trio constrangido? Um dos pés, se
não o mais sólido e/ou podre, um é dela, eletriquinha, jovem, abusivamente
diria bela a mentir. Não sabe o pobre velho sem mentir, mente aqui, não sabe é
mentir o nome. Omite. O segundo pé se se quiser, certo dia, uma noite, noite a
rigor e mais rigorosamente esta madrugada, trouxe por seus caprichos um macho
da espécie com nome! isto abuso na verdade pois apenas ouvindo Canário ou
Canalha, orelhas gastas nada sabendo mais sobre um único varão na casa (que é
uma quitinete pobre do prédio pobre a pobres alugar). Contudo esse forma com
aquela um casal, ora ela impõe ora ele obedece e assim se supondo obediente às
outras suas namoradas (hoje dizemos namorada e não amante). Que faz, que fazem,
se fazem, é esconder intenções. O abelhudo vizinho da vizinha sequer lhe
conhece de nome e isto não é conhecer; esse tal ouve as entregas de material às
três ou quatro da madrugada e então ela manda o homem ir buscar lá embaixo,
estão no alto da torre e na alta moral. Isso depõe contra a legalidade social
visto as entregas comerciais de material ocorrerem das 8 às 18 horas. Porém o
quê de quê para quê, ah quantos quês!
O terceiro pé a vizinha do 62 (todos
residem no 6º andar). Criatura atormentada pelo constrangimento, daí ser uma
constrangida. Briga até com o velhinho fraquinho indiferentinho; inclusive com
esse pobre diabo. Não com ela, a do Canário ou Canalha e a quem sua mulher uma
vez nomeando "cara de pau", não devendo concordar com o registro
civil dele, ninguém assim registrado. Concluindo pensamento, a terceira trabalha
fora no horário comercial enquanto a do canalha é dama da noite, da madrugada
se corrige aqui. A terceira do trio e em suposto conluio – é bela. Não é fera!
Não. Trata-se de certa beldade digna desses concursos de miss qualquer coisa. Apenas sorri educação no elevador a baixar ao
térreo, ganhar a rua indo ao escritório, nisso sem constrangimento. Aliás os
funcionários colegas no emprego se dão bem com a moça. Todavia conta no dito
trio a mulher bonita por se constranger no corredor, certamente na timidez.
Queixou-se o trio, cada qual por sua
vez aos administradores, de o vizinho deixar escancarada sua porta, a talvez envergonhá-las
no passar frente a essa traseira social e daí perceber a miséria do idoso...
Ora, não deveria ser ele o
constrangido? Entretanto difícil mudar um título, título daqueles teimosos de
estória tão quanto fraca quanto pobre.
São Paulo fevereiro 2020