terça-feira, 20 de março de 2018


(conto) Tudo por dinheiro

Tinha um programa televisivo antigamente – diz ao conviva e de olho no filho, por sua vez de olho na conversa paterna – tinha um cujo tema sendo 'tudo por dinheiro' e... daí o menino corta o papo dos adultos "o que é dinheiro!" Sorriem os amigos, vão retomar a fala mas repete o garoto "que é dinheiro!" É não, meu filho, 'era' não existe mais faz séculos, e hoje...
 O pequeno não deixa por menos e ao sorriso do outro o genitor suspende o diálogo dos grandes, se agacha a chegar mais perto da criança e explica.
Olhe bem, dinheiro eram uns papeizinhos retangulares com uma série de carrancas de políticos históricos. Com números a dizer sobre a importância simbólica do tal dinheiro e outros dizeres que se liam... a maioria analfabeta não lia porém reconhecendo pelo cheiro e o grude; as notas mais miúdas fediam mais, grudavam mais, rasgavam mais fácil que as de grande valor, estas usadas pela classe rica...
Paiê, e o dinheiro!
Ora, isso o dinheiro – você nunca viu, nunca vi também, sei consultando textos... Sim tem algo que entenderá, não entenderá o porquê se fazia tanta guerra pelo poder e o pelo dinheiro no mundo. Entenderá o miúdo que qualquer menino usava na questão 'dinheiro': as moedas.
 Moedas! pai, que é moeda.
Bem. Eram rodinhas de metal, feitas de ouro de prata de níquel de cobre e finalmente pela desvalorização fabricadas com ferro; que faziam um barulhinho engraçado quando caídas no chão...
Mas que tamanho a moeda!
Espere, vou fazer uma comparação que nada tem com o cartão plástico que todos usam hoje para comprar vender pagar, função do antigo dinheiro. Eram as moedas redondinhas e chatas – qual rodinha de carrinho. Aliás daria agora pra fazer as rodas do veículo que lhe prometi outro dia; prometo também que se puder afanar quatro delas num museu, trá-las-ei e inventamos o melhor brinquedo que já viu!
(O amigo sorri, ouvindo, e o filho do amigo,sonhando:)
Como encaixaremos as rodas, isto é as quatro rodas?
Fácil, com uma furadeira furaremos no centro de cada uma, então enfiamos um eixinho, vai por aí...
Foram por aí. Daí o pai, cansado:
Filhote, vai agora lá brincar com seu desafetozinho, que tenho aqui algo a tratar com meu amigo.
O pequeno chiou rosnou os conflitozinhos com o outrinho. O pai:
Deixa disso, ele é seu priminho, filho adotivo do meu irmão caçula seu tio com o companheiro dele; não é pra brigar. Caso não possa evitar choques, espante o primo com o bicho-papão que é aquele chifrudo da outra galáxia que vem meter medo na gente.
São Paulo   março 2018

         



             

quinta-feira, 15 de março de 2018


(conto) Comadre Pimenta
Minha mulher é uma capeta. Boa pra danar, boa mesmo no sentido de bom coração, devo muito a ela. Não obstante vem bem a calhar o apelido que carregou na casa da gente dela, lá tratada "Pimentinha" porque sabe com imensa sabedoria ou por falta de sabedoria pôr cisco na alheia engrenagem – onde você vê branco encontra pedras negras onde você vê preto dá uma de boazinha e conclui a sentenciar "não é tanto assim..." Resumindo, se não contradiz direto alguém outro, ela me contradiz a três por dois. Contudo a gente vai remando contra a corrente da vida. Aliás até neste pormenor, pormenor inclusive de grande envergadura, até nele, convenhamos, encontro sua discordância: digo vida, diz e contraria com "existência" e ainda completa "esse aí carrego como pedra no sapato nesta existência e olhe, comadre..." daí me picha me puxa orelhas – apesar o casal vai se aguentando.
Agora, ora, embora nossos dias aqui numa torre de não sei quantos andares, moramos no sexto, mesmo assim acha o que falar criticar mudar na sua visão do centro da cidade grande; tal qual era em residindo no interior donde viemos e lá dizia a todas vizinhas as verdades dela e... bem... fofocava um pouco, bastante, com as outras da rua. Eu seu pomo de discórdia, creio; não apenas este seu companheiro mas quem ao seu olhar fazendo as coisas tidas por erradas.
Agora, ora, embora nossos dias aqui, aqui mesmo me arranja encrencas. Não é que além do costumeiro dizer "essa veia aí do sétimo anda dia inteiro de salto alto e derruba a vassoura na cabeça da gente aqui embaixo lá em cima!" Além me descobre que uma 'sirigaita' doutro prédio, veja bem dum outro edifício e localizado na outra rua; essa tal badernou a noite inteirinha altão de estourar os miolos, apenas pra gente não dormir! ouvindo um disco berrante do Beto Guedes, é Guedes? oh João. Não, falei não, não mulher é Batista, sei lá um cantor nordestino e eu nem gosto muito, "nada" reforçou ela. Então...
Aí falou falou falou e me fez ir atrás da outra, reclamar. Eu disse, verdade que eram 21h. e 55min., faltando 5 minutinhos para ultrapassar a lei do silêncio, que antigamente marcava a partir das 22 horas. Verdade não, mentira; 22:05' olhei bem o despertador em cima da geladeira e ainda gritava a louca na farra de ontem. Hoje eu indo totoc-totoc em minha bengala como cicerone a sondar o porquê da desgraça que levou a companheira não dormir e por tabela eu não dormindo por não dormir ela (ela: ocê é surdo, graças a Deus; enquanto que eu sou obrigada escutar o barulhão e não pego de jeito nenhum no sono...) Uma capeta! Vai lá, diz-me imperando, vai lá xingar aquela vagabunda...
A vagabunda. Bastou-me afirmar que poderia ser apenas um aniversário uma festa inocente ou manifestação social dentro dos conformes. Qual, capaz! é nada, tudo uma p. (aqui sujou a mãe da outra e dos outros naquele carnaval eterno). Qual o quê. Lá vou eu, no início resmungando depois não aceitando a coisa mas indo assim mesmo passar carão frente aos outros. Ah e conversando comigo mesmo no trajeto e a caminhar nas ruas já ensolaradas. "Não, meu bem, eu me disse, nada podemos na questão"; iria falar com o síndico com os vizinhos de nosso prédio! não, nem ocorrendo em nosso edifício, noutro apartamento lá longe noutra rua o dito barulho infernal ontem, hoje dormem visto ninguém ser de ferro para suportar noite toda pulando gritando bebendo decerto.
Contorno a rua, ainda a me falar: ninguém de longe tem que reclamar barulho dos outros ou então precisaria calar a voz duma metrópole inteira; ela, a minha mulher, ela nem quis ouvir-me: vai lá João, fui vou indo me arrastando pisando na rua em tantos excrementos de cachorro – aqui só tem madames "e homens sem-vergonha" garantiu-me um dia: só se vive levando na cordinha bicho a sujar na rua. Bom, bem, piso ando chego paro na rua de lá. Lá tem é muita mulher bonita! (ah se ela soubesse...) Olho. Aperto a campainha, o zelador esfrega olhos, me explico como posso e o sujeito me permite falar com outros moradores ali – acabo sabendo por alto que a jovem do Beto passara no vestibular e comemorara, e mui  lógico, beberam os amigos participantes um pouco... "pouco!" ela diria mexendo a cabeça pra lá pra cá. Deve, devia minha capeta ter razão nisso: a porta escancarada; e num descuido da sonolência do zelador entro, atrevido, curioso... tem um sujeito com outro sujeito enrolado no chão e uma fêmea jovem bela da espécie na cama de sua quitinete, todinha e lindamente pelada (ai se ela soubesse, ai se ela visse... não furaria meus olhos! mas que horror de sina a minha ficar cego no fim da vida:) "existência", seu burro, vida é o todo abarcando as existências de uma pessoa... eu me corrijo concordo, "tá bão existência", discordo não poder daí em diante apreciar aquela gostosura dormindo, a curtir a bagunça e os excessos de ontem à noite além do silêncio impossível após as 22 horas.
Fecho os olhos pra não ver coisas feias belas. Vou de ré, de fasto, trombo na tromba do porteiro, acordo de vez o funcionário; agradeço o que agradecer, a gentileza por exemplo, me despeço.
Totoc-totoc de volta.
Não querida. Sim Querida, houve de fato uma festa da braba lá. Lá não tem mais ninguém, só o zelador o zelador que falou. A quem reclamei sua reclamação por não dormir. E garantiu (aqui menti minha verdade à verdade da mentira dela:) o prédio lá encontra-se vazio e estão para alugar ou vender os apartamentos. O funcionário quis saber ainda "o senhor não quer alugar? tem uma quitinete vaga no 6º andar, o apartamento é número 63", igual o número deste nosso.
Não creu. Mostrou gostoso um riso manhoso. Uma capeta (pensei).
São Paulo   março  2018

         



             

sexta-feira, 2 de março de 2018

(conto) Um Roubo Perfeito

Andava despreocupado, talvez em não perder o costume na ocupação do nada fazer. Foi quando deparou-se com um prato cheio.
Ao ladrão contumaz, larápio nas horas vagas, afanador nas oportunidades que surgem – era mesmo um prato cheio. Descobriu que tudo estava por descobrir naquela terra maravilhosa, numa cidade virgem como a que presenciava! Certamente, iria comprovar, nenhum dos seguidores de Latronis teria feito a praça, ninguém se apossara da propriedade alheia na urbe abandonada. Estava para confirmar.
De fato, tudo era deserto, as casas os casarões os palácios andavam desabitados; havia casebres é certo, mas a um ladrão profissional isso não conta, porque em lar de pobre um artista só leva susto e raiva. Optou na sua longa vida pelos ricos e admirava os ricaços. Na verdade, lembrava-se, nunca tivera lá muita sorte nem coragem demais nas mansões. Agora entretanto mais fácil andava o serviço, que tomar doce da mão de guri.
Momentaneamente achou que era muita oferta para pouco artista ‘muita banana por um tostão’ rezava a máxima do seu tempo. Mas a tentação venceu.
Sim havia o abandono, a se desconfiar de uma possível cilada por parte do destino! todavia notava movimento: alguns passantes, trajados à moda de séculos anteriores, uma ou outra carroça, burricos transportando lenha, escravos levando água; o falar mesmo se parecia o de seu país, mas era muita oferta, com certeza. E os automóveis e as outras máquinas? sequer ouvia o soprar ensurdecedor dos jatos. Uma coisa ficando certa – estava numa cidade atrasada e conservando maneiras coloniais.
Porém isso tudo não importando, diante do fato de estar o lugar escancarado para sua benfazeja arte de furtar.
Olhou em volta, por mero costume, e nada viu, não percebeu de soslaio ninguém por perto a policiá-lo. Entrou. Preferiu escalar o muro aos fundos, por via das dúvidas. Assim mesmo ficou temeroso, como ensinava a experiência. Havia cães no quintal vizinho, ou antes, na quadra vizinha, chácara imponente, contudo sequer acordaram para ele. Suspirou aliviado, penetrou vitorioso ao pálácio escolhido; tomou logicamente cuidado em não esbarrar nos objetos indevidos. Esteve ao ponto de quase soprar o pó calculado em mais de ano ali dormindo. Uma que outra teia no salão. A prataria descansava aqui acolá, cristais intactos brilhavam em móveis pesados e belos, tapetes e quadros; era o quadro geral daquela riqueza mal usada, dizia a si próprio mal usada, para justificar seus atos e acalmar a consciência cobradeira... Não quis pensar entretanto; preferiu gastar o tempo em equacionar o problema de como levar tudo. Estava claro que duma vez não seria possível. Muitas viagens teria pela frente. Havendo também a questão de como desfazer-se do roubo, a quem vender e como depois gastar o dinheiro. Eram senões, porque já conhecia os costumeiros receptadores e acharia fácil como gastar, pois sempre solucionara bem o problema; era bom profissional. Ah, tinha igualmente o drama da possível violência, todavia ela não contava em sua arte, nem havia necessidade em usá-la: ninguém se encontrava naquela estranha e esquecida urbe a enfrentá-lo. Fez daí nova opção.
Resolveu – dada a facilidade encontrada – visitar outros casarões. Constatou estarem todos, sem o quase, abandonados. Ocorreu-lhe pudesse ter havido uma grande peste e morto os habitantes (daí tremeu diante o fato de igual poder ele ser contaminado) mas sossegou ouvindo passantes pobres nas ruas estreitas; além do mais, onde estariam os cadáveres? não era, positivamente, ataque de peste; aventou hipótese em destruição por ácido, culpando complexos industriais químicos, porém as conclusões foram as mesmas. Ficou descansado e deixou a sondagem das mansões, para recolher nelas então seus objetos. Como havia demais, fez inteligentemente uma seleção. Preferiu bens de ouro. Noutra viagem levaria as pratas. Noutras o restante. Era muito claro, não iria deixar toda riqueza aos fantasmas.
Esse pensamento o assustou um bocado. Sempre fôra supersticioso e não gostava de assombrações. Recolheu rápido e assustado o que pôde, saiu muito mansinho e trêmulo, atravessou espevitado a parede do casarão, nem mesmo procurou a porta demorada e ringideira, ainda pensava pudesse ser o lugar assombrado. Era.

 Ribeirão Preto   dezembro 1984