(conto) A Grita
Ouviu
mal, não disse Chiquinha. Não: Xicrinha, Xicarazinha, pronto. Eis aí a voz, a
voz dá razão a quem a tenha e
aliás pra que existe acento... ou ficaria a voz da razão. A tagarelice dos objetos inanimados? ora ora.
Uma
grita geral, ninguém no lugar se entendendo, dentro do comuníssimo dizer: na
casa em que falta pão todo mundo grita, ninguém tem razão. Exceto a desaforada
xícara.
Não
é uma loucura?
Ela pequena miúda um tiquinho de
gente... não, de objeto, objetinho inanimado, de fala alta. Afirma-se haver
gritado e ainda em voz de falsete, o falsete quando a gente pensa homem vê
mulher ou imagina mulher sendo macho pra valer. Em todo caso crítica, critica
tudo. Nada lhe serve.
Deixaram batom na minha borda, próximo
do trinco. Ninguém tem também, hein, cuidado, delicadeza comigo. Daí por diante
elinha mostra a traseira do passado. Prossegue.
Aquele frescalhãozinho do pires, que
devera estar aos meus pés. Onde? sumiu.
A tigela de louça, louca, quebrou-se e
se partiu em mil pedaços; se fosse sustentada por um pires como eu...
Ora bem, ninguém igualmente tendo
estima aos metais, ferros e alumínios da casa, casa esta de pau, pau podre. Vivem,
se vivem, amassados e exibindo desserventia, abandonados; servindo apenas aos
celerados bater fazer comício contra o governo, aquele ladrão! Batem, batendo
um contra o outro e aos gritos, nuns xingos de envergonhar meus brios, meu moral,
ih quanto eme; deixa pra lá.
Estão aí os talheres, como a colher
que é mulher do garfo, a faca, uma de
serrote, de serrinha pra cortar quem se interpuser... Uns brutos, não servem
pra comer (comer! credo, cortariam lá por dentro dos mais brutos:) quis mostrar
servir para ajudar engolir o alimento. Pois não tem a colher de pau!? Uma
trouxa.
Nas louças, loucas falei por baixo do
pano – as louças umas tontas tanto exibir seu brilho fosco de má lavagem; engorduradas
engordadas trincadas por vezes; essas não recomendo; sobretudo a travéssa travêssa; tapeia esse trapo todo mundo; todos se põem contra
ela. E mais, sem beleza alguma a feia. Nem forma definida tendo, seria oval
retangular enfim desmanchável trincável quebrável. Vilona, não: vilã, pronto.
Outro horror é a assadeira. De
alumínio ou latão, lata de flandres desamassada ao bolo que se não faz na casa
pobre; e faria dona Maria na sua gritaria onde! não tem forno, tem chapa de
ferro a queimar a mão dos descuidados – o fogão é à lenha com fumaça de arder
os olhos da gente...
Ah não tenho olhos só boca de gritar a
grita geral e oportuna, importuna aos críticos. Nem sou gente; gente? que
vantagem maria leva?
Não mais existe na casa de caboclos
lavradores pobretões e ignorantes... ah certo dia um da casa pronunciou, pronunciou
que ouvi: "inguinoranti" isso a outro da mesma iguala. Mas não existe
geladeira. Sem energia elétrica, a noite é tétrica aqui, próprio às
assombrações; um tremelicar de luz de lamparina com fedor de querosene. Pois é,
teria então isto geladeira, Dona Maria põe para não estragar ovos e limões enterrando
na terra, na areia, na areia fresca porque...
Ora ora, teria como nas casas urbanas
um refrigerador tão só para colar figuras ou sustentar o papagaio de louça e piormente
a servir de base ao despertador! que absurdo. Seria mais viável a geringonça
despertar-a-dor e não marcar atrasado horas num tique-taque irritante.
Em compensação, diz e grita com
volumosa voz a Xícara (embora se veja poética...) a Xícara linguaruda de olhar
voltado ao filtro, mais talha de refrescar água. Olha o pobre na casa pobre da
pobre roça hoje falecida assassinada pelos burgueses. Ele daí se esfria pela
quente língua viperina. Ela sorri. Volta-se aos outros trens de cozinha.
O bule de café, o bobo e desgracioso
pano de coador, sujos bule e coador... pratos de gosto discutível ao caírem se
espatifarem a fazer Dona Maria usar a mão e as nádegas filhas sofrerem chorarem...
ah a panela.
É uma porca. Suja escura grudenta.
Ela? ela e elas outras a serviço e uso.
O pano de prato, encardido. Feito de
saco vazio de farinha; bordado pelos dedos grosseiros da velha Maria. E os demais
panos de uso abuso no lar 'doce' lar. Guardanapos toalhas lençóis travesseiros
fronhas cobertores; uh que feiura e desengonço nos... grita a Xicrinha.
Nisso despencou ao chão a concha
indignada ou assustada apavorada. Por isso. Não. Por tudo isso e a loucura da
gritona então rouca a chorar lágrimas de crocodilo, no relembrar os tempos passados
e seus sentimentos com saudades, sua época dos desejos, naqueles tempos de
juventude, então a andar se pintando vaidosa.
Foi quando um pássaro preso na gaiola
se pôs a cantar. Xicrinha: "cantaria melhor se estivesse do lado de
fora".
São Paulo maio
2020