domingo, 15 de dezembro de 2019

Estorieta 'Linda'


Estorieta 'Linda'
Quando no seu quando, quer dizer naquele mundo; quando, o sujeito era sujeito de muita vaidade na escolha do seu melhor. Por exemplo, se achava bonito. Não. Não isso, mais que isso isto: belo, lindo mesmo. Deixava as meninas no sentimento de ser lindo de morrer, expressão da época. Daí amadureceu 'envelhotou' e enfermou. O hospital era lindo de morrer, na sua concepção; as enfermeiras e aquela médica... aí não pisou na bola – expressão da época – porém morreu. Não. Não isso, a morte só engana os trouxas e isto expressão da época. Vivo. Vê-se no velório, uma festa linda de morrer. Festa, embora funérea. Daí (nessa época se repetindo muito nas conversas "aí", então muda para:) daí os outros, sujeitos igualmente sujeitos, levam-no em marcha cadenciada, fúnebre; levam-no ao buraco da morada eterna, morada eterna bem uma expressão da época. Necrológio num discurso enaltecedor, padre, povo e retalho do povo no entorno. Ah, o cemitério era lindo! Lindo de morrer. Expressão dessa (daquela) e desta épocas.
São Paulo   dezembro  2019


quarta-feira, 18 de setembro de 2019

Consórcio da Porta


(conto)Consórcio da Porta
Pobrinha da Porta, a Porta fosse dos tempos dos velhos caboclos e estivesse em perspectiva negativa de casar e a temer a apavorante situação de virar tia; então a sociedade pobre e/ou rica não tendo com ela e suas iguais, diferentes, não tendo contemplação. Não. Não mesmo pois a Porta no aguardo de colocação estando no solo ali aqui perto no vizinho apartamento desocupado esburacado consagrado embora a mudar mudando o visual: enquanto na parede o buraco aberto exposto à espera da Porta, a dita e feita pronta ótima bela encostada alizinho aguardando os profissionais chegar trabalhar conversar também entre si, o radinho berrador a irritar a conversa deles num contar da família no fim de semana passada, esta segunda de preguiça não deixa mentir. Sim. Não, não pra titia, antes que isso isto: olha, será, decerto a pensar ela, será que meu noivo vai me 'dar os canos'!? e aqui a expressão mundana banal e de rua; de fato, olha agoniada que o prometido namorado noivo marido chegue.
Porém Assentamento, como todo macho perfeito inteiro sábio, como todo macho comum enfim, Assentamento não tem esse questionamento. Fica lerdeando em sua casa, casa da mamãe dona Madeira, a mãe a lhe pegar no pé: a roupa o asseio a hora, ai a hora... "filhinho vai perder a hora!" e a pobre Porta a lhe aguardar no buraco do templo e... Assentamento desliga a genitora, adverte o pente em seu labor se vai bem aquele caminhinho no separo da cabeleira, umas mechas teimosas a escorrer roçar os olhos e daí tome gelatinas e fixadores – o espelho! ah o espelho não suporta mais ver aquele macacoide se embelezando vaidoso; certo, por uma causa nobre mas...
Por fim Assentamento encontra-se na via pública dá com a mão o táxi para anda corre (quase o motor tem enfarte) chega.
O pároco – um trabalhador de conhecimento no métier; os outros operários ali prontos também – o responsável comanda a cerimônia os trâmites, ou seja a colocação concretada do moloide à parede, ela, a parede? a parede com ciuminho da Porta, ele, não é ela? que ela coisa alguma, ele Assentamento já não teme não treme não mais tímido tíbio no buraco aberto na parede; assim ele aquieta e aguarda por ela. Ela? Ela sim, a Porta. A Porta é encaixada posta no vão de Assentamento. Agora a Porta suspira um "até que enfim" exprobando 'titiagens' e 'solterices' mais.
E o fim, não tem fim afinal!?
Tem. Claro, tem. A Carochinha completa em adendo, e foram felizes para todo o sempre.
São Paulo   setembro  2019

         



             

sábado, 31 de agosto de 2019


(pensamento). A questão conjugal se resume na garganta. Porque a vida a dois só se torna possível engolindo sapos mutuamente.  Isso explica a razão da pouca durabilidade do casamento entre  jovens – que têm a goela ainda estreita. E dos velhos que a tem machucada ou defeituosa.  agosto 2001


sexta-feira, 30 de agosto de 2019

Exagerinho em Dona Tuntum


(conto) Exagerinho em Dona Tuntum

Antes de mais nada tudo o que se pode adiantar nisso é que minha vizinha elinha do apartamento aí de cima, fico por baixo, eu no título havendo cortado dela um 'tum' de sua brilhante coleção de tuntuns – essa corriqueiramente faz com o saltinho quiçá com todo solado do sapato dia inteiro mil tuns, tum no vai tum no vem... Bem, nem sei o quanto me anda andando ali em cima de mim aqui nesta quitinete 663, a dela 773 no sétimo andar, a se deslocar pra lá pra cá me irritando dia todo. Não. Isto já exagero meu, o caso dela é andar no seu andar corrido depressa num voar quase, tem gente não sabe se mover devagar lerda pacienciosamente e então machuca as orelhas da gente. Ora, não barulha apenas de salto: tem outros desvios como o deixar cair a vassoura, o cabo dela, em trófte no chão; e os trens de cozinha batidos derrubados amassados decerto; decerto pois que nunca vi. Pior, ou melhor, nunca a vi. Somente ouço. Um dia...
Não um dia, uma noite, de madrugada, rolava certa incerta bola, escutava isso inclusive o tiúf da borracha de plástico a se conflitar com o solo! Daí me perguntei, a vizinha naquela idade ainda (passada na idade) ainda a brincar com bola; e em plena madrugada a me importunar! Claro, devendo ser uma criança como em visita brincando, não poderia uma sobrinha? sei que a mulher é solitária.
 Não consegui entender, só ouvindo seus saltos em tuns na minha cabeça acima no pavimento de cima. Passou. Não passando minha curiosidade.
Nesta noite, na madrugada, acordei meu sonho com o pesadelo dela a andar pra lá pra cá na laje no seu soalho certamente de piso frio cerâmico semelhando o de meu apartamento. E isso me explicou um pouco essa nunca vista vizinha do andar de cima nos seus tuntuns. É que desandou a conversar entre andanças numa fala alta com outrem embora baixinho entre si (ela e outra, irmã em visita com a filhota!? não soube). Isso quebrando o silêncio da madrugada e virando pesadelo, meu pesadelo; visto não pararem não paravam o dialogar...
Bem, tem também alguém nisso longe agora, lá em cima nesta torre de cimento na megalópole doida.
Supus que a mana houvera loguinho tornado à sua casa – anteriormente a imobiliária proposto à mesma ceder um apartamento no vigésimo quarto andar de número 2024; a postulante encrespara pelo número feio; então cederam-lhe o 223 lá embaixão. Daí...
Daí despencaram a continuar o diálogo em família, uma lá em cima outra debaixo no segundo andar; a debaixo com a de cima por cima do meu dormir; e... não importa: bateram aquele papo às minhas custas, em nome do meu pesadelo. Porque quem a reencetar o sonho o sono o descanso após!? Além de ouvir arrastar com certeza sua cama a vizinha (vizinha minha queridinha) e como então eu dormir, no pesadelo de não conciliar mais o sono.
Ah sim, para uma coisa serviu tal encontro neste meu desencontro. Fiquei ciente que o dono da bola a filhota da mana, ela a trazer naquela vez aí em cima a criança para brincar rolar gozar a dita bola, enquanto mamãe e titia a pesadelar o vizinho debaixo. Por azar madrugada e as orelhas sendo as minhas.
São Paulo   agosto  2019


sexta-feira, 12 de julho de 2019

Pacto sem Sangue


(conto) Pacto sem Sangue

A combinação entre um contratante-beneficiário e o executante possivelmente beneficiário era a dos grandes acordos sem se expor ninguém e sem sequer derrame duma gota de sangue. A gota é o pretexto da violência; ou não tida violência, aparência anuência consistência portanto sem consequência. Mas ele, miudinho assim porém persistente, teimoso mesmo; ele cometera falha, falhazinha dessa que olhos comuns nem veem, que foi o perder num descuido a arma...
Voltou a fim de procurá-la.
Antes disso, profissional com direito a um amadorismo próprio do seu amadorismo; antes e no objetivo principal eliminara o agressor, agressor pois os ofendidos costumam pôr pecados nos outros. Então usara de competência embora tremesse no ato, usara bem a ferramenta que o contratante-beneficiário lhe dera, morrera a vítima sem acordar na escuridão. Anteriormente calara o cachorro e na passagem pessoas no caminho – não podendo evitar o sangue num ferir o trato... Saiu correu fugiu sumiu.
Lá pelas tantas na bruma da lua nova velha como o mundo e parecendo nesse momento mais o escuro; aí notou a falta do revólver, então com apenas uma bala a serviço inesperado. Nisso entra o comprometimento e até pistas. Não pensou duas vezes tornou à cena do crime (um que seria sem sangue; não um pacto cerimonioso, enfim ação corriqueira). Entretanto nas imediações não achou mais sua ferramenta de trabalho, também o fato de haver uma só bala não refrescando pistas nem provas. Tempos depois já andava a desistir achá-la quando...
Tinha em a noite escura e nas horas avançadas no caminho um poço abandonado; sem bem mal escondido – afundou não se molhando por seca a cisterna; no entanto ficara dependurado nas garras oportunas inoportunas do lixo do tempo e do desuso. Agora era desvancilhar-se daquilo, galgar o horizonte antes do sol que apareceria; e ainda em tempo à fuga e ajustes com o tal contratante-beneficiário. Contudo nada dera certo, o certo ficando no meio do seu enfraquecimento mas dando-lhe o presente da conservação da vida. Sim, vida o quanto entendendo um homem comum, ele comum.
Esforçou-se o quanto pôde pôde até muito e pôde inclusive enxergar os raios solares, já perdia as forças e as esperanças...
Foram horas matinais, que depois viraram vespertinas e a se pensar eternas – ora o que não imagina quem enfraquecido e preso nos liames duma abertura nova decerto mui velha ali a segurá-lo. Usou de mil possibilidades que a natureza nos oferece ao desatamento na mesma medida em que nos cassa as forças. Era assim estar.
Todavia vivo.
No entanto preso.
Não obstante, as horas a cobrar.
Já se supunha livrando-se daquelas garras quando eles apareceram... Primeio um depois o segundo os outros todos vestidos de luto e com muita fome. Gritou enxotando anus, chegou imaginar ter a arma perdida gastar a última bala e assim espantar de vez as aves sinistras;  estas voltaram mais fortes mais numerosas e com mais gana: um anu lhe bicou os olhos de embaraçadamante vê-lo (e claro se defender) após foram outros todo um bando a penicá-lo, a par pulando gozado, só isso o engraçado. Não obstante a luta travada com aqueles vorazes executores da verdade, mentira que venceram os atacantes, pois vivo. Vivo!
Se foram, saciados com tanta carne dum só homem.
Até ao ponto de chegar num outro dia a seus pés (em verdade sua cabeça e mais precisamente a caveira seca ao sol) em tarde calorosa – até ao ponto de chegar o polícia.
Este empurrou da borda do poço com a ponta do coturno o crânio esturricado. E gritou pelo oficial.
"Capitão, tem um negócio estranho aqui!"
Vivo? quis o outro saber.
O interessado mesmo respondeu estou Vivo sim! E se preocupou ainda, não poderiam encontrar a arma e a bala e a prova! Vivo sim. Embora já não tendo convicção.
São Paulo   julho  2019

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sexta-feira, 5 de julho de 2019


(conto) Adão versus Eva (ou vice-versa)

Sentados a exibir o traseiro num cocuruto ou elevação natural no solo qual improviso de cadeira, para descanso e a pôr sua conversa amena ou confronto no confronto exacerbado; sentados ao entardecer têm eles o abundar, Ela a bunda formosa portentosa estrondosa inclusive; Ele a sua estreita murcha fina encolhida. Bocas soltas como convém aos íntimos. Você, diz ele, é irrefletida. Veja naquela questão da casa: nunca satisfeita, e ofereço a loca a toca a joça a fenda braba da tapera na favela, longe disso opta mansão jardins mastins eletrificação segurança! (Têm os macacos inabordáveis ali). Não tenho dinheiro, que será dinheiro? não sei o ainda não criado. Reage Ela, também Você, oh teimoso, só pensa carro caro coro corro a pensar; não lhe servem os pés, esses pés enormes de andar e sustentar o corpaço a musculatura avantajada, não quer os veículos de que dispõem como o burrico cansado mas útil e amigo. Pior. Pior afiança Ela a voltar-se indignada ao esposo... Nisso vem um aparato em disparate: os macacos ali no inferno não tão longe porém gritante. "Que Bunda!" guincham e repetem repetem repetem soando parece que apenas o refrão "e unda e unda e unda" a sumir no eco da floresta quase sem vegetal onde se abrigam se agarram com dentes mãos pés rabos, dependurados.
Que diacho falam os diabos "essa cambada elegebetista"! indaga Ele, Ela assopra "sei lá..." Bem, mal corrige o companheiro, já a reatar discussão nunca amiga dos amigos – e o problema 'daquela uma', lembra Eva ali fuzilando Adão... ora quem, a Bugia pô! Desconversa Ele. Ela pensa dele "é, disparado, um descarado"e aí retoma nervosa ou indignada ou embaraçada, falo sobre aquela atrevida sirigaita... Ah – Ele sorri enigmático – ora ora, a Secretária executa ordens no serviço no seu trabalho. Trabalho!!! que é trabalho pergunta Ela. Ele, desconheço, não foi inventado ainda, suponho que seja lá no Inferno nesse inferno da bagunça macaca (e eles no refrão "que unda" que unda) naquele ali, não aqui no Paraíso.
Ela: tá mal explicado.
Ele, ela imagina que a gente só pensa em mulher.
Ela, ele acredita que só penso casa.
Ele se mete na imaginação dela. Casa mas sem criança é 'construção seca' nunca um lar!
Ela, Ela supõem ele somente pensar em carro; pior, o melhor carro do ano; e pior ainda: pensa mulher.
Se olham desconfiados.
Não Ele não Ela, Eles lá diante gozam "que Bunda!" e repetem e repetem num quá-quá-quá interminável.
Estão os macacos assim num blá-blá-blá inconsequente e desafinado, no despropósito político da politicalha pra satisfazer a imprensa, quando...
Ela se levanta se esperneia pula engraçado.
Ele, aqui não tem barata! sua boba.
Ela, muda estática horrorizada mostra as formigas mil formigas onde antes sentados a brigar politicamente correto e... Ele (não os Macacos num quá-quá-quá e no refrão "que Bunda!")
Ele se arregala se alevanta se bate e pula em conjunto – porque família que pula unida permanece unida.
Enquanto os macacos repetem e repetem a gozação.
São Paulo   julho  2019


segunda-feira, 1 de julho de 2019


 (conto) -Morrer na Praia

O sujeito, jeito apenas de falar, um sujeitinho miúdo cansado dos seus dias e mais ainda nos últimos dias, quase em inanição em fome braba, vivia o seu desespero na orla litorânea da ilha quem sabe a maior do mundo menor nas parcas oferendas. Cansado inclusive do próprio cansaço. Debalde olhando areias a sumir calor vaporizante a sumir árvores sim assim mesmo a sumir. Todas elas de comum acordo contra ele elas secas isoladas entre si e pouquíssimas às muitíssimas necessidades de sombras e mais negadoras ainda de frutos. Até que no até que enfim encontrou um coqueiro.
O coqueiro andava arcado ao vento e ao seu próprio peso: os cocos numa abundância mas lá no alto! olhava o alto no seu baixo ser, que o rebaixava ainda mais na fome, os cachos as pencas os frutos sazonados ofertantes qual seios de mulher bela madura sadia sábia no seus dotes. No entanto inalcançáveis inalcançados...
Parou no seu andar trôpego, olhou olhou em volta em cima em baixo e se viu; não viu o como. Entregou-se na extenuação a pensar.
Aos poucos reconheceu as armas possíveis por volta, já que a mais valorosa não tinha valor algum pois não sabia não podia subir galgar o tronco; e no ápice do tronco lá o fruto!
Percebeu um recurso e ajuntou as armas disponíveis: objetos poucos ao deus-dará. Iniciou a batalha contra a fome que o comia e mais contra a sede que o limitava. A sede, ah se pudesse beber toda água salgada ali a roncar na praia. Examinou melhor agora aquela altura de coqueiro. Assim iniciou a guerra contra o contra sua vida.
Tomou seixos, arremessou pedras grandes e menores conforme suas forças. Atirou-os para cima. Errou para baixo. Cansou, extenuou-se mais pudesse no seu estado haver ‘mais’. Esgotou a reserva de munição: os cocos lá no alto intactos com seu líquido precioso e sua castanha de matar a fome e dar o reviver. Não acertava. A rigor não tendo sequer forças para atirar mais suas balas e isso em razão da perda da energia com o tempo e a fome, estes inimigos palpáveis...
Por fim encontrou um crânio já despojado da gosma do pensamento, de músculos, de nervos e de sangue, já seco no sol ardente. Pediu constrangido e medroso perdão ao proprietário e assim enviou a cabeça aos cachos de coco, prenhes qual os seios na única mulher encontrada naquele deserto de calor e horror. Fez um esforço na força sobrante aprumou impulsionou expulsou o objeto humano rumo aos frutos.
Contudo mais uma vez falhando, recebendo de volta não cocos porém fragmentos de ossos quase podres e dentes cariados, que lhe saraivaram o ser lá embaixo na areia quente... Chorou o desastre e o fracasso, lanceou olhares no perto e no distante e nada mais havendo. Cedeu.
Caiu fraco inerte morto.
Sequer esperou que ondas gigantescas fizessem o serviço de graça e sem dispêndio de horas cansaços e fraquezas. Então foi envolvido no todo que enterra e ao mesmo tempo esparge morte e vida a mancheias.
Marília   fevereiro  2010


quarta-feira, 26 de junho de 2019


(conto) Ossos do Ofício

Aquela mulher atraente bela charmosa, um anjo, olhou sério ao companheiro – isso um indício de contrariedade segundo o histórico de família – e assim logo tentou o homem se compor ao figurino dela, na linguagem de um pingo ser letra. Mexeu-se, sem que estivesse como os olhares de sua mulher indicavam ele estando a flertar com uma beldade noutro banco dentro do ônibus circular. Enfim aquiesceu às ordens da ciumenta ainda bonita esposa. Ela não se fez de rogada nessa vitória, tendo por isso relembrado um abuso quando nos primeiros tempos, sem o filho ali debaixo do casal agora; então o macho vivia sonhando outra... Mas a crise passara, as brigas conjugais não. Ela examinou o ambiente com sua loca escura pra ver se não via a pretensa rival, olhou para baixo o comportamento do filhote a brincar com amigo imaginário e a conversar animadamente com o outro; seu esqueletinho arcado ali no chão do veículo perfazia curva interessante porém a mãe desgastada pela lembrança de antigas rusgas com o pai da criança sequer se prendeu ao menino; e carregou de propósito “amor, você de tanto olhar a sirigaita perderá outra vez a bola dos olhos...” Sorriu sem graça o contraventor. Ela emendou daí problemas sérios do dia a dia, os mais palpáveis como as contas as compras ou necessidades que o consumismo exige que se adquira. O esqueletinho, criança sempre parece não prestar atenção porém: relacionou elinho também os brinquedos necessários segundo a necessidade, sem esquecer os caríssimos eletrônicos os novos e sofisticados celulares coloridos e, claro, mais caros. Papai fez que sim a dizer não ou pelo menos num aceitar provisoriamente para não provocar escândalo no coletivo lotado. Ela sorriu ou para ele ou dele e não esquecendo as compras dela; aí despencou mostrar o que estragado no seu túmulo – não seriam tumbas mas túmulo como grafado pois jazigo coletivo e familiar, daqueles de gavetas à espera – mostrando assim as necessidades novas ditadas pela tevê e pela internet com belíssimas ofertas e razoáveis preços conforme pensamento seu da carteira do consorte. E acresceu nisso pagamentos aluguéis impostos dívidas dúvidas... De maneira que o esqueleto macho quase se desfez em mil pedaços, a custo juntados pela própria imaginação. Iam por essas razões começar, fosse no lar ou túmulo coletivo, iam dar início a um lance da tragédia do bate-boca conjugal com menino no meio forçando fosse ouvido lá em cima a fala dos seus dentes, os dentinhos inteiros e da primeira dentição enquanto os da mãe já implantados e os do genitor meras dentaduras postiças, inclusive estas com uns filetes de ouro atraindo ladrões de cemitério municipal. Não. Não prosseguiram, a ficar no início e projeto de batalha campal quiçá guerra fosse na casa e não no ônibus, a dar vexame aos circunstantes. Nessa altura o chofer já olhava com rabo de olhos, quer dizer de buracos dos olhos para o lado do casal e aí lhe aparecendo o nariz, o qual terá sido torto grande comprido, faltando agora por cima dos dentes cariados no lugar onde decerto tivera bigodes apenas a parte óssea das fossas nasais já sem cartilagem que a terra comera certamente obedecendo a lei da natureza. Então o casal se constrangeu, se compôs se comportou normal (o que seria normal!) até o esqueletinho gracioso notou o público a olhar curioso condenando a quebra do silêncio no veículo. Nesse transtorno que felizmente não se completou, ela voltou a sentar-se (havia se levantado um pouco ou para ver a rival outra ou para ferir melhor a oposição macha pega no flagrante). O esqueleto macho ruborizou-se, nessa situação em que a gente não sabe onde põe o chapéu; aliás usava mesmo um chapéu para cobrir esconder uma cicatriz na testa, onde recebera antanho um tiro do esposo doutra amante, amante que hoje tem o belo apelido de ‘namorada’. Sentou-se sua fêmea, ajeitando as costelas e compondo os ossos da medula. Enquanto, pilhado ele no descuido, sequer percebendo no ato de se pôr no assento o assento e mostrar o ilíaco trincado. Fez mais, fizeram: ele esparramando sem educação o metatarso e os cinco metatársicos e ela os artelhos bem ajuntados para não dar na vista com suas pontas esmaltadas de vermelho quase ‘cheguei!’ e num segurar a indefectível bolsa feminina. Nessa altura o esqueletinho já nem via o drama adulto caso houvesse observado e assim dialogava com outro imaginário, quem sabe também um exemplar ajuntado de ossos formando um belo garoto.
Marília   outubro  2012


terça-feira, 18 de junho de 2019


(conto) Férias da Loucura

Eu te falo procê... disse, diz o sujeitão estufado o quanto possa, engolindo tudo pela frente até concordâncias discordantes; aliás o brasileiro comum não concorda com o português e com o português comum; haja vista a anedota; e daí a discordância nestes dias sobre o acordo ortográfico unindo e simplificando na complexidade todos que falam a língua, aqui importada, importadíssima. Todavia ele não pensa nisso, não pensa, pensa a loucura querendo fugir agora da loucura da capital ao interior sossegado. E continua ele, ela não aprecia mato, “mato me mata”, não gosta, te digo que não, eu gosto. Também não combinamos noutras coisinhas. A Maria ocê sabe é magricela; e cultiva as magrezas. Acredita que nas férias passadas levou pra selva, a de Peripipoca ou peri amendoim já esqueci, lá onde macacos e papagaios, levou uns plastiquinhos – eu gozo sou gozador gozo nela ao dizer “tuperére” ela fala certinho num patriótico inglês, versada no grego demótico latim sânscrito essas coisas arrevesadas e vive a viver enrolando a língua com os outros; eu não, pra mim é tuperére, tem uns tupererinhos que são umas gracinhas semelhando brinquedo; e tem os tupererões assim de grande a caber mil comidas toneladas de gostosuras, caberia num um boi dos volumosos dentro, isto outra de nossas diferenças. Sim mas não dizem “vive la différence”? Ela é por alimento vegetal vegetariana à beça, põe tudo que é capim dentro dos plastiquinhos, os tupererinhos como falei; fecha, antes tira o ar pra não estragar o chuchu a batata a beterraba a verdura, aí fecha bem, enrola nuns papeisinhos depois nuns paninhos bordados, põe tudo numa cesta e daí sim sai, não às compras porém ao mato comigo. Eu não, te digo procê, não: ingiro carne. Todas carnes, não estando na fase de carniça é muito claro; como traço rasgo mordo mastigo chupo os ossos, jogo os ossos pros cachorros brigarem entre si ou deixo no chão – é engraçadinho as formigas em roda do osso, têm umas que são parecidas comigo e adoram carne, carnívoras; pobrezinhas, não sobra nada a elas devorarem dos tupererinhos da Maria, aqueles restos sem graça. Bem, isto uma outra diferença no casal.
Então, tava ti falando procê, nós fomos de férias a fugir daqui dessa loucura de cidade infernada com seu trânsito louco com sua violência doida. Piramos pra selva.
Arrumamos o carro, dirigimos as rodas de pneus novos e... ah realmente assisti e fui no assento ao lado pois quem faz tudo é a magrelinha, até choferar é ela e o faz bem. Tanto que me desligo da loucura da estrada em fugindo da loucura da capital: durmo (a oposição diz “o Zé ronca!” deve ser intriga) durmo, quando acordo ói nós já na floresta.
Tomamos um chalé, eu paguei a conta, digamos a verdade; ela o carro o combustível a oficina a manutenção a comida; fiz a concessão pagar o abrigo.
Agora tamos na imensidão de mataria, tem árvores tem cipós tem carreadores tem grilo e o grilo do temor dos bichos... A Maria anda agarradinha em mim, medrosa, vai que... Eu não, sou tarzã valente um brutamontes com um bucho destamanhão cheiinho de carne: como o frigorífico como o matadouro como o pasto; mastigo, bem não, sim mais ou menos, das trinta e três mastigadas estabelecidas pela ciência abro-fecho a bocarra umas sete vezes, sete é de mentiroso dez com certeza. Engulo, arroto, assopro, ‘pufo’. Ela: sem-educação. Rio-me, beijo a ofensa, a ofensa se ri; continuamos a trilha. Eu fotografo tudo até tudinho com tê sem tê que vejo. Clico aqui clico acolá. Ela olha. De repente, de repente em casa não custa muito, acontece toda hora: me dá fome, agora no mato fome que não mata de tanta fome. Como as reservas, conservas também; ela sorri abana abalançando a cabeça linda. Me imita, ou iria ficar apreciando um porco comer um boi! ela amavelmente me apelida porco nesses momentos. Me imita, tira da cesta mil tupererinhos, tem um rosinha que mais aprecia, onde chuchu batata capim na conserva. Tira come delicadamente sem sujar as mãos, as mãos! os dedos afilados; assim mesmo se limpa, limpa. Guarda, enrola as vasilhas plásticas nuns papéis virginalmente brancos, após enrola nos panos de prato decorados com florinhas menininhas gatinhas coisinhas. Guardinha na cestona. Eu arroto a porca a vaca a cabra; gargalho. Retomamos a trilha o cheiro o hálito do natural do puro longe da loucura. Suamos até, ‘fédo’ catingo; ela abalança outra vez a cabeça, espirra esprei no sovaco, guarda afinal as coisas, prosseguimos. Observando comendo clicando guardando, eu guardo recolhendo tudo que seja tranqueirinha, ela diz nestes termos; enfim tudo que achar bonito e engraçado ou só curioso: folha ramo pedra e o que a câmera guardou pra revelação posterior, já na loucura na volta infelizmente...
Assim dias. Noite descanso as banhas, ela que fala e fala no peso de toneladas, ou descanso das latinhas de cerveja que a oposição condena; ela a ler. Leva pro mato bibliotecas e mais bibliotecas pra estudar, enquanto durmo. É outrinha das nossas différences.
Assim dias e noites, noites e dias e semanas mês quase. Até aquele santo dia.
Num ti falei procê? Ela é levinha, tanto que antes eu vivia por cima; agora após tanta vaca e tantos frigoríficos e tantos matadouros e tanto dormir, durmo por baixo; ou então achatá-la-ia! Magricela só a Maria como ninguém, mesmo os vegetarianos outros. Porém ágil esperta viva; e bela, vamos lá. Eu pachorrento mas vidrado numa trilha no mato. Medo de papagaio e macacos? ela acha gracioso a graça deles rindo deles. Embora sempre na vigília; já dizia um conservador que o preço da liberdade é a constante vigilância. Da liberdade e da vida...
Eu na frente no carreador estreito entre barrancos e buracos nas montanhas escorregadias, nos espaços selváticos planos. Ela atrás, colada ao meu corpanzil... vai que... Bem. Aí pelas tantas, o sol se fora, a sombra a noite o medo a chegar – rugiram! Se fiquei com medo? eu? num ti falei procê que sou valentão! Pois corremos demais do dinossauro, eu na disparada, a máquina de prender a visão dinossáurica caída por aí, os tupererinhos e a cesta não se sabendo onde; e ela grudadinha no meu gangote lá encimão a cavalo no porco... Até ontem.
Até amanhã.
Marília   março  2009



sexta-feira, 14 de junho de 2019


(conto) O Presente

É passado. Sumiu no tempo; quase da memória, piormente não deixando saudade. Tem coisas que o ser humano quer esquecer põe debaixo num de cima. Mas, argumenta-se, não deve estar presente um presente? deve, não se deve esquecer também a pessoa que oferece as coisas, pois que sempre a gente se dá com aquilo que se dá; dá-se a si mesmo quem deu algo; por mera ingratidão da memória nos esquecemos ou transmutamos João ofertando a joia ou em Joana quem deu o beijo. Mistura lá dentrão o cinzento da massa. Ou terá sido a vizinha a tia ou o compadre. Contudo o presente está no pátio berrando (aqui um exagero) berrando presença pretensamente a agradar-nos. Não agradara, nem berrava.
Mesmo porque onde se viu elefante berrar!
Bem. Que faz elefante: fala? mia muge ladra zurra pia, ai esses bichos... fala decerto, fala na sua linguagem paquidérmica. Nós, nós humanoides supondo perfeições, somos nós que não conseguimos decifrar a escrita. Pera lá, escrita não é possível, língua, admitamos língua. Seja. Fazia um barulho medonho o animalão.
Cala a boca, desgraçado, falou falando baixo para não acordar vizinhos. Cala já já! imperou. Elão deste tamanhãozão sorriu inocência e ficou decerto se perguntando “o que será fiz ao meu amo, tão brabo”...
Chegou mansinho aos pés de patas meio quadradas do presente (de grego é cavalo, a gente sequer sabendo se branco como o de Napoleão se cor de burro quando foge). O elefante se alegrou, apreciava deveras aquele homenzinho de cabelos espetados com seus bigodes que mais pareciam fios de arame preto, um risco de cada lado, e será (perguntou o monstrão) que não atrapalha para comer, gente costuma limpar beiços na refeição. Se alegrou abanando a tromba pra lá pra cá, interminável, ele quase hipnotizando o dono. Porém este não ofertou comida – ralhou com ele. Se não se envergonhava a gritar alto assustando os amigos; e se despertasse o guarda-noturno roncando... Cala essa boca, já falei!
Voltou para a casa, escondeu o frio debaixo do cobertor, recomeçou a contar carneirinhos, perdera a conta na interrupção do elefante, recomeçou do zero, não, do primeiro carneiro, só mudou a cor, chegou a três mil e trezentos e duas ovelhas... eis o presente num bater patas ou a empurrar não sei quê lá embaixo. Parou. De contar. Xingou. Vestiu-se, ia lá de pijamas passar vergonha no possível despertamento da vizinha do quarenta e quatro! contudo foi com chinelos. Chinelo ao menos é calçado e vira arma quando a criança embirra. Qual menino o meninão de trombas.
Seu (falou um impublicável embora baixinho, educadamente) não disse para se calar! Mexeu a tromba sem entender. Calar não é apenas ausência de falar: subentende-se não fazer barulho algum! É isso. Quer chinelos? (Pensou o bichão: como calçá-los, todavia não respondeu). Psiu, nada de derrubar coisas, barulhar o ambiente. Isto é um condomínio. Após as vinte e duas horas silêncio, ou terei problemas (pensou vizinha do quarenta e quatro). Estamos entendidos?
Puxou a coberta de novo, antes, aproveitando a segunda levantada madrugadão, puxa já tem galo avisando, foi urinar tomar cafezinho, dizem que café corta o sono, pôs cobertas, repôs, recomeçou três mil e quantos? recomeçou então por via das dúvidas do terceiro milésimo cordeiro. Entretanto não chegou a cinco mil, lá o elefante se raspava não encontrando jeito para dormir.
Desceu a ensinar com quantos paus se faz uma canoa e outras verdades; não dorme? conte carneiros, não se aproveite de minha contagem já adiantada, conte da primeira ovelha em diante. Antes de falar isso xingou a mãezinha, no caso uma enorme ‘elefôa’ (ou elefanta?) vivendo na África longíssima de longínqua. O filho não entendeu a ofensa, o que teria feito mamãe: onde estaria naquelas horas, madrugada, já se ouvia cucurucus e uma que outra condução rolando lá fora. O amo esfregou os olhos, pregou sua moral burguesa, a tromba quase foi ao chão, arrasada... Ah meu Deus, essa não, pensou o homem: quer ver que tenho de levá-lo agora ao analista tentar vencer o sentimento de culpa! Andavam agora pesarosos, tanto o ofendido quanto o ofensor.
Pera lá, meu nego: amanhã, amanhã não, é sexta, sábado levo você ao circo! Tem pipoca tem sorvete tem palhaço. Abriram a janela do quarenta e quatro e o homem pensou (levo sim essa porcaria ao circo, pra ficar lá mesmo!) mas não disse coisa alguma, somente reafirmou a chantagem na forma: silêncio é igual a circo. Sorriram tromba e boca.
Boca fechada, subiu mansinho pra não despertar suspeitas, foi contar carneiros, pôs o pijama a coberta e recomeçou do cinco mil e um, por faltar certeza onde parara. Do cinco mil e dois em diante não vinha mais carneirinhos nem o sono. Iniciou a rememorar sua desdita, a se distrair, até que chegasse o maldito despertador avisando acordar; passou a rever no cinema da mente sua vida toureando um elefante, desde que o recebera de presente natalício, quem seria seu inimigo... não se lembrava. Lembrou-se das mamadeiras, dos brinquedos trazidos ao elefante, a tentativa de matriculá-lo no jardim da infância, tudo frustrado, haja vista fosse ainda analfabeto; a luta para empurrá-lo a brincar com os outros meninos e o pior: o relacionamento com as pessoas dos apartamentos vizinhos (imediato ouviu na memória a matraca do quarenta e quatro). Desistira andar com o elefante nas ruas, fora vezes levá-lo pastar no terreno baldio, mas e a encrenca no trânsito, as buzinas, o grilo fardado implicando querendo multar!  No entanto o pior era não poder sair sem uma pazinha, pazinha? um tonel, a recolher as fezes do garotão (a do quarenta e quatro queria, exigia, que enxugasse o xixi também, imagine-se como era louca a senhora, é louca). Comida, se afundava no supermercado e mais no pendura da vendinha no bairro. Ah o inimigo, maldito sujeito (e se fosse a tia!) maldito quem lhe dera o presente! Agora contava muitíssima ovelha para dormir... onde parara!? parecia cinco mil, cinco mil e quantas? Uma soneira... Porém havia ainda o pior do pior.
O pior é que o despertador não sabia nadinha do drama.
Marília   novembro  2002



sexta-feira, 7 de junho de 2019


(conto) As Calças

Figura eu estar quase com pés no chão do piso frio naquela manhã gelada a me levantar me oferecer ao dia ao mundo – quando ela, elas a rigor pois singularizamos as calças, são um plural no singular caipira vamos lá, e não estavam elas; aqui um toque sutil da lembrança e isso próprio dos esquecidos, nem me lembrei, ontem ou trasanteontem vesti num descuido as calças em perna errada; sendo a primeira vez em muitas décadas desde que ponho calça, de homem mesmo isto garanto. Ri-me; gargalhei a burrice, minha experiência garantiu burrice, ri-me iria então chorar da bobagem?
Bem. Mal agora naquela hora – elas não se encontravam mais na cadeira feito cabide. Entenda-se: faço duma cadeira de pau o pau do cabide, hoje tudo de plástico portanto cabides são de plástico; enfim é o lugar onde deixo à noite ao dormir as vestes do dia.
Com tudo nada na cadeira, elona (a minha é à moda antiga caipira de pernas largas soltas) ela não estando. Ah depois me recordei haver na madrugada indo às necessidades fisiológicas relanceado a calça na cadeira e disse-lhe gozando: "óia aqui sadona, num saia daí". Em suma constatei de manhã não aguardar-me a roupa. Ora, teria deixado a peça no armário, um guarda-roupinha a esconder da vista a bagunça o estardalhaço duma casa; realmente apartamento barato na carestia do tempo, no tempo em que o ser humano se empilha um por cima doutro nos edifícios das megalópoles. Deu pra entender?
Entendamo-nos: a calça, insisto ser caipira emigrado à civilização e no mato matamos 'as' e pomos 'a', às calças dizemos a calça. A calça lá não estando não se encontrava no lugar a bendita ou safada, saíra fugira desocupara a cadeira onde estivera imitando gente por forma escorrida enquanto meu sono.
Bolas, claro me assustar um pouco; urgia ir pra vida, levantar-me higienizar-me alimentar-me e partir às exigências diárias e foi o que fiz. Acabei minha parca refeição e daí...
Cadê a roupa!  nós caipiras falamos "cadê" não o que é da... uai, onde? e a camisa, a cueca já em mim não desocupara fugira saíra estava comigo; mas e o resto!
Bobo, me puxei orelhas, ocê pega no armário umas novas outras limpas vestíveis usáveis e pronto. Olhei em muxoxo a cadeira vazia. Abri fechei o móvel, ele também vazio...
Conscientizei haver havido antes complô e daí as peças, combinadas, sumiram surrupiaram-se!!
E agora? me perguntei; ah primeiro pensei ladrão. Porém e aquele batido negócio de um ladrão em casa pobre só levar susto. Ladrão a se prezar deixaria o computador o celular o dinheiro vivo em notas usadas usáveis embora fedendo? Não fora ladrão. Tudo me fugira me abandonara.
Agora!? andava nu, seminu. Como faria.
Ocorreu-me no caso da calça fuga à parte alguma; sem destino decerto. Não ir-me-ia conformar. Tomei a sensata alternativa de procurar descobrir perseguir prender quiçá justiçá-la. Um corretivo e tanto faria (ainda não pensara qual).
Todavia que fazer imediato à descoberta fantástica daquele sumiço. Sair nu, seminu! e o público e o constrangimento dum caipira que sequer urinando na rua por vergonha na cara. Nisso imaginei ter apenas uma saída sem andar pelado na rua com a condizente prisão, aliás o viver já é prisão. Descontemos isso; que fazer a sair procurar achar perseguir prender trazer pra casa puxando pelas orelhas a calça, as calças se ficar melhor nesse pior aqui.
Aqui um porenzão. De que maneira o povo a me receber, e o explicar inexplicável inexplicado! Nisso pus qual ponte a minha situação psicológica e o povo me vendo. Porque nesta enorme selva de pedra comumente já me sinto estrangeiro, mesmo de calças. Daí como explicar inexplicado inexplicáveis?
Enrolei-me todo na toalha de banho, única veste sobrante no centésimo andar com meu apartamento preso e cheio de exclamações e interrogações. Assim me coloquei fora nas vias públicas para encontrar a vestimenta rebelde fujona (ou somente gozadora).
Não fui além da primeira alameda formal e bela e movimentada e curiosa e policiada. Deram-me, provisoriamente, no lugar umas calças riscadas enxadrezadas numeradas.
São Paulo   maio  2019

         



             

sábado, 18 de maio de 2019


(conto) Naquele tempo...
Ah! aquele tempo, ora bolas qual, naquele, é consultar na dúvida a falha da folhinha na folha o ano o mês o dia – enfim vão longe os dias em que imperava o machão. Ele? ele mui, pergunte-se às bugias que se via ele via, se sim se não. Não aceitando quem sabe Ela.
Ela descobriu ou o sexto sentido dedou avisando – a gente indaga ao safado sexto "tá do lado dela!" claro não iria responder. Pois então, então certamente o bate-boca o machão fazendo valer os seus direitos (diz a má-fé serem sete delas para cada um deles) Ela a lutar por seus direitos direita direta que sempre fora...
Como nem o sacerdote nem o juiz estando do lado daqueles tempos naquele tempo, se puseram à briga; luta encarniçada não: não teve luta teve briga mesmo; e é aqui iniciar a coisa.
- - -
Correu, fugiu, pé na estrada. O machão.
Ela atrás. Vingativa cobradora interrogação. Andava (correndo) andava quase a alcançar o objetivo...
Ele, surpreendentemente, mente à sua decantada coragem e sobe qual macaco na árvore.
Ela em baixo.
Ele em cima. Olha examina o entorno.
Ela silêncio.
Ele pronto a descer imperar bater-se no peito na vitória.
Não. Ela reaparece armada até aos dentes, embora a língua no descanso.
O machado!
Ela começa a faina no cortar a árvore. Tempos depois (daquele tempo ou naquele tempo) a árvore balança. Balança Ele pra lá pra cá no cair...
Derruba a árvore (árvore e/ou poleiro se se quiser) derruba num ploft e no barulho impressionante.
Ele já no topo da vizinha, não uma das flagradas bugias dele não: doutra próxima árvore.
Ela olha lá pra cima.
Ele olha lá pra baixo.
Inicia o trabalho com machado. Reinicia.
Vem novo estardalhaço de copa lenho da lenha ao solo raso.
Ele pulara a outra. Aí bate no próprio peito oh ooô, tal qual o Tarzã (a Chita três dias longe do machado). Nada obstante nova árvore cortada pendida e estendida no chão! Novo pulo espetacular dele, Ele noutro topo noutra árvore.
A ação do machado. Bate corta cede cai; vence repete.
Ela repete a dose. E repete. E repete o repetir.
Ele? pula qual lhe ensinaram as bugias – de galho em galho, de árvore em árvore.
Ela corta derruba...
Nessa altura só tem água – e promessa de leito vazio seco morto todo – somente água. Nem o governo de hoje então imaginando ter essa felicidade. Ela, a 'ex' dele, examina pra ver se existe ainda na Amazônia algum espécime da espécie botânica viva.
Deserto!
Decerto fugira pra suas bugias o macaco in Homo Sapiens.
Naquele tempo.
A esperar milênios num incerto talvez que o Orbe se refaça se refloreste se refloreça da morte à vida. Antes que sugado ao Buraco-Negro.
São Paulo   maio  2019


segunda-feira, 6 de maio de 2019


(conto) Barafunda

1.Não é Barra Funda, um bairro e podendo ser uma urbe ou nome de alguma rua nas cidades do país. Não. Barafunda.
Antes do caos era a ordem decerto; enfim onde se podia ter à disposição (ou imposição) o bem contra o mal; num maniqueísmo dos melhores. O casal na saleta de tevê; a qual servia para oportuna (às vezes importuna...) visita e também como biblioteca, embora nisto um exagero havendo apenas uma estantezinha dessas pregadas na parede a enfeites e bibelôs; onde uma Bíblia (velha e descansando do trabalho dos cupins a aguardar virar peça dalgum museu); e meia dúzia de outros volumes sem lombada vistosa e ainda mais dois livros técnicos a servir ao rapagão da jovem bela, um desses exemplares com título em inglês.
Bem, é isso, era assim. Assim ambos sentados na saleta à meia-luz e sob reflexos das luzes do aparelho de televisão – aí deu-se um desastre: certo apagão! O ambiente em paz, não se cortando a corrente elétrica do prédio e do apartamento ao gosto pequeno-burguês. O companheiro no casal se levantou foi examinar lá fora – tudo escuro, apenas a se cruzar faróis dos carros lá embaixo; inclusive ouviu tiros e se assustou. Fechou imediato a janela de vidro de correr e para desencargo de consciência que a paz exige pôs um cadeado. O que uma família num edifício sem solenidade nem milionário teme é o ladrão, se bem que nesse mal, como escalaria o bandido os pavimentos até a saleta! Voltou a se sentar, a ajuntar o casal.
A tevê rateava matracava estertorava, tataratava enchendo de balas a sala; o filme (com licença por vezes da propaganda) o filme era de guerra. Antes assistiram já na madrugada um erótico; o macho desandou nos carinhos e levara sua parceira ao quarto deles; no retorno à rainha do lar a vomitar bala, aí a jovem mulher reclama dele "que homem insaciável!" Porém relevou relevaram a ofensa se entregando ambos à guerra. Então os americanos arrasavam o vietcongue: a matar com a mesma arma pesada e o mesmo carregamento mil homenzinhos do mal; no entanto reapareciam outros soldados do mal qual num formigueiro. Ela, não a guerra, ela comentou seu pensamento alto ao companheiro "ainda bem que o nenê dorme". A fita prosseguia, claro em concordância da propaganda, tataratavam as armas de repetição, quase assustando as letrinhas da legenda, as quais passam sempre depressa a acompanhar, ela bem lendo ele não, um pouco curto da vista; entretanto sabia alguns termos do inglês pelo escritório onde trabalhava; enfim dando pra entender porque guerra a gente já entende de antemão. Depois veriam novo filme, também de violência de guerra na guerra do bem contra o mal, o mal qual formiga esmagado pelos soldados americanos, agora com legenda mas dublado, ambos a viver a trama, a matança noutra área asiática, aqueles soldadinhos miúdos como saindo do buraco e os tiros certeiros os abatendo. Lá embaixo, de lá debaixo subiam zunido de motores e balas, o casal a salvo. Não da tevê, a qual triturava com tiros em repetição contra o mal. Nisso tocou alertando o celular dela, o dele emudecido desligado (ou como veriam a luta do bem contra o mal!) Responde rápido a mulher, pois a propaganda gritava o reinício do filme, da guerra. Do lado de lá, não se diria além do fio, no lado de lá a voz da amiga insistindo nas suas confissões e confidências... a parceira comenta "não implique com minha amiga Francisca, ela é chata e insistente porém melhor que suas duas ex-namoradas". Ele empurra longe o celularzinho da companheira para que esta não perdesse lances da fita e os tiros contra o mal e quem sabe na erradicação das forças do mal pelas armas bem-intencionadas do bem. Assistiam quase abraçadinhos, talvez ao final do filme, quando a parte feminina na sua intuição ou sexto sentido se levantou, ele se ergue também; ela se encaminha na direção do quarto do nenê, antes precisando passar pela cozinha...
2.O nenê dormia. Quer dizer, dormira vencendo com ajuda materna horas antes a dor de barriga por que passara; chazinhos comprimidinhos liquidinhos de caixinha; em suma, ficou bem e entregue ao berço ao sono ao sonho, nunca ao pesadelo naquela idadezinha. Depois acordou. Não chorou permaneceu a brincar na luz à meia-luz do aposento. Esperneou meio incomodado e resolveu tentar ficar de pé na guarda do berço, o berço cedeu um pouco, elinho descendo pela fresta que o espirra ao chão estofado com tapete ainda a cheirar coisa nova. Se arrastou se arrastou de gatinhas pra lá pra cá; interessado em tudo que oferece a liberdade e sequer teve ímpetos de choro. Passa pelo Mimi, Mimi acordou foi à vasilha de ração, voltou raspou-se ao menino pra lá pra cá nas perninhas um pouco encolhidas no esforço a engatinhar: o gato imediato dormiu ronronou apagou. A gentinha não. A ficar até mais ativa vendo tanto espaço sem tolhimento. Chega à porta, uma porta a se levantar como pudesse, a abertura dela cedeu, aparecendo-lhe Lulu. Lulu um cãozinho nenezão, desses cachorros grandalhões porém bobos, bobo até no andar; fosse luluzinho de se pegar no colo, mesmo assim gigante bom e manso; fez dupla com o filhote humano, este gatinhando pra todo lado, elão à sua beira feliz com o cheirinho de gente da sua gente e pela liberdade não costumeira no quarto e agora na cozinha. Havia no entanto um senão, se não vários senões...
Nisso o garoto chega na parede e tenta com algum sucesso a janela; esta por preocupação paterna fechada ferrada a cadeado para evitar o pior, nunca a gente sabe o que poderia ocorrer. Não alcança na alturinha a janela mas vê, entrevê, reflexos dos automóveis lá embaixo no escurão do apagão, os fachos dos faróis; ouve tiros não conscientizando aquilo. Desiste. Se põe, se repõe de gatinhas a se arrastar pra lá pra cá naquela liberdade não vigiada, chega à geladeira, olha a porta dela e não tem força bastante pra ver o que ver lá dentro (teria pensado sorvete!) Desiste, desistem, o Lulu em guarda ou só acompanhando, o Mimi ronrona longe. Chega ao fogão, não vê lá em cima e se apoia na tampa do fogão, esta cede abre... ah que gostosura – naturalmente já fria de horas – que gostosura de travessa com carne de frango regada às 'melecas' do tempero, vaidade expressa da culinária da mãe dele. Ele, não: eles dois, três não também porque o gato acorda e não se interessa, deformado no gosto pela ração. Já Lulu baba avança boqueia mastiga e é claro deixa cair muito no chão. O garoto toma guloso uns pedaços se enlambuza derruba o restante no piso, agora piso-frio da cozinha no entanto igualmente suja o tapete de seu quarto, pra onde a dupla segue se arrastando, ele a imitar gato, o gato a dormir; e Lulu a mastigar carne, presente do fogão arreganhado na abertura do forno.
Contudo não foi tudo: havia mais estragos... ah essa linguagem adulta! Tinha sim. Ele, eles por extenção o cachorro ajudando na bagunça, se espalharam pelos dois cômodos lamecando de gordura onde pudessem pegar; claro o cãozinhão não pondo as mãos nos objetos e paredes e somente pisando no tapete; deitara-se em final a dormir curtindo a comilança (antes levara pra sua casinha ossos do assado).
O cachorro não, o nenê se enrosca em tudo, examina tudo; logicamente não sujando de propósito, apenas a saber as superfícies e alturas das coisas. Com um drama – fosse drama nem a gentinha avalia assim – um outro somar ou a ficar mais gritante dando razão aos adultos enlouquecerem, ao menos se angustiar lamentar, o que próprio da linguagem dos grandes na espécie humana... O cocô!
O menininho tivera uma fresta, com certeza no tanto forçar sem querer sem pensar sem se conscientizar – a fresta abrindo a fralda, desde a descida escorregado do seu berço até àquela hora. A hora do fedor  e do estrago (ah essa fala adulta!) – pois 'lamecara' toda a casa, as partes debaixo da casa, do apartamentozinho, com fezes! Sim, estava de saco cheio, isto é: com excesso de porcaria, a que lhe custara antes dores terríveis e gritos dos quais sequer se lembrando.
3.Quando mamãe abrira a porta de fechar o casal na luta televisiva do bem contra o mal; defrontou-se com o estrago em regra: tudo a quase lumiar do sujo impregnado, cadeiras pés da mesa paredes e paredes do fogão e da geladeira, tudinho em fezes amareladas e temperos engordurados de carne (ossos não, Lulu levara esconder na sua casinha) tudo, tudo a brilhar. Pior, a feder!
Ela ainda com as duas mãos pressionando as têmporas e boca aberta sem fala. O parceiro altão atrás dela mudo e de olhos estatelados igualmente, se mostrando acima da cabeça bela de sua cara-metade (a vizinha do 44 dizia sempre à do 55 que não eram casados apenas amigados mas não interessa isso:) só isto – era o caos!    S.Paulo  abril 2019


(conto) No Circo
          A plateia indócil; como segurar o público buliçoso e em expectativa! O mágico se desdobrando se tresdobrando no seu ato mas contido a saber a responsabilidade a respeitabilidade... sua preocupação se dividia, aqui na sua frente a pomba do número presa no chapéu; e o público...
          Respeitável público! anunciou.
          ... e o público a se mexer e mexer com os próprio assistentes. Tinha a irmã; o irmãozinho de chupeta; o Lulu agora sentado no próprio rabo e rindo decerto mas não se vendo a cauda a abanar; um menino vizinho; o Mimi porém Mimi dormiu e não há maior desfeita do público a um artista de escol que a indiferença do ronco, ronronava; e duas bonecas, uma de pano a outra mero sabugo de milho de supermercado. Ainda assim ouvindo-se palmas no espetáculo (menos do Mimi a dormir).
          Bem. O artista principal naquele número ansiado também na expectativa; enquanto, a enganar a assistência com trejeitos e salamaleques e, por que não dizer? trapaças. Isto porque a pomba se batendo dentro do chapéu do vovô, um chapéu à guisa de cartola; e a preocupação no improviso com sua roupa, a mais escura encontrada no armário das crianças.
          Ora, foi nisso alevantar o chapéu se debater a ave e imediato voar... Com retorno na alegria do publiquinho a gritar e bater palmas – aí ela chegou!
          Ela? a Teresa. "Crianças, hora do banho e do almoço".
          E com ela... "não tem choro, sua mãe deu ordem e pronto!"
          Além de haver menos gente, desfalcando o espetáculo, pois a genitora do vizinho o gritara. O Mimi não viu não despertando no desmancha-prazer da gente adulta. S.Paulo  abril  2019


(conto) Melhora no Quadro

Era um velho bem velho, véio dizia a irreverência desocupada. Contudo ainda a andar – não empinado orgulhoso vaidoso; medroso nunca. Alguns na avenida ainda mais desocupados. Tem sempre uns sujeitos a falar abobrinha pra matar o tempo, o tempo não morre; desses indivíduos que ficam como que fiscais a fazer crônica nas vias públicas. E observando o senhor idoso, tendo um prato cheio: aquele, esse, não chega amanhã ao amanhã... sorri e um outro comenta, poderiam calar-se não calam. A acompanhante até que boazinha, passável ao menos e... Vão por aí, vão por aí afora a jogar conversa. Bem, passava e passava; e a julgar pela sabedoria da ignorância – estaria no centenário. Uns arriscam ser além, os otimistas votam no aquém.
Passava entrava no consultório do doutor, acompanhado e a andar miudinho passinho engraçadinho. Saía, saíam diante dos juízes, agora passando de volta. Volta no retorno como rotina exterior.
Por fora. Eles examinando o exterior.
No interior da clínica – embora apenas se consultasse com o geriatra e não com demais médicos – nesse interior travava-se verdadeira luta. No bom sentido: o clínico sempre a levantar o moral do paciente; ora a fazer sorrir aquela lindeza (a acompanhante é lógico). Enfim elevava o causídico da medicina o doente; sim, velhice não é uma doença, é doença apenas terminal dos seres humanos. Em suma, antes a atendente recebera os honorários do chefe; depois este aliviava aquele sofrimento a nunca findar, acabando suas frases o profissional a bater amizade e confiança nas costas centenárias (outra vez a discussão se mais se menos de cem) e encerrava já quase a fechar a porta de saída com um meio chavão, pois repetia por meses "está melhorando, melhorando sensivelmente".
Noutro dia noutra semana noutra ocasião sempre oportuna "anda a melhorar" acrescendo que seu cunhado, cunhado dele, dele servidor de Hipócrates, que o cunhado vivia a afirmar "a coisa está cada vez melhor!"
Numa das visitas, após exames de praxe receitas de praxe e o sorriso da acompanhante de praxe, ditou: o senhor anda melhorando e no dizer de meu cunhado vai melhorar mais ainda amanhã. Bem, mal saíram fechou a saída... Isso ontem, hoje não veio o par ele à consulta ela a expor sua boniteza; ontem velório e enterro.
Contudo se animou a jovem do velho já velho na sepultura; então entra a senhorita a buscar uns documentos do homem centenário, nem tanto porque menos de noventa. Curiosa, indaga com o que mesmo o cunhado do geriatra se ocupando, igualmente médico!?
Sim, respondeu não. Acresceu: empresário, tem uma funerária; por sinal em franco progresso.
Os juízes na via pública não sabiam, não souberam.
São Paulo   abril  2019
         



             



sexta-feira, 22 de março de 2019


(contolouco) – À beira da piscina

O sol das onze ali presente, presente ela, elas duas, não se tinham molhado na piscina e estando apenas esticadas deitadas a lagartear aos raios vivificantes; além do mais não havendo uma só mas duas piscinas na área do prédio milionário, no chão nobre dele. A menor de água rasa para os menores, as crianças; a grande sim grande, não enorme porém comprida ao uso dos grandes. Ali. Ali se bastavam as duas jovens, quase sem conversar ou somente a proferir banalidadezinhas – o mais era de menos, mais somente pelas fricções.
A mais velha ou mais amadurecida a esfregar naquela pele de aparência seca um linimento ou pomada incolor, enfim um protetor solar; o que bem pensado, talvez não devessem se expor após as dez. A menos velha ou menos experiente na vida igualmente aplicava defensores e corretivos e friccionava sem parar a epiderme. Friccionavam pois ambas na mesma ação. O sol nem ligava às operações das beldades e incidia sem descanso na área de descanso. Ou apenas de exposição de beleza. Quer dizer, assim pensavam as duas, caso pensassem.
Vaidade! sim, vaidade.
Não obstante não tendo público. Não. Sempre as janelas dos prédios remediados vizinhos e dum prédio pobre abertas; uma delas arreganhada; decerto por olhos machos puros santos. Queiram desculpar-me pela vergonha que passei, observando.
Elas não pareciam impressionar-se com olhos alheios cheios de sexo e se mostravam. Mostravam coisas belas elas e sem estar adormecidas. De fato, poderiam andar a dormir seu não-fazer. Não. Agora inclusive aumentava sua fricção uma mais que outra no uso das pomadas. Uma beldade, a se imaginar quem sabe 'miss qualquer coisa', se contrapunha à menos bela (opinião da própria miss) e se sobressaía nos braços ventre pernas rosto cabeça cabelo... nisto discutível visto a cabeleira curta e certamente tingida alourada. A companheira da companheira e mais interessada mesmo a derramar melhor os cosméticos no corpo, essa morena; se bem com mexas claras e igualmente de fios aparados, curtos. O gosto dos olhos varia e possível fosse até mais apreciada.
Os olhos e a janela abertos lá em cima ao lá embaixo continuaram no apreciar a cena. Contendo duas formas femininas a se untar com suas melecas.
Sem parar. Sem parar.
Parara uma, outra após (em nome da beleza?)
Daí se pondo a erguer-se e com certeza a tratar então doutros afazeres que não aplicação de gelatina ou coisa desse jaez, práticas corretivas e eficientes, supõe-se, a embelezar o exterior dos seres; o interior já caso impossível ou mais difícil a vaidosas criaturas se banhando.
Banhar-se não pôde uma. Não pôde também a outra. O peso das substâncias cosméticas pesando mais que o peso normal delas mesmas ou emperrando suas juntas de lata plástico e fio; tão longe dos exemplares belos puros santos de milênios atrás.
São Paulo   março  2019

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019


(conto) – Cinza e Brasa

Era uma tarde de luz e poente fugidios na sombra da escuridão da noite a chegar para quem sabe logo também  sumir – era um ser entre tantos seres humanos, só; só como nascera e agora decerto só a enfrentar seu próprio fim, houvesse um dia um fim. O fim do dia em meio o quase tudo de todos, a deixar no isolamento um homem; já acostumado à solidão, porém nunca de fato conformado. Por só, nada comenta nem inventa não lamenta (e por que reclamar!) E se move na direção da janela da casa pobre, a pobre podre janela a despencar na dobradiça velha cansada enferrujada qual a madeira de batente a se desfazer. Olha pra ver e por hábito talvez, examina o escuro que vem. Aguça por rotina a vista e a audição no que não pode ver (ainda por costume) e assim ouve, longe, um cão a latir, quem sabe distante qual o mundo.
          Dos vivos.
          Dos mortos.
          Reata a paz; a que não é realmente paz mas sossego ou apenas ausência de outros sons – o cão mantém sua impertinência, felizmente longe dali.
          Abre melhor, arreganha tal janela; antes força o emperro e ela geme nos gonzos e por fim cede abre e lhe mostra aos olhos curiosos o que ver naquela penumbra: nada.
          Está só.
          Só existe ali sua casa a cair e um terreno enorme a tanta pequenice no mundo tão grande mas sem mais nada. Além da sombra, do escuro, da noite no negror da lua-nova, velha como o sol que já se escondeu a dormir talvez.
          É um homem, macho na espécie, esta que pode ser de bons objetivos e que pode conter seres bons e outros voltados ou tendentes ao mal.
          Fecha a janela, prende os engates enganosos na suposição de ladrões e bandidos a ferir sua paz. A paz num ser que se supõe pacífico...
          Ainda assim escuta o ladrar; longe, se conscientiza disso e acalma seu temor. Os pacíficos não são integralmente seguros e o medo persiste na acusação talvez da consciência. Mas entende andar na solidão (benfazeja? malfazeja?) No entanto os ladrados destroem mesmo na distância a sensação de paz; absoluta.
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          A noite é quente, quente a mente, mente a si a paz que é o silêncio do mundo. Ouve-esquece o cão, o qual some lá longe na sonolência, embora mil insetos e mais o grilo a cricrilar ali próximo. Todavia dormita mas não dorme, em temor à insistência do pensamento no seu possível encontro por autoridades ou por fortuitos cobradores e/ou vingadores, todos sempre desconhecidos.
          Um sono de pouco sono e muitas lembranças importunas às suas necessidades cansaços e fugas. É um sono em vigília.
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          Tido como ser pacífico na vila – quem sabe trabalhador fiel à lei quiçá à religião dominante – embora assim,  a sociedade sempre o considerou também simples e meio simplorião, quase folclórico na bondade que se atribui aos mansos. Aqueles de tarefas humildes que não se casam nem se exigindo deles heroísmos.
          Contudo, um desconhecido pode ter brasas encobertas por cinzas... Que se podem acender, iluminar dificilmente mas queimar, ferir, destruir com certeza, haja certeza.
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          Impossível precisar o como, não se sabe onde nem quando, sequer se conscientizando o porquê – relacionou-se com um desconhecido, sujeito de grande porte, enquanto ele inexpressivo homem de estatura modesta.
          Ninguém soube disso. Ao menos a contento, sabendo-se apenas a amizade banal; a qual se arruinou; aqui entrando mulher decerto e bebida certamente, talvez algum choque de interesses na profissão ou nos negócios. Ocorreu afinal na amizade um desfecho trágico – o amigo, 'amigo', fraco pequeno simples, assassinou o outro, forte grandalhão sabido, sem ser sábio. O amigo esfaqueou o amigo antes que o amigo acordasse de manhã!
          Agora? Agora era sumir com o morto. E aqui entra a destreza que um simplório desconhece.
          Um dia após a noite, outra noite doutro dia, um em que a janela, a porta também com mais razão, permanece fechada no meio do silêncio (a paz seria o silêncio). Um dia no cuidado da vigília do homem simples e estimado, pelo menos não conhecido a fundo pela vizinhança. Mais um dia com sua namorada noite.
          O homem, o homem vivo, vivo na esperteza tão distante dos simples, o homem desperto resolve dar mais um dia ao homem a 'dormir', dormir diz o quem sabe. Porém como depois executar aquilo!
          Planejara todas horas disponíveis, e as tinha à vontade e de sobra; idealizara o como. Logo se põe ao como.
          Usando a experiência do açougueiro, ele que fora auxiliar e aprendiz na aldeia; se põe a esquartejar o defunto. Quase não improvisa, só o ato no todo sendo improviso. Afia a ferramenta lima bem o corte; e se põe a serviço, quieto no silêncio da noite – e o cheiro do amigo já enjoando... Corta separa junta acomoda ensaca as parte (e aí precisa despedaçar melhor com machado barulhento e no fim já num estardalhaço, inimigo do silêncio da paz). Daí interrompe o afazer para examinar curiosos enxeridos; entretanto nada mais ouve além do silêncio da solidão nas imediações; exceto um cachorro que ladra longe seja o fio da lua ou a presença de alguém. E assim prossegue. Pior: sem sentir remorsos, talvez ouça a rusga do ódio ou do acaso. Prossegue célere mas compassado qual conhecedor do métier. Após horas acaba o serviço.
          Agora é seu próprio policial ali de plantão, a vigiar a janela e a examinar em todo instante uma visita indesejável. mas o serviço não andava completo, pois necessário apagar vestígios e piormente no melhor as provas mais flagrantes do delito...
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          Ontem no ontem do tempo policiou todas horas; se policiando ao mesmo tempo todo tempo. Até ao fim dos tempos, para esconder sem poder se esconder. Acabou sua existência, que julgava ser a vida na vila.
          A vida não obstante prosseguiu. O mato cresceu a casa caiu. No meio e de entremeio surgiram e cresceram na área flores silvestres em promessa de vida.
São Paulo   fevereiro  2019