quarta-feira, 14 de outubro de 2020

Continho Surrealista (e safado!)

 

Continho surrealista (e safado!)

 

          Parecia ser impossível – ora toda hora até o impossível vira possível; todo e qualquer texto de loucura mostra exemplos... Parecendo impossível. Sim. Não seria e foi possível esbarrar na verdade da mentira na Verdade; dessa forma é que esbarrou (ele, elinho, bem dito) no pichador. Qualquer? quanto? onde? pra quê!? Puxa.

          Parece ser que nem todos se deparam com alguém sujando paredes manchando cenários se expondo desnecessariamente à lei ora a lei. Não com ele, ele todo borrado era só tinta pincel lata e ainda ali buzina ronco de automóvel no trânsito parado em saída na saída dos burgueses da cidade grande, megalópole, a fugir à praia no litoral e/ou ao interior, para não morrer de tédio na quarentena eterna sem amém. Ele, Ele se defronta ali com a indignação de Elinho. Por quê? por andar o palpiteirinho a corrigir um texto, texto depravado por um erro;  errinho de nada mas grandalhão, por ferir a língua. A dele? e a delinho menininho e criança não é uma gracinha? Não. Sim a língua que todos (quase) falam (errado:) agora errado mesmo por um errozinho assinzinho de pequeno e por desnecessário, de ortografia... Era para grafar com X de Xisto pichara com ch do chapéu, ninguém mais usa chapéu e... ué, nem como acentuação! Esse caretinha aí, aqui a meu lado de olho comprido no grude que fiz na parede no muro na entrada, não entrada e sim saída como avenida onde passam os loucos a fugir da pandemia é claro e principalmente do escuro da loucura desta megalópole. Que faço então!?

          Olhe aqui, garoto – quer parar de chocar o que deveria haver escrito nesta parede imunda (lembra algo mais feio) ter enfim posto numa palavra devendo ser ch um xis, aí o xis da questão... vai que, ia pois no momento errado errei ou me enganei, engano se for de gente da gente, porque aos outros a dureza da lei – olhe aqui, fica terminantemente proibido me fiscalizar neste local imundo do mundo imundo (nisto não lembra imundície). Errei, pronto, não se fala mais nisso e suma agora mesmo ou... eu sei o que fazer com moleque a cozinhar um artista, quer dizer me tratam sujador da beleza pública outros me epitetam mero pichador e nisto é sim com ch e não entra o xis da questão.

          Olhei. Olhei alheio nem a orelha do pirralho: sumiu.

          Era um urubu pouco mais que nenê, pássaro de pescoço pelado penas pretas; decerto farejando almoço e está de fato cheirando carniça por estes lados. Dizem que onde urubu a voar, podridão!

          Sou urubuzinho... Que horror aquele cara se supondo artista de rua no entanto sujando de tinta a rua, simples pichador, desses tipos grudados às paredes lá no alto a rabiscar enfear edifícios. No meu meio no meio de meu grupo não há disso, ou seja tais desservicos que... não importa, importa meus pares. Aqui, lá, reunidos desunidos. Nós crianças não temos vez, os grandes, até mamãe já me passou a perna fugindo ao instinto maternal. Os demais então e sobretudo os machos, me tocam. Serão capazes de tirar do bico de menino uma vianda bem temperada pelo tempo, isto é condizentemente no limiar da podridão. Sobra a sobra que nunca sobra na sobra ou ir procurar uma criança igual a gente porém doutra espécie... como aquele gatinho enroscado já cadáver num vão do prédio a espera vivo do bombeiro desengastalhar. Cheirava bem, mal ficara o pichador imaginando-me a olhar seu erro de português. Olhava, não abro mão de meu direito em ver algo. Por exemplo o sujeito pôs 'x' de Xisto no lugar de 'ch' do chapéu; na verdade ninguém mais usa chapéu nem gravata nem anda pendurado no estribo do bonde, não tem mais bonde apenas carros – uns loucos a fugir desta loucura de cidade é claro. Pois Ele embirrou pro meu lado. Todavia, a voar longe, ainda o vi raspando o X na parede e tentaria certamente pôr espremido ch, sem caber no espaço porque duas letras; o que lembrei ao sujador e perguntara sobre o chapéu, nem servindo para acento!? Ficou feroz. Sumi.

          Estou no meu povo. Comemos (eles comem, eu... não me sobra sobra) jantamos almoçamos lanchamos um boi, antes touro e no acougue vira carne de vaca. Se fosse bezerrinho talvez ganhasse um naco. Não deixam aproximar-me. Chegaram os meus, sempre dedurada a vítima por um de nossos olheiros. Aterrissamos. O mais valente ou mais faminto logo bicando os olhos do defunto, a eliminar fiscalização e medo. Aí entramos direto na festa; isto é, eu fui barrado. Então que voei subi desci das nuvens sentindo o gato. Gato é um felino que só sabe dormir. Gatos cruzam-se a miúdo entre si, os próximos, como pai com filha filho com mãe e assim morrem fracos com frequência antes de crescerem ou por entalados a feder na fenda da parede do pichador. Acho que o camarada sujo de tintas imitando palhaço andava nervoso por ruim do fígado ou nem mais tendo fígado pois dizem beberem muito esses 'artistas' e assim apodrece o órgão, daí o neurotismo desse comigo. Ah é isso mesmo, o cheiro do gatinho sentido na área me atraiu mas também o artesão (o qual reclamou haver descido do 19º andar, lembrando a pixotada no erro da palavra no texto lá embaixo e, nisso, não poderia haver despencado de lá de cima igual outros pichadores!) esse artesão fez igual os adultos de minha espécie: me enxotou quando curioso notara o erro de ortografia dele.

          Agora a hora da fome. os mais ansiosos ou mais famintos ou mais apressados, vão aos pulinhos e estraçalham a vítima, deixam no fim tão só a caveira do bicho. Nem os vermes cadavéricos querem osso: osso ao poço.

          Levanto voo, plano, ah tenho um plano: que tal um cheiro atraente que sinto vindo daquela casa pobre de gente pobre. Vai que, ia que, pensei, encontre o filhote dum animal grande que os grandes entre os nossos tenham comido e não chegaram ver o menininho filhote do bicho adulto – prato cheio ao meu estômago. Isso não vejo, vejo o homem. Magro mediano no tamanho e na idade entretanto creio burro ou louco pois escreve, escrevera não sei o quê; fez a seguir bolota, desinteressante a um filhote o bilhete, atirou a coisa no lixo. Agora vasculha o lixo põe a lata de plástico de boca pra baixo, espalha tudo – um carnaval! – e daí grita rouco ou louco eureca! achei. Desenrola a bolota com anotações e repete entusiasmado: achei o erro. Estica o papelinho que antes embolara e constata o deslize na língua. Que horror comenta o solitário aos seus botões. A seguir corrige se corrigindo com esferográfica vermelha. É quando coloca X no lugar do grupo ch posto errado numa palavra, em não ferir a ortografia e a língua pura. Imediato repõe o lixo no lixo, já tem um xereta ali, um vira-lata cheirando se tem cheiro não tem, tem fedor de lixo, de pouco interesse a um menino-urubu. Enrola de novo o papel de lembrete como bolota e o atira bolotado no lixo...

          Voo, subo desalentado com um fim sem fim. Próprio dos loucos da megalópole, embora na periferia dessa loucura. O indivíduo sequer me vê, vê o cachorro o qual dispara numa ladração infernal; quem aguentaria isso no solo a procurar carniça... São Paulo   outubro 2020  

segunda-feira, 28 de setembro de 2020

Coisas do Demo

 

(conto) Coisas do Demo

 

          Não Demônio, Demônio não! oh seu demoninho em melhora da geração (e ao companheiro a seu lado: Esse menino é burro, burro totalmente; a gente ensina e não se corrige; demônio a mãe dele que o gerou, pôs neste mundo 'comportado' a cria dando à luz a isto:) Mequetrefinho espúrio e arrevesado, vem cá; já não falei a você que não é Demônio o demônio desse novo vizinho e que dizem se chamar Demógenes ou Demócrito, estes que foram uma luz no caminho e carinho de sua geração helênica, a longínqua Grécia dos Clássicos. Nisso cospe no chão quase nos pés do amigo e limpa o chão com o bico do chinelo de dedos de borracha e daí continua a explicar para o companheiro: esse fedelhinho me põe maluco, me joga contra a minha esposa mãe dele e contra o novato, creio um vizinho louco ao menos mal-encarado, a dizer do homem asqueroso que o mesmo olha pra vizinha minha mulher e genitora dessa porcariinha; ela casada comigo no padre da Vila quando ainda vila inexpressiva. Depois no ccartório quando a Vila cidade com prefeito, aquele ladrão do João barrigudão. Nada disso... (agora ao menino:) não rapazinho, você inventou...(comenta com o amigo: me dá uma cheirada nesse seu pó dos deuses e depois me empresta um cigarro, se não não aguento). Torna ao garoto. O quê!? Demônio coisa alguma, já lhe disse o cara novo aí do 33 é Demógenes e nunca fora orador líder menos ainda e nunca foi também eleito político pra roubar o povo. Demógenes, abra as orelhas sujas ótimas a plantar repolho, moleque atrapalhado. (Novamente ao companheiro, este sorrindo má intenção...:) Nunca fora o vizinho orador e se o fosse teria abusado da gíria grosseira e bastarda. Entenda, falo sobre um vizinho o qual besta suficiente para aceitar envolvimento do demoninho em que me saiu a cria dela, dele garanto que não, não morava ainda aqui no pedaço quando da fertilização e gravidez dessa louca sua mãe. Mas (põe a mão no ombro do amigo já em movimento:) mas andemos, antes que o mundo imundo dê mais umas três voltas.

São Paulo   setembro  2020

 

         

 

 

 

             

Cena perante Cena

 

(conto) Cena perante Cena

 

          Olho a foto, fotos pois são duas a antiga a recente. Com reparo – não tão antiga ou me complicaria no costume de esconder idade; sim mas velha, aí pelos anos oitenta do século passado. A nova, exagero seja tão recente, também ela manuseada a esmo (toda família quer examinar primeiro fulaninho ou siclanona ou a si mesmo pra observar se achando alguma diferença engrandecedora ou esclarecedora naquela forma gasta "ah como engordei" ou como era enxuto em mil e novecentos e tanto, quer dizer a antiga). Enfim dá para fazer comparação entre as duas poses, a salvar um resultado.

          Ah, tem uma coisa: na primeira e mais velha os membros contando com o negativo do filme, sabe-se lá quem tirou a foto depois revelada num fotógrafo pouco profissional e pouco artístico, visto grosseiras retificações a embelezar fulana, a qual conheci e era sim bela; embelezar mais ou enfeá-la mais ou enfeá-la contra o excesso de bonitura. Ih, tem nisso algo curioso e inverídico; que era em mil e novecentos e bolinhas o ser a ser fotografado usar perfume a sair melhor... claro, mesmo nessa época não se acreditando.

          Mas em síntese o que exibem tais fotografias já dito a velha não tanto, me defendo, e a nova não exagerando atualidade. Bem, apresentam a mesma família mesmos membros (aqui sou eu a exagerar um pouco, reconheço); enfim o mesmo comparado no século passado e em o nosso que é o vinte e um. Na primeira a família em maioria de jovens e por jovens ou por estar na berlinda e entrando na posteridade numa foto, quase rara a pobres, se postam sorrindo. O pequeno de chupeta entre manos pais tios e primos; não larga a chupeta sequer a gravar uma imagem. Todos fixos, duros, impenetráveis? sabemos lá. Porém se não rindo, sorrindo. Não o pai um pouco sisudo, não a mãe meio tristonha. Essa a leitura. E para melhor leitura seria necessário entrevistar as poucas pessoas fotografadas; isso nalguns casos impossível sem autorização da Morte...

          A segunda tomada já feita por novo desenvolvimento tecnológico; no entanto se percebendo algumas diferenças na mesmíssima família, a mesma sim pois fotografados com certo objetivo talvez apuro e até um fim histórico, nessa reunião quase proposital a um  registro. No passado a novidade vinda do laboratório era enviada aos parentes, sobretudo aos filmados nela. A resumir, na segunda, a recente, a cena expõe a família, de certa maneira ainda unida e reunida aos olhos do fotógrafo; se bem que nesta aparece alguém desconhecido e que não consta na foto antiga; pergunta-se seria primo vizinho 'namorado' de alguém!?. Voltemos a comparar. O pequerrucho na foto recente fóra, fôra ao céu. Um outrinho na anterior na expectativa em ver o espocar da lente, esse já não tão pequeno, ele na outra e antiga vendo o plec de filmar, agora vê um celular nem liga aos parentes que desejavam tanto sair na fotografia antiga. Em a nova: sequer nota os companheiros ao lado; não sorri, sorri aos bonecos do joguinho no aparelho móvel... Os demais ninguém sorri. Ou não se nota pois todos de máscara contra a pandemia que assola o planeta. Os mais irreverentes gozam ser focinheira não máscara ou bico de pássaro como urubu ou outra ave de rapina enfim. Alguém mais chato analisando a nova 'recente' fotografia da família irá notar diferenças nas cores no formato etc. dessas ditas máscaras, sequer vendo o mascarado por baixo do por cima... Vendo antes que isso a posição se certa se encaixada no nariz; tem um com a sua dependurada na orelha para ficar livre a fumar.

          No fim, se fim, finda-se com uma observação, a qual conclui numa problemática que nesta última a focinheira esconde o que se esconder: o medo, terror em alguns membros, os cuidados no espaçamento obrigatório na população. Um dado ótimo à liberdade.

São Paulo   setembro  2020

segunda-feira, 21 de setembro de 2020

(conto) Não Falar Errado

 

(conto)– Não falar errado

 

          Não falava errado a envergonhar sua gente perante a sociedade; também não indo ao exagero a analisar profundamente a etimologia e, isto verdade nisso: não feria outrem em ignorâcia das coisas da gramática da ortografia da acentuação; donde se deduz escrever certo podendo até falar errado. Na fala não era tomado esdrúxulo, antes simples. Aqui é dose 'simples' num ser complicado. Noutras palavras podendo chegar a esboçar atrever ferir mesmo alguém do seu meio – embora de família pobretona e sem instrução, pois viveram os parentes sempre na roça, onde ou não havendo escola e quando escola sem escola por sem professor, professora melhor afirmar beirando 1950. Ela, estivesse lotada como funcionária, faltava demais ao serviço e os meninos a voltar cedo à enxada. Ou a permanecer em casa para as briguinhas dentro dela, sob o ralhar da mãe. Mãe dele. Mãe deles, no meio rural geralmente uma penca de filhos. O pai sempre ausente ou no trabalho ou apenas ausente por não existir. Aquele velho drama humano: o homem 'faz' a cria deixa a cria à mulher criar, precisando lavar roupa para fora a sustentar a cria; enfim dá no pé. Ou simplesmente vira um desconhecido.  Cada geração tem seus casos a narrar. E curiosamente quase nunca dando razão à razão feminina. Mas a família perdura.

          Não falava errado. Já grande (adulto de pequena estatura) e com todos vícios na sociedade, onde mais se usa termos de gíria; ainda assim não falava ele errado. O comum é falar errado toda população não só a da roça – a roça  logo desapareceria com o êxodo rural e a exploração do solo pelos mais endinheirados – não só na roça e ainda mais talvez na zona urbana, em que se fala se escreve errado e os que se acham certos ou sábios pegam no pé dos que não sabem fazer uma frase; sabem escrever e dizem também erradamente ao pronunciar; porém mais grave na questão sempre foi e é o escrever falho.

          Não falava errado e sequer escrevendo igualmente falho; falho a diminuir a falta. Ora, todos entendiam mesmo não entendendo palavras frases períodos etc.. Enfim um mau uso da língua; a língua de falar? a língua de falar de comer de  engolir e de mostrar, sim mostrar visto haver gente que põe para fora a língua a ofender outrem; não ele, ele tendo a língua de falar.

          Não falava errado por não falar nem certo nem errado. Não falava por mudez. Também por surdez, nascera surdo-mudo. Pronunciaria certo ou errado quando a aprender a 'falar' ou se manifestar e daí tão somente gesticulando. O que bastante numa gente bastarda grosseira sem berço; enfim desafortunada. Contudo e os outros seus irmãos?

          Aprendeu, a duras penas, 'conversar' com os próximos... sabe-se bem o quanto os nossos próximos nos ensinam, até nas brigas em família.

          Bem, os outros se falassem e de fato falavam, falavam sem expressar-se igual Camões Camilo Machado Vieira. No entanto conseguiam a contento se comunicar – ele no meio aos demais manos e colegas de brinquedo e depois anos depois colegas de trabalho, mesmo porque como se sustentaria a família. Aí já tendo a mãe deles ninhada respeitável; não respeitada pois o povo não perdoando gente com tantos filhos nenhum do mesmo pai... A deixar um saldo enorme como herança herdeira, a qual é a pobreza generalizada todos desejando comer havendo ainda poucos braços a puxar a enxada. Ele também trabalhador.

          Ele, um mudo um surdo um grosso sem voz e sem insultar ninguém, primeiro nos contatos com os coleguinhas de brinquedo e manos mais próximos na idade; depois insultaria a gerar brigas mais sérias de adultos (sem pô-lo valentão, desses temidos por toda uma província). Não obstante, sim enfrentava qualquer. Claro preferir enfrentar a colher o garfo o arroz o feijão. Não reclamava do alho queimado ou falta ou sobra do sal. Nem punha a culpa das coisas na sua genitora; apenas olhava enigmaticamente pros lados dela, ela a aguentar reclamação dos meninos depois ainda meninos porém adultos a se dizer (e diziam mesmo) com direitos, visto operarem a fim de trazer à casa o pão de cada dia; embora ausente o pai, ou desconhecido, conhecido somente pelas comadres num falatório a diminuir a mãe deles todos, no costume das mulheres nunca se porem favoráveis quando, qual galinha, estando a bicar uma vítima.

          Ele não, não tomava partido. Não falava contra nem a favor a ninguém. Sim, tomava as dores dela, sem saber e não ouvindo a extensão da intriga e a língua afiada no falar fiado. Ele não. Mas mentalmente tomava sempre o lado da genitora – em resposta ao trato materno, visto as mães terem queda pelos filhos frágeis contra os outros herdeiros (de quê! o que deixa em herança o pobretão?) ela carinhava mais defendia mais atendia mais e mesmo entendia mais aquele filhote sem fala. Sem fala!

          Ora, ele não matracava borrachas e abobrinhas nem a falar pelos cotovelos como o povão. Os outros manos ou colegas cotovelavam-se até o atrito gerar controvérsia e briga de fato. Ele não, não falava. Falasse falaria decerto certo mais que os demais, pois que não errava na gramática pontuava (se pontuasse e não o sabia) acentuava correto. E desconhecendo etimologia a se desentender certo no errado com outrem.

          Não falava todavia injusto garantir que não se expunha não se punha a defender aquilo que a gente supõe certo podendo ser errado. Apenas não falando e não escrevendo errado a temer se expor como ignorantes que todos somos, só dependendo a escala do erro ou só distorcido ou não suficientemente explicado. Mas isso não quer dizer não se comunicar.

          Não falava não obstante se comunicando. Dentro de sua compreensão do mundo se punha a confirmar as coisas. O ser humano entretanto quase sempre a negar até o direito alheio... aí complicando.

          Com o tempo fora se enfronhando no mundo, como  o mundo era; era não, não chegando aos pés em ser. Dessa maneira se relacionou com demais surdos e mudos a gesticular o desejo do que dizer.

          Numa ocasião e nessa já os familiares dispersos e/ou formando novas famílias; enfim na comunidade em que vivia, a mãe morrera outros membros da antiga casa também partiram. Ele então se bastava – lógico com ajuda pública como religiosos e até gente do governo (o que extraordinário). Assim é visto num pequeno grupo com as mesmas deficiências indo de São Paulo a Campinas, a certa festividade deles. Uma instituição filantrópica fez os contatos alugou uma kombi que um sócio da entidade possuía; a levá-los ao destino.

          No caminho (segundo comentário do pobre chofer...) aí foram batendo, literalmente socando, o infeliz motorista. Isso tudo em alegria dos surdos na estrada, um trajeto de uns cem quilômetros. Então, não falando não falavam os jovens ainda moços perto do velho condutor; a se comunicar e sobretudo ele, ele que não falava é dito, ele eles socavam o peito do homenzinho a se comunicar sob gritos como som, a se conversar 'amenamente' entre si; e a sobrar ao dono do carro.

          Passou.

          Não passou o fato de que realmente ele não falava.

          Mas também não errava o português. Porém desconhecendo o sujeito no volante em qual língua se expressavam. Caso falassem.

São Paulo   setembro  2020

 

         

 

 

 

             

quinta-feira, 27 de agosto de 2020

Conto Tétrico

 

Conto Tétrico

 

          Cai a noite avança o escuro e o escuro no ser, o ser se achando um infeliz desprotegido mas a realidade é o lúgubre e o escuro, escuras nuvens espaços silêncios, silêncios infindáveis para um mundo poluído e mais poluído sonoramente. Rondam no inferno do céu aves de rapina. Não há bem um frio, o frio é no ser, é no seu ser e então pensa ou pensa andar pensando, para atirar longe o imaginário. Longe, perto, onde se quiser (não quer, porém à revelia do ser brada um outro ser:) esta não 'essa', esta noite visitarei o seu cadáver (põe exclamação a marcar o recado). Quanta bobagem a falar quem nada tendo que fazer, que tal dormir!! isto responde ao silêncio à noite escura já avançada e de nuvens mais escuras ainda. Ele – quer dizer o outro, a rigor outrinho insignificante, desses que se quase não vê, mesmo com óculos lente-grossa e ainda assim encostando bem o nariz no objeto... de fato invisível de tão pequeno e disforme, embora o perceba qual certa minhoca sem forma todavia ativa; tanto que enfrenta a defesa indefesa do ser maior quiçá Rei do Universo – Ele ouve a insignificante criaturinha: Esta não essa, nesta noite estarei no seu cadáver. Não chega ao sinal de exclamação pois a verdade não exclama e dispensa avisos e conclusões. Ora ora redargui sem muita força e nenhuma convicção e mesmo sem coragem o homem, homem já que sempre assim se viu. Não tem 'ora' nem hora, pronto, irei visitar seu cadáver. O quê! exclama perguntando o devoto de São Medo, santo milagroso. Sim, insiste o respondãozinho na sua sem significância "estarei nele, no seu cadáver". Melhor, agora é a vítima que se pensa vítima, ela acresce à conversa sem fruto (sem fruto... ouvi sem fruto outra vez Elinho) melhor realmente é dormir – relaxar acordar, acordar aos afazeres mundanos tão úteis à sociedade. Contudo não dorme, menos que isso afrouxa relaxa um pouco estica forçadamente o corpo. E entregar-se para que ao sono chamando o sonho e este escancarando o pesadelo? É um pesadelo, afirma para se sentir. Entretanto ouve nitidamente e com as todas letras o som. Esta noite sugarei seu Meu cadáver. Ai, aí diz a reclamar a vítima: durma-se com um barulho desses; no entanto reinava o silêncio... Em virtude dessa desvirtude a um mundo demais poluído, e nisso escutou claramente Nesta noite disputarei com meus colegas vermes cadavéricos o sugar suas partes moles. Ando surdo, diz o ser sonhador, será cera? mamãe dizia décadas atrás "menino, tem sujeira para plantar repolho na sua orelha". Riu-se, não tendo para quem rir. Lavo levo a baciinha limpo o ouvido e... ouviu Nesta noite chuparei e absorverei todo seu cadáver, deixo ossos duros de roer ao poço... Xô pesadelo xô sonho xô sono, acordem-me para sentir este lugar (não será esse?) e a fim de raciocinar e apreender um salão frio úmido escuro e cheio do nada de pedaços de corpos humanos pútridos malcheirosos. Xô urubu de bico retorcido.

São Paulo   agosto  2020

quinta-feira, 4 de junho de 2020

Um Dia em a Noite do Presidente


3582-(conto satírico)Um Dia em a Noite do Presidente

Digo na reunião ministerial extraordinária o que iremos tratar como emergência, em vista da crise assustadora que o País atravessa. O País sabe a Imprensa 'sabe tudo', é a Terra das Bananas.
          Uns atentos outros a conversar entre si, a maioria dorme no plenário, o salão fica em silêncio vou em frente a dar exemplo aos Ministros; aliás só tenho a me acompanhar Sinistros, sobrou na defecção somente um Ministro; o qual entende de como salvar as finanças. Os demais membros, incompetentes e politicoides recebendo salários nababescos. Volto-me a ele. Ele:
          Presidente, não temos saída nessa falta de entrada: a população bananeira não paga impostos e taxas alegando o subemprego na informalidade o desemprego em toda parte e até o desespero. Precisamos urgente recorrer a empréstimos no exterior... (nisso ou por isso acordam alguns Sinistros sonolentos).
          Não se desespere Senhor Doutor Ministro, já cuido da resolução – entregar ao meu sócio superior o território de Bananas, o qual se tornará o 51º estado na confederação, a agradar Tio Sam, um santo milagreiro e protetor do Planeta quiçá do Universo. Fácil, fácil... o 51, aquele da boa ideia.
          Dou-lhe já a palavra Senhora Sinistra; o problema capital é fechar a boca da Imprensa; mas porei a metediça no seu lugar – como fala o Sinistro da Educação, todos na cadeia.
          Não ouvi bem. Ah, não foi seu colega da Educação, de fato ele não se referiu à Imprensa e sim ao Supremo. Não muda o drama, todo mundo é contra meu governo, sobretudo os esquerdistas, bando de comunistas, acabaremos com a baderna desses filhos da mãe (eu pronunciei outro nome, a Sinistra ficou envergonhada). Ora ora, tudo isso porque o Ministro da Justiça desertou e fez afirmativas na mídia que o Presidente interferira num órgão sob seu comando, a Polícia Federal, para obter informes sigilosos em caso envolvendo um de meus filhos, o qual a Imprensa trata como corrupto e até criminoso; os meus herdeiros estariam envolvidos na queima de arquivo eliminando um miliciano assassino – mentira deslavada dos jornais e daí o porquê cortei as verbas antes oferecidas às televisões. Saiu o Ministro, pus o melhor dos Sinistros no lugar, ninguém aceitou o manejo, muito mais a Imprensa mentirosa.
          Agora a coisa piorou nas Bananas por culpa não só da Imprensa porém das Potências Orientais: todos nós sabemos que espalharam uns vírus nas outras nações, não aqui em Nossa Querida Bananas onde apenas viceja resfriadinhos e gripezinhas mansas; além de o bananeiro ser um ser forte e a crescer na lama, sem doenças sem mortes. No entanto nada convence a Imprensa criadora de casos. A verdade é que, atingindo a crise de saúde os males no exterior, as exportações bananeiras sentiram e daí a falta de recursos a atingir nossa moeda, não é Ministro?
          O Ministro responde sim de cabeça.
          Contudo, ainda a faladeira Imprensa apresenta em letras garrafais na primeira página que o Presidente nunca ampara o Ministério da Saúde (não é mesmo, Sinistro?) e diz ainda que troco meus insubordinados auxiliares por Sinistros sem competência a gerir instituições tão importantes. Diz que não oferecemos meios à Saúde para combater resfriadinhos e desviando verbas a fim de garantir minha reeleição! Cadeia aos membros da Imprensa.
          Neste pondo examino os Sinistros: até o Ministro incomodado.
          Além da Imprensa – prossigo meu discurso – além tenho a combater os Governadores de Províncias nas Bananas, uns estrumes. São frontalmente contra meu direito a representar este povo ordeiro; uns outros abusam nas funções fazem planos para me derrubar e o fazem a isolar o cidadão da província em quarentena, obstando o funcionamento da economia da Nação (não é assim, Ministro? consentiu novamente de cabeça). De que jeito salvar nossa moeda, como impedir a fome sem trabalho livre com polpudo ganho – preso dentro de casa e ainda amordaçado com máscara, a qual chamo focinheira! como pagar conta. Os Governadores estão contra o Presidente eleito já sonhando inclusive sua reeleição! Tais políticos andam mancomunados com a Imprensa e a procurar uma forma de acabar com o estado de direito e a democracia.
          Mas senhores, essa corja toda de detratores de meu governo – a Imprensa mostra como desgoverno... – essa corja tenta instigar os políticos honestos e dignos do Congresso; mormente os dos partidos que me apoiam (a Imprensa insiste que a troco de verbas para alguns políticos e aos seus estados) inclusive a mexer com os da oposição... A Imprensa espalha que nos meus 28 anos na política o Presidente como deputado nunca participou de uma comissão; mais: que eu votava sempre junto com o PET, o partido esquerdista no trabalho, meu arqui-inimigo, agremiação corrupta e condenada pelas falcatruas, portanto criminosa. A Imprensa inteirinha comprometida com os crimes e a me difamar. Essa gente só à bala. Aliás o Povo me elegeu na promessa de limpar Bananas a bala! Faço como Presidente todo empenho em armar o País e mesmo criei acampamentos de apoiadores de meu partido, o qual aliás se voltou contra mim recentemente; a Imprensa explora isso me acusa de reunir esses patriotas, com o beneplácito da gente fardada, para tomar o poder de vez, acabando com os comunistas, um perigo universal! A Imprensa apenas vê o lado mau da verdade e mancha o nome honrado do Presidente. Mais: ela mancha meu nome vendendo e distorcendo a opinião aos outros representantes estrangeiros adversos a meu governo, governo quer dizer Vocês Sinistros e o Presidente. No entanto o Presidente recebe amparo dos religiosos e assim a Imprensa age igualmente contra Deus. Valha-me Deus!
          Agora a Imprensa teimosa propõe que os políticos decentes abram processo de impeachment e torce para que o Presidente não tenha maioria no Congresso, pois os mandatários derrubados anteriormente no País das Bananas o foram por não contar com apoio no Legislativo e no Judiciário. Neste ponto ouço um sininho no Plenário, olho enfezado o despertador, aquele barulhento; e escuto a mulher zangada. Ela:
          Seu dorminhoco, seu porco roncador não deixa ninguém dormir, seu burro, seu vagabundo – o trabalho à espera, o sol alto, as crianças brincando e brigando no terreiro, as comadres no falatório – e a enxada enferrujando na tulha as pragas crescendo no cafezal, assim o patrão reclama e Você?
          "Ué, os ricaços não acabaram com a roça!"
São Paulo   maio  2020




quarta-feira, 20 de maio de 2020

A Grita


(conto) A Grita

Ouviu mal, não disse Chiquinha. Não: Xicrinha, Xicarazinha, pronto. Eis aí a voz, a voz dá razão a quem a tenha e aliás pra que existe acento... ou ficaria a voz da razão. A tagarelice dos objetos inanimados? ora ora.
          Uma grita geral, ninguém no lugar se entendendo, dentro do comuníssimo dizer: na casa em que falta pão todo mundo grita, ninguém tem razão. Exceto a desaforada xícara.
          Não é uma loucura?
          Ela pequena miúda um tiquinho de gente... não, de objeto, objetinho inanimado, de fala alta. Afirma-se haver gritado e ainda em voz de falsete, o falsete quando a gente pensa homem vê mulher ou imagina mulher sendo macho pra valer. Em todo caso crítica, critica tudo. Nada lhe serve.
          Deixaram batom na minha borda, próximo do trinco. Ninguém tem também, hein, cuidado, delicadeza comigo. Daí por diante elinha mostra a traseira do passado. Prossegue.
          Aquele frescalhãozinho do pires, que devera estar aos meus pés. Onde? sumiu.
          A tigela de louça, louca, quebrou-se e se partiu em mil pedaços; se fosse sustentada por um pires como eu...
          Ora bem, ninguém igualmente tendo estima aos metais, ferros e alumínios da casa, casa esta de pau, pau podre. Vivem, se vivem, amassados e exibindo desserventia, abandonados; servindo apenas aos celerados bater fazer comício contra o governo, aquele ladrão! Batem, batendo um contra o outro e aos gritos, nuns xingos de envergonhar meus brios, meu moral, ih quanto eme; deixa pra lá.
          Estão aí os talheres, como a colher que é mulher do garfo, a faca,  uma de serrote, de serrinha pra cortar quem se interpuser... Uns brutos, não servem pra comer (comer! credo, cortariam lá por dentro dos mais brutos:) quis mostrar servir para ajudar engolir o alimento. Pois não tem a colher de pau!? Uma trouxa.
          Nas louças, loucas falei por baixo do pano – as louças umas tontas tanto exibir seu brilho fosco de má lavagem; engorduradas engordadas trincadas por vezes; essas não recomendo; sobretudo a travéssa travêssa; tapeia esse trapo todo mundo; todos se põem contra ela. E mais, sem beleza alguma a feia. Nem forma definida tendo, seria oval retangular enfim desmanchável trincável quebrável. Vilona, não: vilã, pronto.
          Outro horror é a assadeira. De alumínio ou latão, lata de flandres desamassada ao bolo que se não faz na casa pobre; e faria dona Maria na sua gritaria onde! não tem forno, tem chapa de ferro a queimar a mão dos descuidados – o fogão é à lenha com fumaça de arder os olhos da gente...
          Ah não tenho olhos só boca de gritar a grita geral e oportuna, importuna aos críticos. Nem sou gente; gente? que vantagem maria leva?
          Não mais existe na casa de caboclos lavradores pobretões e ignorantes... ah certo dia um da casa pronunciou, pronunciou que ouvi: "inguinoranti" isso a outro da mesma iguala. Mas não existe geladeira. Sem energia elétrica, a noite é tétrica aqui, próprio às assombrações; um tremelicar de luz de lamparina com fedor de querosene. Pois é, teria então isto geladeira, Dona Maria põe para não estragar ovos e limões enterrando na terra, na areia, na areia fresca porque...
          Ora ora, teria como nas casas urbanas um refrigerador tão só para colar figuras ou sustentar o papagaio de louça e piormente a servir de base ao despertador! que absurdo. Seria mais viável a geringonça despertar-a-dor e não marcar atrasado horas num tique-taque irritante.
          Em compensação, diz e grita com volumosa voz a Xícara (embora se veja poética...) a Xícara linguaruda de olhar voltado ao filtro, mais talha de refrescar água. Olha o pobre na casa pobre da pobre roça hoje falecida assassinada pelos burgueses. Ele daí se esfria pela quente língua viperina. Ela sorri. Volta-se aos outros trens de cozinha.
          O bule de café, o bobo e desgracioso pano de coador, sujos bule e coador... pratos de gosto discutível ao caírem se espatifarem a fazer Dona Maria usar a mão e as nádegas filhas sofrerem chorarem... ah a panela.
          É uma porca. Suja escura grudenta. Ela? ela e elas outras a serviço e uso.
          O pano de prato, encardido. Feito de saco vazio de farinha; bordado pelos dedos grosseiros da velha Maria. E os demais panos de uso abuso no lar 'doce' lar. Guardanapos toalhas lençóis travesseiros fronhas cobertores; uh que feiura e desengonço nos... grita a Xicrinha.
          Nisso despencou ao chão a concha indignada ou assustada apavorada. Por isso. Não. Por tudo isso e a loucura da gritona então rouca a chorar lágrimas de crocodilo, no relembrar os tempos passados e seus sentimentos com saudades, sua época dos desejos, naqueles tempos de juventude, então a andar se pintando vaidosa.
          Foi quando um pássaro preso na gaiola se pôs a cantar. Xicrinha: "cantaria melhor se estivesse do lado de fora".
São Paulo   maio  2020


quarta-feira, 6 de maio de 2020

Da Arte Cabeleireira


(conro) Da Arte Cabeleireira

Era uma grande chance... Não. Não pensou nesses termos; assim mesmo oportunidade e tanto porém não formalizara a coisa, a coisa viera qual presente inesperado.
          Mamãe saíra a cuidar da Comadre Dita, dita senhora negra de cabelos brancos e portanto forte pois dizem que negro quando pinta... Contudo enferma e daí cuidados da comadre. O fato é que saíra de casa deixando mil recomendações ao herdeiro único "não mexa nisso não pegue naquilo não vá ao fogão não olhe o poço não sonde os meninos, moleque só faz artes e..."
          O garoto a ficar com mais medo que do medo que a mãe tinha das coisas. Vivia só, acompanhado da genitora, esta exagerava muito nas palmadas, o pai aparecia somente noite não se contando com seu apoio. O rapazinho vivia dentro de casa, no meio da gritaria na vizinhança – sem liberdade alguma, sujeito ainda à severidade no lar, sem doce. Temia a mãe porém mais a temer ficar só, visto as estórias que ouvia da maldade humana. Não obstante já temesse por imitação à mãe a casa de tábuas velhas com novas e novas baratas. Nas frestas vicejavam as cascudas grandes e fedorentas e as pequenas marrons voadoras dando pavor. Olhou-se no espelho trincado e viu um garoto apavorado; aqueles cabelos espetados volumosos e duros, decerto do terror.
          No início da ausência da senhora à Comadre, ele se sentindo deserdado da sorte. A fugir disso, pôs pra funcionar a imaginação e criou mil brinquedos. Mas estacou nos cabelos. Havia uns cachos de enfeite que eram objeto de horror pra si, os fios duros no pentear, e isso despertou a lembrança dos piolhos: a mãe usava o pente fino e pela agitação do paciente, ela impaciente, dava no pequeno uns 'croques' doídos com as costas do pente. Nisso juntar a cabeleira e o espelho único na casa. Trincado embaçado distorcido pois não sabia quando focar numa ou noutra parte do vidro, que andava enganchado na janela fechada, era-lhe proibido abrir e contatar os meninos de fora. Tomou a tesoura na máquina de costura, daquelas a manivela, usada pela mãe aos remendo da casa. Não sabia ler todavia sabendo Solingen, de têmpera e fama. Olhou-se firmou-se e se pôs a arranjar os pelos no couro cabeludo como fora seu barbeiro. Trec daqui trec de lá, foi podando (ou acertando segundo sua linguagem cabocla). Tirou um tufo, deixou no lugar um buraco novo. Aparou conforme os trincos do espelho até se sentir aliviado... quiçá belo.
          Daí ouviu o pisado duro de mamãe, afobada suada preocupada cansada. Abriu de quase supetão a sala, clareando toda a dependência. Deparou-se com cena inusitada, de perder a fala. Não eram as baratas temerosas a fugir das tábuas podres, era seu filho!
          O fim do mundo? O fim do mundo.
São Paulo   maio  2020
         



             

sexta-feira, 1 de maio de 2020

Curta o Conto Curto


(conto) Curta o Conto Curto

Sim.
          Sim, disse a pensar não; não de não quero de não estou nem aí lá na mesa do chefe onde o telefone fixo, não haviam ainda inventado o celular nem o computador, brilhava ao sol da nova manhã as teclas da máquina de escrever Remington. Sim.
          Tem gente, a maioria na gente, exclama a resposta-pergunta 'alô' e uns esnobam "alôu" imaginando exibir erudição, não ele servente-contínuo e politicamente encaixado na repartição. Sim.
          Quem? ah deseja falar com o Dr.Magalhães... Não posso chamar o Doutor, ninguém aqui pode mexer neste telefone, só o chefe, por ordem da chefia. Eu? senhor... eu mero funcionário.
          Não, senhor, não posso é proibido.
          Não insista, por favor, é Senhor José? sim, não.
          Compreenda, na repartição apenas o comandante decide, sou tão só lotado aqui (não diria nunca nunca disse indicado pelo vereador mais votado no município; não afirmou:) não posso atender o pedido pois sequer atendo quando minha esposa; e nisto narrou as dores da menina mais nova que se encontrava enferma; o chefe proibira atender...
          Sim, senhor José, o Doutor Magalhães está presente nesta repartição todavia o chefe...
          Por favor, amanhã nesta hora o senhor liga e falará (com o Doutor não garanto:) com nosso chefe e...
          Ontem, hoje, ainda o nosso líder não chegou, somente eu e outro servidor no trabalho; ontem prometi, estava está aqui o Doutor Magalhães porém...
          Olhe Senhor José, não posso em minha posição funcional limitada; o sr. compreende a onda avassaladora no desemprego e temo que a autoridade me corte o ponto por desatender suas ordens – como depois sustentar a família! Não posso pôr na linha o amigo do senhor, o Dr. Magalhães. Então aguarda, falará com meu superior diretamente. Não creio possa atender seu pedido...
          Compreenda, sr. José, a situação de meros funcionários, compreenda. Contudo, deseja minha opinião sincera?
          Acho sequer nosso maioral resolverá. Em todo caso pode telefonar dentro de uma hora... Quer mais prática opção? vejo aqui o número da sepultura do Doutor Magalhães e o senhor irá direto ao local; daí se falam se entendem.
São Paulo   abril  2020
         

         



             

sexta-feira, 17 de abril de 2020

a Loca oca


(conto) – a Loca oca
A poesia pede licença ao Leitor para mostrar
uma realidade tão chocante (quanto verdadeira...)

Aquela grotesca loca escura negra do não ter ter mas não ser, ser nada vaga sombria, tétrica inclusive; aquela por seus restos, um restinho na ótica da réstia do enxergar, mal embora, aquela criatura insana talvez, teimosa com certeza; aquela – olha desde o crânio donde vive 'vive', ela se fixa por além da residência onde residiu tanto, ou mora inda, firma a imagem do seu quintal por entre frestas duma janela, antes escancarada; e critica, crítica, o que vê ou somente percebe e compara o agora quiçá o futuro de hoje com o hoje de ontem quando dona da casa de gente pobre grosseira e (com mérito:) mui lutadora.
          Passa então em revista o que viveu convive sobrevive diante tantas questões numa vida simples, simples vida que não é vida e sim uma de suas existências...
          Porém que é dela!
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          No agora e quem sabe no agora de antanho, em que existia por existir e mesmo se chocava com que chocava seu ser perante outros seres que também lutavam (bravamente?) para porfim criticar os mandos e desmandos doutrem. No agora todavia eis que veio o depois e o depois do depois ainda a acabar com a 'vida' (então sim os apóstrofos salvam a verdade) um sub-viver no sobreviver comum na pobreza vem – relembra num ápice, rápido e próprio do pensamento apressado; relembra como fora seu findar...
          As dores os desastres da vida, ainda não sabendo de fato o que vida o que existência; o sofrimento, então ela a pensar infindável, e a morte... Ah a morte alfanje foice corte decepação decepção na vida! A morte age devagarinho e após, num lance, corta as amarras. Ela, ela a forma humana até aí íntegra ou quase isso, Ela se percebe parada neutralizada desligada (ou, por que não dizer, mui ligada!) sem forças sem obediência dos órgãos costumeiros atentos então sem sangue vivificador, sem energia sem controle de nervos e músculos. Ela, perplexa! sente que não sente e sente-se desligada qual fio da tomada elétrica; sem voz sem sorte sem ação sem força e com muita vontade mas sem conseguir se fazer entender!
          Entretanto ser entendida por quem, se um homem solitário naqueles confins de mundo. Pegou-se na situação estranhíssima de solidão num bairro pobre, paupérrimo, na periferia de Sol Dourado, este um enganoso topônimo para um município também pobre tal qual os munícipes, ele por extensão, apesar de poder ainda quitar seus impostos com o fisco através da aposentadoria minguada e assim se fazer vivo senão ao governo vivo, à estatística morta e mentirosa. Vivia, sabia viver, a constar nos cadastros oficiais, inclusive tendo direito tal qual outrem atirar a culpa dos erros no governo, entidade de costas largas; a fim de poder justificar sua situação e quiçá comparar-se aos demais cidadãos.
          No entanto vivia subvivia sobrevivia só.
          Andava só (costumava brincar consigo mesmo "só e mal acompanhado") sozinho na cadeira tosca de pau e palhinha – a ligar-se, ah que horror na falta de opção, enfim num ver tevê; de repente não mais via não sentia não podia (não poderia) não podendo interpretar o que sentia, ou melhor no pior: de fato não sentia. Ah a morte? a Morte.
          Garrou a pensar tentar destrinchar aquele imbróglio novidade pra si talvez e aos outros com os quais convivia no subviver a sobreviver com seus vizinhos quase sempre longe, quer dizer longe também de se pegar (tocar?) qual na cidade grande em casas parede-meia ou num pior apartamento geminado para se sofrer ofensas de vizinhos sem coração e sem sem lastro sem educação na sua grosseria. Não. Vivia, fosse isso viver, vivia distante mesmo das casas perto. Coisas da sorte, ou da falta de sorte...
          Fora aí se pegar estático, sem poder mover-se sem poder ao menos o mais do gritar...
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          Depois disso tudo os dias passam e vem o estrago. Natural não haver se sentido inclusive a feder. Certo nesse incerto cheirar mal. Alguns urubus pousaram conversaram suas coisas nas imediações, um abusivo chegou a se grudar no peitoril da janela sempre comportada arreganhada agora e mais ou menos destrancada. Nisso entra o Peri, lá fora, ainda o pobre amigo apesar de faminto sem alimento e água na latinha de marmelada por dias, ainda vivo a ladrar sem forças a afugentar as aves de rapina. Contudo desconhecia o dono daquela loca, agora oca, estar morto. Soubesse espantar-se-ia primeiro como bom caboblo e depois quem sabe choraria a sorte, a falta de sorte.
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          Porém como via, se vago limpo e até 'arejado' o buraco onde outrora umas vistas verdes ou esverdeadas a ver o mundo azul (sempre apreciara o firmamento diário, a lua à noite o sol no dia) e que usava tal para também ver vizinhos passantes desconhecidos a se distrair. Sim, como vendo se os vermes cadavéricos famintos ágeis prontos eficazes já houvessem feito perfeito seu trabalho de desmonte a mando da natureza, trabalho de limpeza naquele cadáver nada fresco e sim na condição do desintegrar-se!?
          Ocorre, ocorreu, de um daqueles soldados no exército natural – sim perfeito ou imperfeito preocupado no desafio do desfastio, em síntese apressado na luta de iguais na montanha de carnes agora dócil como alimento, almoço jantar lanche. Então ficara certa incerta nesguinha de resto de olho no olho, o esquerdo no qual um defeito não permitira nunca o pobre, em vivo, abarcar melhor o todo no tudo que pretendendo examinar, digamos uma cabocla linda digna de se notar e desejar... No entanto agora restava ao homem apenas nesga insignificante na loca na órbita escura ao final também do dia. Assim mesmo distinguira bem a janela e o pra lá da janela da casa pobre onde sempre vivera, então morto!
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          Viu de longe o caixão ( dele! credo. Não:) o caixão do poço donde extraíra tanto o de beber, uma vez inclusive a corda no sarilho partiu-se, o balde nela preso despencou lá embaixo na água, um barulhão e tanto. Havia posto a viver ali peixinhos, restos de pescaria a criar no fundo e naquele momento imaginando: não teria matado a queda do balde seus peixes! Ah cada bobagem a gente põe na cabeça. Nessa altura do pensamento apesar de morto ele mesmo, o caboclo ali sentado, antes a se distrair nas bobagens televisivas; invenções, "inventação" diria dizia sempre: guerras os homens indo ver a lua na lua; e propaganda, muita propaganda e para desfastio ou paranoia mundial a moléstia do momento; e pra se aliviar ou fugir disso, vê as caboclas bonitas; daí ele para sente olha, não olhava; não poderia ver...
          Que mais via?  Oh... não mais via...
São Paulo   março  2020

terça-feira, 10 de março de 2020

As Constrangidas


(conto) - As Constrangidas

Não poderia dizer aqui os olhos constrangidos os ouvidos constrangidos; mesmo porque dando o enunciado um choque sonante horroroso e nisto a gente desiste. Ou fala de uma vez língua mas aqui se apimentaria a conversa. Fiquemos no  constrangimento da gente no total da gente. No caso deste caso gente do sexo frágil, hoje mais forte que o forte, não só na língua não: no mundo. As constrangidas se unindo num trio contra um pobre indefeso vizinho. Essas. Essinhas, se bem nesse mal uma de um corpaço feminil de liquidar com a presença os machos ainda restantes da espécie Homo.
          Enfim temos o inferno na torre, embora 'torre' um exagero na vaidade dum edifício antigo baixo em meio aos cumes por volta, estes sim lá nas alturas. Não importa, importa estarmos no sexto andar, 6 já sendo o último numa tentativa eliminar o mando desmando quem sabe dum imprevisível sétimo, o 7 sempre mentiroso na voz da rua. No sexto.
          Aí o universo dum mundinho de intriga e má intenção; tudo a girar em torno de um inexpressivo velho a desmanchar no apartamento usado e alugado; aliás todos são inquilinos.
          E o trio constrangido? Um dos pés, se não o mais sólido e/ou podre, um é dela, eletriquinha, jovem, abusivamente diria bela a mentir. Não sabe o pobre velho sem mentir, mente aqui, não sabe é mentir o nome. Omite. O segundo pé se se quiser, certo dia, uma noite, noite a rigor e mais rigorosamente esta madrugada, trouxe por seus caprichos um macho da espécie com nome! isto abuso na verdade pois apenas ouvindo Canário ou Canalha, orelhas gastas nada sabendo mais sobre um único varão na casa (que é uma quitinete pobre do prédio pobre a pobres alugar). Contudo esse forma com aquela um casal, ora ela impõe ora ele obedece e assim se supondo obediente às outras suas namoradas (hoje dizemos namorada e não amante). Que faz, que fazem, se fazem, é esconder intenções. O abelhudo vizinho da vizinha sequer lhe conhece de nome e isto não é conhecer; esse tal ouve as entregas de material às três ou quatro da madrugada e então ela manda o homem ir buscar lá embaixo, estão no alto da torre e na alta moral. Isso depõe contra a legalidade social visto as entregas comerciais de material ocorrerem das 8 às 18 horas. Porém o quê de quê para quê, ah quantos quês!
          O terceiro pé a vizinha do 62 (todos residem no 6º andar). Criatura atormentada pelo constrangimento, daí ser uma constrangida. Briga até com o velhinho fraquinho indiferentinho; inclusive com esse pobre diabo. Não com ela, a do Canário ou Canalha e a quem sua mulher uma vez nomeando "cara de pau", não devendo concordar com o registro civil dele, ninguém assim registrado. Concluindo pensamento, a terceira trabalha fora no horário comercial enquanto a do canalha é dama da noite, da madrugada se corrige aqui. A terceira do trio e em suposto conluio – é bela. Não é fera! Não. Trata-se de certa beldade digna desses concursos de miss qualquer coisa. Apenas sorri educação no elevador a baixar ao térreo, ganhar a rua indo ao escritório, nisso sem constrangimento. Aliás os funcionários colegas no emprego se dão bem com a moça. Todavia conta no dito trio a mulher bonita por se constranger no corredor, certamente na timidez.
          Queixou-se o trio, cada qual por sua vez aos administradores, de o vizinho deixar escancarada sua porta, a talvez envergonhá-las no passar frente a essa traseira social e daí perceber a miséria do idoso...
          Ora, não deveria ser ele o constrangido? Entretanto difícil mudar um título, título daqueles teimosos de estória tão quanto fraca quanto pobre.
São Paulo  fevereiro 2020