sexta-feira, 17 de abril de 2020

a Loca oca


(conto) – a Loca oca
A poesia pede licença ao Leitor para mostrar
uma realidade tão chocante (quanto verdadeira...)

Aquela grotesca loca escura negra do não ter ter mas não ser, ser nada vaga sombria, tétrica inclusive; aquela por seus restos, um restinho na ótica da réstia do enxergar, mal embora, aquela criatura insana talvez, teimosa com certeza; aquela – olha desde o crânio donde vive 'vive', ela se fixa por além da residência onde residiu tanto, ou mora inda, firma a imagem do seu quintal por entre frestas duma janela, antes escancarada; e critica, crítica, o que vê ou somente percebe e compara o agora quiçá o futuro de hoje com o hoje de ontem quando dona da casa de gente pobre grosseira e (com mérito:) mui lutadora.
          Passa então em revista o que viveu convive sobrevive diante tantas questões numa vida simples, simples vida que não é vida e sim uma de suas existências...
          Porém que é dela!
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          No agora e quem sabe no agora de antanho, em que existia por existir e mesmo se chocava com que chocava seu ser perante outros seres que também lutavam (bravamente?) para porfim criticar os mandos e desmandos doutrem. No agora todavia eis que veio o depois e o depois do depois ainda a acabar com a 'vida' (então sim os apóstrofos salvam a verdade) um sub-viver no sobreviver comum na pobreza vem – relembra num ápice, rápido e próprio do pensamento apressado; relembra como fora seu findar...
          As dores os desastres da vida, ainda não sabendo de fato o que vida o que existência; o sofrimento, então ela a pensar infindável, e a morte... Ah a morte alfanje foice corte decepação decepção na vida! A morte age devagarinho e após, num lance, corta as amarras. Ela, ela a forma humana até aí íntegra ou quase isso, Ela se percebe parada neutralizada desligada (ou, por que não dizer, mui ligada!) sem forças sem obediência dos órgãos costumeiros atentos então sem sangue vivificador, sem energia sem controle de nervos e músculos. Ela, perplexa! sente que não sente e sente-se desligada qual fio da tomada elétrica; sem voz sem sorte sem ação sem força e com muita vontade mas sem conseguir se fazer entender!
          Entretanto ser entendida por quem, se um homem solitário naqueles confins de mundo. Pegou-se na situação estranhíssima de solidão num bairro pobre, paupérrimo, na periferia de Sol Dourado, este um enganoso topônimo para um município também pobre tal qual os munícipes, ele por extensão, apesar de poder ainda quitar seus impostos com o fisco através da aposentadoria minguada e assim se fazer vivo senão ao governo vivo, à estatística morta e mentirosa. Vivia, sabia viver, a constar nos cadastros oficiais, inclusive tendo direito tal qual outrem atirar a culpa dos erros no governo, entidade de costas largas; a fim de poder justificar sua situação e quiçá comparar-se aos demais cidadãos.
          No entanto vivia subvivia sobrevivia só.
          Andava só (costumava brincar consigo mesmo "só e mal acompanhado") sozinho na cadeira tosca de pau e palhinha – a ligar-se, ah que horror na falta de opção, enfim num ver tevê; de repente não mais via não sentia não podia (não poderia) não podendo interpretar o que sentia, ou melhor no pior: de fato não sentia. Ah a morte? a Morte.
          Garrou a pensar tentar destrinchar aquele imbróglio novidade pra si talvez e aos outros com os quais convivia no subviver a sobreviver com seus vizinhos quase sempre longe, quer dizer longe também de se pegar (tocar?) qual na cidade grande em casas parede-meia ou num pior apartamento geminado para se sofrer ofensas de vizinhos sem coração e sem sem lastro sem educação na sua grosseria. Não. Vivia, fosse isso viver, vivia distante mesmo das casas perto. Coisas da sorte, ou da falta de sorte...
          Fora aí se pegar estático, sem poder mover-se sem poder ao menos o mais do gritar...
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          Depois disso tudo os dias passam e vem o estrago. Natural não haver se sentido inclusive a feder. Certo nesse incerto cheirar mal. Alguns urubus pousaram conversaram suas coisas nas imediações, um abusivo chegou a se grudar no peitoril da janela sempre comportada arreganhada agora e mais ou menos destrancada. Nisso entra o Peri, lá fora, ainda o pobre amigo apesar de faminto sem alimento e água na latinha de marmelada por dias, ainda vivo a ladrar sem forças a afugentar as aves de rapina. Contudo desconhecia o dono daquela loca, agora oca, estar morto. Soubesse espantar-se-ia primeiro como bom caboblo e depois quem sabe choraria a sorte, a falta de sorte.
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          Porém como via, se vago limpo e até 'arejado' o buraco onde outrora umas vistas verdes ou esverdeadas a ver o mundo azul (sempre apreciara o firmamento diário, a lua à noite o sol no dia) e que usava tal para também ver vizinhos passantes desconhecidos a se distrair. Sim, como vendo se os vermes cadavéricos famintos ágeis prontos eficazes já houvessem feito perfeito seu trabalho de desmonte a mando da natureza, trabalho de limpeza naquele cadáver nada fresco e sim na condição do desintegrar-se!?
          Ocorre, ocorreu, de um daqueles soldados no exército natural – sim perfeito ou imperfeito preocupado no desafio do desfastio, em síntese apressado na luta de iguais na montanha de carnes agora dócil como alimento, almoço jantar lanche. Então ficara certa incerta nesguinha de resto de olho no olho, o esquerdo no qual um defeito não permitira nunca o pobre, em vivo, abarcar melhor o todo no tudo que pretendendo examinar, digamos uma cabocla linda digna de se notar e desejar... No entanto agora restava ao homem apenas nesga insignificante na loca na órbita escura ao final também do dia. Assim mesmo distinguira bem a janela e o pra lá da janela da casa pobre onde sempre vivera, então morto!
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          Viu de longe o caixão ( dele! credo. Não:) o caixão do poço donde extraíra tanto o de beber, uma vez inclusive a corda no sarilho partiu-se, o balde nela preso despencou lá embaixo na água, um barulhão e tanto. Havia posto a viver ali peixinhos, restos de pescaria a criar no fundo e naquele momento imaginando: não teria matado a queda do balde seus peixes! Ah cada bobagem a gente põe na cabeça. Nessa altura do pensamento apesar de morto ele mesmo, o caboclo ali sentado, antes a se distrair nas bobagens televisivas; invenções, "inventação" diria dizia sempre: guerras os homens indo ver a lua na lua; e propaganda, muita propaganda e para desfastio ou paranoia mundial a moléstia do momento; e pra se aliviar ou fugir disso, vê as caboclas bonitas; daí ele para sente olha, não olhava; não poderia ver...
          Que mais via?  Oh... não mais via...
São Paulo   março  2020