sábado, 31 de agosto de 2019


(pensamento). A questão conjugal se resume na garganta. Porque a vida a dois só se torna possível engolindo sapos mutuamente.  Isso explica a razão da pouca durabilidade do casamento entre  jovens – que têm a goela ainda estreita. E dos velhos que a tem machucada ou defeituosa.  agosto 2001


sexta-feira, 30 de agosto de 2019

Exagerinho em Dona Tuntum


(conto) Exagerinho em Dona Tuntum

Antes de mais nada tudo o que se pode adiantar nisso é que minha vizinha elinha do apartamento aí de cima, fico por baixo, eu no título havendo cortado dela um 'tum' de sua brilhante coleção de tuntuns – essa corriqueiramente faz com o saltinho quiçá com todo solado do sapato dia inteiro mil tuns, tum no vai tum no vem... Bem, nem sei o quanto me anda andando ali em cima de mim aqui nesta quitinete 663, a dela 773 no sétimo andar, a se deslocar pra lá pra cá me irritando dia todo. Não. Isto já exagero meu, o caso dela é andar no seu andar corrido depressa num voar quase, tem gente não sabe se mover devagar lerda pacienciosamente e então machuca as orelhas da gente. Ora, não barulha apenas de salto: tem outros desvios como o deixar cair a vassoura, o cabo dela, em trófte no chão; e os trens de cozinha batidos derrubados amassados decerto; decerto pois que nunca vi. Pior, ou melhor, nunca a vi. Somente ouço. Um dia...
Não um dia, uma noite, de madrugada, rolava certa incerta bola, escutava isso inclusive o tiúf da borracha de plástico a se conflitar com o solo! Daí me perguntei, a vizinha naquela idade ainda (passada na idade) ainda a brincar com bola; e em plena madrugada a me importunar! Claro, devendo ser uma criança como em visita brincando, não poderia uma sobrinha? sei que a mulher é solitária.
 Não consegui entender, só ouvindo seus saltos em tuns na minha cabeça acima no pavimento de cima. Passou. Não passando minha curiosidade.
Nesta noite, na madrugada, acordei meu sonho com o pesadelo dela a andar pra lá pra cá na laje no seu soalho certamente de piso frio cerâmico semelhando o de meu apartamento. E isso me explicou um pouco essa nunca vista vizinha do andar de cima nos seus tuntuns. É que desandou a conversar entre andanças numa fala alta com outrem embora baixinho entre si (ela e outra, irmã em visita com a filhota!? não soube). Isso quebrando o silêncio da madrugada e virando pesadelo, meu pesadelo; visto não pararem não paravam o dialogar...
Bem, tem também alguém nisso longe agora, lá em cima nesta torre de cimento na megalópole doida.
Supus que a mana houvera loguinho tornado à sua casa – anteriormente a imobiliária proposto à mesma ceder um apartamento no vigésimo quarto andar de número 2024; a postulante encrespara pelo número feio; então cederam-lhe o 223 lá embaixão. Daí...
Daí despencaram a continuar o diálogo em família, uma lá em cima outra debaixo no segundo andar; a debaixo com a de cima por cima do meu dormir; e... não importa: bateram aquele papo às minhas custas, em nome do meu pesadelo. Porque quem a reencetar o sonho o sono o descanso após!? Além de ouvir arrastar com certeza sua cama a vizinha (vizinha minha queridinha) e como então eu dormir, no pesadelo de não conciliar mais o sono.
Ah sim, para uma coisa serviu tal encontro neste meu desencontro. Fiquei ciente que o dono da bola a filhota da mana, ela a trazer naquela vez aí em cima a criança para brincar rolar gozar a dita bola, enquanto mamãe e titia a pesadelar o vizinho debaixo. Por azar madrugada e as orelhas sendo as minhas.
São Paulo   agosto  2019