domingo, 20 de agosto de 2017

(conto) Roubo da caixa eletrônica

Naturalmente estava o objeto na área de saque no caixa eletrônico, gente muita gente gente assustada ou só na expectativa a assustada gente; os seguranças, prevenidos, olhavam de soslaio a gente. Ela entrou, também gente com a gente, penetrou o saguão andandinho velhinha arcadinha a japonesinha – logo fitou a caixa... Todos olharam nem todos notaram o andar a ansiedade da pequenina avó, "batiã" diziam os de sua raça; os da raça ali somente o neto, "fírio" pronunciava a pobre. Avançou. Agachou, agachar de fato pudesse no seu já arcado; tomou a caixa de papelão moreno. Não leu. Não podia ler com olhos desgastados na idade; e/ou por seu analfabetismo mesmo na sua língua em que dominava meros sinais – leria aqueles riscos em rabiscos indicando chinês da costumeira importação. Agarrou arrebatando a caixa, num abraço à caixa (certamente com seu objeto dentro). Todos em prontidão! E havia o pensamento de todos indo pelos ares... O segurança mais próximo e longe dos mais distantes acorreu à área do perigo e segurou a senhora idosa já a carregar a preciosidade, segurou a tomá-la ou a prendê-la ou quem sabe a defendê-la e a defender o público na iminência, um público que fugia, decerto ao testemunho ou ao estrondo ou à morte! Interfere o segurança naquela fraqueza de criatura, indaga... Nisto aparece o neto ainda a conferir o extrato o bem extraído do caixa eletrônico e agora a abordar o segurança por sua vez; a lamentar na língua deles a velha que se desgrudara dos seus cuidados. Sim, disse da Batiã agora em português escorreito, "minha avó". A velha completa num sorriso de encantadora inocência, "shim, fírio"!

Itapecerica da Serra,  agosto 2017

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

  
 (contolouco)Estória de era uma vez: o Homem sem boca

Era uma vez, diz ela, ela disse milhares de vezes assim, era um sujeito que não tinha boca... Quer isso dizer que não nascera, nascera claro que sim não teria nascido com boca – lábios de beijar buraco de se ver dentões pobres podres e falhos e faltos e... chega. Teve boca até aí por uns trinta quarenta anos mas depois se cansou do cansaço de falar; porque nessa altura já falando muita bobagem (e isto descobriu de tanto descobrir não levarem a sério o que dizia ao mundo). Era uma vez ele estafado, estufado também visto além de falar comer demais. Enfim a coisa o levou a pensar analisar pesar descobrir a coisa. A coisa: falava e falara muitíssimo. Sim, tem muita gente tagarela, no entanto não tão falante em asneiras. Essa a grande descoberta! A descoberta o encaminhou riscar da gente que ele representava os pensamentos expostos até aí e ai! parou de uma vez nesta estória de era uma vez; parou de falar. O que não era um grande drama ao Universo somente ao seu universo. Passou... bem passou apenas a escutar, mesmo porque ninguém afirma até aqui não tivesse orelha, orelhas, era só sem boca com boca fechada e nisto se intromete o pegador de roupas, o prendedor dizem alguns, o de peças a gotejar no varal (xô ladrão de galinhas!) O indivíduo botou  segurando os lábios então sem função o tal prendedor – no que resultando algo esdrúxulo e imensamente ridículo, sobremaneira ao andar por aí nas compras no trabalho e no trabalho de pagar as contas, atividade detestada pela população. Evidente haver curiosos e os curiosos a indagar o quê o porquê e outros quês irrepondíveis 'irrespondidos' – não tinha mais boca; falava por sinais e todos entendiam, ninguém de fato a entender. Contudo havendo orelha. Para ouvir bastante. Bastante ouviria daí em frente, inclusive mais que o normal ou o comum das coisas. Isto porque já esdrúxulo à beça sem boca com duas orelhas, acresceu mais umas duas ou três dessa feiura exemplar; exemplar porque não tem parte do corpo humano mais feia que orelha, as dele horripilantes com uns ganchos na extremidade, naturais ou mal postos pela natureza no bebê quando ainda nenê, o que não impedia escutar porém enroscavam na fronha do travesseiro. Em suma, botou duas ou três, uma na testa outra no queixo – a fim de ouvir bem mais, a compensar supressão da boca (ou seria melhor haver cortado tão só a língua, mas burro e caso burro não dito, dito agora). No final das contas, idoso e a vagar devagar por aí no centro comercial. Fora pagar contas, burro todavia bom cidadão, e aí se enroscou... Era uma vez um homem sem boca sim, não sem orelha e nisto exagerando a exibir um punhado de feiuras, parecendo um veado-galheiro, diziam passantes apressados daquela coisa a entrar na lotérica da sorte com o azar ter pagar contas. A moça, casada e com cinco filhos para tratar e sem companheiro o companheiro dera no pé mas isto sem importância; a moça arrregalou olhos àquilo no guichê, chamou o segurança, o segurança temeu tremeu, chamou a polícia, a polícia abriu a porta (antes brincou de burocracia preencheu fichas indagou muito sem resposta) fechou a porta a ranger, pisou no pé, deu-lhe pontapé, às gargalhadas dos albergados do Estado no estado em que ainda se encontra, eles que não se encontravam de vez em era uma vez.

Itapecerica da Serra   agosto  2017

sábado, 5 de agosto de 2017

(pensamento4418).A remela asquerosa é a lágrima sacrificada ao tempo.agosto2017

(conto)Segunda, 5:12h

A antecipar o dia a noite findando a expor sua friagem; sequer cri-cris sequer 'semissons' a ofender o silêncio nada sepulcral na área limpa da madrugada; ao exato encostar dos ponteiros no décimo primeiro segundo, ele fez seu trabalho sem exagerar na limpeza – ele candidato ao congresso, a deputado se não falha a memória do esquecimento. Ele. Ela pôs a boca no trombone! a assustar inclusive quem não estando a dormir... Estrilou e, imediato, se pôs a cocorocar alto brabo correto mas não por haver posto o ovo, levado o ovo ou o pinto ou o frango ou o futuro galo do terreiro; o seu antigo macho e o de todas acabara antes na pressão da panela e fora substituído num empréstimo como homem pelo outro do galinheiro vizinho – e olhe que era hora, oras, de gritar o dia acordar da noite, a noite a bocejar já pois que o novo galo gritaria seu anúncio a provocar outros terreiros a acordar o mundo às cinco e meia e às seis e meia, assim fazendo o mundo iniciar suas atividades, os ponteiros despertando a sociedade para as guerras as violências menores maiores nas bocas por aí. Contudo tudo estacou num cocodeco assustado assustador! Embora a galinha a usar somente de dia o cocodeco habitual de pôr, era agora de susto, de pavor mesmo nessa hora experimental do postulante à cadeira no parlamento, senador ou deputado – a rigor experimentozinho porque a partir dum galinheiro dormindo pacífico silencioso inocente desguarnecido (até o cão de guarda a dormir-sonhar tendo osso como travesseiro). Não obstante ela cocodecou alto, com susto e sem o bem, levado o bem pelo proponente em treino às grandes metas parlamentares... e a altura cocodecada despertou por sua vez o macho dum galinheiro perto. Desperto este, aguarda tão só os ponteiros da cinco e trinta e despeja gritos e lamúrias, o que acordando os demais longe a cucurucar nas imediações e no resto do planeta, o planeta a se espreguiçar despertar brigões humanos às santas tarefas do desentendimento e inclusive às tarefas de produção e de vida. O galinheiro vira um pandemônio, a alarmar também o próprio postulante-aprendiz visando altos postos políticos, o qual conduziu a bagagem na fuga cheia de inocentinhos peludos penados pelados pelado tudo no roubo (ou somente afano). Dispara e some. Isto novo aprendizado na aprendizagem rumo aos píncaros dos golpes, quando igualmente se foge ao exterior em cuecas dolarizadas. Grita-se, não quem ganha quem perde, nos cocodecos como houvesse botado e nos cucurucus então a avisar o mundo. O mundo se perde nas tarefas do mundo: cria inventa intenta lamenta corrige – e não se corrrige. Enquanto o galinheiro esquece pia bica cisca esvoaça penas a dar pena no ramerrão. E o resto do mundo nadinha mudo se esquece do saber que supõe pleno; e não sabe que não deve ter lembrança, talvez nem conhecimento, do início de carreira  dum pleiteante ao congresso. Senador ou quem sabe deputado.

Itapecerica da Serra  julho  2017