Tem
Multa?
A primeira pergunta que vem à
mente, diante de um trânsito embaraçado congestionado atrapalhado duro de
engolir, é se tem multa. Mas não devia ter não. Mesmo que não se tratasse do
Sr.Macarrão.
Uma figura expressiva na
sociedade, se bem que novo-rico notório e um pouquinho exagerado. Bastante. O
qual, a mulher, bem entendido a esposa dele, não se podia falar sobre as
outras, essa não se conformava em vida de pobre ter aguentado viver espremida,
sempre a exigir (cansada tanto implorar) uma cozinha à altura dela admirável
dona de casa, enquanto o marido vivia fora de casa e nem sentia o drama. De
repente enricou, coisas de loteria ou negócios escusos, ela não bem preparada
para tal. Se pegou a poder exigir de fato uma cozinha daquelas enormes. E vai
que o marido, o esposo dela, o Dr.Macarrão, virou doutor com secretária e tudo,
exagerando um pouco, deu-lhe não só uma bela mansão porém palácio verdadeiro,
com criados e o tudo mais. Onde a distinta senhora gozava à vontade a tal
cozinha que pedira.
Enormíssima, ao exagero! Basta
dizer que as criadas, e mesmo um serviçal à disposição das coisas para
alimento, elas eles se puseram a correr dentro da dita cuja, a fazer o do-fazer
pra fazer bem feito. E dona Ciana, aí ela passou à Doutora Emerenciana, essa
resolveu prover as distâncias com auxílio do esposo, o da macarronada, um pouco
exagerado já se disse, o qual constatou males e instalou moderno sistema de
trânsito, pois que motorizou toda criadagem no serviço do palácio. Para ir do
fogão número um ao de número dois ou mesmo ao quatro, a Sebastiana (admitida
por já possuir carteira de motorista, embora cozinhasse o frugal trivialmente)
ela engatava primeira e saía, não obstante não desse a chegar à segunda marcha.
A Francisca, branquinha muito enjoada e pernóstica, para se deslocar do armário
de aço até ao embutido onde se depositava detergentes, ela necessitava sair em
segunda mesmo não só para ir rápido como pelo fato de não conseguir engrenar a
primeira marcha no câmbio, que era duro de entrar e só entrava raspando fazendo
grrrrrnn; e dirigia aos trancos e barrancos. Contudo apenas havia mais um
veículo no trânsito da cozinha emenrenciana; veículo pequeno se deve falar,
assim como eram os demais; e tal veículo sendo usado ora pelo Manoel, espécie
de pau-pra-toda-obra, ora pela Beladona (apelido, logicamente, pois constava na
Profissional como ‘Josefa’) – ambos empregados
que certamente haviam tirado carta por telefone... E se ouvia o raspar
câmbio, carros afogados (por excesso de gasolina, pois só o Manoel se afogava
em álcool) enfim uma barulheira infernal e muita fumaça dos carros dentro da
cozinha grandalhona de alegrar Doutora Emerenciana do Doutor Macarrão. Havia –
para esclarecer melhor e a bem da verdade só deu-se uma ou duas apenas – havia
trombadas e abalroamentos inconsequentes e consequentemente nomes feios longe
da patroa (não se exige alta educação em criados, exige-se?) tudo no trânsito da cozinha. Teve o esposo da
Doutora de providenciar um guarda uniformizado e com semáforo manual a
controlar o movimento da dita enormíssima cozinha!
Se resolveu o problema, não é
sabido, ou até onde resolveu. Mas parece que não tinha multa. É. Nunca teve.
Ribeirão Preto
fevereiro 1982