(conto)
Barafunda
1.Não
é Barra Funda, um bairro e podendo ser uma urbe ou nome de alguma rua nas cidades
do país. Não. Barafunda.
Antes
do caos era a ordem decerto; enfim onde se podia ter à disposição (ou
imposição) o bem contra o mal; num maniqueísmo dos melhores. O casal na saleta
de tevê; a qual servia para oportuna (às vezes importuna...) visita e também como
biblioteca, embora nisto um exagero havendo apenas uma estantezinha dessas
pregadas na parede a enfeites e bibelôs; onde uma Bíblia (velha e descansando
do trabalho dos cupins a aguardar virar peça dalgum museu); e meia dúzia de
outros volumes sem lombada vistosa e ainda mais dois livros técnicos a servir
ao rapagão da jovem bela, um desses exemplares com título em inglês.
Bem,
é isso, era assim. Assim ambos sentados na saleta à meia-luz e sob reflexos das
luzes do aparelho de televisão – aí deu-se um desastre: certo apagão! O
ambiente em paz, não se cortando a corrente elétrica do prédio e do apartamento
ao gosto pequeno-burguês. O companheiro no casal se levantou foi examinar lá
fora – tudo escuro, apenas a se cruzar faróis dos carros lá embaixo; inclusive
ouviu tiros e se assustou. Fechou imediato a janela de vidro de correr e para
desencargo de consciência que a paz exige pôs um cadeado. O que uma família num
edifício sem solenidade nem milionário teme é o ladrão, se bem que nesse mal,
como escalaria o bandido os pavimentos até a saleta! Voltou a se sentar, a ajuntar
o casal.
A
tevê rateava matracava estertorava, tataratava enchendo de balas a sala; o
filme (com licença por vezes da propaganda) o filme era de guerra. Antes
assistiram já na madrugada um erótico; o macho desandou nos carinhos e levara
sua parceira ao quarto deles; no retorno à rainha do lar a vomitar bala, aí a
jovem mulher reclama dele "que homem insaciável!" Porém relevou
relevaram a ofensa se entregando ambos à guerra. Então os americanos arrasavam
o vietcongue: a matar com a mesma arma pesada e o mesmo carregamento mil homenzinhos
do mal; no entanto reapareciam outros soldados do mal qual num formigueiro.
Ela, não a guerra, ela comentou seu pensamento alto ao companheiro "ainda
bem que o nenê dorme". A fita prosseguia, claro em concordância da propaganda,
tataratavam as armas de repetição, quase assustando as letrinhas da legenda, as
quais passam sempre depressa a acompanhar, ela bem lendo ele não, um pouco
curto da vista; entretanto sabia alguns termos do inglês pelo escritório onde
trabalhava; enfim dando pra entender porque guerra a gente já entende de
antemão. Depois veriam novo filme, também de violência de guerra na guerra do
bem contra o mal, o mal qual formiga esmagado pelos soldados americanos, agora
com legenda mas dublado, ambos a viver a trama, a matança noutra área asiática,
aqueles soldadinhos miúdos como saindo do buraco e os tiros certeiros os
abatendo. Lá embaixo, de lá debaixo subiam zunido de motores e balas, o casal a
salvo. Não da tevê, a qual triturava com tiros em repetição contra o mal. Nisso
tocou alertando o celular dela, o dele emudecido desligado (ou como veriam a
luta do bem contra o mal!) Responde rápido a mulher, pois a propaganda gritava
o reinício do filme, da guerra. Do lado de lá, não se diria além do fio, no
lado de lá a voz da amiga insistindo nas suas confissões e confidências... a
parceira comenta "não implique com minha amiga Francisca, ela é chata e
insistente porém melhor que suas duas ex-namoradas". Ele empurra longe o
celularzinho da companheira para que esta não perdesse lances da fita e os
tiros contra o mal e quem sabe na erradicação das forças do mal pelas armas
bem-intencionadas do bem. Assistiam quase abraçadinhos, talvez ao final do filme,
quando a parte feminina na sua intuição ou sexto sentido se levantou, ele se
ergue também; ela se encaminha na direção do quarto do nenê, antes precisando
passar pela cozinha...
2.O
nenê dormia. Quer dizer, dormira vencendo com ajuda materna horas antes a dor
de barriga por que passara; chazinhos comprimidinhos liquidinhos de caixinha;
em suma, ficou bem e entregue ao berço ao sono ao sonho, nunca ao pesadelo
naquela idadezinha. Depois acordou. Não chorou permaneceu a brincar na luz à
meia-luz do aposento. Esperneou meio incomodado e resolveu tentar ficar de pé
na guarda do berço, o berço cedeu um pouco, elinho descendo pela fresta que o
espirra ao chão estofado com tapete ainda a cheirar coisa nova. Se arrastou se
arrastou de gatinhas pra lá pra cá; interessado em tudo que oferece a liberdade
e sequer teve ímpetos de choro. Passa pelo Mimi, Mimi acordou foi à vasilha de
ração, voltou raspou-se ao menino pra lá pra cá nas perninhas um pouco
encolhidas no esforço a engatinhar: o gato imediato dormiu ronronou apagou. A
gentinha não. A ficar até mais ativa vendo tanto espaço sem tolhimento. Chega à
porta, uma porta a se levantar como pudesse, a abertura dela cedeu, aparecendo-lhe
Lulu. Lulu um cãozinho nenezão, desses cachorros grandalhões porém bobos, bobo
até no andar; fosse luluzinho de se pegar no colo, mesmo assim gigante bom e manso;
fez dupla com o filhote humano, este gatinhando pra todo lado, elão à sua beira
feliz com o cheirinho de gente da sua gente e pela liberdade não costumeira no
quarto e agora na cozinha. Havia no entanto um senão, se não vários senões...
Nisso
o garoto chega na parede e tenta com algum sucesso a janela; esta por
preocupação paterna fechada ferrada a cadeado para evitar o pior, nunca a gente
sabe o que poderia ocorrer. Não alcança na alturinha a janela mas vê, entrevê,
reflexos dos automóveis lá embaixo no escurão do apagão, os fachos dos faróis;
ouve tiros não conscientizando aquilo. Desiste. Se põe, se repõe de gatinhas a
se arrastar pra lá pra cá naquela liberdade não vigiada, chega à geladeira,
olha a porta dela e não tem força bastante pra ver o que ver lá dentro (teria
pensado sorvete!) Desiste, desistem, o Lulu em guarda ou só acompanhando, o
Mimi ronrona longe. Chega ao fogão, não vê lá em cima e se apoia na tampa do
fogão, esta cede abre... ah que gostosura – naturalmente já fria de horas – que
gostosura de travessa com carne de frango regada às 'melecas' do tempero, vaidade
expressa da culinária da mãe dele. Ele, não: eles dois, três não também porque
o gato acorda e não se interessa, deformado no gosto pela ração. Já Lulu baba
avança boqueia mastiga e é claro deixa cair muito no chão. O garoto toma guloso
uns pedaços se enlambuza derruba o restante no piso, agora piso-frio da cozinha
no entanto igualmente suja o tapete de seu quarto, pra onde a dupla segue se
arrastando, ele a imitar gato, o gato a dormir; e Lulu a mastigar carne, presente
do fogão arreganhado na abertura do forno.
Contudo
não foi tudo: havia mais estragos... ah essa linguagem adulta! Tinha sim. Ele,
eles por extenção o cachorro ajudando na bagunça, se espalharam pelos dois cômodos
lamecando de gordura onde pudessem pegar; claro o cãozinhão não pondo as mãos
nos objetos e paredes e somente pisando no tapete; deitara-se em final a dormir
curtindo a comilança (antes levara pra sua casinha ossos do assado).
O
cachorro não, o nenê se enrosca em tudo, examina tudo; logicamente não sujando
de propósito, apenas a saber as superfícies e alturas das coisas. Com um drama
– fosse drama nem a gentinha avalia assim – um outro somar ou a ficar mais
gritante dando razão aos adultos enlouquecerem, ao menos se angustiar lamentar,
o que próprio da linguagem dos grandes na espécie humana... O cocô!
O
menininho tivera uma fresta, com certeza no tanto forçar sem querer sem pensar
sem se conscientizar – a fresta abrindo a fralda, desde a descida escorregado
do seu berço até àquela hora. A hora do fedor
e do estrago (ah essa fala adulta!) – pois 'lamecara' toda a casa, as
partes debaixo da casa, do apartamentozinho, com fezes! Sim, estava de saco cheio,
isto é: com excesso de porcaria, a que lhe custara antes dores terríveis e
gritos dos quais sequer se lembrando.
3.Quando
mamãe abrira a porta de fechar o casal na luta televisiva do bem contra o mal;
defrontou-se com o estrago em regra: tudo a quase lumiar do sujo impregnado,
cadeiras pés da mesa paredes e paredes do fogão e da geladeira, tudinho em
fezes amareladas e temperos engordurados de carne (ossos não, Lulu levara
esconder na sua casinha) tudo, tudo a brilhar. Pior, a feder!
Ela
ainda com as duas mãos pressionando as têmporas e boca aberta sem fala. O
parceiro altão atrás dela mudo e de olhos estatelados igualmente, se mostrando acima
da cabeça bela de sua cara-metade (a vizinha do 44 dizia sempre à do 55 que não
eram casados apenas amigados mas não interessa isso:) só isto – era o caos!
S.Paulo abril 2019