sexta-feira, 28 de dezembro de 2018


(conto) Fora da rotina

Encontrava-me na cadeira dura de pau, dessas nada preguiçosas com encosto, uma de assento rústico antigona e adquirida em segunda mão num sebo de móveis; vou chamar 'sebo' por ser loja de bugigangas. Porém isso um senão. O mais importante é isto: andar numa solidão esdrúxula; pois não havendo comigo ninguém – diria nenhum ser vivo, pra exagerar, o planeta infestado de micro-organismos e insetos a voejar a rastejar, se bem que companhias más – aqui ninguém é sem ter outra gente. Parecia haver havido na torre debandada geral no fim de semana com feriados encostados, o que leva muitas pessoas a fugir da cidade grande. O que interessa é não haver outra vivalma na quitinete que ocupo (ou ocupava...) neste sexto andar, apartamento 63 para esclarecer. Então pensava. Pensava apenas, o que poderia mais fazer o pobre ser terreno na solidão!
Nisso, naquele instante, diria melhor, no momento macabro; nisso ouvi, nitidamente, um barulho manso. Sim manso por não violento (embora a violência do fato!) enfim até educado. Afinei a audição. Era algo assim como um apalpar minha porta – empurrar carinhoso, no entanto a violência do entendimento acabaria com tal mansidão... Digamos fosse um forçar cuidadoso;  pra não provocar barulho é claro. Pareceu-me uso dum objeto duro, de ferro ou qualquer, a tentar meter a ponta na porta lá fora, no extremo com a parede, a fim de conseguir abri-la.
Que fiz!
Não fiz. Ou por outra, avisei tossindo um "tem gente aqui!" espécie de mensagem.
Não adiantou o expediente. Um ladrão... meu Deus! era um ladrão e eu estava na iminência da ação dum bandido!
Pensei nesse absurdo. Sim absurdo roubar apartamento num prédio de inquilinos pobres, alguns com atraso no aluguel; aquele negócio de gatuno que entra em casa pobre somente pode levar susto. Contudo mesmo um desvalorizado pente tendo preço e é perda a lamentar. Ora, quanta bobagem pensamos no desespero da solidão.
A rigor já não me achava só, o barulhinho irritante e tenaz e o bandido quiçá fugido da prisão ou sabe-se lá com que intenção; enfim ele não me deixava mais na total solidão... e que parceria! pensei.
Prosseguiu sua tarefa ingrata num roc-roc num treque-treque sem descanso e bem objetivo.
Fui-me impressionando. E passei a urdir plano também como o outro ali fora; aqui dentro formulando um intuito de escape. Por não ter arma e não saber usar tivesse uma; mas para não compactuar com a violência; e ao mesmo tempo não podendo me aquietar cruzar os braços, enfim refleti me defender, defendendo meu patrimônio, alugado o imóvel todavia protegeria meus bens, como roupas e utensílios, inclusive o pente citado, e algum dinheiro, pouco mas bastante talvez a um fora da lei. Que fazer!
Que fazer?
Imaginei gritar à vizinhança. No andar debaixo todos fora é sempre assim no domingo; o de cima o último do edifício e dele não vinha som sequer dum prato ou talher quedado ao chão. No meu pavimento sabia (pior: saberia o malfeitor tentando abrir minha porta) sabia que os vizinhos saíram cedo, ouvira conversa e o barulho do elevador. Portanto andava de fato só nas alturas! Aos debaixo que me adiantaria esbravejar por socorro; embora lá da rua escutasse alguma condução e o costumeiro barulho surdo.
Pensei mais. Olhei a janela, despencaria por seu intermédio rumo à morte certa? errado, respondi-me. Não faria tal.
Ah, falei, poderia gritar pondo a cara lá fora aos poucos viventes das construções no descanso dominical ou oportunos transeuntes. Ora ora que bobagem: numa sociedade louca surgir uma pessoa louca a berrar na vidraça da janela e...
O som infernal do instrumento do invasor prossegue e acresço ainda: a mente bandida não tomara conhecimento de mim e de minha pobre tosse. Força agora com mais vigor, antes caíra do malfeitor a ferramenta no solo com a qual furava minava a resistência da porta e da parede no batente. Retomou a operação... lembro agora um detalhe de memória: não partiria a arrebentar a fechadura com um tiro, pois de sobra sabendo a área sem os locatários meus vizinhos. Retoma daí o objeto de tortura (de minha tortura) e força mais a barra... berro...
Dei então meu berro, o qual andava preso na garganta, um a assustar ladrões e todo o mundo disponível. Nesse terror, acordei. Uh!
São Paulo   dezembro  2018

         



             

terça-feira, 4 de dezembro de 2018


(pensamento).O papel – puro ingênuo franco branco colorido – o papel é a vítima dos escritores de todos tempos desde que inventado, nos primórdios da história escrita. novembro2018


terça-feira, 27 de novembro de 2018


(conto) Estima animal ao Animal

É preciso ser uma pessoa da época. Por essa razão comporto-me como um igual, em falta dos semelhantes... Daí pensá-lo...
Digo do meu animalzinho de estimação aqui no bairro, uma vila assim... assim como? uma que não sabe se rica se pobre neste mundo onde puja a miséria.
Então, neles, na vila no bairro na urbe cosmopolita e de população talvez a exagerar no item indiferença; neles uma diferença (tomo por base as cidadezinhas e o campo onde existem ou existiram comadres e gente do povo a bater papo): na metrópole todos os que pensam e se pensam como igual, todinhos levam seus animais a passear.
Portanto não firo a decência levando o meu a farejar o mundo. O mundo aí à nossa disposição, antes a passar pelas lojas pets com suas rações seus veterinários.
Agora hora de ir mostrar nosso mundo ao mundo de nosso animal.
O de sempre. Coleira, corda, plástico... saco plástico. Saco plástico pra quê! ora ora pra quê, a fim ser o sanitário manual ou itinerante ou receptor das fezes do animalzinho. Elinho quase só ele não sendo de plástico neste mundo de plástico ao exagero, pois que se descobriu mesmo a poluição de fragmentos plásticos nas águas do mar; na terra passeio meu animal tal qual outrem.
Os bichos se veem se encontram se cheiram e cheiram o poste a árvore onde quase sempre tem algum embrulho de excrementos animais, largados ou esquecidos ou cuidados do frio, visto haver mil montes livres à beça para se pisar. Se contatam e uma que outra vez se rosnam. O meu não.
Ah felicidade, meu animalzinho vai – acorrentado na tira onde preso desde meus punhos até seu pescoço – segue por aí a aspirar o ar 'puro' do aglomerado urbano poluído. Com um senão:
Uma vez percebi, a falar de homem para homem com meu animalzinho – que não mais podia controlá-lo igual antigamente, ele é quem me arrastava grandalhão...
Contudo, quer dizer embora o senão, é amigo dos amigos. O comum no normal que é o se farejar se sorrir de cauda e a seguir olhar o mundo em volta.
Volto a me preocupar com meu bicho, qual outrem, outrem sendo homens e mulheres, novos e velhos seres; a conversar (de novo de homem para homem) e a sondá-lo a vigiá-lo, num diálogo franco em que nos metemos pelas vias públicas. Distraídos, chegamos inclusive a quase pisar não os montes porém montes humanos de gente desgraçada a poluir o solo burguês; molambos a dormir na calçada. 'Igualzinho' jovenzinhos e idosinhos a tratar seus animaizinhos na rua. Sim mas no meu caso com agravante do volume; porque meu animal de estimação necessita muitos sacos plásticos pra limpar o chão sujo e já fedorento antes dele sujar; ele faz agora de montão; anteriormente comera às toneladas.
Ah sim, esquecia-me: nos últimos tempos os outros animaizinhos de estimação dos humanos e as pessoas que os estimavam viviam consigo em cordialidade; todavia hoje, crescido o meu animal, todos temem gritam correm, inclusive do seu ladrado... será que leão ladra!?
Não sei. Sei que dá trabalho cansaço e preocupação.
São Paulo   novembro  2018

terça-feira, 9 de outubro de 2018


(contolouco) Casal Típico de Nossos Dias

Era uma vez um político que se casou com dona propina. Não. Disseram bem dito que não houve matrimônio formal e tudo o mais, menos pois não exigir-se-ia festa no caso do casal. O casal viveu – às escondidas é preciso esclarecer – viveu, bem não se sabe supõe-se mas afinal dividiram ambos seus dias além muito além da época de eleição, a eleição homenageada por estas linhas a fim de festejar o tempo dos tempos. Segundo alguns, algumas por englobar sobretudo vizinhas linguarudas ex-comadres de antanho; segundo elas ele encontrou sua parceira daqueles dias num lupanar onde brilhava a beldade 'emelecada' de perfumes e cosméticos e devidamente maquiada, atraindo o pobre; então puro anjo santo, corrompido. Então ter-se-iam ajuntado graças ao auxílio de meios escusos ligados aos inescrupulosos empresários antes políticos, todos contaminados pela ambição...
O par não teve descendentes, ou por outra, teve muitos porém tais exemplares não passavam de concorrentes ex-políticos ex-propinas também ou viola do mesmo saco diz o ditado caipira. Viveu, conviveu por muitos anos, contados de antes do Império Romano decadente até depois do futuro próximo futuro...
Bem, teve lá seus tropeços – qual terá sido o casal que não os teve desde que o mundo é mundo! – teve sim e um foi que certo engraçadinho incerto ou um frouxo qualquer do consórcio de apoio a esse amor casto puro angélico, caíra numa contradição ou choque trivial de farinha da farinha do mesmo saco: por isso foi preso inquirido e vendeu informes implicantes em troca ter condenação mais branda. Assim Político caiu enrolado também na armadilha, bem como Propina; já nesta altura ambos num viver mais escondido, possa a peneira tapar o sol. Presos.
Aí entram rábulas e advogados, estes últimos pagos por Político Riquíssimo graças a ela, ela Propina; enquanto ela ficara por conta de rábulas, desses que não passam no exame da Ordem. Sem progresso, veja-se bem também. Os causídicos tentaram provar a inocência dos fregueses (já fregueses contumazes) chamados clientes nas altas cortes.
Isso, entram aqui as Altas Cortes.
Aquele negócio escondido da verdade mas sabido pelos moleques do grupo escolar. De a polícia prender e o juiz ex-defensor de grandes réus (leia-se milionários e com exageros de votos comprados com meios de origem espúria) tal juiz solta por luminar liminar o bandido foragido protegido, bandido sim, antes puro anjo santo eleito e tudo o mais. Menos: outro juiz manda prender de novo o velho devedor, se encontrado ou ao menos achada sua fortuna no Paraíso Fiscal, realmente nunca devolvida in totum.
Acaba aí um amor tão profundo e duradouro, quer dizer de mais de um ano ou de um pleito!?
Não.
Não! que abuso interpretativo.
Não mesmo.
Político muda de partido, um a aceitar sua condenação sem ação por decurso de prazo, virando nada. Nada naquele tempo de era uma vez, tempo sábio e sabido tempo, nada nessa época fora batizado como esquecimento. Passa-se uma borracha, tchã-tchã-tchã, desaparece como por encanto, enquanto os pobres dos pobres no povo através dos impostos pagam a conta.
Supõe-se, com maldade então, que Propina igualmente nas mesmas condições escondida ou casada ou amigada com novos velhos camaradas, conhecidos por namorados.
Ah, vai aí a solução como dica em presente ao Dia dos Namorados. Que por sinal não coincide com o Dia de Eleição no caso do caso, amanhã sete de outubro de 2018.
São Paulo   outubro  2018

         



             

terça-feira, 2 de outubro de 2018


(conto) Exemplar Tabefe

Zé Mão de Onça era um sujeito exemplar no que fazia, humilde mas ignorante. Querido ou respeitado entre colegas no trabalho, sendo servidor até honesto. Mão por defeito na sua mão direita meio fechada, parecendo pata de onça. Um dia passou por experiência insólita ao ir faxinar a capela: na moradia de Deus, encontrou o diabo na forma de assombração.
A urbe mais vila que cidade fora tomada de pânico horror atarantamento nos improvisos por uma tragédia próxima, um ônibus que chamavam jardineira despencou matou dezenas duma vez; e o hospitaleco não suportava a demanda – muitos pedaços de gente à pouca gente classificada atender! Vieram médicos e enfermeiros e policiamento dos arredores. Nessas horas tristes também faleceu um cidadão sem nome, e morto tratado como indigente; na soma da correria diante o desastre rodoviário, ficou de barriga aberta fora da geladeira e posto, sem lugar para pôr, em depósito na capelinha, o necrotério mui ocupado...
Bem, Zé fora limpar a área.
Chegando ali fez o que pôde, logo chamado a atender na correria dos pedaços visitantes. Ao sair praticou um desmandozinho na pressa: deu um tapa no desconhecido morto, um na bunda exposta do comportado ser; fria. Mas... ouviu imediato um grito "ai!" de dor ou indignação. Saiu correndo o coração pela boca.
Narrou por cima aquele por baixo aos poucos iguais. E ficaria nisso, fosse e parecia ser mesmo alma penada. Decerto do morto que levara a corrigenda num tabefe quente na traseira fria.
Chegou o caso às autoridades em trabalho no hospital e assim um médico e seu assistente acompanharam Onça para verificação in loco.
Senhor José, diz o Dr. José, está vendo o cadáver autopsiado e cadáver não fala, menos ainda grita...
Sorriu desesperançado a vítima da vítima sem vida. Iam já abandonar o recinto e o morto no recinto quando o Doutor, numa graçola inusitada e despropositada a uma autoridade clínica, quando esta dá em exemplo um tabefe na fria nádega do corpo inanimado... Imediato os três vivos notaram um vivo grito "ai!"
O mais corajoso e sério do grupelho, o primeiro a correr fora... os outros saíram aflitos atrás.
Todos, em acordo agora, todos silenciaram a fraqueza...
Só mais tarde, passado o tormento dos pedaços humanos reconhecidos e/ou identificados e enterrados é que puderam explicar certa minúcia no caso.
No rebuliço da tragédia uma tragédia insignificante individual dera oportunidade a um bêbado se esconder num canto da capela – talvez sequer percebendo o cadáver de barriga aberta – e ali dormiu escondendo a embriaguez. Apenas notara a custo o susto no susto com a palmada da onça despreparada e a da autoridade a exibir sua própria coragem.
O que não aliviaria a ignorância de ninguém.
São Paulo   setembro  2018
             


(contolouco) – Surpresa na Rotina

Andava ali agora um frescor inusitado, levando-se em conta o calor imenso a esturricar a população urbana desamparada; uns do povo diziam que beirando quarenta outros que bem mais de trinta; os marcadores nas esquinas aferiam trinta e dois, trinta e três graus. Contudo naquele santo lugar, silencioso e protegido, estando fresco; não frio, fresquinho. Resolveu comparar, subiu ao nível mais conhecido e constatou o despropósito da temperatura na seca. Em torno donde parado percebeu algumas pessoas, quase sempre circunspectas ao menos silenciosas. No entanto num grupo de senhoras e jovens mulheres com um menino assopravam toadas; esse ajuntamentinho orava mas em altas vozes, o cantochão de hábito, pensou; umas entre tais mulheres choravam outras bradavam, assustando um pouco o garoto a olhar para mãe. Uns pequenos também corriam nas imediações em brincadeiras. Mesmo porque a vida é um faz de conta a moleques. Mais adiante percebeu coroas flores velas e cheiros, os cheiros não viu sentiu mas com certa repugnância pois manifestação no... ah oh ih encontrava-se agora no cemitério! Deu-lhe um arrepio e assim procurou fugir do grupo humano entre as tumbas, estas exposição milenar da fraqueza da gente. Não fora entretanto mui longe no abarcar o quadro em seu olhar; porém dando para examinar um conjunto rico na 'cidade dos pés juntos', isto um falar do povo miúdo. Viu capelas cujo brilho a ficar por cima da opaca residência da morte; daí condenou a situação – condenara vida inteira a morte e as manifestações vivas da morte. Aliás andava nítido na memória não simpatizar-se com representações fúnebres; a rigor não passava sequer frente à necrópole municipal; entrar nela então? capaz. Mesmo velórios de amigos deixando a amigos restritos e aos íntimos do morto. Finados! ora tem gente que passeia nesse feriado no local para ver os mortos que não podem ver... Em síntese, tudo achava bobagem. Por fim resolveu passear ele mesmo no seu tempo disponível por aquelas ruas meio desertas, até chegar olhar pelo portão a rua dos vivos; curiosamente tida por Avenida Saudade. Balançou a cabeça pra lá pra cá condenando tudo no todo. Mas não conseguindo fugir do calorão. Apesar do abrasamento, não tomaria agora naquela hora um sorvete. Poderia causar mal à saúde. Nesse pensamento e num átimo tornou quase que milagrosamente ao frescor, medindo por alto uns sete palmos na viagem em triz à descida. E se viu, não vira antes, viu-se, examinou cada membro cada parte do seu ser ali a gozar o frescor. Só então sentindo o horror de se encontrar preso inerte duro frio, mais frio que o frescor.
São Paulo   setembro  2018

         



             

terça-feira, 18 de setembro de 2018


(contolouco) O Vermezinho e o Tempo

Cheguei-me àquela coisa, coisinha pra ser mais preciso; uma que se espremia esgueirava assoprava engolia estufava e quase sumia outra vez – prontifiquei-me a analisá-la; ou que fosse tão somente para vê-la. De perto. De longe em longe o sol o céu o todo se mostrando ou se esgueirando e sumindo tal qualinho ali.
Não foi nada fácil a empreitada, visto o tamanhinho dele (dela!) e doutro lado a imensidão do tempo. Por fim, num instante em que o ser se exteriorizando a decerto tomar ar respirar para ter força a embrenhar-se de novo no se embrenhar; nesse instante, fugaz embora, consegui ouvi-lo e piormente entendê-lo, ou não... Por que pior? ora, o melhor na melhor seria o absurdo e ninguém vivo creria.
O diálogo, se tanto, ou dialoguinho.
Olá. Olá respondeu também a custo.
Você anda comendo barbaridade... reticenciei espicaçando o curioso.
Não ando me espremo me empurro deslizo... ah sim, vá-se poder com a pobre linguagem humana. Ando e me sacio e me saio bem, o prato é saboroso.
Carne, creio, proteínas à beça.
Vianda das mais puras por estar já em decomposição. Xô urubus! (Voaram temerosos e retomei a atenção:)
Ouça-me, o que recorda de quando era pequenininho?
Puxa, tinha a mamadeira e logo mamãe me pegava no pé e... de fato, não tenho pés e apesar disso dia e noite me pegava me cobrava gritando ao mesmo tempo com milhares de meus irmãos, concorrentes ao prato cheio. Que não fizesse isso e aquilo, mastigasse trinta e três vazes antes de engolir e... e vai, ia, por aí. Mais falava ainda, não sugue carne contaminada com agrotóxicos, por tabela a vaca come o veneno e envenena morta. Um dia, explicava a mãe, um chegará a comer gente e iniciará por criancinha, uma gracinha. Treinávamos todos vermes cadavéricos.
E quando crescer como deseja ser o seu ser?
Grande, quero experimentar gente pura honesta justa santa – um político igual o mundo vê o político. Já na época ela alertando incerta a morte certa: congestão envenenamento susto...
Susto!
Ora bolas, nunca viu alguém morrer de susto ou assassinado pela tapeação? Contudo a coisa (afirma a coisinha) a coisa levará tempo. Quem sabe se não precisarei em virtude disso transferir-me a outro cemitério.
Tempo! que é o tempo a você.
Tempo um viver da consciência de viver, depois comer comer deglutir tudo e nada sobrar sobrando ainda vida.
Longo?
Longo como a eternidade.
Isso mais de um dia? arrisquei.
Sim, mais outro dia no qual necessário deslizar por aí em procura de carne apodrecida ou a apodrecer. É o tempo.
Não! falei peremptório para exibir erudição quiçá sabedoria. Daí ajuntei qual estivesse no parlamento a discutir ou no púlpito a doutrinar.
Saiba que o tempo vai além de um dia, além do amanhecer ao entardecer e anoitecer à 'tranquilidade' da gente. Vai além.
Um dia são vinte e quatro horas. As horas assim assinaladas e somadas dão a semana o mês o ano, início talvez da eternidade.
!!!
(Continuei a massacração:)
Esse o tempo em ração módica a medir a distância; não é apenas entrar sugar sair dum pedaço de carne, mesmo sendo de gente vaidosamente pura vaidosamente honesta vaidosamente justa vaidosamente santa, dum político de escol por exemplo – o político que discursa promete é eleito e vira chefe de Estado e antes de virar matéria alimentícia de enorme grandeza à sua ingestão, antes de virar, vira ladrão consumado com processos a caducar na justiça humana.
O tempo vai mais longe, insisti.
O tempo é de tal forma grande que os homens o medem em ano-luz ou seja à velocidade de trezentos mil quilômetros por segundo durante um ano. Se vocêzinho piscar o olho já um segundo. Caso quisesse ver a Terra após o piscado estando na outra extremidade do piscar – sequer veria este nosso planeta nem o Sol muitas vezes maior que a Terra. E note bem, se desejasse então avaliar a Eternidade, supondo haver entendendido todo o Cosmo... daí vocêzinho teria que... está me ouvindo?
Sumira e tornara a emergir mastigando saciando uma fome maior que a eternidade. Nem me ouvira decerto.
São Paulo   setembro  2018


(conto) Elas e Eles, eles não: ele

A comadre da comadre Rita em vindita acredita e grita essa dita por liberdade na casa e conviver com ela, ela Rita, e assim elas numa tagarelice bastante mas nunca bastante pois que não param não sabem parar quando começam a conversar; sim bastante, dá no bate-papo esquentado um basta Jeromão naquele vozeirão de homem grandão – mas alarme falso! – Jerônimo apenas chega não interfere, interfere sim por sua presença porém não fala nada dirigindo-se às mulheres vizinhas ali num barulho de assustar o mundo. Chega descansa a enxada cansada coitada da enxada pelo trabalho, agora tardezinha à boca da noite já, já o galo a cantar alertar suas mulheres irem ao poleiro, nada mais que galhos forquilhas da mamoneira e, portanto, não deu nelas propriamente um basta, bastando de fato sua aparição diante da discussão sem tamanho ou ao menos barulhenta das vozes finas; tanto assim que os meninos andavam assustados porque as crianças não sabem o que fazer abusando os adultos a dar mau exemplo; as vizinhas na cozinha cheiinha delas (quer dizer, meia dúzia mas a cozinha apertada, pisada por chão de terra batida e espaço em área mínima). E aqui dá para enumerar as comadres ali a se esfalfarem de tanto falar, todo mundo querendo ter razão sem razão dado o assunto, o Peri. O Peri de novo! o Peri de novo a comer ovos no ninho e daí  estando no quintal, isto é no mato em volta da casa da comadre Geni, que veio a reclamar, tirar satisfação com a dona do cachorro. Pois o cachorro come ovos assusta as criações e lá vem a gritaria das penosas, irrita outros cães donos do pedaço, a Geni tendo bem uns três vira-latas, na roça não havendo lata porque não tem lixeiro como na Vila. Contudo dá um quiprocó. Entra na conversa as duas outras, duas ou três, a enumerar: Tereza, Chica e Bastiana – todinhas cumádis da Cumádi Rita do Cumpádi Jeromão ali chegado... Então, elas dando mau exemplo aos pequenos, têm uns grandinhos inclusive trabalhando com o pai na enxada e os menores também, naquele negócio a dar recado, os meninos imbatíveis nisso, se bem que mal ocorre também darem recado errado, errando a pensar suas brincadeiras. Ah mas por que motivo elas a se desgastar... Não. Não se desgastaram demais as comadres no entrevero delas na cozinha de Rita, após só ficando meio emburradas enfunadas zangadas enfim mas... ah houveram por bem naquele dia mesmo e no dia imediato reatamento e tudo já nas boas entre as boas senhoras e boas mães e boas esposas, apenas uma tida realmente por 'boa' (linguajar macho pra valer) enfim relação de amizade sólida de anos de convivência e vizinhança e de compadrio (ou comadrio!?) dando o barulho tudo em nada, a desvirar depois chegando naquela hora crítica o marido de Rita. Mais ainda noutro dia, chegando aquele pãozinho gostoso de casa, oh mas assim mesmo o roceiro adora o treque no mastigar o pão de padeiro feito na cidade e vindo da Vila. Sobre o pão, o hábito exige de cada uma das casas numa colônia que, feito a assadura desse alimento, se ofereça um aos vizinhos, com recíproca esperada e verdadeira; assim sempre tendo o confeito pois alguém há de haver usado seu forno com as unidades e também o que os meninos chamam "pombinhas" que são bolotazinhas da mesma massa às crianças. E não é que retomaram a tagarelice mansa costumeira! Na discussão e naquela hora uma entre elas alerta: "Cumádi dona Rita" chega de papo porque tava já esquentando fervendo quem sabe onde nóis ia pará... e afinal a senhora precisa atender o Cumpádi Jerómo que chegou... Jerómo guarda os instrumentos de ganhar o pão, aqui em linguagem figurada, pensa não no pão pensa no peixe e não é que o cumpádi Dito prometeu peixe aqui, lá no rio o pobre não pegará sequer lambarizinho, o que nem dá para sua penca comer, que dirá dar como oferta aqui em casa; eh Peri! some daqui, pulguento, vai namonar as linguiças dependuradas lá no quartinho. Oh, e lá cheirando vianda e fumo e outros secos & molhados na reserva (isso em tempo de vacas gordas, agora estamos no das magras, os preços não ajudam). E assim descalça o sapatão fedido o chulé se espalhando desde o botinão de elástico, depõe no chão nem engancha mesmo o chapelão, ao solão, e o sol já se pôs, se põe ele a seguir tomar banho – o que um exagero porque o matuto aprecia tomar banho só nos sábados... banho diário... banho? nada disso, lavar 'pé cara e mão', não apenas pra ingerir a janta, a boia, igual os intalianu da olaria dizem, "bóia".
São Paulo  setembro  2018

         



             

terça-feira, 4 de setembro de 2018


(pensamento4719).Um feito notável da poesia é ela ser a base para que o poeta seja mais louco ainda que o prosador. agosto2018

terça-feira, 21 de agosto de 2018


(c onbto) – Constatação

          Ergui meu edifício de mil andares num deserto como sói acontecer no acontecer contrário dos tempos de hoje. A fim de procurar e/ou encontrar a felicidade.
          A área – plana parada, morta!? – essa área por toda uma extensão banalmente medida metrada buscada essa nessa região longe ou menos ainda, nela se podendo achar o fim... ah o fim no começo melimetrada.
          Usei o possível em todos recursos como os olhos abertos estatelados, após óculos, depois binóculo e o mais mais, o escambau; com objetivo a descobrir, achei areia em grânulos miúdos em poeira banal, inclusive nos detalhes dos pormenores minuciosos – tudo sem base sem explicação. Explicar! A mim bastando o encontro, que seria qual tesouro sonhado suposto imaginado imaginando um definitivo, visto abusivo por quimera. Quimera.
          Quimeras!
          Ruiu quebrou-se desmontou. Sobrou pedra? Sequer pedra sobre pedra. Sequer consolo do vento sobre vento. Não. O vento permaneceu. E a poeira, claro. Pó. Desejo. Conclusão?
          Nem a conclusão do desejo nem o desejo do pó!
São Paulo   agosto  2018



(contolouco)– Estorieta em três palavras

Vamos que sejam quatro, pronto.
Era uma vez... ué! da carochinha? Tá bom, uma outra vez foi nessa... agora a forma tá boa?
Nessa ou dessa vez um apartamento se apaixonou perdidamente por uma quitinete. Ele grandalhão, bom (até prova em contrário) rico à beça, milionário bilionário atrabiliário; bem-posto apresentabilíssimo etc. e tal; tal o macho da espécie aedifium. Ela... ai ela! ela pequena, grande de boca de falar a falar pra burro, não ela: a outra quitinete vizinha briguenta e (já que estamos em estória de amor:) ciumenta pois imaginem que desejando o belo apartamento visitante da vizinha! a vizinha objeto amoroso e apaixonado, mais uma vez se insiste.
Todavia era a vez em era uma vez da quitinete mirrada e sem boca, quer dizer não abria a insultar ninguém, visto a quitinete sua vizinha sempre apelidá-la aos berros "satanás satanás satanás" três vezes por vez satanás. Quieta mansa bela, bela!? não exageremos.
A quitinete estreita e pobre, não miserável como miseráveis os da rua na sua área caídos ao chão ao frio ao limbo quem sabe. Enfim pobre sem ser paupérrima; em cinco palavras, acanhada.
A isso, isto é coisa segundo a vizinha arrelienta da quitinete magra diminuta sem tostão (e "feia" completaria a vizinha assinzinho com satanás); a isso foi a que se deu o apartamento 'trilionário' e apaixonado?
A estória se prolonga por mais de seis ou de sete palavras, de tão grande a uma estorieta em três palavrinhas.
Contudo não durou o caso de amor a eternidade; longe disto pois ambas vizinhas se amalgamaram se perdoaram e resolveram, em não encompridar mera estorieta, a viver por fim lesbicamente corretas.
Enquanto ele, o enorme e gigantesco apartamento com piscinas e suítes e demais outros bens demais ao luxo – esse rico apartamento se dispôs a morar com outro apartamentão nos jardins ou num empáire esteite qualquer. Tudo corretamente guei como exigência atual.
As três palavras prometidas, abusaram em mais de oito, pra finalizar.
São Paulo   agosto  2018

         



             

quarta-feira, 8 de agosto de 2018


para blogue

(pensamento4690) A morte não manda recados... manda sim na foma de enfermidades; e, depois, visita o local e não perdoa patifarias covardias vaidades constrangimentos. A morte executa! agosto2018


terça-feira, 31 de julho de 2018


(conto) Meu de cima barulhento

Pois é, chamei o Sr... por não saber a quem me dirigir num probleminha aqui no prédio Sr... é José? o senhor precisaria expor à imobiliária a questão que pra mim já anda ficando velha e insolúvel. Por isso lembrei do porteiro Sr.José... ah é zelador? ficamos no mesmo porque meu drama perdura – a vizinha aí de cima da minha quitinete.
Bem, vou falar em rápidas palavras para não lhe tomar o tempo precioso. Faz tempo que essa mulher me azucrina: dos três meses em que aqui resido, três meses me aborrece!
É um arrasta as coisas; parece que nunca se acostuma com seu mobiliário, a empurrar móveis pra lá pra cá, todos os dias, todos os dias!
Dias não, noites. Vem do serviço aí pelas vinte horas e daí anda pra lá volta pra cá – sempre num pisado duro como de um mastodonte na minha cabeça e já estou deitado, dormindo não também mas tentando conciliar o sono e o barulho lá de cima no 73 eu aqui no 63 por baixo dela...
Parece-me que pesa toneladas sobre os pés, de tão duro e sonante o pisar! Outro dia, outra noite: rolava lá em cima certa bola, não sei se a um cachorrinho a brincar se a uma criança, não deu pra distinguir bem: o fato é o barulho irritante e assim quem a dormir aqui embaixo! Mas isso da bola só uma noite; o comum é andar apressadamente aos tropeções do dormitório à cozinha da cozinha ao quarto de dormir.
Nesse ponto – quem sabe ciente de que o vizinho do 63 já perdeu de vez o sono, ela para o andar, vai decerto ao descanso. Noutro dia, aí pelas seis da manhã, se levanta e escuto girar a chave ringir a porta seca chamar o elevador ele por si só já demais barulhento; distingo o som de entrar descer abrir passar à portaria e sumir na rua rumo ao trabalho – esse mérito vejo nela: correta funcionária não perde tempo não faltando lá nesses três meses de convívio... convívio! ora, nunca vi a jovem suponho jovem e bela, o Sr. confirma de cabeça. Deve ser atraente.
Mas que diabo, a barulhar sem respeito todas as noites, todas as noites! É dose, não acha?
O Sr. concorda. Não concordaria com sua inquilina, sim do prédio e da imobiliária não sua; não concordaria com o desleixo ou só desatenção da moça... pois acredite que todinha noite esbarra certamente no cabo da vassoura e a derruba fazendo aquele tchaf no chão, aqui na minha cabeça. Isso sem parar. Quer dizer, só ouço assim à noite porque no dia ela ausente a trabalhar, não amola. E daí só escuto sirene na rua e barulhinhos habituais nos outros apartamentos; enfim fica em silêncio.
Entretanto já sei: voltará à noite, baterá a porta ao fechá-la, girará a chave – isso fora o barulho do velho elevador deste prédio igualmente velho. E, a finalizar seu preparo para dormir e de não me deixar dormir – andará pra lá pra cá num pisado duro forte pesado tum-tum-tum barulhento, a tanto imaginar que me despregará um dia o reboco de sustento do 73 contra o 63 meu, meu desespero...
Quer dizer, estou exagerando um pouquinho porque não temo isso – só temo saber que nestes três meses de relações provocou a senhorita vizinha o barulho diário, em a noite e que o futuro me reserva a mesma barulheira!
Oh senhor Sr.José, não poderia antes de comunicar a imobiliária falar com ela! sobre isso, isto sem ofensa e com diplomacia em não ferir a donzela. Não quero dar queixa nem arranjar encrenca com vizinhos; apenas o senhor me ajuda nisso porque não aguento mais tal rotina...
O quê!? o que me diz, que antes de me mudar para este apartamento ela falecera dormindo e as autoridade lacraram interditando o quarto e o processo não terminou??
São Paulo  julho 2018


(conto)Chefias & Mandonismos

Andava parado sentado esparramado naquela mesa diante de certa máquina de escrever, daquelas antigonas, no espaço reservado que representava um 'museu' naquela organização super-moderna, hiper – quando ela chegou. Ela?
Mulher bela e voluntariosa dos altos escalões da companhia. Uma companhia multinacional, a funcionária enviada pela matriz para pôr ordem na casa; admitido que o Terceiro Mundo seja pouco mais que povoado por sub-humanos; desorganizados portanto.
Ela de extraordinária beleza mas não grandalhona e alta e loura no costumeiro ver mas ciosa de si embora pequena magra presente e, repito, formosa.
Os outros nessa altura já haviam se deslocado às pressas murchos temerosos ao salão no sétimo andar da torre da empresa; um que outro retardatário a passar olhar com respeito pro nosso lado; nosso a bem esclarecer: Ela com olhares ferozes, eu não entendendo o que tudo ali a representar.
Foi quando Ela me fuzilou falando, educada via-se, mas alto e firme. Disse, terá dito, misérias do que vendo: um homem passado sentado parado no tec-tec da máquina e como se falava antigamente, a catar grão de milho. Terá sim me espinafrado no flagrante do ato... contudo na sua língua de Primeiro Mundo, mui desenvolvido à minha ignorância, pois quase nem me expresso até na minha língua por falar errado e aqui o absurdo de, por essa razão, ser mudo. Enfim, entendi por cima, que me determinava e intimava a deixar aquele monstrengo do outro século e partir dali rumo ao salão com demais funcionários.
Cheguei lá mui constrangido. Aquele negócio de sequer saber onde ficar que dizer que fazer ou fingir imitando a maioria, silenciosa, inclusive no salão calara o burburinho manso do público. E ocorreu então Ela adentrar, calando de vez até o silêncio...
Olhou-nos, severa quiçá indignada, impelindo certamente devedores; eu me incluía nisso porém sem saber direito em que falhara, supondo houvesse na sala alguns também intimidados também devedores; todavia todos ali a mim desconhecidos, fora uma funcionária com a qual fizera antes amizade. Nesse momento Ela se dirigiu aos aborígines presentes na sua língua, imposta creio.
O auditório reagiu se olhando resmungando o pensamento baixinho e a se mexer nervoso, ainda constrangido. Se é que toda gente (ouvisse, sim, mas:) entendesse a algaravia primeiro-mundista. Tossiram silênciosos, tossi em imitação. Ela se voltou de olhar por meu lado; até me esfriando...
Então alguém graduado tentou explicar o que a chefa dizendo, supondo ou sabendo da parcela enorme apenas versada na fala de nossa gente. Aqui me alcançando, parei mesmo o fungar funguei mais baixo, em respeito às sabedorias.
A seguir e imediato Ela expôs acredito sua visão sobre os desmandos da diretoria anterior da empresa e as falhas funcionais; e sobretudo o que pretendendo como chefa suprema mudar. O intérprete, já de cabelos prateados e experiente, traduziu-nos o programa. A plateia reagiu suspirando temerosa em expectativa; no entanto não pedindo a palavra, decerto no óbvio do que exposto pela nova gerência.
Nesse ponto, já quase todo mundo silencioso ou silenciado; nesse o funcionário-intérprete tornou à Chefa, Ela bela consciente como general de sua autoridade e, me apontando, esclareceu não ser do quadro funcional, apenas um visitante amigo duma servidora; que no instante em que a chefa adentrara à repartição exemplificava como no seu tempo se preenchia uma lauda...
Ela? Ela fez oh oh oh prolongadamente e sem acrescer nada de tudo, mesmo na língua primeiro-mundista.
São Paulo   julho  2018

         



             

terça-feira, 17 de julho de 2018


(conto) – Enterro do João

O João morreu!
Mas essa a pergunta mais idiota que se puderia fazer pois todos na Vila conhecem o João, sabem ao menos dele; e mais, que anda vivinho da silva. Quer dizer, andava quando andando por aí à cata ter o que fazer ou viver; enfim era-é como os outros relegados ao chão ao sereno ao deus-dará. Sempre visto, visto parar qual morador na pracinha abandonada. Abandonada ou não e não mais frequentada pela gente tida decente; isto é, sabe-se que a gente não fica próxima dessa gente. Todos o conhecem (ou conheciam) como um sujeito pacífico.
Todavia o João na terça-feira fora encontrado no seu canto porém visto duro frio roxo morto!
Ninguém se impressionou... bem, não bem assim: quantos não se condoeram antes ao vê-lo no relento, por manso. De minha parte – porque o via sempre e sempre me condoendo: seus pés sujos pretos rachados de tanto andar e errar por esse mundo – de minha parte senti deveras e comentamos entre amigos, amigos ou somente conhecidos, lastimamos a triste sorte dos miseráveis e bem mais a dele, pela sorte ou falta de sorte do infeliz, tido por incapaz de praticar o mal. Além do mais, há um senão que é a burguesice de agora, a qual atinge o mundo e também a Vila. Nela, dos prédios altos que surgiram recentemente, aparecem a miúdo os novos ricos a paparicar seus cachorros; cria-se demais gatos e cachorros e os tratam qual fossem humanos, filhos, conversam somente sobre bichos: esquecem-se do bicho-homem, igual ao João e a tantos outros a morrer de fome... às vezes as madames e senhoritas e ainda os velhotes ex-machos têm seus animais a defecar nas árvores, por vezes próximo da gente de rua! não obstante parecem não perceberem os coitados, a sobrecarregar de carinho seus bichos de estimação. Enfim lamentamos o João e os outros decaídos e lamentamos também o abuso no tratamento animal.
Não apenas lamentamos (comentando a triste sina) mas resolvemos fazer alguma coisa pelo João.
Pra quê! se já morto?
Bem, mal não faríamos e não fizemos a dar uma sepultura digna à desventurada criatura.
Sim, tem nisso as autoridades, entretanto no rebuliço social em que o centro se envolveu nestes dias – quem poderia encontrar sequer um polícia nestas bandas hoje.
Então resolvemos, após falar à boca pequena essas coisas, resolvemos arranjar uma padiola improvisada e transportar o cadáver ao menos à beira da cova; levar até o cemitério mais ou menos desativado da Vila.
Foi o que de fato fizemos. Inclusive convidamos a nos ajudar os moços da Academia, aquele negócio de exercício que fazem para ficar mais fortes e verdadeiros titãs em tamanho e força; a fim de que pudéssemos melhor carregar o corpo inanimado. Antes que ficasse relegado o mesmo a feder e desmanchar na praça, no seu lugar preferido em vida, morto agora.
Assim cumprimos o desiderato. Com muito respeito, sem as graçolas das quais abusamos contra o pobre; então nem protestava; enquanto que outros mendigos reagindo ofendendo pela ofensa recebida. Ele um exemplo de paz; se bem saibamos ser paz velada porque todos somos gente e sentimos a língua mal usada da gente na rua.
Foram horas,  toda a tarde nesse afazer ou seja levando o João à sua última morada. Esta expressão, apesar do cacófato 'ma-mo', é mui usada. No entanto não pretendíamos arranjar encrenca com a polícia, então ausente, e por isso combinamos deixá-lo pertinho da cova aberta pelo Alberto Coveiro nosso compadre e amigo. Aí pararíamos e paramos; pronto.
Suamos. Chegamos. Descemos ao solo santo o corpo magérrimo esquelético do João, apesar da magreza pesado. Inclusive dissemos à guisa de consolo ao desditoso, caso pudesse ainda sua alma ouvir: esta noite você não precisa passar frio nem dormir com fome...
Contudo ocorreu um imprevisto por não estarmos os poucos que ainda carregavam a geringonça com o morto no final do cortejo fúnebre e já dentro do cemitério da Vila, não estarmos esclarecidos: – o corpo magro e pesado do João estremeceu, de roxo passou a avermelhado, e ele de boca aberta gritou ao mundo "ocêis tão pensando que eu sou o quê!"
Olhe, não ficou ali ninguém a escutar o resto...
Mesmo os meninões fortalhões da Academia havendo já pulado o muro dessa necrópole tão abandonada quanto a Vila; ninguém entre todos nos lembramos haver um portão, por onde o féretro antes passara.
São Paulo   junho  2018

         



             

quinta-feira, 7 de junho de 2018


(conto)Conto Grotesco

Imagine-se que mesmo um conto, por mais simples seja, um possa ter origem e história como gente e coisas valorizadas por gente. Este, comum, comuníssimo e até inexpressivo; teve seu grito na dor de parto a sair (embora sempre 'conto' mas:) trágico, fúnebre, tenebroso, sinistro, para no final enfurnar-se bater o pé e ficar mesmo 'Conto Grotesco'... Todavia deixemos isso por isto: chega empurra range a porta entra um funcionário da instituição. A instituição sabe-se lá qual, talvez oficial e cheia de burocracia, o menorzinho entre funcionários lotados e à espera da bendita aposentadoria – enquanto o próprio governo deseja acabar com a aposentadoria – enfim empurra a porta em uma dependência nos fundos, donde exala um cheiro de objetos velhos quiçá imprestáveis, em desuso ao menos; e daí começa a examinar pegar uma que outra peça nas peças empilhadas ao deus-dará ou ordenadamente, que importa. Foi nisso o desastre...
Ele não fala, fala mas fala sozinho e por isso apenas imagina e como o homem comum não sabe pensar mudo em segredo e silenciosamente expor o que tem lá no fundo da cachola, resmunga e por vezes aumenta o volume do que diz o volume saindo da boca, ou para se sentir ou não se sentir solitário isolado do mundo (terá decerto receio diante daquela pilha de ossos e trecos velhos uma que outra ferramenta enferrujada!? não se sabe; e provável temendo ficar sem companhia de vivente no escuro ou de noite como quando menino:) Contudo não permanece isolado, logo aparecendo um colega da mesma altura mental e aqui se deduz possa haver entre ambos desentendimento delação o 'diz que me diz que...' intriguinhas; enfim é uma dedução. O outro chega e não sendo percebido tosse, na linguagem do tem alguém aí! ou veja quem chegou.
O funcionário primeiro toma um pincel ou esponja e alimpa um objeto, um osso comum parecença humana, mais pra dizer ocupação e mostrar andar atarefado e na seriedade do que faz. O colega ali não lhe dá a mínima atenção e por isso pensa brabo: que me importa o Zé, esse falador e dedo-duro. Continua.
Continua na limpeza a escovar como estivesse a fazer o serviço mais sério do mundo e não pego certo ossinho, um artelho provavelmente de criança; toma o osso como fora por acaso (para mostrar serviço ao olho inimigo). Pensa, não posso temer o Zé, agora, pois estou aqui a mando do Doutor Valdemar e não devo satisfação a nenhum mequetrefe 'inventador' pronto a prejudicar outros... Mas tem medo, tanto assim que olha de esguelha, apesar continuar o trabalho aparentemente por ordem superior. Fica só outra vez.
Nesse momento se põe a imaginar, eventualmente a assoprar mais altinho alguma dúvida.
Isto deve ser de gente... Pega na fronte duma caveira a se desfazer, por isso o tomá-la com cuidado para não estragar o todo. Aí nota um fio longo de cabelo; e se pergunta e se responde imediato nunca se respondendo a contento; ou seja além de sua cultura curta limitada de joão-ninguém. Sim deve ser de gente. Mais, de mulher, mede bem um palmo ou palmo e meio e é grosso embaçado por natureza, claro terá sido pela vaidade algum dia tingido! como vou saber essas coisas. Minha tia pintava os cabelos e... ah, vai ver era de uma patroa bela, rica, festeira, mundana, mandona, mandona igual minha avó e o vô ficava quietinho quietinho... Não. Não sei, sei que é de mulher ou então o que faz aqui este sapato feminino velho com salto grande e eu pensava quando moleque como era que elas se equilibravam não caindo a andar na rua e até... vixe! arrebentei o fio, irei agorinha esconder o fio inteiro e se houvesse quebrado a caveira! derrubando e fazendo um barulhão, não: um barulho chocho e despedaçando, ainda bem que o Zé se fora logo antes, aquele 'dedodurador', falam os outros colegas que o Zé... ora o Zé, vou é mostrar serviço fazendo de conta trabalhar e não aguardar a hora do ponto, do assinar o ponto. Mas seria de mulher com metro de comprimento o fio!? Não, menos de metro e não sei se deveria ter posto o dedo nas coisas fúnebres deste lugar de restos. Ainda bem não ter aparecido e me pegado com a mão na botija um dos diretores e pior as estagiárias sempre metidas e perguntando as coisas, coisas que a gente não sabe o que sejam nem pra que servindo. Mas...
Sim, chega de mexer aqui neste despejo. Mesmo porque há possibilidade de estar o material fiscalizado por seres desconhecidos, como a alma da caveira e do cabelo que parti e do sapato antigão. Sim.
Não se esperou responder se resposta: fechou-se doutro lado da porta pra se ir, não rangendo a temer orelhas e olhos nas imediações.
São Paulo   junho  2018

         



             

segunda-feira, 4 de junho de 2018


(contolouco)O Julgamento Absurdo

Andava no salão enorme e solene um zum-zum significativo. Quando penetrou aquele santuário – não qualquer dos deuses – o Juiz encanecido e estapafurdiamente nervoso... nervoso? mostrava-se de fato neurastênico. Postou-se, carrancudo, entre iguais desemelhantes e mequetrefes submissos fardados, estes supondo-se suprassumo na arte de não ceder ao povo.
Sentou-se. A Autoridade sentou-se, ajeitou gulosa e vaidosamente a toga; e toca a tocar a sessão, o sininho calando o povaréu desguarnecido e deseducado.
À gente a assistir embasbacada e afoita também, sobrava o absurdo de em tão pequeno no grande espaço do salão de julgamento andar a gente parada (embora a se remexer indômita qual tendo bicho-carpinteiro...) parada sentada se bem que mais da metade do auditório se espremendo de pé sem cadeira – a tudo compensando a expectativa e a curiosidade banais bastardas popularescas.
O Deus Máximo daquela corte determinou o início dos trabalhos por um porta-voz, o qual pôs ao corrente o público sobre que oficialmente se tratando. Em voz alta melosa pastosa e decidida falou lendo a tremer uma lauda interminável, mais ou menos isto abaixo, tratado aqui não ipsis litteris.
Antes de mais nada, tudo é o seguinte, senhores e senhoras, estando o público já nesta altura indócil e arreliento. Isto calou um pouco o burburinho incontido da plateia.
Ela composta por uma estação do metrô duma megalópole; outra estação de trem secundário e de apoio popular à gentalha; um terminal inteirinho de ônibus superlotados a par de outros despejadas a carga humana cheia de sangue e suor; e ainda o zé-povinho das praças e demais vias públicas (a rigor, estas verdadeiras latas de lixo a céu aberto e a feder na vista dos narizes do mundo:) Realmente era ali naquele solene recinto a boca e o fim do mundo!
'Blá-blá-blou' a voz oficial a comunicar 'o quê' 'do quê' e 'o porquê' da sessão e do julgamento. E só então a Autoridade Máxima se dignou aceitar a fala criminosa (admitida como fala criminosa, espelharia um prejulgamento ou sentença a priori...)
Concedeu a palavra à boca, esta seguida da língua para análise do pé. Realmente os pés, ambos pretos sujos usados pelo muitíssimo andar por aí. Por aí. Foi por aí.
Aí ocorreram senões. Claro, a bulir com o povo, impacientando a assistência – a ponto de o Juiz bater enfezado na mesa, tocar a sineta e finalmente gritar berrando o silêncio próprio a um julgamento decente e, sobretudo, oficial.
Calou-se não a boca não a língua, a língua da plateia ou indignada ou curiosa apenas. Amordaçada seria aqui demais. Calou-se.
Os pés – disse perguntando e ao mesmo tempo impondo a Autoridade – os pés são gêmeos, pelo visto, e...
(Não completou, a língua disparou seu tagarelar...)
Não são gêmeos, Senhor Doutor Excelência; pois não se nota que um repuxa o dedão à direita outro à esquerda!
Lógico, se eleva o Poço de Sabedoria. Quis dizer não gêmeos idênticos, univitelinos. Gêmeos, portanto os dois criminosos no crime que está sendo julgado.
Pois bem – enfatiza ainda o Alto Funcionário – são acusados de andarem por aí dia todo, sem parar sem parar sem parar, quase a assassinar o corpo! Extravasaram abusos e se infiltraram por uma urbe inteira!! e...
Protesto! bicou em defesa a boca; não foram eles a deslizar em erro e crime; porém as pernas determinaram que...
Não lhe autorizei a palavra, isto não é um mero bate-boca, não é um debate mundano; não é sequer um sinistro metido a ministro corrupto dando entrevista na televisão.
O povo burburinha aquietando e o Chefe do 'Antro' de Justiça continua (dir-se-ia um lenga-lenga pra ser aberrante e absurdo, pois solene:) enfim prossegue o comunicado.
A troco de quê!
Mais, por que praticaram os pés tanta asneira, insiste o Juiz-Mor.
 Não ocorreu assim, ó Sua Santidade. Pode agora testemunhar sobre o assunto as nádegas (pronunciou "bunda" grosseiramente). O Juiz concedeu num senão de cabeça.
Elas "pum-pum".
O público esgoelou educação 'quá-quá-quando' rebuliçoso e escancarado. A ponto de a Douta Autoridade gritar exigindo parar ao silêncio.
O silêncio.
O prosseguimento da continuação.
Andou, andou, andou, andaram os pés criminosos, a ponto gastar os paralelepípedos e o asfalto pago (enfatiza) com o dinheiro do contribuinte! Além de expor a saúde do corpo.
Protesto, esgoelaram a boca e a língua, cada qual desejando ter mais voz e mais razão sem razão de ser. O Chefão cassa-lhes a palavra e o desentendimento e segue na formalização do crime. Nesse momento pergunta meio de chofre aos pés, quase aniquilados eles por tímidos e encolhidos no seu temor:
A fim de quê!?
Calaram-se, calados.
Elas (a boca a língua mais esta que aquela, ambas falando ao mesmo tempo:) elas "a fim de levar mais cultura ao povo, doando uns livros à biblioteca pública".
O Juiz.
Ora bolas, isto configura o absurdo pois livro serve na opinião hoje da gente para fazer  embalagens de pizzas. Mais nada porque o povo não lê, vê tevê e celular e joguinhos e intriguinhas nas redes sociais. Portanto cansaço desnecessário e até criminoso.
O auditório arregala, abre mas nada fala, mudo.
Que mais alegam? completa o Mandachuva.
A língua (em disputa absurda com a boca:) a língua: desejavam encontrar também numa loja de ferragens uma verruma para um arco de pua.
Retruca o Anjo Togado. Mas isso é fora de moda – não existe mais, não se fabrica a peça a ferramentazinha, agora se usa furadeira e broca de furadeira. Buscar algo inexistente é crime ou loucura consumados.
Elas, sempre mudas, assopram alto qualquer "pum".
O público vai ao delírio, em risotas, uns gargalham outros gritam e até assobiam.
Contudo nesse instante a Autoridade exorta sem moderar sua voz; ainda mais que a boca e a língua pretendendo ainda disparar...
Basta! Fica suspensa a sessão, remarco a solenidade para o dia de São Nunca; ou enlouqueço eu; eu enlouqueceria, o que seria séria absurdidade.
São Paulo   maio  2018

segunda-feira, 23 de abril de 2018


(pensamento4607)Gosto de pensar-sonhar no escuro; na claridade a gente vê o que vê e não vê o que sente. abril2018



(conto)Meros desencontros no encontro

Deu-se no mundo do faz de conta um encontro e nele um entrevero conjugal entre, é lógico, ele e ela, ela dizendo ser culpa dele ele dizendo ela a culpada. Ele? o ano-luz; ela? a hora. Mas não se entendiam de jeito nenhum e não se entenderam nunca sobre a questão do tempo; em acalorada discussão, dessa de chamar atenção de vizinhos e provocar primeiro preocupação nos filhos vendo a tragédia que é uma briga de casal, maismente papai-mamãe. Discussão feia. Ela tomada da incerteza de que ela e todas horas sendo a soma dos minutos (estes já grandinhos filhos; também discutindo ou entrando na indignação os segundos, segundo más fontes netos do casal). Ele a balançar, já rouco na discussão (leia-se agressão) a balançar a cabeça pra lá e milênios depois pra cá num não tem jeito. Decerto nem o certo por mais errado concordando, somente concordando no apartar das partes. Mesmo porque é horroroso assistir desentendimento conjugal (dos outros, o da gente a gente sequer percebe e não vê). Os vizinhos satisfeitos pela distração de graça, pois aquela no shopping center custa o olho da cara de cara. E torcendo (pra acabar tudinho? capaz, pra terem o de que falar lá no escritório na hora do almoço e entremeio o cafezinho longe do chefe, aquele...) Chegaram ao cúmulo de apagarem suas respectivas luzes, as luzes de cada apartamento naquela espécie de colmeia gigante que são os atuais edifícios ou torres – apenas para verem melhor. O que viram? o que ouviram? bem... A voz fina materna maternal feminil dela, ela arrebenta no grito endereçado ao seu macho, dona hora a afirmar ter a troco de quê! dado à luz os minutos e ele: "mentira deslavada" (sempre num ferir usando tal expressão) elinhos é que lhe deram à luz. Quem fez a hora foram os sessenta minutos e antes deles houve os sessenta netos que temos, os quais deram à luz aos que... A hora sem-hora a senhora, a senhora perde as estribeiras e antes de precisar gritar mais altão pros lados dele, o que demoraria mil anos com ou sem luz, antes chora, arma mui mortal anos a fio no mundo e no mundo do faz de conta. Esgotado o arsenal de argumentos e no cruzar de 'argumentos' de ambos contendores, ela, a hora, lança um que seria final e a arrasar situação e oposição. Esbraveja a acusação principal dela sobre ele "você fica a paquerar as estrelas, por conta e sugestão desse verme presunçoso que é o homem". Debalde. Ele já longe um ano-luz, nem dando pra ver...
São Paulo   abril 2018