terça-feira, 9 de outubro de 2018


(contolouco) Casal Típico de Nossos Dias

Era uma vez um político que se casou com dona propina. Não. Disseram bem dito que não houve matrimônio formal e tudo o mais, menos pois não exigir-se-ia festa no caso do casal. O casal viveu – às escondidas é preciso esclarecer – viveu, bem não se sabe supõe-se mas afinal dividiram ambos seus dias além muito além da época de eleição, a eleição homenageada por estas linhas a fim de festejar o tempo dos tempos. Segundo alguns, algumas por englobar sobretudo vizinhas linguarudas ex-comadres de antanho; segundo elas ele encontrou sua parceira daqueles dias num lupanar onde brilhava a beldade 'emelecada' de perfumes e cosméticos e devidamente maquiada, atraindo o pobre; então puro anjo santo, corrompido. Então ter-se-iam ajuntado graças ao auxílio de meios escusos ligados aos inescrupulosos empresários antes políticos, todos contaminados pela ambição...
O par não teve descendentes, ou por outra, teve muitos porém tais exemplares não passavam de concorrentes ex-políticos ex-propinas também ou viola do mesmo saco diz o ditado caipira. Viveu, conviveu por muitos anos, contados de antes do Império Romano decadente até depois do futuro próximo futuro...
Bem, teve lá seus tropeços – qual terá sido o casal que não os teve desde que o mundo é mundo! – teve sim e um foi que certo engraçadinho incerto ou um frouxo qualquer do consórcio de apoio a esse amor casto puro angélico, caíra numa contradição ou choque trivial de farinha da farinha do mesmo saco: por isso foi preso inquirido e vendeu informes implicantes em troca ter condenação mais branda. Assim Político caiu enrolado também na armadilha, bem como Propina; já nesta altura ambos num viver mais escondido, possa a peneira tapar o sol. Presos.
Aí entram rábulas e advogados, estes últimos pagos por Político Riquíssimo graças a ela, ela Propina; enquanto ela ficara por conta de rábulas, desses que não passam no exame da Ordem. Sem progresso, veja-se bem também. Os causídicos tentaram provar a inocência dos fregueses (já fregueses contumazes) chamados clientes nas altas cortes.
Isso, entram aqui as Altas Cortes.
Aquele negócio escondido da verdade mas sabido pelos moleques do grupo escolar. De a polícia prender e o juiz ex-defensor de grandes réus (leia-se milionários e com exageros de votos comprados com meios de origem espúria) tal juiz solta por luminar liminar o bandido foragido protegido, bandido sim, antes puro anjo santo eleito e tudo o mais. Menos: outro juiz manda prender de novo o velho devedor, se encontrado ou ao menos achada sua fortuna no Paraíso Fiscal, realmente nunca devolvida in totum.
Acaba aí um amor tão profundo e duradouro, quer dizer de mais de um ano ou de um pleito!?
Não.
Não! que abuso interpretativo.
Não mesmo.
Político muda de partido, um a aceitar sua condenação sem ação por decurso de prazo, virando nada. Nada naquele tempo de era uma vez, tempo sábio e sabido tempo, nada nessa época fora batizado como esquecimento. Passa-se uma borracha, tchã-tchã-tchã, desaparece como por encanto, enquanto os pobres dos pobres no povo através dos impostos pagam a conta.
Supõe-se, com maldade então, que Propina igualmente nas mesmas condições escondida ou casada ou amigada com novos velhos camaradas, conhecidos por namorados.
Ah, vai aí a solução como dica em presente ao Dia dos Namorados. Que por sinal não coincide com o Dia de Eleição no caso do caso, amanhã sete de outubro de 2018.
São Paulo   outubro  2018

         



             

terça-feira, 2 de outubro de 2018


(conto) Exemplar Tabefe

Zé Mão de Onça era um sujeito exemplar no que fazia, humilde mas ignorante. Querido ou respeitado entre colegas no trabalho, sendo servidor até honesto. Mão por defeito na sua mão direita meio fechada, parecendo pata de onça. Um dia passou por experiência insólita ao ir faxinar a capela: na moradia de Deus, encontrou o diabo na forma de assombração.
A urbe mais vila que cidade fora tomada de pânico horror atarantamento nos improvisos por uma tragédia próxima, um ônibus que chamavam jardineira despencou matou dezenas duma vez; e o hospitaleco não suportava a demanda – muitos pedaços de gente à pouca gente classificada atender! Vieram médicos e enfermeiros e policiamento dos arredores. Nessas horas tristes também faleceu um cidadão sem nome, e morto tratado como indigente; na soma da correria diante o desastre rodoviário, ficou de barriga aberta fora da geladeira e posto, sem lugar para pôr, em depósito na capelinha, o necrotério mui ocupado...
Bem, Zé fora limpar a área.
Chegando ali fez o que pôde, logo chamado a atender na correria dos pedaços visitantes. Ao sair praticou um desmandozinho na pressa: deu um tapa no desconhecido morto, um na bunda exposta do comportado ser; fria. Mas... ouviu imediato um grito "ai!" de dor ou indignação. Saiu correndo o coração pela boca.
Narrou por cima aquele por baixo aos poucos iguais. E ficaria nisso, fosse e parecia ser mesmo alma penada. Decerto do morto que levara a corrigenda num tabefe quente na traseira fria.
Chegou o caso às autoridades em trabalho no hospital e assim um médico e seu assistente acompanharam Onça para verificação in loco.
Senhor José, diz o Dr. José, está vendo o cadáver autopsiado e cadáver não fala, menos ainda grita...
Sorriu desesperançado a vítima da vítima sem vida. Iam já abandonar o recinto e o morto no recinto quando o Doutor, numa graçola inusitada e despropositada a uma autoridade clínica, quando esta dá em exemplo um tabefe na fria nádega do corpo inanimado... Imediato os três vivos notaram um vivo grito "ai!"
O mais corajoso e sério do grupelho, o primeiro a correr fora... os outros saíram aflitos atrás.
Todos, em acordo agora, todos silenciaram a fraqueza...
Só mais tarde, passado o tormento dos pedaços humanos reconhecidos e/ou identificados e enterrados é que puderam explicar certa minúcia no caso.
No rebuliço da tragédia uma tragédia insignificante individual dera oportunidade a um bêbado se esconder num canto da capela – talvez sequer percebendo o cadáver de barriga aberta – e ali dormiu escondendo a embriaguez. Apenas notara a custo o susto no susto com a palmada da onça despreparada e a da autoridade a exibir sua própria coragem.
O que não aliviaria a ignorância de ninguém.
São Paulo   setembro  2018
             


(contolouco) – Surpresa na Rotina

Andava ali agora um frescor inusitado, levando-se em conta o calor imenso a esturricar a população urbana desamparada; uns do povo diziam que beirando quarenta outros que bem mais de trinta; os marcadores nas esquinas aferiam trinta e dois, trinta e três graus. Contudo naquele santo lugar, silencioso e protegido, estando fresco; não frio, fresquinho. Resolveu comparar, subiu ao nível mais conhecido e constatou o despropósito da temperatura na seca. Em torno donde parado percebeu algumas pessoas, quase sempre circunspectas ao menos silenciosas. No entanto num grupo de senhoras e jovens mulheres com um menino assopravam toadas; esse ajuntamentinho orava mas em altas vozes, o cantochão de hábito, pensou; umas entre tais mulheres choravam outras bradavam, assustando um pouco o garoto a olhar para mãe. Uns pequenos também corriam nas imediações em brincadeiras. Mesmo porque a vida é um faz de conta a moleques. Mais adiante percebeu coroas flores velas e cheiros, os cheiros não viu sentiu mas com certa repugnância pois manifestação no... ah oh ih encontrava-se agora no cemitério! Deu-lhe um arrepio e assim procurou fugir do grupo humano entre as tumbas, estas exposição milenar da fraqueza da gente. Não fora entretanto mui longe no abarcar o quadro em seu olhar; porém dando para examinar um conjunto rico na 'cidade dos pés juntos', isto um falar do povo miúdo. Viu capelas cujo brilho a ficar por cima da opaca residência da morte; daí condenou a situação – condenara vida inteira a morte e as manifestações vivas da morte. Aliás andava nítido na memória não simpatizar-se com representações fúnebres; a rigor não passava sequer frente à necrópole municipal; entrar nela então? capaz. Mesmo velórios de amigos deixando a amigos restritos e aos íntimos do morto. Finados! ora tem gente que passeia nesse feriado no local para ver os mortos que não podem ver... Em síntese, tudo achava bobagem. Por fim resolveu passear ele mesmo no seu tempo disponível por aquelas ruas meio desertas, até chegar olhar pelo portão a rua dos vivos; curiosamente tida por Avenida Saudade. Balançou a cabeça pra lá pra cá condenando tudo no todo. Mas não conseguindo fugir do calorão. Apesar do abrasamento, não tomaria agora naquela hora um sorvete. Poderia causar mal à saúde. Nesse pensamento e num átimo tornou quase que milagrosamente ao frescor, medindo por alto uns sete palmos na viagem em triz à descida. E se viu, não vira antes, viu-se, examinou cada membro cada parte do seu ser ali a gozar o frescor. Só então sentindo o horror de se encontrar preso inerte duro frio, mais frio que o frescor.
São Paulo   setembro  2018