quinta-feira, 7 de junho de 2018


(conto)Conto Grotesco

Imagine-se que mesmo um conto, por mais simples seja, um possa ter origem e história como gente e coisas valorizadas por gente. Este, comum, comuníssimo e até inexpressivo; teve seu grito na dor de parto a sair (embora sempre 'conto' mas:) trágico, fúnebre, tenebroso, sinistro, para no final enfurnar-se bater o pé e ficar mesmo 'Conto Grotesco'... Todavia deixemos isso por isto: chega empurra range a porta entra um funcionário da instituição. A instituição sabe-se lá qual, talvez oficial e cheia de burocracia, o menorzinho entre funcionários lotados e à espera da bendita aposentadoria – enquanto o próprio governo deseja acabar com a aposentadoria – enfim empurra a porta em uma dependência nos fundos, donde exala um cheiro de objetos velhos quiçá imprestáveis, em desuso ao menos; e daí começa a examinar pegar uma que outra peça nas peças empilhadas ao deus-dará ou ordenadamente, que importa. Foi nisso o desastre...
Ele não fala, fala mas fala sozinho e por isso apenas imagina e como o homem comum não sabe pensar mudo em segredo e silenciosamente expor o que tem lá no fundo da cachola, resmunga e por vezes aumenta o volume do que diz o volume saindo da boca, ou para se sentir ou não se sentir solitário isolado do mundo (terá decerto receio diante daquela pilha de ossos e trecos velhos uma que outra ferramenta enferrujada!? não se sabe; e provável temendo ficar sem companhia de vivente no escuro ou de noite como quando menino:) Contudo não permanece isolado, logo aparecendo um colega da mesma altura mental e aqui se deduz possa haver entre ambos desentendimento delação o 'diz que me diz que...' intriguinhas; enfim é uma dedução. O outro chega e não sendo percebido tosse, na linguagem do tem alguém aí! ou veja quem chegou.
O funcionário primeiro toma um pincel ou esponja e alimpa um objeto, um osso comum parecença humana, mais pra dizer ocupação e mostrar andar atarefado e na seriedade do que faz. O colega ali não lhe dá a mínima atenção e por isso pensa brabo: que me importa o Zé, esse falador e dedo-duro. Continua.
Continua na limpeza a escovar como estivesse a fazer o serviço mais sério do mundo e não pego certo ossinho, um artelho provavelmente de criança; toma o osso como fora por acaso (para mostrar serviço ao olho inimigo). Pensa, não posso temer o Zé, agora, pois estou aqui a mando do Doutor Valdemar e não devo satisfação a nenhum mequetrefe 'inventador' pronto a prejudicar outros... Mas tem medo, tanto assim que olha de esguelha, apesar continuar o trabalho aparentemente por ordem superior. Fica só outra vez.
Nesse momento se põe a imaginar, eventualmente a assoprar mais altinho alguma dúvida.
Isto deve ser de gente... Pega na fronte duma caveira a se desfazer, por isso o tomá-la com cuidado para não estragar o todo. Aí nota um fio longo de cabelo; e se pergunta e se responde imediato nunca se respondendo a contento; ou seja além de sua cultura curta limitada de joão-ninguém. Sim deve ser de gente. Mais, de mulher, mede bem um palmo ou palmo e meio e é grosso embaçado por natureza, claro terá sido pela vaidade algum dia tingido! como vou saber essas coisas. Minha tia pintava os cabelos e... ah, vai ver era de uma patroa bela, rica, festeira, mundana, mandona, mandona igual minha avó e o vô ficava quietinho quietinho... Não. Não sei, sei que é de mulher ou então o que faz aqui este sapato feminino velho com salto grande e eu pensava quando moleque como era que elas se equilibravam não caindo a andar na rua e até... vixe! arrebentei o fio, irei agorinha esconder o fio inteiro e se houvesse quebrado a caveira! derrubando e fazendo um barulhão, não: um barulho chocho e despedaçando, ainda bem que o Zé se fora logo antes, aquele 'dedodurador', falam os outros colegas que o Zé... ora o Zé, vou é mostrar serviço fazendo de conta trabalhar e não aguardar a hora do ponto, do assinar o ponto. Mas seria de mulher com metro de comprimento o fio!? Não, menos de metro e não sei se deveria ter posto o dedo nas coisas fúnebres deste lugar de restos. Ainda bem não ter aparecido e me pegado com a mão na botija um dos diretores e pior as estagiárias sempre metidas e perguntando as coisas, coisas que a gente não sabe o que sejam nem pra que servindo. Mas...
Sim, chega de mexer aqui neste despejo. Mesmo porque há possibilidade de estar o material fiscalizado por seres desconhecidos, como a alma da caveira e do cabelo que parti e do sapato antigão. Sim.
Não se esperou responder se resposta: fechou-se doutro lado da porta pra se ir, não rangendo a temer orelhas e olhos nas imediações.
São Paulo   junho  2018

         



             

segunda-feira, 4 de junho de 2018


(contolouco)O Julgamento Absurdo

Andava no salão enorme e solene um zum-zum significativo. Quando penetrou aquele santuário – não qualquer dos deuses – o Juiz encanecido e estapafurdiamente nervoso... nervoso? mostrava-se de fato neurastênico. Postou-se, carrancudo, entre iguais desemelhantes e mequetrefes submissos fardados, estes supondo-se suprassumo na arte de não ceder ao povo.
Sentou-se. A Autoridade sentou-se, ajeitou gulosa e vaidosamente a toga; e toca a tocar a sessão, o sininho calando o povaréu desguarnecido e deseducado.
À gente a assistir embasbacada e afoita também, sobrava o absurdo de em tão pequeno no grande espaço do salão de julgamento andar a gente parada (embora a se remexer indômita qual tendo bicho-carpinteiro...) parada sentada se bem que mais da metade do auditório se espremendo de pé sem cadeira – a tudo compensando a expectativa e a curiosidade banais bastardas popularescas.
O Deus Máximo daquela corte determinou o início dos trabalhos por um porta-voz, o qual pôs ao corrente o público sobre que oficialmente se tratando. Em voz alta melosa pastosa e decidida falou lendo a tremer uma lauda interminável, mais ou menos isto abaixo, tratado aqui não ipsis litteris.
Antes de mais nada, tudo é o seguinte, senhores e senhoras, estando o público já nesta altura indócil e arreliento. Isto calou um pouco o burburinho incontido da plateia.
Ela composta por uma estação do metrô duma megalópole; outra estação de trem secundário e de apoio popular à gentalha; um terminal inteirinho de ônibus superlotados a par de outros despejadas a carga humana cheia de sangue e suor; e ainda o zé-povinho das praças e demais vias públicas (a rigor, estas verdadeiras latas de lixo a céu aberto e a feder na vista dos narizes do mundo:) Realmente era ali naquele solene recinto a boca e o fim do mundo!
'Blá-blá-blou' a voz oficial a comunicar 'o quê' 'do quê' e 'o porquê' da sessão e do julgamento. E só então a Autoridade Máxima se dignou aceitar a fala criminosa (admitida como fala criminosa, espelharia um prejulgamento ou sentença a priori...)
Concedeu a palavra à boca, esta seguida da língua para análise do pé. Realmente os pés, ambos pretos sujos usados pelo muitíssimo andar por aí. Por aí. Foi por aí.
Aí ocorreram senões. Claro, a bulir com o povo, impacientando a assistência – a ponto de o Juiz bater enfezado na mesa, tocar a sineta e finalmente gritar berrando o silêncio próprio a um julgamento decente e, sobretudo, oficial.
Calou-se não a boca não a língua, a língua da plateia ou indignada ou curiosa apenas. Amordaçada seria aqui demais. Calou-se.
Os pés – disse perguntando e ao mesmo tempo impondo a Autoridade – os pés são gêmeos, pelo visto, e...
(Não completou, a língua disparou seu tagarelar...)
Não são gêmeos, Senhor Doutor Excelência; pois não se nota que um repuxa o dedão à direita outro à esquerda!
Lógico, se eleva o Poço de Sabedoria. Quis dizer não gêmeos idênticos, univitelinos. Gêmeos, portanto os dois criminosos no crime que está sendo julgado.
Pois bem – enfatiza ainda o Alto Funcionário – são acusados de andarem por aí dia todo, sem parar sem parar sem parar, quase a assassinar o corpo! Extravasaram abusos e se infiltraram por uma urbe inteira!! e...
Protesto! bicou em defesa a boca; não foram eles a deslizar em erro e crime; porém as pernas determinaram que...
Não lhe autorizei a palavra, isto não é um mero bate-boca, não é um debate mundano; não é sequer um sinistro metido a ministro corrupto dando entrevista na televisão.
O povo burburinha aquietando e o Chefe do 'Antro' de Justiça continua (dir-se-ia um lenga-lenga pra ser aberrante e absurdo, pois solene:) enfim prossegue o comunicado.
A troco de quê!
Mais, por que praticaram os pés tanta asneira, insiste o Juiz-Mor.
 Não ocorreu assim, ó Sua Santidade. Pode agora testemunhar sobre o assunto as nádegas (pronunciou "bunda" grosseiramente). O Juiz concedeu num senão de cabeça.
Elas "pum-pum".
O público esgoelou educação 'quá-quá-quando' rebuliçoso e escancarado. A ponto de a Douta Autoridade gritar exigindo parar ao silêncio.
O silêncio.
O prosseguimento da continuação.
Andou, andou, andou, andaram os pés criminosos, a ponto gastar os paralelepípedos e o asfalto pago (enfatiza) com o dinheiro do contribuinte! Além de expor a saúde do corpo.
Protesto, esgoelaram a boca e a língua, cada qual desejando ter mais voz e mais razão sem razão de ser. O Chefão cassa-lhes a palavra e o desentendimento e segue na formalização do crime. Nesse momento pergunta meio de chofre aos pés, quase aniquilados eles por tímidos e encolhidos no seu temor:
A fim de quê!?
Calaram-se, calados.
Elas (a boca a língua mais esta que aquela, ambas falando ao mesmo tempo:) elas "a fim de levar mais cultura ao povo, doando uns livros à biblioteca pública".
O Juiz.
Ora bolas, isto configura o absurdo pois livro serve na opinião hoje da gente para fazer  embalagens de pizzas. Mais nada porque o povo não lê, vê tevê e celular e joguinhos e intriguinhas nas redes sociais. Portanto cansaço desnecessário e até criminoso.
O auditório arregala, abre mas nada fala, mudo.
Que mais alegam? completa o Mandachuva.
A língua (em disputa absurda com a boca:) a língua: desejavam encontrar também numa loja de ferragens uma verruma para um arco de pua.
Retruca o Anjo Togado. Mas isso é fora de moda – não existe mais, não se fabrica a peça a ferramentazinha, agora se usa furadeira e broca de furadeira. Buscar algo inexistente é crime ou loucura consumados.
Elas, sempre mudas, assopram alto qualquer "pum".
O público vai ao delírio, em risotas, uns gargalham outros gritam e até assobiam.
Contudo nesse instante a Autoridade exorta sem moderar sua voz; ainda mais que a boca e a língua pretendendo ainda disparar...
Basta! Fica suspensa a sessão, remarco a solenidade para o dia de São Nunca; ou enlouqueço eu; eu enlouqueceria, o que seria séria absurdidade.
São Paulo   maio  2018