(conto) – Conto Grotesco
Imagine-se
que mesmo um conto, por mais simples seja, um possa ter origem e história como
gente e coisas valorizadas por gente. Este, comum, comuníssimo e até
inexpressivo; teve seu grito na dor de parto a sair (embora sempre 'conto'
mas:) trágico, fúnebre, tenebroso, sinistro, para no final enfurnar-se bater o
pé e ficar mesmo 'Conto Grotesco'... Todavia deixemos isso por isto: chega
empurra range a porta entra um funcionário da instituição. A instituição
sabe-se lá qual, talvez oficial e cheia de burocracia, o menorzinho entre funcionários
lotados e à espera da bendita aposentadoria – enquanto o próprio governo deseja
acabar com a aposentadoria – enfim empurra a porta em uma dependência nos
fundos, donde exala um cheiro de objetos velhos quiçá imprestáveis, em desuso
ao menos; e daí começa a examinar pegar uma que outra peça nas peças empilhadas
ao deus-dará ou ordenadamente, que importa. Foi nisso o desastre...
Ele
não fala, fala mas fala sozinho e por isso apenas imagina e como o homem comum
não sabe pensar mudo em segredo e silenciosamente expor o que tem lá no fundo
da cachola, resmunga e por vezes aumenta o volume do que diz o volume saindo da
boca, ou para se sentir ou não se sentir solitário isolado do mundo (terá
decerto receio diante daquela pilha de ossos e trecos velhos uma que outra
ferramenta enferrujada!? não se sabe; e provável temendo ficar sem companhia de
vivente no escuro ou de noite como quando menino:) Contudo não permanece
isolado, logo aparecendo um colega da mesma altura mental e aqui se deduz possa
haver entre ambos desentendimento delação o 'diz que me diz que...' intriguinhas;
enfim é uma dedução. O outro chega e não sendo percebido tosse, na linguagem do
tem alguém aí! ou veja quem chegou.
O
funcionário primeiro toma um pincel ou esponja e alimpa um objeto, um osso
comum parecença humana, mais pra dizer ocupação e mostrar andar atarefado e na
seriedade do que faz. O colega ali não lhe dá a mínima atenção e por isso pensa
brabo: que me importa o Zé, esse falador e dedo-duro. Continua.
Continua
na limpeza a escovar como estivesse a fazer o serviço mais sério do mundo e não
pego certo ossinho, um artelho provavelmente de criança; toma o osso como fora
por acaso (para mostrar serviço ao olho inimigo). Pensa, não posso temer o Zé,
agora, pois estou aqui a mando do Doutor Valdemar e não devo satisfação a
nenhum mequetrefe 'inventador' pronto a prejudicar outros... Mas tem medo,
tanto assim que olha de esguelha, apesar continuar o trabalho aparentemente por
ordem superior. Fica só outra vez.
Nesse
momento se põe a imaginar, eventualmente a assoprar mais altinho alguma dúvida.
Isto
deve ser de gente... Pega na fronte duma caveira a se desfazer, por isso o
tomá-la com cuidado para não estragar o todo. Aí nota um fio longo de cabelo; e
se pergunta e se responde imediato nunca se respondendo a contento; ou seja
além de sua cultura curta limitada de joão-ninguém. Sim deve ser de gente. Mais,
de mulher, mede bem um palmo ou palmo e meio e é grosso embaçado por natureza,
claro terá sido pela vaidade algum dia tingido! como vou saber essas coisas. Minha
tia pintava os cabelos e... ah, vai ver era de uma patroa bela, rica, festeira,
mundana, mandona, mandona igual minha avó e o vô ficava quietinho quietinho...
Não. Não sei, sei que é de mulher ou então o que faz aqui este sapato feminino
velho com salto grande e eu pensava quando moleque como era que elas se
equilibravam não caindo a andar na rua e até... vixe! arrebentei o fio, irei
agorinha esconder o fio inteiro e se houvesse quebrado a caveira! derrubando e
fazendo um barulhão, não: um barulho chocho e despedaçando, ainda bem que o Zé
se fora logo antes, aquele 'dedodurador', falam os outros colegas que o Zé...
ora o Zé, vou é mostrar serviço fazendo de conta trabalhar e não aguardar a
hora do ponto, do assinar o ponto. Mas seria de mulher com metro de comprimento
o fio!? Não, menos de metro e não sei se deveria ter posto o dedo nas coisas
fúnebres deste lugar de restos. Ainda bem não ter aparecido e me pegado com a
mão na botija um dos diretores e pior as estagiárias sempre metidas e perguntando
as coisas, coisas que a gente não sabe o que sejam nem pra que servindo. Mas...
Sim,
chega de mexer aqui neste despejo. Mesmo porque há possibilidade de estar o
material fiscalizado por seres desconhecidos, como a alma da caveira e do
cabelo que parti e do sapato antigão. Sim.
Não
se esperou responder se resposta: fechou-se doutro lado da porta pra se ir, não
rangendo a temer orelhas e olhos nas imediações.
São Paulo junho
2018