(contolouco) – Esqueleto
Ele me deu
trabalhão nesta noite de frio e silêncio, silêncio aos outros meus vizinhos de
jornada, a dormir seu sono reparador seu descanso seu sonho solto, enquanto
solto eu meus ais pelo 'nhec-nhecar' dos sons das juntas dos ossos dele – e a
me remexer sem saber onde parar parando o estado de meu espírito e... ah
trocando em miúdos, não dormi. Por causa dele. Ouço desde o dia em a noite dum
cemitério, a rigor o nosso cemitério municipal na avenida saudade; saudade nenhuma
sinto nessa lembrança e entrei e saí quase furtivamente da necrópole para minha
vida de relação com os outros mortais moradores e foi quando... isso, foi aí
notar ser perseguido por ele, ele atrás eu na frente em frente a caminhar pra
casa; parava olhava observava notava lá longe seu espectro meio fumaça mas
pior, constatava o esqueleto a me seguir, sem conseguir embora me alcançar.
Continuei nesse jogo sujo ou brincadeira inocente do gato e o rato e daí parei.
Parei. Olhei. Examinei. Fiz-me 'invisível' a ele e a tudo o mais ou desistiria
pensar e isto é morrer! Não. Sim, pus-me a analisar melhor.
Que diabo, eu
falei, esse tal a me seguir... Não. Devo estar errado; não enganado no item
'seguir' e piormente perseguir, prosseguir foi daí minha decisão. Contudo tudo
no mesmo de o-gato-e-o-rato. Não: estaria errado só no item 'ele', ele é quem
andava encostado. Por que ele
não podendo ser ela? Então
imaginei, imaginei coisa alguma pois tenho agora hora de perseguição e aqui eu
seria o rato ela a gata – estaria por mim apaixonada!? Ela. Agora vejo minha
perseguidora, com boa vontade. Visto olhar agora, ora, olhar para uma fêmea da
espécie (ué, mas de qual espécie!) uma prontinha para mim – sujeito sujeito à
timidez e portanto sem coragem de fazer conquista.
Daí em diante ela
me seguiria sempre e sempre estaria ao meu encalço, invertendo costume de o
homem conquistar, ficando neste caso a mulher a conquistar o homem. Mas o fato
principal disso tudo é o(a)
esqueleto indo amar o feio homem (não sou enganador e por essa razão aceito ser
o ser comum sem qualquer beleza ou talento). Por causa disso paro a analisar
fatos. Eu ando ela anda, eu paro ela para – qual sombra de alguém que estaca
quando o ser principal estaca. Ela então seria minha sombra!
Não. Sobra mais
verdades.
Daí examino
estudo concluo haver esqueleto, a
esqueleto seria desejar forçar a concordância na linguagem; todavia ele é ela,
bela? pura? santa? honesta? beata? Enquanto eu sou eu, ora.
Hora depois,
ainda a mesma no mesmo. Eu à frente ela atrás; com a diferença de a distância
entre nós haver diminuído consideravelmente. Quando mais perto, mais de perto,
paro. Descrevo.
Um esqueleto
completo a me seguir desde o campo-santo; com boas intenções! pergunto
indeciso. Completinho e total: cabeça tronco braços pernas com pés de andar; a
cabeça (olho bem, bem próximos estamos) a cabeça é uma caveira até aceitável.
Tem dentes brancos, um está quebrado e em falta na sobra dos trinta e um. O ôlho, ólho, uma cavidade escura nas órbitas em par. O crânio tem
aquelas marquinhas e sinais da separação como que colada da ossatura disposta
pela natureza. Dentro da cabeça terá (me pergunto louco:) terá cérebro e pensamento!
não vejo, olho no entanto. O peito (e me indago outra vez:) tem coração de
sentir! e aí a atração por mim a quase sua frente ao caminho em que vou vamos,
iremos a prosseguir em nosso rumo. Não sei disso, do coração me refiro e não da
estrada que são ruas com cruzamentos e gente e veículos e barulhos da loucura
de uma cidade. Nesse peito a defesa das costelas, o esterno juntando as pontas das
sete primeiras delas, mas sendo o comum dos ossos; atrás quase dando pra ver a
coluna vertebral unindo o acima ao embaixo, ou seja a bacia depois o fêmur e o
resto do extremo indo até chegar aos pés com seus artelhos (os dela caprichados
pequenos bem-postos). Enfim esqueleto completo pleno total e ainda assim o comum
que se vê.
Examino o
conjunto e me agrada o que vejo e me agrado dela.
Experimento um
movimento no sentido de ir partir. Ela também qual sombra ameaça e executa a
mesma movimentação minha. Estamos atrelados, penso alto; responde alto ela no
meu pensamento e assim sorrio, sorrimos nos entendendo nesse esdrúxulo
namoro... quem sabe mais esdrúxulo em vista o porte, já que sou ligeiramente de
estatura menor que ela; mas isso somenos.
Continuamos.
Eu vou andando,
aumento a distância no percurso; ela agora 'corre' o quanto permitido, chocalha
seus ossos e os miúdos fazem sons também miúdos que são uma gracinha... Rimos.
Rimo-nos de nós mesmos; ah mas como os amantes dizem tanta bobagem tanto
absurdo em suas certezas poéticas! Ela. Eu. Mostramos talento na coisa, coisa
séria...
Percorro,
percorremos, ela a encurtar mais a lonjura; andamos mais metros mais
quilômetros e chegamos. Mas onde! nós indagamos em amores quase a nos encostar e
a nos cheirar.
Não sei,
respondo. Ela meneia a cabeça a concordar com as interrogações do mundo.
Então leio,
meio cego perdera em qualquer vão meus óculos; enquanto ela sequer lê com as
órbitas cavas dos olhos. "Dr. Roberto" e o resto não se lê não dando
pra ler; entro; entra atrás de mim. Paro. Ora, uma donzela nossa educação manda
entrar primeiro, depois o garanhão apressado. Voltamos, nos corrigimos e aí sim
ela antes eu após; puxo a cadeira, ela se senta, depois me sento ao lado.
Exponho ao doutor as coisas; ele examina em consulta meu amorzinho, escreve na
ficha e rabisca a receita, dispõe instruções a proceder exames de ultrassom,
essas coisas. Mas me adianta desde já e me assusta (enquanto Ela assunta:) os
ossos do esqueleto são masculinos...
Itapecerica da
Serra outubro 2017