(conto) Pacto sem Sangue
A
combinação entre um contratante-beneficiário e o executante possivelmente
beneficiário era a dos grandes acordos sem se expor ninguém e sem sequer derrame
duma gota de sangue. A gota é o pretexto da violência; ou não tida violência,
aparência anuência consistência portanto sem consequência. Mas ele, miudinho
assim porém persistente, teimoso mesmo; ele cometera falha, falhazinha dessa
que olhos comuns nem veem, que foi o perder num descuido a arma...
Voltou
a fim de procurá-la.
Antes
disso, profissional com direito a um amadorismo próprio do seu amadorismo;
antes e no objetivo principal eliminara o agressor, agressor pois os ofendidos
costumam pôr pecados nos outros. Então usara de competência embora tremesse no
ato, usara bem a ferramenta que o contratante-beneficiário lhe dera, morrera a
vítima sem acordar na escuridão. Anteriormente calara o cachorro e na passagem
pessoas no caminho – não podendo evitar o sangue num ferir o trato... Saiu correu
fugiu sumiu.
Lá
pelas tantas na bruma da lua nova velha como o mundo e parecendo nesse momento
mais o escuro; aí notou a falta do revólver, então com apenas uma bala a
serviço inesperado. Nisso entra o comprometimento e até pistas. Não pensou duas
vezes tornou à cena do crime (um que seria sem sangue; não um pacto
cerimonioso, enfim ação corriqueira). Entretanto nas imediações não achou mais sua
ferramenta de trabalho, também o fato de haver uma só bala não refrescando pistas
nem provas. Tempos depois já andava a desistir achá-la quando...
Tinha
em a noite escura e nas horas avançadas no caminho um poço abandonado; sem bem
mal escondido – afundou não se molhando por seca a cisterna; no entanto ficara
dependurado nas garras oportunas inoportunas do lixo do tempo e do desuso.
Agora era desvancilhar-se daquilo, galgar o horizonte antes do sol que
apareceria; e ainda em tempo à fuga e ajustes com o tal contratante-beneficiário.
Contudo nada dera certo, o certo ficando no meio do seu enfraquecimento mas
dando-lhe o presente da conservação da vida. Sim, vida o quanto entendendo um
homem comum, ele comum.
Esforçou-se
o quanto pôde pôde até muito e pôde inclusive enxergar os raios solares, já
perdia as forças e as esperanças...
Foram
horas matinais, que depois viraram vespertinas e a se pensar eternas – ora o
que não imagina quem enfraquecido e preso nos liames duma abertura nova decerto
mui velha ali a segurá-lo. Usou de mil possibilidades que a natureza nos oferece
ao desatamento na mesma medida em que nos cassa as forças. Era assim estar.
Todavia
vivo.
No
entanto preso.
Não
obstante, as horas a cobrar.
Já
se supunha livrando-se daquelas garras quando eles apareceram... Primeio um
depois o segundo os outros todos vestidos de luto e com muita fome. Gritou
enxotando anus, chegou imaginar ter a arma perdida gastar a última bala e assim
espantar de vez as aves sinistras; estas
voltaram mais fortes mais numerosas e com mais gana: um anu lhe bicou os olhos
de embaraçadamante vê-lo (e claro se defender) após foram outros todo um bando
a penicá-lo, a par pulando gozado, só isso o engraçado. Não obstante a luta
travada com aqueles vorazes executores da verdade, mentira que venceram os atacantes,
pois vivo. Vivo!
Se
foram, saciados com tanta carne dum só homem.
Até
ao ponto de chegar num outro dia a seus pés (em verdade sua cabeça e mais precisamente
a caveira seca ao sol) em tarde calorosa – até ao ponto de chegar o polícia.
Este
empurrou da borda do poço com a ponta do coturno o crânio esturricado. E gritou
pelo oficial.
"Capitão,
tem um negócio estranho aqui!"
Vivo?
quis o outro saber.
O
interessado mesmo respondeu estou Vivo sim! E se preocupou ainda, não poderiam
encontrar a arma e a bala e a prova! Vivo sim. Embora já não tendo convicção.
São Paulo julho
2019
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