sexta-feira, 12 de julho de 2019

Pacto sem Sangue


(conto) Pacto sem Sangue

A combinação entre um contratante-beneficiário e o executante possivelmente beneficiário era a dos grandes acordos sem se expor ninguém e sem sequer derrame duma gota de sangue. A gota é o pretexto da violência; ou não tida violência, aparência anuência consistência portanto sem consequência. Mas ele, miudinho assim porém persistente, teimoso mesmo; ele cometera falha, falhazinha dessa que olhos comuns nem veem, que foi o perder num descuido a arma...
Voltou a fim de procurá-la.
Antes disso, profissional com direito a um amadorismo próprio do seu amadorismo; antes e no objetivo principal eliminara o agressor, agressor pois os ofendidos costumam pôr pecados nos outros. Então usara de competência embora tremesse no ato, usara bem a ferramenta que o contratante-beneficiário lhe dera, morrera a vítima sem acordar na escuridão. Anteriormente calara o cachorro e na passagem pessoas no caminho – não podendo evitar o sangue num ferir o trato... Saiu correu fugiu sumiu.
Lá pelas tantas na bruma da lua nova velha como o mundo e parecendo nesse momento mais o escuro; aí notou a falta do revólver, então com apenas uma bala a serviço inesperado. Nisso entra o comprometimento e até pistas. Não pensou duas vezes tornou à cena do crime (um que seria sem sangue; não um pacto cerimonioso, enfim ação corriqueira). Entretanto nas imediações não achou mais sua ferramenta de trabalho, também o fato de haver uma só bala não refrescando pistas nem provas. Tempos depois já andava a desistir achá-la quando...
Tinha em a noite escura e nas horas avançadas no caminho um poço abandonado; sem bem mal escondido – afundou não se molhando por seca a cisterna; no entanto ficara dependurado nas garras oportunas inoportunas do lixo do tempo e do desuso. Agora era desvancilhar-se daquilo, galgar o horizonte antes do sol que apareceria; e ainda em tempo à fuga e ajustes com o tal contratante-beneficiário. Contudo nada dera certo, o certo ficando no meio do seu enfraquecimento mas dando-lhe o presente da conservação da vida. Sim, vida o quanto entendendo um homem comum, ele comum.
Esforçou-se o quanto pôde pôde até muito e pôde inclusive enxergar os raios solares, já perdia as forças e as esperanças...
Foram horas matinais, que depois viraram vespertinas e a se pensar eternas – ora o que não imagina quem enfraquecido e preso nos liames duma abertura nova decerto mui velha ali a segurá-lo. Usou de mil possibilidades que a natureza nos oferece ao desatamento na mesma medida em que nos cassa as forças. Era assim estar.
Todavia vivo.
No entanto preso.
Não obstante, as horas a cobrar.
Já se supunha livrando-se daquelas garras quando eles apareceram... Primeio um depois o segundo os outros todos vestidos de luto e com muita fome. Gritou enxotando anus, chegou imaginar ter a arma perdida gastar a última bala e assim espantar de vez as aves sinistras;  estas voltaram mais fortes mais numerosas e com mais gana: um anu lhe bicou os olhos de embaraçadamante vê-lo (e claro se defender) após foram outros todo um bando a penicá-lo, a par pulando gozado, só isso o engraçado. Não obstante a luta travada com aqueles vorazes executores da verdade, mentira que venceram os atacantes, pois vivo. Vivo!
Se foram, saciados com tanta carne dum só homem.
Até ao ponto de chegar num outro dia a seus pés (em verdade sua cabeça e mais precisamente a caveira seca ao sol) em tarde calorosa – até ao ponto de chegar o polícia.
Este empurrou da borda do poço com a ponta do coturno o crânio esturricado. E gritou pelo oficial.
"Capitão, tem um negócio estranho aqui!"
Vivo? quis o outro saber.
O interessado mesmo respondeu estou Vivo sim! E se preocupou ainda, não poderiam encontrar a arma e a bala e a prova! Vivo sim. Embora já não tendo convicção.
São Paulo   julho  2019

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sexta-feira, 5 de julho de 2019


(conto) Adão versus Eva (ou vice-versa)

Sentados a exibir o traseiro num cocuruto ou elevação natural no solo qual improviso de cadeira, para descanso e a pôr sua conversa amena ou confronto no confronto exacerbado; sentados ao entardecer têm eles o abundar, Ela a bunda formosa portentosa estrondosa inclusive; Ele a sua estreita murcha fina encolhida. Bocas soltas como convém aos íntimos. Você, diz ele, é irrefletida. Veja naquela questão da casa: nunca satisfeita, e ofereço a loca a toca a joça a fenda braba da tapera na favela, longe disso opta mansão jardins mastins eletrificação segurança! (Têm os macacos inabordáveis ali). Não tenho dinheiro, que será dinheiro? não sei o ainda não criado. Reage Ela, também Você, oh teimoso, só pensa carro caro coro corro a pensar; não lhe servem os pés, esses pés enormes de andar e sustentar o corpaço a musculatura avantajada, não quer os veículos de que dispõem como o burrico cansado mas útil e amigo. Pior. Pior afiança Ela a voltar-se indignada ao esposo... Nisso vem um aparato em disparate: os macacos ali no inferno não tão longe porém gritante. "Que Bunda!" guincham e repetem repetem repetem soando parece que apenas o refrão "e unda e unda e unda" a sumir no eco da floresta quase sem vegetal onde se abrigam se agarram com dentes mãos pés rabos, dependurados.
Que diacho falam os diabos "essa cambada elegebetista"! indaga Ele, Ela assopra "sei lá..." Bem, mal corrige o companheiro, já a reatar discussão nunca amiga dos amigos – e o problema 'daquela uma', lembra Eva ali fuzilando Adão... ora quem, a Bugia pô! Desconversa Ele. Ela pensa dele "é, disparado, um descarado"e aí retoma nervosa ou indignada ou embaraçada, falo sobre aquela atrevida sirigaita... Ah – Ele sorri enigmático – ora ora, a Secretária executa ordens no serviço no seu trabalho. Trabalho!!! que é trabalho pergunta Ela. Ele, desconheço, não foi inventado ainda, suponho que seja lá no Inferno nesse inferno da bagunça macaca (e eles no refrão "que unda" que unda) naquele ali, não aqui no Paraíso.
Ela: tá mal explicado.
Ele, ela imagina que a gente só pensa em mulher.
Ela, ele acredita que só penso casa.
Ele se mete na imaginação dela. Casa mas sem criança é 'construção seca' nunca um lar!
Ela, Ela supõem ele somente pensar em carro; pior, o melhor carro do ano; e pior ainda: pensa mulher.
Se olham desconfiados.
Não Ele não Ela, Eles lá diante gozam "que Bunda!" e repetem e repetem num quá-quá-quá interminável.
Estão os macacos assim num blá-blá-blá inconsequente e desafinado, no despropósito político da politicalha pra satisfazer a imprensa, quando...
Ela se levanta se esperneia pula engraçado.
Ele, aqui não tem barata! sua boba.
Ela, muda estática horrorizada mostra as formigas mil formigas onde antes sentados a brigar politicamente correto e... Ele (não os Macacos num quá-quá-quá e no refrão "que Bunda!")
Ele se arregala se alevanta se bate e pula em conjunto – porque família que pula unida permanece unida.
Enquanto os macacos repetem e repetem a gozação.
São Paulo   julho  2019


segunda-feira, 1 de julho de 2019


 (conto) -Morrer na Praia

O sujeito, jeito apenas de falar, um sujeitinho miúdo cansado dos seus dias e mais ainda nos últimos dias, quase em inanição em fome braba, vivia o seu desespero na orla litorânea da ilha quem sabe a maior do mundo menor nas parcas oferendas. Cansado inclusive do próprio cansaço. Debalde olhando areias a sumir calor vaporizante a sumir árvores sim assim mesmo a sumir. Todas elas de comum acordo contra ele elas secas isoladas entre si e pouquíssimas às muitíssimas necessidades de sombras e mais negadoras ainda de frutos. Até que no até que enfim encontrou um coqueiro.
O coqueiro andava arcado ao vento e ao seu próprio peso: os cocos numa abundância mas lá no alto! olhava o alto no seu baixo ser, que o rebaixava ainda mais na fome, os cachos as pencas os frutos sazonados ofertantes qual seios de mulher bela madura sadia sábia no seus dotes. No entanto inalcançáveis inalcançados...
Parou no seu andar trôpego, olhou olhou em volta em cima em baixo e se viu; não viu o como. Entregou-se na extenuação a pensar.
Aos poucos reconheceu as armas possíveis por volta, já que a mais valorosa não tinha valor algum pois não sabia não podia subir galgar o tronco; e no ápice do tronco lá o fruto!
Percebeu um recurso e ajuntou as armas disponíveis: objetos poucos ao deus-dará. Iniciou a batalha contra a fome que o comia e mais contra a sede que o limitava. A sede, ah se pudesse beber toda água salgada ali a roncar na praia. Examinou melhor agora aquela altura de coqueiro. Assim iniciou a guerra contra o contra sua vida.
Tomou seixos, arremessou pedras grandes e menores conforme suas forças. Atirou-os para cima. Errou para baixo. Cansou, extenuou-se mais pudesse no seu estado haver ‘mais’. Esgotou a reserva de munição: os cocos lá no alto intactos com seu líquido precioso e sua castanha de matar a fome e dar o reviver. Não acertava. A rigor não tendo sequer forças para atirar mais suas balas e isso em razão da perda da energia com o tempo e a fome, estes inimigos palpáveis...
Por fim encontrou um crânio já despojado da gosma do pensamento, de músculos, de nervos e de sangue, já seco no sol ardente. Pediu constrangido e medroso perdão ao proprietário e assim enviou a cabeça aos cachos de coco, prenhes qual os seios na única mulher encontrada naquele deserto de calor e horror. Fez um esforço na força sobrante aprumou impulsionou expulsou o objeto humano rumo aos frutos.
Contudo mais uma vez falhando, recebendo de volta não cocos porém fragmentos de ossos quase podres e dentes cariados, que lhe saraivaram o ser lá embaixo na areia quente... Chorou o desastre e o fracasso, lanceou olhares no perto e no distante e nada mais havendo. Cedeu.
Caiu fraco inerte morto.
Sequer esperou que ondas gigantescas fizessem o serviço de graça e sem dispêndio de horas cansaços e fraquezas. Então foi envolvido no todo que enterra e ao mesmo tempo esparge morte e vida a mancheias.
Marília   fevereiro  2010