sexta-feira, 28 de dezembro de 2018


(conto) Fora da rotina

Encontrava-me na cadeira dura de pau, dessas nada preguiçosas com encosto, uma de assento rústico antigona e adquirida em segunda mão num sebo de móveis; vou chamar 'sebo' por ser loja de bugigangas. Porém isso um senão. O mais importante é isto: andar numa solidão esdrúxula; pois não havendo comigo ninguém – diria nenhum ser vivo, pra exagerar, o planeta infestado de micro-organismos e insetos a voejar a rastejar, se bem que companhias más – aqui ninguém é sem ter outra gente. Parecia haver havido na torre debandada geral no fim de semana com feriados encostados, o que leva muitas pessoas a fugir da cidade grande. O que interessa é não haver outra vivalma na quitinete que ocupo (ou ocupava...) neste sexto andar, apartamento 63 para esclarecer. Então pensava. Pensava apenas, o que poderia mais fazer o pobre ser terreno na solidão!
Nisso, naquele instante, diria melhor, no momento macabro; nisso ouvi, nitidamente, um barulho manso. Sim manso por não violento (embora a violência do fato!) enfim até educado. Afinei a audição. Era algo assim como um apalpar minha porta – empurrar carinhoso, no entanto a violência do entendimento acabaria com tal mansidão... Digamos fosse um forçar cuidadoso;  pra não provocar barulho é claro. Pareceu-me uso dum objeto duro, de ferro ou qualquer, a tentar meter a ponta na porta lá fora, no extremo com a parede, a fim de conseguir abri-la.
Que fiz!
Não fiz. Ou por outra, avisei tossindo um "tem gente aqui!" espécie de mensagem.
Não adiantou o expediente. Um ladrão... meu Deus! era um ladrão e eu estava na iminência da ação dum bandido!
Pensei nesse absurdo. Sim absurdo roubar apartamento num prédio de inquilinos pobres, alguns com atraso no aluguel; aquele negócio de gatuno que entra em casa pobre somente pode levar susto. Contudo mesmo um desvalorizado pente tendo preço e é perda a lamentar. Ora, quanta bobagem pensamos no desespero da solidão.
A rigor já não me achava só, o barulhinho irritante e tenaz e o bandido quiçá fugido da prisão ou sabe-se lá com que intenção; enfim ele não me deixava mais na total solidão... e que parceria! pensei.
Prosseguiu sua tarefa ingrata num roc-roc num treque-treque sem descanso e bem objetivo.
Fui-me impressionando. E passei a urdir plano também como o outro ali fora; aqui dentro formulando um intuito de escape. Por não ter arma e não saber usar tivesse uma; mas para não compactuar com a violência; e ao mesmo tempo não podendo me aquietar cruzar os braços, enfim refleti me defender, defendendo meu patrimônio, alugado o imóvel todavia protegeria meus bens, como roupas e utensílios, inclusive o pente citado, e algum dinheiro, pouco mas bastante talvez a um fora da lei. Que fazer!
Que fazer?
Imaginei gritar à vizinhança. No andar debaixo todos fora é sempre assim no domingo; o de cima o último do edifício e dele não vinha som sequer dum prato ou talher quedado ao chão. No meu pavimento sabia (pior: saberia o malfeitor tentando abrir minha porta) sabia que os vizinhos saíram cedo, ouvira conversa e o barulho do elevador. Portanto andava de fato só nas alturas! Aos debaixo que me adiantaria esbravejar por socorro; embora lá da rua escutasse alguma condução e o costumeiro barulho surdo.
Pensei mais. Olhei a janela, despencaria por seu intermédio rumo à morte certa? errado, respondi-me. Não faria tal.
Ah, falei, poderia gritar pondo a cara lá fora aos poucos viventes das construções no descanso dominical ou oportunos transeuntes. Ora ora que bobagem: numa sociedade louca surgir uma pessoa louca a berrar na vidraça da janela e...
O som infernal do instrumento do invasor prossegue e acresço ainda: a mente bandida não tomara conhecimento de mim e de minha pobre tosse. Força agora com mais vigor, antes caíra do malfeitor a ferramenta no solo com a qual furava minava a resistência da porta e da parede no batente. Retomou a operação... lembro agora um detalhe de memória: não partiria a arrebentar a fechadura com um tiro, pois de sobra sabendo a área sem os locatários meus vizinhos. Retoma daí o objeto de tortura (de minha tortura) e força mais a barra... berro...
Dei então meu berro, o qual andava preso na garganta, um a assustar ladrões e todo o mundo disponível. Nesse terror, acordei. Uh!
São Paulo   dezembro  2018

         



             

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