terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Um Assalto (conto)

Andava um movimento, desusado ou comum, a rua fervilhava. Não obstante sequer notou alguém a entrada de outro alguém, vários ladrões talvez, no banco!
--É um assalto!
Gritou o rapaz, não era muito velho, estatura mediana, parecia voluntarioso e disposto a fazer o quefazer a todo custo. Apontou a arma ao público, uma bolacha enorme, dessa Champagne com açúcar granulado por fora pra fazer pavê. Os seguranças se assustaram, os funcionários se assustaram, o público presente àquela hora se assustou. E não era para menos.
Então foi o sujeito se aproximando, o povo abrindo passagem ante ameaçador ladrão empunhando arma ameaçadora. Uma garota desmaiou, uma velha gritou sem força mas gritou, um senhor deixou cair o charuto, um rapazote entregou ao facínora a maleta-executivo que o mesmo não quis; todos os outros se encostaram ao balcão de atendimento aguardando acontecimentos, ainda alguns levantaram os braços para imitar o cinema, mesmo houve quem deitou-se no chão de barriga pra baixo, um rapazola acostumado aos ladrões foi caminhando ao banheiro para ser refém e dar entrevista depois. Todavia o homem dirigiu-se direto aos caixas, os quais já preparavam dinheiro a pôr em sacolas trazidas pelas funcionárias experientes naquelas coisas. O gerente, esse ficou sentado na sua giratória, tremendo em temor (mas chamou a polícia, ou por isso mesmo).
E o meliante foi pago, centavo por centavo, em notas falsas, fabricadas não se sabe por quem, ninguém perguntaria isso. E se satisfez, disse tchau pras moças, estendeu o cumprimento a todos, foi saindo. Os guardas estavam lá fora esperando por ele, para que não precisasse pegar táxi, economizando assim alguns trocados. Estava tudo certo.
Tudo certo. Mas era esquisito.

 Ribeirão Preto  janeiro  1982
pensamento4185.A doença tem um enfoque que deixa marca nas etapas extremas do ser: na juventude ela vem visitar olhar puxar orelhas, fazer chorar; na velhice vem pra ficar, pra morar, mandar na casa; e na melhor das hipóteses (neste ponto:) fazer orar e após isso, ainda, matar. outubro2016

sábado, 17 de dezembro de 2016

pensamento4184.Desconheço força mais poderosa que o umbigo. Ele pode às vezes mais que a morte! ultrapassa no homem comum a morte; e perdura na sua morte...  outubro2016 

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Como Foi que se Comeu o Primo Basílio

Não fossem exigir o absoluto das coisas, todavia ele conversava bem; isto é, falava sem parar. Pra todos ouvirem na refeição. Isso incomoda um pouco provocando raspagem na garganta arrastar a cadeira remexer a toalha da mesa ou fazer bolinho de migalha de pão. Mas ele era tão impiedoso quanto falante. Muitos largavam a comida alegando falta de fome outros barriga cheia. Contava e mais dizia indiferente a estômagos fracos a exigir bílis pra fora em cena nojenta.
Despejara o costume chinês de comer ratos, passara entre o feijão-com-arroz para as baratas os piolhos e os bigatos ingeridos por primitivos e macacos. Ninguém se aguentando, muito bife deixado, a salada do antes pro depois. E contava e recontava.  Trouxe a hiena para a mesa de refeição, o urubu a curtir podres. Nessa altura já não se aturava o mundo cão ali atirado. Ele sem se importar cortava o alcatre gordo com faquinha dentilhada. Foi daí que serviu o primo Basílio para quem ainda esfomeado!

Nesse ponto do campeonato trouxe o primo por via da sardinha. Tendo afirmado alto grau de canibalismo, passou a provar por “a” mais “bê”, civilizadamente, que a sardinha comera o primo Basílio. A fim de provar ou causar melhor má-impressão, descreveu a retirada do cadáver parente desfigurado que a praia vomitara, ela também não quisera as gorduras do filho de tia Joana igualzinho aos comensais largando o bife a salada o feijão o arroz; teve a honestidade em não deixar nada a contar sobre o defunto carcomido, ficando ainda alguns retardatários peixes incrustados no interior do saboroso morto, a chupá-lo gostoso...

Então havia ânsia em senhores respeitáveis e torpor em velhas gastas – todos com pratos abandonados no fim ou pelo meio. E foi quando ele, o impiedoso contador risonho, trincou uma sardinha bem alimentada, a qual se fazia acompanhar por um gole de vinho tinto (ele por sua vez amassado com os pés finíssimos de ótimo chulé europeu de uma quinta lusitana, insistiu o homem) quando também foi seguido pelo “oh” da plateia e mesmo dele próprio acrescentando pesaroso: “pobre do priminho! está uma gostosura.”

 Ribeirão Preto  março 1981     


                     
pensamento4179.Somos, evidentemente, sempre descendentes dos descendentes e por isso contentes ou descontentes ser parentes dos ascendentes e a deixar por nossa vez descendentes, competentes, incompetentes, presentes ou ausentes, é evidente.  outubro2016
pensamento4178.Até bom ser homem pequeno, perdido entre demais pequenos. Assim os desastres da vida não passarão de desastrinhos, às vezes umas gracinhas... embora possamos vê-los enormes.  outubro2016
pensamento4177.Se algum dia eu me interessar por tudo que as outras pessoas fazem, deixarei ser eu mesmo para ser os outros... outubro2016 
pensamento4180.Não se tem que temer a Temer, mas temer a lei que Temer possa temer.  outubro2016 

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

A Casa Vazia  (conto)
        
         Dona Maria não mais é Dona Maria, agora que é agora de hoje; ontem o drama... Até o velório parecendo longínquo igual miragem ou sonho do pesadelo, quando se não pode acordar. Embora o calor amigo de conhecidos e parentes, a dor. E as flores tentando balsamizar o sofrimento, com mentiras e verdades forçadas. Contudo precisava suportar. Agora os dias iam ficando na esteira do tempo, do tempo sem volta e da volta sem tempo. Não obstante andava só. Tudo a improvisar soluções... Pior que isso: a casa crescera, o espaço se alargara em não cabendo paradoxalmente uma viúva tão pequena tão pobre tão só, tão só. Abriu no ranger portas e janelas e o vento veio curioso e irreverente mexer com seus pertences; os cômodos devolveram a ele um cheiro de casa fechada e triste. Ela prometera, a quem? a si mesma, que seria forte, tendo a vida pela frente; porém não cumpriu a palavra empenhada – chorou quase sem lágrimas o seu passado ali presente. Visitou cada compartimento cada objeto cada pertence cada lembrança que se não pega mas fere. Agora inda agora, agora noite, uma noite não aceitando as luzes. E aí mergulhou no passado no futuro no presente, a poder sumir de si mesma, a sumir em si mesma. Nem podendo mais ser Dona Maria do Seu Zé, com tanto espaço e tanto vazio.

Marília   dezembro  2006

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

 Final de Festa   (conto)

Caía a tarde domingueira, palitos quebrados, a cachaça inspirando a conversa. Pedro, o mais tagarela, limpava com um lenço que fora branco a farinha em volta dos beiços. Noninho, o chefão, um pouco bêbado também, mas seguro e penetrante, olhava seus homens. Pimpa, regateiro e malicioso, conversava falseteando com todos.
Agarrava com unhas e dentes uns restos de carne, bem trabalhada aliás pelo Zeca, um negro-aço esguio e feio como o diabo. Pimpa trazia sempre uma correntinha com um santo balançando. Sorrisos para todo mundo. Mesmo eu os recebi daquele nojento. Ele era a fêmea do pessoal, impedido de sair por aí, por seu Noninho. Com um papel relevante na hierarquia da mina; após a morte da esquelética Maria, ficara de cama e mesa com seu Noninho, o qual deixava Pimpa nas horas de folga para os homens... Era a imprensa da turma e agente secreto do chefe. Os trabalhadores sabiam disso, entretanto em dia de domingo, como aquele, em que havia uma só refeição (embora enriquecida por carne verde) a branquinha abria a boca de todos; lavava-se a roupa suja, e Pimpa tendo muito que fazer...
Mineirinho, olhos avermelhados, fala mole da embriaguês, rezava o costumeiro Padre Nosso, se benzia indo para o terreiro. Os outros falavam, mais do que deviam, se bem que o chefe houvesse ido para a cama fazer o quilo. Era o blá-blá-blá infernal, onde se discutia o mastigar de boca aberta do João, um retardatário no banquete. Papagaios impulsionados pelo aguardente.
--Cuidado com este aqui! – gritou Pedro, enterrando o indicador no local de fazer injeção no Pimpa.
--Com esse aí eu faço assim... – respondeu  Beltrão, num gesto obsceno. Gargalhada geral, muxoxo de Pimpa.
--Qual nada, Noninho é um fío duma p...
E o bate-papo foi esquentando, com injúrias de todos os lados e anedotas, ressaltando-se as vantagens. Mais tarde o Zico deu um chute na traseira do efeminado que passava por ali. Risos e chacotas e alguma briga. Almeida se levantou,  encostou-se a Zico assoprando-lhe meia dúzia de nomes feios, dentes cerrados em sentido de ódio, acrescentando:
--Cê vai acabá que nem o Batucada, no açougue do Zeca... A fala avivou memórias, serviu como lembrança.
--E ninguém mais sabe do Chico Preto, hein gente! lembrou o peão Pedro.
Todos ficaram atentos.
--Seu Noninho falô que deu a conta pro infeliz; e fez ele sumí no mundo...
--O negócio num tá me cheirando bem não – disse  Nonoca chegando-se ao grupo palrador. E insistiu mais: --Essa carne que nóis comeu quarta-feira, num era largato coisa ninhuma... Escumava e era meio doce... cum gosto de Chico, cruz-credo! (cuspiu).
O terror estampado nas expressões era evidente. João ainda mastigava qual porco, todavia deixou de fazê-lo, pondo inclusive o que não comera em vômito; desandou pro mato. Pimpa correu imediato ao quarto do amo; e Nonoca, ao mesmo tempo, ganhava a porta da frente e sumia na estrada. Eu tremia diante do barulho e da lembrança hedionda... Entretanto sequer pude mover as pernas.
--Zé de Pedra! – chamaram. Fiquei parado, grudado, enquanto entrava no recinto Noninho, e minha barriga se revolvia toda; era um medo semelhante ao de um pasto dominado por um touro feroz e cobrador. Sentia-me ao mesmo tempo o acusador do delito e o açougueiro destripador. Essa ideia estava acompanhada por uma náusea, que já me dava um gosto acre misturado com amargor, na boca. Imaginei um buraquinho onde pudesse entrar em defesa; depois uma pulga dotada de superpatas para em dois pulos me safar longe. Não me lembra ter imaginado ser um herói forçudo para amassar aquele cão fanhoso. Em verdade fiquei pregado no lugar.
--Zé de Pedra, corno disgraçado! Cadê (‘pof’ na minha cara) o diabo Nonoca?
Antes pudesse responder já estava no chão, caído  do banco de três pés, para trás, impulsionado pelo sonante ‘pof’ do chefe; havia então um gosto de sangue na boca, igualzinho quando dizia palavrão perto de minha mãe... Eu no solo; Noninho já na porta para o terreiro, esbravejando, Taurus na mão. Pimpa em direção do marido passava por mim, me agradando, ajudando-me no meu erguimento; aquelas mãos sujas, cheirando decerto a esperma, asquerosamente deslizando em minhas costas;  enojei-me.
Ninguém sabia de nada, é claro. Todos, um a um, estavam fazendo isso ou aquilo no momento; não viram nadinha nem sabiam de Nonoca; apenas que fugira pela estrada. O comandante daquele exército maltrapilho disparou ao acaso uns tiros, fez o sinal da cruz e foi para dentro do quarto. Pimpa ia ao lado, choroso, a pedir carinho.
Olhei a cena. Ruminei aqui dentro, não devo ser muito corajoso.
Marília  28.1.1968;  n° 431-025

        
        
        
        

         
Pensamento n°4230.Haikai é no mundo das letras menininha, uma gracinha; porém complicando os progenitores dona Poesia e o senhor Poeta, ambos ocidentais, a indagarem “donde olhinhos puxados!”   novembro2016


sábado, 26 de novembro de 2016

 Orelha  (conto n° 421)    

Diria estúpida brincadeira; todavia ninguém queira explicar arrumação de estudante... E não é que lhe botaram uma orelha nos bolsos!
Provavelmente isso aconteceu não por obra do acaso, deixemos pra lá os exageros. Alguém na aula de Citologia ou na do Dr. Piteus, velhinho atrás das garrafas dos óculos, quem sabe? sujou o nome de Hipócrates, brincando em coisas sérias. O certo foi o errado aparecer depois, bem depois. Que fazer? apareceu depois.
Depois de muito andar na multidão, a tomar dinheiro em pagamento de qualquer coisa adquirida – deparou-se com a orelha! uma orelha em decomposição... devia ser duma pessoa idosa, pelas características, ou assim parecia por estar encolhida quase mumificada; mas quem sabe não estivesse assim, cansada de ouvir bandalheiras por esse mundo de Deus! – encolhidinha  encolhidinha e quente ainda pela quentura do bolso esquerdo do residente. Não. Não gostou, por certo. É lógico não haver gostado, por incômodo, no meio do povaréu. Não apreciou por já ser quase médico. Não, não deve ter sido por isso: qualquer um desgostaria pelo achado dantesco. Além do mais, tinha um porém chato. É que em lugar de desligar-se dos afazeres da escola médica e do hospital, estava ali aquela orelha indecente, arreganhada, a lembrar-lhe compromissos cirúrgicos e anatômicos. Perdeu inclusive a graça em ver as garotas cruzando consigo. Ora, não era para menos.
Nesse ponto teve início um inferno nas relações.
A diaba da orelha mostrou-se enxerida, metendo o bedelho nas coisas do moço, pondo a cara onde não fora chamada...Logo no balcão da Loja dos Presentes – ele não iria voltar à Faculdade apenas para devolver a orelha! continuou nas compras – loguinho  no balcão ele pediu uma corrente, quinquilharia para não-sei-quem familiar, ela se metendo, criticando os quilates, dizendo falsificada. Saiu, deixou a balconista falando a olhar o freguês indo embora e quem sabe pobrezinha tomando pito do patrão. Depois foi na confeitaria, com palpites nos doces, que o creme andava azedo, tinha passado barata no alimento etc. etc.; e se foi sem comer confeitos. Mais adiante impôs um não-sei-quê, o estudante comprou para não discutir. Por vingança, mudou a orelha ao bolso direito, misturado a notinhas fedidas de um cruzeiro! Benfeito. E chegou a hora da compra de lenços: um porque era riscado, o outro por ser vermelho, um terceiro por amarelo fácil aparecer sujeira e sem cor, na opinião lá da orelha. Que raiva o pobre residente sentiu! Novamente vingança do rapaz: parou num açougue, a amedrontá-la, sentir um medinho ao menos.
Entretanto já não dava para continuar a via-sacra, preferiu voltar. Não disse nada, casmurro. Assim mesmo comentou lá com os seus botões:
--Por sorte você apenas ouve, nojenta! (mesmo assim já tagarelou bastante!) se fosse uma língua que os crápulas houvessem atirado nos meus bolsos, estaria irremediavelmente perdido.

Ribeirão Preto  dezembro 1979
Pensamento n°4227.O egocêntrico, surpreso, poderá indagar a você: comete a petulância de existir!?  novembro2016 

sábado, 19 de novembro de 2016

 Conto cheirando a crônica, em poucas palavras

         É jovem a bela que de pé no apinhado ônibus vejo nesta tarde cansada. Cansada, não da beleza que se não cansa, da existência de uns vinte anos, se tanto, e não exibe nas unhas roídas que se apegam à alça onde segurando nenhum esmalte; aliás tem beleza sem pintura alguma, o que destoa e choca nos dias de hoje. Num dos dedos aparece indelével o sinal deixado por aliança que se imaginava eterna e agora só tem a marca na pele branca, mais branco o sinal que ficou. Trina o celular abre a bolsa atende e responde desesperançada “largamos”. Completa: falta só pegar o armário o fogão e o berço; vou com meu pai amanhã ver advogado. Desliga funga o desalento e guarda aquele contato com o mundo, mudo, muda; desce no bairro. Some no mundo.
Marília   novembro  2016











          
3363 – Um acabar

         Agora estava, eu estava visto eu existir, ainda; agora estava a entrar pela área daquela pré-morte ou melhor dizendo nesse pior ‘daquele para-acabar’; a acabar entre mil velhinhos e seus chorinhos e suas alegriazinhas curtas e limitadas, limitado tudo no ai, ai expressivo ou aizinho nem um pouco uma gracinha. Trazia agora um ontem carcomido por um desastre de percurso. Antes foram alegrias mansas, mansas demais pela velhice da máquina que me contém quase como relógio por décadas. Antes um ontem cheio de graças...
         Como é a promessa? é a graça do descuido ou a da ingenuidade no ser. Encontrara por aí, aí pelos recantos do interior do país, encontrara Vivance. Aceitara a fêmea da espécie cansaço por companhia, quiçá companhia inesperada então. Isto porque me propusera entregar o fardo e o bagaço sem luta. É indigno? não me importando opiniões. Contudo ela apareceu, ela desapareceu.
         Vivance me convencera ser necessária; exato quando tudo nada mais é preciso. Foram semanas meses anos tempo no incontável e mesmo no insondável tempo. Fixei-me nos seus carinhos, no costume de me alisar a barba; deslizava sempre pelo meu rosto seus dedos finos das mãos leves, como fora um barco a beijar a espuma branca na tona, ou uma borboleta bela e extravagante a oscular a flor despetalando; e o fazia em gritinhos mudos, mais na tonalidade de toques quase imperceptíveis. Mas eu sentia, me arrepiando o ser. Esse o hábito do ser, ótimo ser para um convívio nada exigente. Acostumara o casal nesse convívio a se perdoar, a  fim de perdurar naquele paraíso ou sonho divino.
         Vivance naquela tarde morna deixara o companheiro à sua preguiça ou à sua teimosia, à qual dava outro nome; e saíra a espraiar, sob o pretexto sempre absurdo do ‘volto logo’. Não tornou...
         Após, um tanto aflito não nego porque também eu existia na existência da multidão na rua, agora empurro um pouco sem educação aqueles curiosos interessados flagrar o acidente de trânsito; todos a falar todos a comentar o estrago e a anormalidade meio normal, de tanto ocorrer; todos a explicar todos dando sua versão, ninguém querendo se ater às normas e exigências dos policiais e bombeiros, todos a se empurrar para ver melhor o pior: os irraionais são menos piores que o melhor homem quando o homem se acha com o direito saber as coisas que não deve saber, ou com isso provando não saber. A custo penetro entro entre cotovelos e me embrenho de vez na brecha ocasional, para também (não disputar não:) ter o direito de enxergar pedaços de carros, a rigor um só embriagado, e pedaços de gente, a rigor também uma pessoa somente. Estragada, morta, em pedaços que já não formam o todo. Vejo postas postas a esmo no chão sujo banhado de vermelho; e outros restos como objetos de usos de um ser vivente, já desnecessários!
         Devo ter desfalecido, não sei; sei não haver chorado pois as lágrimas são melhor vertidas no íntimo e na solidão.
         O tempo passa passou. Ou não.
         Entro naquela pré-morte e não trago se não um pertence, caro aos meus pertences, levo a balançar como butim numa guerra linda perdida, a bolsa do viver feminino do único ser que me expressava carinho na vida.
Marília   novembro  2016











          

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

As Baratas

         Custou um pouco. O pouco era na época uma fração de milênios. Elas não perdoavam, brigavam mesmo entre si, na disputa de grânulos adocicados, de lixos em esparramo. Na cama, na despensa, na cozinha, andando com as patas grudentas no terreiro. Uma gelatina esbranquiçada e pegajosa, um cheiro fétido característico. De milhões a nonilhões. Fervilhantes. As mamãs carregando dezenas de filhotes no ovo grudado na traseira; papais inflamados, esvoaçando por aí. Todas cores, todos os formatos, todos os tamanhos... Não era uma invasão. Já haviam invadido e tomado a tudo...
         Um restinho humano na cidade abandonada. Em fuga desesperada, para nenhum lugar: às tontas: não havia lugar. As pragas e os nomes-feios eram apenas pragas e nomes-feios. Enquanto elas se multiplicavam e cresciam em termos numéricos astronômicos; liquidavam com o alimento  do homem. E com ele mesmo, por extensão. Família desgarrada, subindo a torre que acabava nas nuvens. Pelo menos o planeta andava silencioso. Somente uns poucos gritavam no caminhar para cima. Um cair para cima.

 São Paulo  abril 1978
Numa conversa o ser humano sempre admite, humildemente, ter muitos defeitos, encorajado na verdade; entretanto se alguém ressalta na conversa um só defeito dos defeitos aceitos, então o mesmo ser se levanta se revolta; ofendido.  nov.2016 ( pensamento n°4120)


quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Estorieta do homem na Terra. Era uma vez uns bilhõezinhos de desafetinhos, lindos lindos de morrer!
outubro2016 

terça-feira, 1 de novembro de 2016

Coisas do Tempo

         Não o tempo louquinho para chover secar aquecer ventar esfriar obrigar a gente se esconder se defender, entender ao menos, menos louco ser o tempo. Não. O nosso tempo com as coisas de agora, agora que nem o agora entende o entender da juventude no controle das coisas. Ou no abuso. Nem tão jovens ambos no casal: dir-se-ia passados no tempo sem serem velhos qual idosos de terceira idade; ele quase que sim não ela, ela “ainda boa”, aqui linguajar coloquial bastardo dum vizinho irreverente e tal e coisa.
         Assim as coisas.
         Assim ela bela e mais bela no seu pensar, não tão na opinião da oposição, essa oposição ótima a observar alguém no restaurante caro ou só movimentado no luxo. Esse alguém, belíssima apetitosa difícil ou fácil mas acompanhada, mal acompanhada, ruge quem vê, porém agora só. Essa nova bela nova indo vindo, a circular sua beleza no recinto enorme e de enorme luxo; aí o lixo...
         Aqui a velha gasta bela, ela amarela de amarelo, o amarelo a vesti-la, ela faz trinar o celularzinho do esposo – o qual não escuta pronto ou não percebe a vibração do instrumentinho, pois a olhar e acompanhar o vaivém daquele femeão...
         Indignada a de amarelo (de vermelho a circular no restaurante caro, caro, claro, a beldade observada pelo esposo dela, ela sabendo, mais amarela de raiva ou indignação...) indignada fica pelo não pronto atendimento doutro extremo da linha no celularzinho do homem se pensando macho pra valer. Indignada digita outra vez e vezes outras mais. Mais faz: usa do saber informático que toda gente usa hoje nas coisas usadas pelo tempo da gente. Não obstante encontra a barreira, ou do ocupado ou do não atendido; o que dá no mesmo. Preocupa-se a quase matrona (não admitido pela amarela matrona é lógico esse ilogismo humano). Então faz o que toda gente na habilidade e no costume do tempo faz: procura – agora tempo passado no tempo – procura outros endereços nas mídias eletrônicas do tempo de agora. Debalde. Ainda aqui não encontra nem desiste do atender do consorte; ou melhor nesse pior, encontra de sobra as referências digitadas desde seu celularzinho de última geração, encontra todos: nenhum responde! Quisera falar decerto em defesa da família sobre alguma lembrança do lar lá longe na geografia, quem sabe fulaninha beltraninho a netinha ou alguenzinho com febre lá na mansão... Mas o seu homem não atende! Ficaria e talvez tenha ficado mesmo mais preocupada pelo silêncio do companheiro... Pensa repensa imagina mil coisas na tendência pessimista da gente nas coisas que faz ou imagina fazer e, claro, sofre.
         Esgotados todos recursos num celularzinho a contatar o pretenso chefe da família para falar dos dramas na família lá longe, perto ela mais amarela, resolve gritarzinho ao seu marido doutro lado da mesa no restaurante, o macho ingerindo últimas gotas duma taça mas ao mesmo tempo de olho no femeão de vermelho, o qual se enlaça no seu acompanhante e entra na saída e some, somem no corredor, agora também percebidos por olhos amarelos, os quais finalmente conseguem o contato tantas vezes digitado por um polegar cansado.
Marília   outubro  2016











          
O pai é o filho; o filho pode existir sem o pai; o pai não pode viver sem o filho. 
Profanação in Adultério

         Não é que estivesse assim tão frio, frio sim o vento que se espremia forçava pressionava passava passando pela fresta da janela e entrava se transferindo às mãos, à mão direita, por ser ele destro, mormente aos dedos e não à mão toda e nem todos alguns deles apenas a semiamortecer; e daí! como escrever enfileirar esparramar na folha trêmula instável umas linhas para ela, a amada longe dele e só alcançável através das pernas do correio, então instituição respeitada na entrega da correspondência, a missiva que decerto sua beleza receberia. Ocorrendo que, não obstante, marcaria o papel de pauta com linhas azuladas quase invisíveis mas a garantir a harmonia do cursivo meio inclinado, por masculinamente inclinado e feio e pesado a assinalar no papel inocente puro branco do linho de antigamente; ocorrendo sim não ser pelo semiamortecimento dos dedos mais sensíveis ou menos corajosos e daí se insensibilizando como coisa material, não por amortecidos sim mas por causa do ferimento dum entre dedos – que agora a sarar, porém dolorido no ato de prender apertar segurando a caneta para rabiscar aquilo. Quase suspendeu a comunicação que registrava a ela... Tomou outra vez a caneta, segurou a folha ainda meio virgem (ferira até aí tão somente a primeira e a segunda linhas após cabeçalho de praxe “em tanto de tanto de mil e novecentos e tanto” ajuntado isso à “querida” ou “flor de meu jardim”, no que acresceria sua honestidade e sinceridade e dignidade, em vez de ‘minha’, “do seu marido”... A caneta um objeto de pau, madeira certamente escolhida entre as de lei, leve e própria ao desiderato de escrever sem marcar demais o papel inocente; a caneta de pau aparado torneado encerado pintado lustrado lustrando mais pelo uso, tendo ela uma pena chamada “mosquitinho”, fina, de metal lustroso e de brilho um pouco fosco, com sua ponta delicada mas com talhezinho em abertura no fim, andava molhada umedecida secada ou não molhada além da necessidade de uso, assim pelo tempo fora do contato com o papel; a caneta meio trêmula, não trêmula em si porém da tremura daquela mão pesada máscula peluda de homem de certa forma inseguro na segurança que concede o futuro (absolutamente incerto...) O vento o frio a manhã abaixavam a temperatura, como inimigos ali expostos ou só observando aquele jovem que poderia ser valente: era a insegurança feita proposta mal posta mas com certo desejo que a poesia não sabe disfarçar. Claro que os olhos, e mais o coração, não poderiam ao receber a correspondência saber (ao menos constatar) tais fatores negativos num jovem mancebo, aparentemente impetuoso e na verdade temeroso, ao se comunicar com sua amada posta como beleza num jardim lá longe, perto dele embora, longe e de propriedade de outro na espécie... Mas é hora de esclarecer não se pôr aqui a discussão secular quiçá milenar da propriedade. Contudo nada dela dele... No pensar de quem vendo observando acompanhando a vivência daquela flor no jardim do apaixonado, embora com dedo ferido mais ferido ainda o coração; concluir-se-ia na pressa um casal a desfrutar da felicidade completa, própria aos ligados pelo símbolo religioso do matrimônio. Aqui entraria o chocante na questão, pois a flor iria receber lá longe a carta desse mesmo mancebo apaixonado; e a torcer decerto ela e ele que o consorte (nisto sem sorte ou com pouquíssima sorte e muito azar) que o mesmo não tendo a má sorte flagrar o estafeta entregador de correspondência do correio, no seu uniforme nas cores berrantes azul e amarelo...
         Era a manhã num domingo, frio antes ventoso primeiro depois amenizante com o calor da tarde – e demorara a tanto um dia inteiro, dito um dia de domingo de descanso de alívio no compromisso na rotina semanal; todo o domingo e não seria por culpa de um dedo machucado mais ferido mais dolorido pelo friozinho e ficando semiadormecido e com dor lá no fundo, não seria esse o vilão! Enfim aí pela tarde, mais tarde por ser o fim do dia quase noite, enfim sendo aí acabar a missiva... Naturalmente rasgara mil folhas falhas na ansiedade insatisfeita, pois não se acabando, tendo em vista o objetivo do documento, o qual devera ser objetivo na linguagem, a tratar só o necessário (tudo era necessário) e não afirmar nada em sobra, apenas as palavras adequadas básicas, embora no campo do amor tudo seja importante sobremodo escorregos e abusos da poesia. Mas tudo válido para ela, a flor do jardim (seu jardim, o esposo admitido pelo pároco diria “o meu jardim”...) enquanto essa oposição certamente tão distante num tentar a posse alegando o pároco e reforçando com o juiz o cartório a lei. Em resumo, era preciso que fosse objetivo no tratamento. No entanto constatara mil vezes as linhas já postas como subjetivas, a contrariar o intuito de se mostrar sem compromisso como zangão visitante (e sem direito! o coração garantiu que não). Apesar dessa questão filosófica e abstraindo-se a letra trêmula feia desigual, quase ilegível, apesar disso gritou-lhe o imo lá dentro; deixando de lado a aparência da carta (frequentemente melindrada, melindrosa) tinha de sobra motivos para rasgar amassar fazer bola com o material já imprestável e atirar tudo no cesto, o cesto que vomitava bolotas de folhas falhas embora amorosas – um dia inteiro, domingo se rediga, ao mister de escrever se arrepender rasgar jogar, retomar, agora uma folha nova inocente pura para ser ferida pela caneta, essa inimiga pois que borrava, berrava a raiva por essa intratável inimiga, não: apenas adversária porque inimiga a pena mosquitinho a sujar macular o papel com borrões, ora por excesso de tinta ora demais azul ora azul claro quase não se dando a ler. Assim nova, a virar velha falha a folha escrita inacabada amontoada às já amontoadas no cesto abarrotado de imprestáveis. Assim também todo o domingo a escrever para ela, a flor do seu jardim (a oposição gritava: “minha flor, meu jardim!”) O coração já sangrava, a musculatura já acusava, suava o príncipe encantado sem estória e sem carochinha.
         Na segunda, atirou a preguiça e o sono da noite mal dormida e foi postar, prontinha, a carta a seu amor (a oposição linguaruda: “amor proibido”).
         Aqui um senão, se não um senão um senão por inesperado: o correio não aceitou os garranchos... tão aperfeiçoada a caligrafia, a descontar aqui o peso da mão pesada masculina mas com o alívio que fornece o amor de um macho necessitado, distante, e de coração prenhe a dar à luz o melhor no mundo dos vocábulos a uma flor do seu jardim, longe, perto a oposição esbanjava propriedades com fartos absolutos impolutos da lei e da religião, esta antes que aquela. Bem, mal entregara o documento a pesar a selar a pagar a postar a seguir na mala postal para longe (longe não tão distante: a destinatária flor do jardim do seu amado relativamente próxima por na cidade vizinha do pretendente admirador e apaixonado, isto a se repetir por valia) quase que imediato o funcionário ranzinza devolve o documento ao amoroso representante da espécie, por irregularidades. O peso sem peso ou com peso além; a falta de estampilha adequada em falta na agência; ou ainda a falha mais gritante que fora o destinatário – no caso destinatária, leia-se uma flor bela rara dum jardim de costumeira disputa de propriedade, não a propriedade do jardim, isso sem importância até mas a disputa pela propriedade da flor e nisto se diria é minha, não (responderia outrem) não senhor, é minha: eu vi primeiro! (o pároco... o cartório...) O fato nesse transe é, era, que o endereço ou errado ou instisfatório, embora a instituição a continuar uma das mais válidas na sociedade mas não aceitando: não aceitou. Não obstante rogos do amante apaixonado.
         Nova série de indecisões com o final na decisão do pretendente a amor tão difícil a conquistar (ou a manter!?) enfim ele mesmo resolve ir entregar direto ao jardim, à flor. Pronto.
         Deslocou-se à urbe também acanhada e não tão distante mas vizinha – com o fito de entregar nas mãos da flor. Claro, pensou, o ato da entrega quando longe e nos seus compromissos a oposição teimosa, a viver a arregimentar padre juiz e lei; a pô-lo contra a lei...
         Viajou. Deslocou-se. Aportou. Tremeu. Aproximou-se duma entre as mais belas flores dum jardim desnecessário, lhe assopra o coração, porque bastando a flor. Entregou a missiva como quem a prestar um favor ao correio, entregando às mãos da flor. A flor:
         Quem, oh mequetrefe, quem o remetente deste abuso mal escrito e bem ofensivo!?
         O servidor ainda a tremer:
         “Não sei... Senhora” desconheço o anãozinho grosseiro que me passou o documento no portão para entregar à senhora, Senhora.
Marília   outubro  2016











          

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

A  Prisão

         Incrível curioso interessante, inusitado ao menos poder-se-ia dizer – mas estou preso! A exclamação é para mostrar a que ponto eu mesmo me admiro por este esdrúxulo, semelhante a uma carceragem nunca suficientemente inventada por alguém mais sensato possível. Enfim encontro-me totalmente enclausurado na minha própria casa... e é isto que destoa do natural do comum do correto, da rotina afinal, a rotina que envolve todos seres. No entanto nem todos seres, inclusive os prisioneiros, vivem numa espécie de prisão domiciliar que não fere a lei... e nem todos a andar nas correntes (fossem todos, seria de um absurdo sem tamanho pois a corrente faria no mundo um barulho ensurdecedor, pelos gomos dessa corrente a se chocarem no arrastar no chão e no meu caso aqui o solo de minha casa, insisto ser a minha:) nem todos, apesar haver muitos presos mas nenhum no prédio em que resido. Minha residência é hoje minha prisão – devendo no entanto ser a paz o silêncio; mais uma vez alembro o arrastar barulhentamente das correntes que me prendem.
         Olho fora... agora desesperadamente porque desesperante andar trancafiado como fosse um marginal um bandido perigoso ou como um sentenciado. Um pouco assim visto encontrar-me sentenciado, proibido à liberdade mais comezinha, a de circular livremente nas cercanias: pôr o lixo na lixeira no dia de lixeiro por exemplo; ir até a um carrinho de frutas e verduras ou ao carrinho do sorveteiro a apitar suas ofertas “tem de chocolate de limão de groselha de morango, tem de...” não tem pra mim, vivo proibido pôr os pés fora de meu perímetro doméstico!
         Por volta veem-me no interior do quintal a circular (arrastando a barulhenta? arrastando, acho que sim) não me veem livre; olham olhariam perplexos não olham mas olham e não me veem de fato.
         Olho-me por minha vez e vejo o xadrez deste improvisado xadrez, improvisado pois não tem funcionários civis ou fardados, não tem delegado. Ninguém se responsabiliza por esta detenção; contudo não posso passo fora do paço; aqui a brincar visto ser longe de palácio com aquelas efígies e brasões na entrada sem saída e simbolizando os poderes competentes ou incompetentes, a lei; essa lei que oprime comprime deprime a todos. Vivo embora só mas recluso!
         Todavia desfruto o direito de poder ‘livremente’ examinar a sujeira que me caracteriza o chão do quintal; a parte da frente com um jardim abandonado, onde flores teimosas se abrem se ofertam apesar de somente contando com a chuva: o prisioneiro é proibido usar a torneira a mangueira, o regador que sej, num descuido da ordem... Pode o prisioneiro medir os passos – meço passos somo centímetros engulo metros sem acumular quilômetros, bem assim, não tendo o claro fugidio da libertação. Medir passos, ai que raiva, e não bastariam outras azucrinações!? que raiva sinto ouvir os anéis da corrente a se chocarem, a corrente que se gruda nos meus tornozelos. Pode (deve? se pergunta o preso) pode ir até ao portãozinho ao portãozão, este para veículos não tenho carro; ambos portões fechados lacrados ‘cadeados’ a cadeado, enferrujados e já enguiçados – pode medir mas não pode, pra mim não tem a opção, por não ter direito à liberdade. E se tivesse? ao me prender se apossaram das chaves. Ora, um inteligente que sobrasse neste orbe nesta região neste terreno onde me obrigaram a permancecer; um inteligente que fosse, fosse ele meio amigo, não proporia pular a muralha? pular a muralha de ferro ponteagudo nas suas pontas feito grade de cadeia, mas apenas gradil sem arte e com objetivo tão só impedir a entrada de ladrão bandido contraventor, da violência – ah a violência e seus praticantes, temos vários deles hoje e me assusto agora; e agora não terei ao menos o direito de me assustar! será também esconderam as chaves do meu insignificante direito ao espanto!
         Vou pra lá, pra cá, volto, torno, retorno ao donde não vim e encontro a me barrar barras de ferro da cela, esta cheia de ar de vento de interrogação, com nenhuma liberdade. E assim não posso sair de minha própria casa nem morto... nem morto! é um caso a se pensar; talvez um meio de fugir sem ser baleado como trânsfuga, talvez nisso a solução. Ou não: levar-me-iam (o meu corpo inanimado, bem mal entendido, os meus restos) levariam tais restos à funerária depois à cova, ambas prisões sem contradita. Não.
         Sim, fico preso mas vivo. É o preço da liberdade. Não posso nem devo discutir com preço preso, nem com liberdade optante por barras absolutas e correntes sonantes.
Marília   outubro  2016


quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Encontro em Desencontro

         Tomei aqueles extratos estragados de tempo na intempérie do tempo, meros fragmentos de papel velho seco imprestável soltos ao deus-dará na terra de ninguém... e foi aí notar notas anotadas também à solta, aqui num punhado de fragmentos de ideias (se ideias) e achei-as demais à imprestabilidade da terra, um solo estragável estragado no desmando pelas misérias do desentendimento no trato do terreno – aquilo de sempre: restos dos restos humanos, não atirados a esmo num propósito de sujar, não; porém sem além também os cuidados inerentes e devidos e, portanto, a área suja na sujeira marcada de sol, tal qual observava; enfim, num meio sujo e ao estrago e ao desleixo; assim apreendi prendendo nas minhas mãos os farrapos de folha de caderno de papel ordinário; então foi o me deparar com o escrito, escrito em letra tremida mas isto não a me chamar tanto a atenção como o teor. Deparei-me com algo talvez digno da melhor literatura; num misto da lavra dos mais grandiosos escritores da língua; e por outro lado e a fazer oposição nos seus contrastes, percebi a linguagem chula da ralé de um povo inculto e o mais bastardo que se possa apresentar. Minto. Neste ponto minto visto não flagrar nos fragmentos erros crassos nem o medonho disfarçado em texto se pondo decente. Que fosse legível, sem ferir olho ouvido olfato em fato provável provado à realidade (sem machucar a verdade, diria melhor e a bem dizer). Foi aí que formulei a conclusão – sim, qualquer ideia de conclusão inexiste pois que sempre humanos estamos a acabar, de vez, algo que muitíssimas vezes sequer apreendemos no seu todo. Descontemos a descontentar a todos; e partamos à conclusão apressada como fato consumado embora ainda a se consumar.
         Rapaz! falei (para quem!? a todos os ventos:) rapaz, você é um exímio escritor, um engenhoso prosador, um poeta de escol – e isto me lembrou, me lembro, que de poeta filósofo e louco cada qual tem um pouco, afirma o dito popular. Rapaz, você honra os textos mais puros desde os clássicos até chegar aos autores de hoje, salvos estes com dificuldades imensas no imenso matracar da propaganda informática e pela facilidade com que a tecnologia consegue esconder páginas que seriam obras-primas, se se perdessem as chaves dos teclados e dos toques de telas nos celulares de última geração.
         Mas quê! para quem! a quais ouvidos os lábios se intrometem?
         Se – ah, sempre tive pudor temor horror terror às partículas e aos condicionais, e nisto bem presente o medo; ou não: sendo uma constatação substancial – se você se visse, visto creio não se ver de boca na terra, quedo fulminante antes perante o todo na sujeira do mundo, e após parado estático imóvel sentenciado ao nada... nada vendo de olhos fechados, talvez lacrados pela noite do seu dia a findar e já findo agora, no escuro, no tenebroso. Estando na posição de dignificar a bondade dos homens que porventura se aventurem por estas plagas e a encontrar um cadáver sem identificação, em não ser com a possível análise de meros pedacinhos de papel barato velho gasto seco usado reusado manchado das lágrimas do sereno no tempo em que imperava o sentimento!
         Oh, nem um sentimento por perto, e longe saber do que fora um morto vivo. Tornado um destroço na migalha do tempo, o tempo a exalar seus hálitos, já deletérios...
Marília   setembro  2016