segunda-feira, 28 de setembro de 2020

Coisas do Demo

 

(conto) Coisas do Demo

 

          Não Demônio, Demônio não! oh seu demoninho em melhora da geração (e ao companheiro a seu lado: Esse menino é burro, burro totalmente; a gente ensina e não se corrige; demônio a mãe dele que o gerou, pôs neste mundo 'comportado' a cria dando à luz a isto:) Mequetrefinho espúrio e arrevesado, vem cá; já não falei a você que não é Demônio o demônio desse novo vizinho e que dizem se chamar Demógenes ou Demócrito, estes que foram uma luz no caminho e carinho de sua geração helênica, a longínqua Grécia dos Clássicos. Nisso cospe no chão quase nos pés do amigo e limpa o chão com o bico do chinelo de dedos de borracha e daí continua a explicar para o companheiro: esse fedelhinho me põe maluco, me joga contra a minha esposa mãe dele e contra o novato, creio um vizinho louco ao menos mal-encarado, a dizer do homem asqueroso que o mesmo olha pra vizinha minha mulher e genitora dessa porcariinha; ela casada comigo no padre da Vila quando ainda vila inexpressiva. Depois no ccartório quando a Vila cidade com prefeito, aquele ladrão do João barrigudão. Nada disso... (agora ao menino:) não rapazinho, você inventou...(comenta com o amigo: me dá uma cheirada nesse seu pó dos deuses e depois me empresta um cigarro, se não não aguento). Torna ao garoto. O quê!? Demônio coisa alguma, já lhe disse o cara novo aí do 33 é Demógenes e nunca fora orador líder menos ainda e nunca foi também eleito político pra roubar o povo. Demógenes, abra as orelhas sujas ótimas a plantar repolho, moleque atrapalhado. (Novamente ao companheiro, este sorrindo má intenção...:) Nunca fora o vizinho orador e se o fosse teria abusado da gíria grosseira e bastarda. Entenda, falo sobre um vizinho o qual besta suficiente para aceitar envolvimento do demoninho em que me saiu a cria dela, dele garanto que não, não morava ainda aqui no pedaço quando da fertilização e gravidez dessa louca sua mãe. Mas (põe a mão no ombro do amigo já em movimento:) mas andemos, antes que o mundo imundo dê mais umas três voltas.

São Paulo   setembro  2020

 

         

 

 

 

             

Cena perante Cena

 

(conto) Cena perante Cena

 

          Olho a foto, fotos pois são duas a antiga a recente. Com reparo – não tão antiga ou me complicaria no costume de esconder idade; sim mas velha, aí pelos anos oitenta do século passado. A nova, exagero seja tão recente, também ela manuseada a esmo (toda família quer examinar primeiro fulaninho ou siclanona ou a si mesmo pra observar se achando alguma diferença engrandecedora ou esclarecedora naquela forma gasta "ah como engordei" ou como era enxuto em mil e novecentos e tanto, quer dizer a antiga). Enfim dá para fazer comparação entre as duas poses, a salvar um resultado.

          Ah, tem uma coisa: na primeira e mais velha os membros contando com o negativo do filme, sabe-se lá quem tirou a foto depois revelada num fotógrafo pouco profissional e pouco artístico, visto grosseiras retificações a embelezar fulana, a qual conheci e era sim bela; embelezar mais ou enfeá-la mais ou enfeá-la contra o excesso de bonitura. Ih, tem nisso algo curioso e inverídico; que era em mil e novecentos e bolinhas o ser a ser fotografado usar perfume a sair melhor... claro, mesmo nessa época não se acreditando.

          Mas em síntese o que exibem tais fotografias já dito a velha não tanto, me defendo, e a nova não exagerando atualidade. Bem, apresentam a mesma família mesmos membros (aqui sou eu a exagerar um pouco, reconheço); enfim o mesmo comparado no século passado e em o nosso que é o vinte e um. Na primeira a família em maioria de jovens e por jovens ou por estar na berlinda e entrando na posteridade numa foto, quase rara a pobres, se postam sorrindo. O pequeno de chupeta entre manos pais tios e primos; não larga a chupeta sequer a gravar uma imagem. Todos fixos, duros, impenetráveis? sabemos lá. Porém se não rindo, sorrindo. Não o pai um pouco sisudo, não a mãe meio tristonha. Essa a leitura. E para melhor leitura seria necessário entrevistar as poucas pessoas fotografadas; isso nalguns casos impossível sem autorização da Morte...

          A segunda tomada já feita por novo desenvolvimento tecnológico; no entanto se percebendo algumas diferenças na mesmíssima família, a mesma sim pois fotografados com certo objetivo talvez apuro e até um fim histórico, nessa reunião quase proposital a um  registro. No passado a novidade vinda do laboratório era enviada aos parentes, sobretudo aos filmados nela. A resumir, na segunda, a recente, a cena expõe a família, de certa maneira ainda unida e reunida aos olhos do fotógrafo; se bem que nesta aparece alguém desconhecido e que não consta na foto antiga; pergunta-se seria primo vizinho 'namorado' de alguém!?. Voltemos a comparar. O pequerrucho na foto recente fóra, fôra ao céu. Um outrinho na anterior na expectativa em ver o espocar da lente, esse já não tão pequeno, ele na outra e antiga vendo o plec de filmar, agora vê um celular nem liga aos parentes que desejavam tanto sair na fotografia antiga. Em a nova: sequer nota os companheiros ao lado; não sorri, sorri aos bonecos do joguinho no aparelho móvel... Os demais ninguém sorri. Ou não se nota pois todos de máscara contra a pandemia que assola o planeta. Os mais irreverentes gozam ser focinheira não máscara ou bico de pássaro como urubu ou outra ave de rapina enfim. Alguém mais chato analisando a nova 'recente' fotografia da família irá notar diferenças nas cores no formato etc. dessas ditas máscaras, sequer vendo o mascarado por baixo do por cima... Vendo antes que isso a posição se certa se encaixada no nariz; tem um com a sua dependurada na orelha para ficar livre a fumar.

          No fim, se fim, finda-se com uma observação, a qual conclui numa problemática que nesta última a focinheira esconde o que se esconder: o medo, terror em alguns membros, os cuidados no espaçamento obrigatório na população. Um dado ótimo à liberdade.

São Paulo   setembro  2020

segunda-feira, 21 de setembro de 2020

(conto) Não Falar Errado

 

(conto)– Não falar errado

 

          Não falava errado a envergonhar sua gente perante a sociedade; também não indo ao exagero a analisar profundamente a etimologia e, isto verdade nisso: não feria outrem em ignorâcia das coisas da gramática da ortografia da acentuação; donde se deduz escrever certo podendo até falar errado. Na fala não era tomado esdrúxulo, antes simples. Aqui é dose 'simples' num ser complicado. Noutras palavras podendo chegar a esboçar atrever ferir mesmo alguém do seu meio – embora de família pobretona e sem instrução, pois viveram os parentes sempre na roça, onde ou não havendo escola e quando escola sem escola por sem professor, professora melhor afirmar beirando 1950. Ela, estivesse lotada como funcionária, faltava demais ao serviço e os meninos a voltar cedo à enxada. Ou a permanecer em casa para as briguinhas dentro dela, sob o ralhar da mãe. Mãe dele. Mãe deles, no meio rural geralmente uma penca de filhos. O pai sempre ausente ou no trabalho ou apenas ausente por não existir. Aquele velho drama humano: o homem 'faz' a cria deixa a cria à mulher criar, precisando lavar roupa para fora a sustentar a cria; enfim dá no pé. Ou simplesmente vira um desconhecido.  Cada geração tem seus casos a narrar. E curiosamente quase nunca dando razão à razão feminina. Mas a família perdura.

          Não falava errado. Já grande (adulto de pequena estatura) e com todos vícios na sociedade, onde mais se usa termos de gíria; ainda assim não falava ele errado. O comum é falar errado toda população não só a da roça – a roça  logo desapareceria com o êxodo rural e a exploração do solo pelos mais endinheirados – não só na roça e ainda mais talvez na zona urbana, em que se fala se escreve errado e os que se acham certos ou sábios pegam no pé dos que não sabem fazer uma frase; sabem escrever e dizem também erradamente ao pronunciar; porém mais grave na questão sempre foi e é o escrever falho.

          Não falava errado e sequer escrevendo igualmente falho; falho a diminuir a falta. Ora, todos entendiam mesmo não entendendo palavras frases períodos etc.. Enfim um mau uso da língua; a língua de falar? a língua de falar de comer de  engolir e de mostrar, sim mostrar visto haver gente que põe para fora a língua a ofender outrem; não ele, ele tendo a língua de falar.

          Não falava errado por não falar nem certo nem errado. Não falava por mudez. Também por surdez, nascera surdo-mudo. Pronunciaria certo ou errado quando a aprender a 'falar' ou se manifestar e daí tão somente gesticulando. O que bastante numa gente bastarda grosseira sem berço; enfim desafortunada. Contudo e os outros seus irmãos?

          Aprendeu, a duras penas, 'conversar' com os próximos... sabe-se bem o quanto os nossos próximos nos ensinam, até nas brigas em família.

          Bem, os outros se falassem e de fato falavam, falavam sem expressar-se igual Camões Camilo Machado Vieira. No entanto conseguiam a contento se comunicar – ele no meio aos demais manos e colegas de brinquedo e depois anos depois colegas de trabalho, mesmo porque como se sustentaria a família. Aí já tendo a mãe deles ninhada respeitável; não respeitada pois o povo não perdoando gente com tantos filhos nenhum do mesmo pai... A deixar um saldo enorme como herança herdeira, a qual é a pobreza generalizada todos desejando comer havendo ainda poucos braços a puxar a enxada. Ele também trabalhador.

          Ele, um mudo um surdo um grosso sem voz e sem insultar ninguém, primeiro nos contatos com os coleguinhas de brinquedo e manos mais próximos na idade; depois insultaria a gerar brigas mais sérias de adultos (sem pô-lo valentão, desses temidos por toda uma província). Não obstante, sim enfrentava qualquer. Claro preferir enfrentar a colher o garfo o arroz o feijão. Não reclamava do alho queimado ou falta ou sobra do sal. Nem punha a culpa das coisas na sua genitora; apenas olhava enigmaticamente pros lados dela, ela a aguentar reclamação dos meninos depois ainda meninos porém adultos a se dizer (e diziam mesmo) com direitos, visto operarem a fim de trazer à casa o pão de cada dia; embora ausente o pai, ou desconhecido, conhecido somente pelas comadres num falatório a diminuir a mãe deles todos, no costume das mulheres nunca se porem favoráveis quando, qual galinha, estando a bicar uma vítima.

          Ele não, não tomava partido. Não falava contra nem a favor a ninguém. Sim, tomava as dores dela, sem saber e não ouvindo a extensão da intriga e a língua afiada no falar fiado. Ele não. Mas mentalmente tomava sempre o lado da genitora – em resposta ao trato materno, visto as mães terem queda pelos filhos frágeis contra os outros herdeiros (de quê! o que deixa em herança o pobretão?) ela carinhava mais defendia mais atendia mais e mesmo entendia mais aquele filhote sem fala. Sem fala!

          Ora, ele não matracava borrachas e abobrinhas nem a falar pelos cotovelos como o povão. Os outros manos ou colegas cotovelavam-se até o atrito gerar controvérsia e briga de fato. Ele não, não falava. Falasse falaria decerto certo mais que os demais, pois que não errava na gramática pontuava (se pontuasse e não o sabia) acentuava correto. E desconhecendo etimologia a se desentender certo no errado com outrem.

          Não falava todavia injusto garantir que não se expunha não se punha a defender aquilo que a gente supõe certo podendo ser errado. Apenas não falando e não escrevendo errado a temer se expor como ignorantes que todos somos, só dependendo a escala do erro ou só distorcido ou não suficientemente explicado. Mas isso não quer dizer não se comunicar.

          Não falava não obstante se comunicando. Dentro de sua compreensão do mundo se punha a confirmar as coisas. O ser humano entretanto quase sempre a negar até o direito alheio... aí complicando.

          Com o tempo fora se enfronhando no mundo, como  o mundo era; era não, não chegando aos pés em ser. Dessa maneira se relacionou com demais surdos e mudos a gesticular o desejo do que dizer.

          Numa ocasião e nessa já os familiares dispersos e/ou formando novas famílias; enfim na comunidade em que vivia, a mãe morrera outros membros da antiga casa também partiram. Ele então se bastava – lógico com ajuda pública como religiosos e até gente do governo (o que extraordinário). Assim é visto num pequeno grupo com as mesmas deficiências indo de São Paulo a Campinas, a certa festividade deles. Uma instituição filantrópica fez os contatos alugou uma kombi que um sócio da entidade possuía; a levá-los ao destino.

          No caminho (segundo comentário do pobre chofer...) aí foram batendo, literalmente socando, o infeliz motorista. Isso tudo em alegria dos surdos na estrada, um trajeto de uns cem quilômetros. Então, não falando não falavam os jovens ainda moços perto do velho condutor; a se comunicar e sobretudo ele, ele que não falava é dito, ele eles socavam o peito do homenzinho a se comunicar sob gritos como som, a se conversar 'amenamente' entre si; e a sobrar ao dono do carro.

          Passou.

          Não passou o fato de que realmente ele não falava.

          Mas também não errava o português. Porém desconhecendo o sujeito no volante em qual língua se expressavam. Caso falassem.

São Paulo   setembro  2020