(conto)– Não falar errado
Não falava errado a envergonhar sua
gente perante a sociedade; também não indo ao exagero a analisar profundamente
a etimologia e, isto verdade nisso: não feria outrem em ignorâcia das coisas da
gramática da ortografia da acentuação; donde se deduz escrever certo podendo até
falar errado. Na fala não era tomado esdrúxulo, antes simples. Aqui é dose
'simples' num ser complicado. Noutras palavras podendo chegar a esboçar atrever
ferir mesmo alguém do seu meio – embora de família pobretona e sem instrução,
pois viveram os parentes sempre na roça, onde ou não havendo escola e quando
escola sem escola por sem professor, professora melhor afirmar beirando 1950.
Ela, estivesse lotada como funcionária, faltava demais ao serviço e os meninos
a voltar cedo à enxada. Ou a permanecer em casa para as briguinhas dentro dela,
sob o ralhar da mãe. Mãe dele. Mãe deles, no meio rural geralmente uma penca de
filhos. O pai sempre ausente ou no trabalho ou apenas ausente por não existir.
Aquele velho drama humano: o homem 'faz' a cria deixa a cria à mulher criar, precisando
lavar roupa para fora a sustentar a cria; enfim dá no pé. Ou simplesmente vira
um desconhecido. Cada geração tem seus
casos a narrar. E curiosamente quase nunca dando razão à razão feminina. Mas a
família perdura.
Não falava errado. Já grande (adulto
de pequena estatura) e com todos vícios na sociedade, onde mais se usa termos
de gíria; ainda assim não falava ele errado. O comum é falar errado toda
população não só a da roça – a roça logo
desapareceria com o êxodo rural e a exploração do solo pelos mais endinheirados
– não só na roça e ainda mais talvez na zona urbana, em que se fala se escreve
errado e os que se acham certos ou sábios pegam no pé dos que não sabem fazer
uma frase; sabem escrever e dizem também erradamente ao pronunciar; porém mais
grave na questão sempre foi e é o escrever falho.
Não falava errado e sequer escrevendo
igualmente falho; falho a diminuir a falta. Ora, todos entendiam mesmo não
entendendo palavras frases períodos etc.. Enfim um mau uso da língua; a língua
de falar? a língua de falar de comer de
engolir e de mostrar, sim mostrar visto haver gente que põe para fora a
língua a ofender outrem; não ele, ele tendo a língua de falar.
Não falava errado por não falar nem
certo nem errado. Não falava por mudez. Também por surdez, nascera surdo-mudo.
Pronunciaria certo ou errado quando a aprender a 'falar' ou se manifestar e daí
tão somente gesticulando. O que bastante numa gente bastarda grosseira sem
berço; enfim desafortunada. Contudo e os outros seus irmãos?
Aprendeu, a duras penas, 'conversar'
com os próximos... sabe-se bem o quanto os nossos próximos nos ensinam, até nas
brigas em família.
Bem, os outros se falassem e de fato
falavam, falavam sem expressar-se igual Camões Camilo Machado Vieira. No entanto
conseguiam a contento se comunicar – ele no meio aos demais manos e colegas de
brinquedo e depois anos depois colegas de trabalho, mesmo porque como se
sustentaria a família. Aí já tendo a mãe deles ninhada respeitável; não respeitada
pois o povo não perdoando gente com tantos filhos nenhum do mesmo pai... A
deixar um saldo enorme como herança herdeira, a qual é a pobreza generalizada
todos desejando comer havendo ainda poucos braços a puxar a enxada. Ele também
trabalhador.
Ele, um mudo um surdo um grosso sem
voz e sem insultar ninguém, primeiro nos contatos com os coleguinhas de brinquedo
e manos mais próximos na idade; depois insultaria a gerar brigas mais sérias de
adultos (sem pô-lo valentão, desses temidos por toda uma província). Não
obstante, sim enfrentava qualquer. Claro preferir enfrentar a colher o garfo o
arroz o feijão. Não reclamava do alho queimado ou falta ou sobra do sal. Nem
punha a culpa das coisas na sua genitora; apenas olhava enigmaticamente pros
lados dela, ela a aguentar reclamação dos meninos depois ainda meninos porém
adultos a se dizer (e diziam mesmo) com direitos, visto operarem a fim de
trazer à casa o pão de cada dia; embora ausente o pai, ou desconhecido,
conhecido somente pelas comadres num falatório a diminuir a mãe deles todos, no
costume das mulheres nunca se porem favoráveis quando, qual galinha, estando a
bicar uma vítima.
Ele não, não tomava partido. Não
falava contra nem a favor a ninguém. Sim, tomava as dores dela, sem saber e não
ouvindo a extensão da intriga e a língua afiada no falar fiado. Ele não. Mas
mentalmente tomava sempre o lado da genitora – em resposta ao trato materno, visto
as mães terem queda pelos filhos frágeis contra os outros herdeiros (de quê! o
que deixa em herança o pobretão?) ela carinhava mais defendia mais atendia mais
e mesmo entendia mais aquele filhote sem fala. Sem fala!
Ora, ele não matracava borrachas e
abobrinhas nem a falar pelos cotovelos como o povão. Os outros manos ou colegas
cotovelavam-se até o atrito gerar controvérsia e briga de fato. Ele não, não
falava. Falasse falaria decerto certo mais que os demais, pois que não errava
na gramática pontuava (se pontuasse e não o sabia) acentuava correto. E desconhecendo
etimologia a se desentender certo no errado com outrem.
Não falava todavia injusto garantir
que não se expunha não se punha a defender aquilo que a gente supõe certo podendo
ser errado. Apenas não falando e não escrevendo errado a temer se expor como
ignorantes que todos somos, só dependendo a escala do erro ou só distorcido ou
não suficientemente explicado. Mas isso não quer dizer não se comunicar.
Não falava não obstante se comunicando.
Dentro de sua compreensão do mundo se punha a confirmar as coisas. O ser humano
entretanto quase sempre a negar até o direito alheio... aí complicando.
Com o tempo fora se enfronhando no mundo,
como o mundo era; era não, não chegando
aos pés em ser. Dessa maneira se relacionou com demais surdos e mudos a gesticular
o desejo do que dizer.
Numa ocasião e nessa já os familiares
dispersos e/ou formando novas famílias; enfim na comunidade em que vivia, a mãe
morrera outros membros da antiga casa também partiram. Ele então se bastava –
lógico com ajuda pública como religiosos e até gente do governo (o que
extraordinário). Assim é visto num pequeno grupo com as mesmas deficiências
indo de São Paulo a Campinas, a certa festividade deles. Uma instituição
filantrópica fez os contatos alugou uma kombi que um sócio da entidade possuía;
a levá-los ao destino.
No caminho (segundo comentário do
pobre chofer...) aí foram batendo, literalmente socando, o infeliz motorista.
Isso tudo em alegria dos surdos na estrada, um trajeto de uns cem quilômetros.
Então, não falando não falavam os jovens ainda moços perto do velho condutor; a
se comunicar e sobretudo ele, ele que não falava é dito, ele eles socavam o
peito do homenzinho a se comunicar sob gritos como som, a se conversar
'amenamente' entre si; e a sobrar ao dono do carro.
Passou.
Não passou o fato de que realmente ele
não falava.
Mas também não errava o português.
Porém desconhecendo o sujeito no volante em qual língua se expressavam. Caso falassem.
São Paulo setembro
2020