(conto) Ossos do Ofício
Aquela mulher
atraente bela charmosa, um anjo, olhou sério ao companheiro – isso um indício
de contrariedade segundo o histórico de família – e assim logo tentou o homem
se compor ao figurino dela, na linguagem de um pingo ser letra. Mexeu-se, sem
que estivesse como os olhares de sua mulher indicavam ele estando a flertar com
uma beldade noutro banco dentro do ônibus circular. Enfim aquiesceu às ordens
da ciumenta ainda bonita esposa. Ela não se fez de rogada nessa vitória, tendo
por isso relembrado um abuso quando nos primeiros tempos, sem o filho ali
debaixo do casal agora; então o macho vivia sonhando outra... Mas a crise
passara, as brigas conjugais não. Ela examinou o ambiente com sua loca escura
pra ver se não via a pretensa rival, olhou para baixo o comportamento do
filhote a brincar com amigo imaginário e a conversar animadamente com o outro;
seu esqueletinho arcado ali no chão do veículo perfazia curva interessante
porém a mãe desgastada pela lembrança de antigas rusgas com o pai da criança
sequer se prendeu ao menino; e carregou de propósito “amor, você de tanto olhar
a sirigaita perderá outra vez a bola dos olhos...” Sorriu sem graça o
contraventor. Ela emendou daí problemas sérios do dia a dia, os mais palpáveis
como as contas as compras ou necessidades que o consumismo exige que se
adquira. O esqueletinho, criança sempre parece não prestar atenção porém:
relacionou elinho também os brinquedos necessários segundo a necessidade, sem
esquecer os caríssimos eletrônicos os novos e sofisticados celulares coloridos
e, claro, mais caros. Papai fez que sim a dizer não ou pelo menos num aceitar
provisoriamente para não provocar escândalo no coletivo lotado. Ela sorriu ou
para ele ou dele e não esquecendo as compras dela; aí despencou mostrar o que
estragado no seu túmulo – não seriam tumbas mas túmulo como grafado pois jazigo
coletivo e familiar, daqueles de gavetas à espera – mostrando assim as
necessidades novas ditadas pela tevê e pela internet com belíssimas ofertas e
razoáveis preços conforme pensamento seu da carteira do consorte. E acresceu
nisso pagamentos aluguéis impostos dívidas dúvidas... De maneira que o
esqueleto macho quase se desfez em mil pedaços, a custo juntados pela própria
imaginação. Iam por essas razões começar, fosse no lar ou túmulo coletivo, iam
dar início a um lance da tragédia do bate-boca conjugal com menino no meio
forçando fosse ouvido lá em cima a fala dos seus dentes, os dentinhos inteiros
e da primeira dentição enquanto os da mãe já implantados e os do genitor meras
dentaduras postiças, inclusive estas com uns filetes de ouro atraindo ladrões
de cemitério municipal. Não. Não prosseguiram, a ficar no início e projeto de
batalha campal quiçá guerra fosse na casa e não no ônibus, a dar vexame aos
circunstantes. Nessa altura o chofer já olhava com rabo de olhos, quer dizer de
buracos dos olhos para o lado do casal e aí lhe aparecendo o nariz, o qual terá
sido torto grande comprido, faltando agora por cima dos dentes cariados no
lugar onde decerto tivera bigodes apenas a parte óssea das fossas nasais já sem
cartilagem que a terra comera certamente obedecendo a lei da natureza. Então o
casal se constrangeu, se compôs se comportou normal (o que seria normal!) até o
esqueletinho gracioso notou o público a olhar curioso condenando a quebra do
silêncio no veículo. Nesse transtorno que felizmente não se completou, ela
voltou a sentar-se (havia se levantado um pouco ou para ver a rival outra ou
para ferir melhor a oposição macha pega no flagrante). O esqueleto macho
ruborizou-se, nessa situação em que a gente não sabe onde põe o chapéu; aliás
usava mesmo um chapéu para cobrir esconder uma cicatriz na testa, onde recebera
antanho um tiro do esposo doutra amante, amante que hoje tem o belo apelido de
‘namorada’. Sentou-se sua fêmea, ajeitando as costelas e compondo os ossos da
medula. Enquanto, pilhado ele no descuido, sequer percebendo no ato de se pôr
no assento o assento e mostrar o ilíaco trincado. Fez mais, fizeram: ele
esparramando sem educação o metatarso e os cinco metatársicos e ela os artelhos
bem ajuntados para não dar na vista com suas pontas esmaltadas de vermelho
quase ‘cheguei!’ e num segurar a indefectível bolsa feminina. Nessa altura o
esqueletinho já nem via o drama adulto caso houvesse observado e assim
dialogava com outro imaginário, quem sabe também um exemplar ajuntado de ossos
formando um belo garoto.
Marília outubro
2012