(conto)Cucurucucu ausente
Naquela noite madrugada em extremo e quase extrema-unção no
despertar da alvorada, naquela não se ouvia não se ouviu mais o seu despertador
tocar... e já era tarde, cedo no madrugar trabalhadores e conduções e mais
trabalhadores despejados e veículos a atravancar atrapalhar o trânsito na
cidade grande.
Porque em contrário, dar-se-ia o contrário de Cucurucucu curucucar
nas horas previstas, imprevistas aos dopados a dormir seu cansaço. Cucurucucar
ele e então cucurucucavam outrem perto entre outros longe avisando a hora mais
alto agora, longe os demais a avisar também, como que em cascata: todos a acordar
se não todos homens todas galinhas.
Ah as fêmeas dele doidinhas para se espreguiçar a cocorocar seus
cocodecos botar criar as crias em lindos pintos, bentos a elas – assim o
terreiro a ganhar vida! Morte, morte ao
silêncio, que demais se assustava com pássaros e passos humanos, em gritaria
mui barulhenta à poesia dos seres.
Cucurucucu até aí sempre o primeiro a despertar despertando
outrem ali e todos mais, mais por uma característica sua que era de ao fim do
aviso – quando todos encerravam o cucurucucar com 'us' normais ou comuns de se
ouvir, ele com som bom de 'creque-creque' e não a imitar u-us.
Elas, madames ou senhoritas, nada obstando gostando acostumando
gostar, já acostumadas. O que importava, o que lhes importando, era ter para
manter a espécie no mundo o mando do macho em general.
General! cucurucucava velho marechal, supondo-se homem pra
valer.
E assim tempos, pelos tempos dos tempos. O tempo a se escorrer
num até.
Daí – em aquela noite a se acabar na alvorada às aves todas
e à toda gente – se fez silêncio.
Outrem ali, lá pra lá de lá outros avisaram, gastaram as
hastes de seus despertadores – em vão: Cucurucucu não arrespondeu, não
respondeu não correspondeu aos insultos. Silêncio.
E a alvorada acabou e o dia veio e se fortaleceu, riu-se o
sol e também se rindo os sons.
Os homens (mui mais as mulheres dos homens) os homens argumentaram
nos seus argumentos com novo argumento, o de que as galinhas já não punham
quase, quase nem pinto em prometedores frangos e frangas; o terreiro meio
derrotado.
A panela chiou, após fraco e depois mais no menos até parar
a pressão.
E, se não fez o silêncio ajudando na alegria da refeição regada
a cerveja aos grandes e refrigerante aos pequenos, também não fez silêncio no
almoço dos homens.
Itapecerica da Serra, julho 2017