quinta-feira, 27 de outubro de 2016

A  Prisão

         Incrível curioso interessante, inusitado ao menos poder-se-ia dizer – mas estou preso! A exclamação é para mostrar a que ponto eu mesmo me admiro por este esdrúxulo, semelhante a uma carceragem nunca suficientemente inventada por alguém mais sensato possível. Enfim encontro-me totalmente enclausurado na minha própria casa... e é isto que destoa do natural do comum do correto, da rotina afinal, a rotina que envolve todos seres. No entanto nem todos seres, inclusive os prisioneiros, vivem numa espécie de prisão domiciliar que não fere a lei... e nem todos a andar nas correntes (fossem todos, seria de um absurdo sem tamanho pois a corrente faria no mundo um barulho ensurdecedor, pelos gomos dessa corrente a se chocarem no arrastar no chão e no meu caso aqui o solo de minha casa, insisto ser a minha:) nem todos, apesar haver muitos presos mas nenhum no prédio em que resido. Minha residência é hoje minha prisão – devendo no entanto ser a paz o silêncio; mais uma vez alembro o arrastar barulhentamente das correntes que me prendem.
         Olho fora... agora desesperadamente porque desesperante andar trancafiado como fosse um marginal um bandido perigoso ou como um sentenciado. Um pouco assim visto encontrar-me sentenciado, proibido à liberdade mais comezinha, a de circular livremente nas cercanias: pôr o lixo na lixeira no dia de lixeiro por exemplo; ir até a um carrinho de frutas e verduras ou ao carrinho do sorveteiro a apitar suas ofertas “tem de chocolate de limão de groselha de morango, tem de...” não tem pra mim, vivo proibido pôr os pés fora de meu perímetro doméstico!
         Por volta veem-me no interior do quintal a circular (arrastando a barulhenta? arrastando, acho que sim) não me veem livre; olham olhariam perplexos não olham mas olham e não me veem de fato.
         Olho-me por minha vez e vejo o xadrez deste improvisado xadrez, improvisado pois não tem funcionários civis ou fardados, não tem delegado. Ninguém se responsabiliza por esta detenção; contudo não posso passo fora do paço; aqui a brincar visto ser longe de palácio com aquelas efígies e brasões na entrada sem saída e simbolizando os poderes competentes ou incompetentes, a lei; essa lei que oprime comprime deprime a todos. Vivo embora só mas recluso!
         Todavia desfruto o direito de poder ‘livremente’ examinar a sujeira que me caracteriza o chão do quintal; a parte da frente com um jardim abandonado, onde flores teimosas se abrem se ofertam apesar de somente contando com a chuva: o prisioneiro é proibido usar a torneira a mangueira, o regador que sej, num descuido da ordem... Pode o prisioneiro medir os passos – meço passos somo centímetros engulo metros sem acumular quilômetros, bem assim, não tendo o claro fugidio da libertação. Medir passos, ai que raiva, e não bastariam outras azucrinações!? que raiva sinto ouvir os anéis da corrente a se chocarem, a corrente que se gruda nos meus tornozelos. Pode (deve? se pergunta o preso) pode ir até ao portãozinho ao portãozão, este para veículos não tenho carro; ambos portões fechados lacrados ‘cadeados’ a cadeado, enferrujados e já enguiçados – pode medir mas não pode, pra mim não tem a opção, por não ter direito à liberdade. E se tivesse? ao me prender se apossaram das chaves. Ora, um inteligente que sobrasse neste orbe nesta região neste terreno onde me obrigaram a permancecer; um inteligente que fosse, fosse ele meio amigo, não proporia pular a muralha? pular a muralha de ferro ponteagudo nas suas pontas feito grade de cadeia, mas apenas gradil sem arte e com objetivo tão só impedir a entrada de ladrão bandido contraventor, da violência – ah a violência e seus praticantes, temos vários deles hoje e me assusto agora; e agora não terei ao menos o direito de me assustar! será também esconderam as chaves do meu insignificante direito ao espanto!
         Vou pra lá, pra cá, volto, torno, retorno ao donde não vim e encontro a me barrar barras de ferro da cela, esta cheia de ar de vento de interrogação, com nenhuma liberdade. E assim não posso sair de minha própria casa nem morto... nem morto! é um caso a se pensar; talvez um meio de fugir sem ser baleado como trânsfuga, talvez nisso a solução. Ou não: levar-me-iam (o meu corpo inanimado, bem mal entendido, os meus restos) levariam tais restos à funerária depois à cova, ambas prisões sem contradita. Não.
         Sim, fico preso mas vivo. É o preço da liberdade. Não posso nem devo discutir com preço preso, nem com liberdade optante por barras absolutas e correntes sonantes.
Marília   outubro  2016


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