(conro) Da Arte Cabeleireira
Era
uma grande chance... Não. Não pensou nesses termos; assim mesmo oportunidade e
tanto porém não formalizara a coisa, a coisa viera qual presente inesperado.
Mamãe saíra a cuidar da Comadre Dita,
dita senhora negra de cabelos brancos e portanto forte pois dizem que negro
quando pinta... Contudo enferma e daí cuidados da comadre. O fato é que saíra
de casa deixando mil recomendações ao herdeiro único "não mexa nisso não
pegue naquilo não vá ao fogão não olhe o poço não sonde os meninos, moleque só
faz artes e..."
O garoto a ficar com mais medo que do
medo que a mãe tinha das coisas. Vivia só, acompanhado da genitora, esta
exagerava muito nas palmadas, o pai aparecia somente noite não se contando com
seu apoio. O rapazinho vivia dentro de casa, no meio da gritaria na vizinhança
– sem liberdade alguma, sujeito ainda à severidade no lar, sem doce. Temia a mãe
porém mais a temer ficar só, visto as estórias que ouvia da maldade humana. Não
obstante já temesse por imitação à mãe a casa de tábuas velhas com novas e
novas baratas. Nas frestas vicejavam as cascudas grandes e fedorentas e as
pequenas marrons voadoras dando pavor. Olhou-se no espelho trincado e viu um
garoto apavorado; aqueles cabelos espetados volumosos e duros, decerto do
terror.
No início da ausência da senhora à
Comadre, ele se sentindo deserdado da sorte. A fugir disso, pôs pra funcionar a
imaginação e criou mil brinquedos. Mas estacou nos cabelos. Havia uns cachos de
enfeite que eram objeto de horror pra si, os fios duros no pentear, e isso
despertou a lembrança dos piolhos: a mãe usava o pente fino e pela agitação do
paciente, ela impaciente, dava no pequeno uns 'croques' doídos com as costas do
pente. Nisso juntar a cabeleira e o espelho único na casa. Trincado embaçado
distorcido pois não sabia quando focar numa ou noutra parte do vidro, que
andava enganchado na janela fechada, era-lhe proibido abrir e contatar os meninos
de fora. Tomou a tesoura na máquina de costura, daquelas a manivela, usada pela
mãe aos remendo da casa. Não sabia ler todavia sabendo Solingen, de têmpera e fama. Olhou-se firmou-se e se pôs a arranjar
os pelos no couro cabeludo como fora seu barbeiro. Trec daqui trec de lá, foi podando
(ou acertando segundo sua linguagem cabocla). Tirou um tufo, deixou no lugar um
buraco novo. Aparou conforme os trincos do espelho até se sentir aliviado...
quiçá belo.
Daí ouviu o pisado duro de mamãe,
afobada suada preocupada cansada. Abriu de quase supetão a sala, clareando toda
a dependência. Deparou-se com cena inusitada, de perder a fala. Não eram as
baratas temerosas a fugir das tábuas podres, era seu filho!
O fim do mundo? O fim do mundo.
São Paulo maio
2020
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