quarta-feira, 6 de maio de 2020

Da Arte Cabeleireira


(conro) Da Arte Cabeleireira

Era uma grande chance... Não. Não pensou nesses termos; assim mesmo oportunidade e tanto porém não formalizara a coisa, a coisa viera qual presente inesperado.
          Mamãe saíra a cuidar da Comadre Dita, dita senhora negra de cabelos brancos e portanto forte pois dizem que negro quando pinta... Contudo enferma e daí cuidados da comadre. O fato é que saíra de casa deixando mil recomendações ao herdeiro único "não mexa nisso não pegue naquilo não vá ao fogão não olhe o poço não sonde os meninos, moleque só faz artes e..."
          O garoto a ficar com mais medo que do medo que a mãe tinha das coisas. Vivia só, acompanhado da genitora, esta exagerava muito nas palmadas, o pai aparecia somente noite não se contando com seu apoio. O rapazinho vivia dentro de casa, no meio da gritaria na vizinhança – sem liberdade alguma, sujeito ainda à severidade no lar, sem doce. Temia a mãe porém mais a temer ficar só, visto as estórias que ouvia da maldade humana. Não obstante já temesse por imitação à mãe a casa de tábuas velhas com novas e novas baratas. Nas frestas vicejavam as cascudas grandes e fedorentas e as pequenas marrons voadoras dando pavor. Olhou-se no espelho trincado e viu um garoto apavorado; aqueles cabelos espetados volumosos e duros, decerto do terror.
          No início da ausência da senhora à Comadre, ele se sentindo deserdado da sorte. A fugir disso, pôs pra funcionar a imaginação e criou mil brinquedos. Mas estacou nos cabelos. Havia uns cachos de enfeite que eram objeto de horror pra si, os fios duros no pentear, e isso despertou a lembrança dos piolhos: a mãe usava o pente fino e pela agitação do paciente, ela impaciente, dava no pequeno uns 'croques' doídos com as costas do pente. Nisso juntar a cabeleira e o espelho único na casa. Trincado embaçado distorcido pois não sabia quando focar numa ou noutra parte do vidro, que andava enganchado na janela fechada, era-lhe proibido abrir e contatar os meninos de fora. Tomou a tesoura na máquina de costura, daquelas a manivela, usada pela mãe aos remendo da casa. Não sabia ler todavia sabendo Solingen, de têmpera e fama. Olhou-se firmou-se e se pôs a arranjar os pelos no couro cabeludo como fora seu barbeiro. Trec daqui trec de lá, foi podando (ou acertando segundo sua linguagem cabocla). Tirou um tufo, deixou no lugar um buraco novo. Aparou conforme os trincos do espelho até se sentir aliviado... quiçá belo.
          Daí ouviu o pisado duro de mamãe, afobada suada preocupada cansada. Abriu de quase supetão a sala, clareando toda a dependência. Deparou-se com cena inusitada, de perder a fala. Não eram as baratas temerosas a fugir das tábuas podres, era seu filho!
          O fim do mundo? O fim do mundo.
São Paulo   maio  2020
         



             

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