quarta-feira, 20 de maio de 2020

A Grita


(conto) A Grita

Ouviu mal, não disse Chiquinha. Não: Xicrinha, Xicarazinha, pronto. Eis aí a voz, a voz dá razão a quem a tenha e aliás pra que existe acento... ou ficaria a voz da razão. A tagarelice dos objetos inanimados? ora ora.
          Uma grita geral, ninguém no lugar se entendendo, dentro do comuníssimo dizer: na casa em que falta pão todo mundo grita, ninguém tem razão. Exceto a desaforada xícara.
          Não é uma loucura?
          Ela pequena miúda um tiquinho de gente... não, de objeto, objetinho inanimado, de fala alta. Afirma-se haver gritado e ainda em voz de falsete, o falsete quando a gente pensa homem vê mulher ou imagina mulher sendo macho pra valer. Em todo caso crítica, critica tudo. Nada lhe serve.
          Deixaram batom na minha borda, próximo do trinco. Ninguém tem também, hein, cuidado, delicadeza comigo. Daí por diante elinha mostra a traseira do passado. Prossegue.
          Aquele frescalhãozinho do pires, que devera estar aos meus pés. Onde? sumiu.
          A tigela de louça, louca, quebrou-se e se partiu em mil pedaços; se fosse sustentada por um pires como eu...
          Ora bem, ninguém igualmente tendo estima aos metais, ferros e alumínios da casa, casa esta de pau, pau podre. Vivem, se vivem, amassados e exibindo desserventia, abandonados; servindo apenas aos celerados bater fazer comício contra o governo, aquele ladrão! Batem, batendo um contra o outro e aos gritos, nuns xingos de envergonhar meus brios, meu moral, ih quanto eme; deixa pra lá.
          Estão aí os talheres, como a colher que é mulher do garfo, a faca,  uma de serrote, de serrinha pra cortar quem se interpuser... Uns brutos, não servem pra comer (comer! credo, cortariam lá por dentro dos mais brutos:) quis mostrar servir para ajudar engolir o alimento. Pois não tem a colher de pau!? Uma trouxa.
          Nas louças, loucas falei por baixo do pano – as louças umas tontas tanto exibir seu brilho fosco de má lavagem; engorduradas engordadas trincadas por vezes; essas não recomendo; sobretudo a travéssa travêssa; tapeia esse trapo todo mundo; todos se põem contra ela. E mais, sem beleza alguma a feia. Nem forma definida tendo, seria oval retangular enfim desmanchável trincável quebrável. Vilona, não: vilã, pronto.
          Outro horror é a assadeira. De alumínio ou latão, lata de flandres desamassada ao bolo que se não faz na casa pobre; e faria dona Maria na sua gritaria onde! não tem forno, tem chapa de ferro a queimar a mão dos descuidados – o fogão é à lenha com fumaça de arder os olhos da gente...
          Ah não tenho olhos só boca de gritar a grita geral e oportuna, importuna aos críticos. Nem sou gente; gente? que vantagem maria leva?
          Não mais existe na casa de caboclos lavradores pobretões e ignorantes... ah certo dia um da casa pronunciou, pronunciou que ouvi: "inguinoranti" isso a outro da mesma iguala. Mas não existe geladeira. Sem energia elétrica, a noite é tétrica aqui, próprio às assombrações; um tremelicar de luz de lamparina com fedor de querosene. Pois é, teria então isto geladeira, Dona Maria põe para não estragar ovos e limões enterrando na terra, na areia, na areia fresca porque...
          Ora ora, teria como nas casas urbanas um refrigerador tão só para colar figuras ou sustentar o papagaio de louça e piormente a servir de base ao despertador! que absurdo. Seria mais viável a geringonça despertar-a-dor e não marcar atrasado horas num tique-taque irritante.
          Em compensação, diz e grita com volumosa voz a Xícara (embora se veja poética...) a Xícara linguaruda de olhar voltado ao filtro, mais talha de refrescar água. Olha o pobre na casa pobre da pobre roça hoje falecida assassinada pelos burgueses. Ele daí se esfria pela quente língua viperina. Ela sorri. Volta-se aos outros trens de cozinha.
          O bule de café, o bobo e desgracioso pano de coador, sujos bule e coador... pratos de gosto discutível ao caírem se espatifarem a fazer Dona Maria usar a mão e as nádegas filhas sofrerem chorarem... ah a panela.
          É uma porca. Suja escura grudenta. Ela? ela e elas outras a serviço e uso.
          O pano de prato, encardido. Feito de saco vazio de farinha; bordado pelos dedos grosseiros da velha Maria. E os demais panos de uso abuso no lar 'doce' lar. Guardanapos toalhas lençóis travesseiros fronhas cobertores; uh que feiura e desengonço nos... grita a Xicrinha.
          Nisso despencou ao chão a concha indignada ou assustada apavorada. Por isso. Não. Por tudo isso e a loucura da gritona então rouca a chorar lágrimas de crocodilo, no relembrar os tempos passados e seus sentimentos com saudades, sua época dos desejos, naqueles tempos de juventude, então a andar se pintando vaidosa.
          Foi quando um pássaro preso na gaiola se pôs a cantar. Xicrinha: "cantaria melhor se estivesse do lado de fora".
São Paulo   maio  2020


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