segunda-feira, 28 de setembro de 2020

Cena perante Cena

 

(conto) Cena perante Cena

 

          Olho a foto, fotos pois são duas a antiga a recente. Com reparo – não tão antiga ou me complicaria no costume de esconder idade; sim mas velha, aí pelos anos oitenta do século passado. A nova, exagero seja tão recente, também ela manuseada a esmo (toda família quer examinar primeiro fulaninho ou siclanona ou a si mesmo pra observar se achando alguma diferença engrandecedora ou esclarecedora naquela forma gasta "ah como engordei" ou como era enxuto em mil e novecentos e tanto, quer dizer a antiga). Enfim dá para fazer comparação entre as duas poses, a salvar um resultado.

          Ah, tem uma coisa: na primeira e mais velha os membros contando com o negativo do filme, sabe-se lá quem tirou a foto depois revelada num fotógrafo pouco profissional e pouco artístico, visto grosseiras retificações a embelezar fulana, a qual conheci e era sim bela; embelezar mais ou enfeá-la mais ou enfeá-la contra o excesso de bonitura. Ih, tem nisso algo curioso e inverídico; que era em mil e novecentos e bolinhas o ser a ser fotografado usar perfume a sair melhor... claro, mesmo nessa época não se acreditando.

          Mas em síntese o que exibem tais fotografias já dito a velha não tanto, me defendo, e a nova não exagerando atualidade. Bem, apresentam a mesma família mesmos membros (aqui sou eu a exagerar um pouco, reconheço); enfim o mesmo comparado no século passado e em o nosso que é o vinte e um. Na primeira a família em maioria de jovens e por jovens ou por estar na berlinda e entrando na posteridade numa foto, quase rara a pobres, se postam sorrindo. O pequeno de chupeta entre manos pais tios e primos; não larga a chupeta sequer a gravar uma imagem. Todos fixos, duros, impenetráveis? sabemos lá. Porém se não rindo, sorrindo. Não o pai um pouco sisudo, não a mãe meio tristonha. Essa a leitura. E para melhor leitura seria necessário entrevistar as poucas pessoas fotografadas; isso nalguns casos impossível sem autorização da Morte...

          A segunda tomada já feita por novo desenvolvimento tecnológico; no entanto se percebendo algumas diferenças na mesmíssima família, a mesma sim pois fotografados com certo objetivo talvez apuro e até um fim histórico, nessa reunião quase proposital a um  registro. No passado a novidade vinda do laboratório era enviada aos parentes, sobretudo aos filmados nela. A resumir, na segunda, a recente, a cena expõe a família, de certa maneira ainda unida e reunida aos olhos do fotógrafo; se bem que nesta aparece alguém desconhecido e que não consta na foto antiga; pergunta-se seria primo vizinho 'namorado' de alguém!?. Voltemos a comparar. O pequerrucho na foto recente fóra, fôra ao céu. Um outrinho na anterior na expectativa em ver o espocar da lente, esse já não tão pequeno, ele na outra e antiga vendo o plec de filmar, agora vê um celular nem liga aos parentes que desejavam tanto sair na fotografia antiga. Em a nova: sequer nota os companheiros ao lado; não sorri, sorri aos bonecos do joguinho no aparelho móvel... Os demais ninguém sorri. Ou não se nota pois todos de máscara contra a pandemia que assola o planeta. Os mais irreverentes gozam ser focinheira não máscara ou bico de pássaro como urubu ou outra ave de rapina enfim. Alguém mais chato analisando a nova 'recente' fotografia da família irá notar diferenças nas cores no formato etc. dessas ditas máscaras, sequer vendo o mascarado por baixo do por cima... Vendo antes que isso a posição se certa se encaixada no nariz; tem um com a sua dependurada na orelha para ficar livre a fumar.

          No fim, se fim, finda-se com uma observação, a qual conclui numa problemática que nesta última a focinheira esconde o que se esconder: o medo, terror em alguns membros, os cuidados no espaçamento obrigatório na população. Um dado ótimo à liberdade.

São Paulo   setembro  2020

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