(conto) Cena perante Cena
Olho a foto, fotos pois são duas a
antiga a recente. Com reparo – não tão antiga ou me complicaria no costume de
esconder idade; sim mas velha, aí pelos anos oitenta do século passado. A nova,
exagero seja tão recente, também ela manuseada a esmo (toda família quer
examinar primeiro fulaninho ou siclanona ou a si mesmo pra observar se achando
alguma diferença engrandecedora ou esclarecedora naquela forma gasta "ah
como engordei" ou como era enxuto em mil e novecentos e tanto, quer dizer
a antiga). Enfim dá para fazer comparação entre as duas poses, a salvar um
resultado.
Ah, tem uma coisa: na primeira e mais
velha os membros contando com o negativo do filme, sabe-se lá quem tirou a foto
depois revelada num fotógrafo pouco profissional e pouco artístico, visto
grosseiras retificações a embelezar fulana, a qual conheci e era sim bela;
embelezar mais ou enfeá-la mais ou enfeá-la contra o excesso de bonitura. Ih,
tem nisso algo curioso e inverídico; que era em mil e novecentos e bolinhas o
ser a ser fotografado usar perfume a sair melhor... claro, mesmo nessa época não
se acreditando.
Mas em síntese o que exibem tais
fotografias já dito a velha não tanto, me defendo, e a nova não exagerando atualidade.
Bem, apresentam a mesma família mesmos membros (aqui sou eu a exagerar um
pouco, reconheço); enfim o mesmo comparado no século passado e em o nosso que é
o vinte e um. Na primeira a família em maioria de jovens e por jovens ou por
estar na berlinda e entrando na posteridade numa foto, quase rara a pobres, se
postam sorrindo. O pequeno de chupeta entre manos pais tios e primos; não larga
a chupeta sequer a gravar uma imagem. Todos fixos, duros, impenetráveis? sabemos
lá. Porém se não rindo, sorrindo. Não o pai um pouco sisudo, não a mãe meio tristonha.
Essa a leitura. E para melhor leitura seria necessário entrevistar as poucas
pessoas fotografadas; isso nalguns casos impossível sem autorização da Morte...
A segunda tomada já feita por novo
desenvolvimento tecnológico; no entanto se percebendo algumas diferenças na
mesmíssima família, a mesma sim pois fotografados com certo objetivo talvez
apuro e até um fim histórico, nessa reunião quase proposital a um registro. No passado a novidade vinda do
laboratório era enviada aos parentes, sobretudo aos filmados nela. A resumir,
na segunda, a recente, a cena expõe a família, de certa maneira ainda unida e
reunida aos olhos do fotógrafo; se bem que nesta aparece alguém desconhecido e
que não consta na foto antiga; pergunta-se seria primo vizinho 'namorado' de
alguém!?. Voltemos a comparar. O pequerrucho na foto recente fóra, fôra ao céu. Um outrinho na anterior na expectativa em ver o
espocar da lente, esse já não tão pequeno, ele na outra e antiga vendo o plec
de filmar, agora vê um celular nem liga aos parentes que desejavam tanto sair
na fotografia antiga. Em a nova: sequer nota os companheiros ao lado; não
sorri, sorri aos bonecos do joguinho no aparelho móvel... Os demais ninguém
sorri. Ou não se nota pois todos de máscara contra a pandemia que assola o planeta.
Os mais irreverentes gozam ser focinheira não máscara ou bico de pássaro como
urubu ou outra ave de rapina enfim. Alguém mais chato analisando a nova
'recente' fotografia da família irá notar diferenças nas cores no formato etc.
dessas ditas máscaras, sequer vendo o mascarado por baixo do por cima... Vendo
antes que isso a posição se certa se encaixada no nariz; tem um com a sua
dependurada na orelha para ficar livre a fumar.
No fim, se fim, finda-se com uma
observação, a qual conclui numa problemática que nesta última a focinheira esconde
o que se esconder: o medo, terror em alguns membros, os cuidados no espaçamento
obrigatório na população. Um dado ótimo à liberdade.
São Paulo setembro
2020
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