quinta-feira, 4 de junho de 2020

Um Dia em a Noite do Presidente


3582-(conto satírico)Um Dia em a Noite do Presidente

Digo na reunião ministerial extraordinária o que iremos tratar como emergência, em vista da crise assustadora que o País atravessa. O País sabe a Imprensa 'sabe tudo', é a Terra das Bananas.
          Uns atentos outros a conversar entre si, a maioria dorme no plenário, o salão fica em silêncio vou em frente a dar exemplo aos Ministros; aliás só tenho a me acompanhar Sinistros, sobrou na defecção somente um Ministro; o qual entende de como salvar as finanças. Os demais membros, incompetentes e politicoides recebendo salários nababescos. Volto-me a ele. Ele:
          Presidente, não temos saída nessa falta de entrada: a população bananeira não paga impostos e taxas alegando o subemprego na informalidade o desemprego em toda parte e até o desespero. Precisamos urgente recorrer a empréstimos no exterior... (nisso ou por isso acordam alguns Sinistros sonolentos).
          Não se desespere Senhor Doutor Ministro, já cuido da resolução – entregar ao meu sócio superior o território de Bananas, o qual se tornará o 51º estado na confederação, a agradar Tio Sam, um santo milagreiro e protetor do Planeta quiçá do Universo. Fácil, fácil... o 51, aquele da boa ideia.
          Dou-lhe já a palavra Senhora Sinistra; o problema capital é fechar a boca da Imprensa; mas porei a metediça no seu lugar – como fala o Sinistro da Educação, todos na cadeia.
          Não ouvi bem. Ah, não foi seu colega da Educação, de fato ele não se referiu à Imprensa e sim ao Supremo. Não muda o drama, todo mundo é contra meu governo, sobretudo os esquerdistas, bando de comunistas, acabaremos com a baderna desses filhos da mãe (eu pronunciei outro nome, a Sinistra ficou envergonhada). Ora ora, tudo isso porque o Ministro da Justiça desertou e fez afirmativas na mídia que o Presidente interferira num órgão sob seu comando, a Polícia Federal, para obter informes sigilosos em caso envolvendo um de meus filhos, o qual a Imprensa trata como corrupto e até criminoso; os meus herdeiros estariam envolvidos na queima de arquivo eliminando um miliciano assassino – mentira deslavada dos jornais e daí o porquê cortei as verbas antes oferecidas às televisões. Saiu o Ministro, pus o melhor dos Sinistros no lugar, ninguém aceitou o manejo, muito mais a Imprensa mentirosa.
          Agora a coisa piorou nas Bananas por culpa não só da Imprensa porém das Potências Orientais: todos nós sabemos que espalharam uns vírus nas outras nações, não aqui em Nossa Querida Bananas onde apenas viceja resfriadinhos e gripezinhas mansas; além de o bananeiro ser um ser forte e a crescer na lama, sem doenças sem mortes. No entanto nada convence a Imprensa criadora de casos. A verdade é que, atingindo a crise de saúde os males no exterior, as exportações bananeiras sentiram e daí a falta de recursos a atingir nossa moeda, não é Ministro?
          O Ministro responde sim de cabeça.
          Contudo, ainda a faladeira Imprensa apresenta em letras garrafais na primeira página que o Presidente nunca ampara o Ministério da Saúde (não é mesmo, Sinistro?) e diz ainda que troco meus insubordinados auxiliares por Sinistros sem competência a gerir instituições tão importantes. Diz que não oferecemos meios à Saúde para combater resfriadinhos e desviando verbas a fim de garantir minha reeleição! Cadeia aos membros da Imprensa.
          Neste pondo examino os Sinistros: até o Ministro incomodado.
          Além da Imprensa – prossigo meu discurso – além tenho a combater os Governadores de Províncias nas Bananas, uns estrumes. São frontalmente contra meu direito a representar este povo ordeiro; uns outros abusam nas funções fazem planos para me derrubar e o fazem a isolar o cidadão da província em quarentena, obstando o funcionamento da economia da Nação (não é assim, Ministro? consentiu novamente de cabeça). De que jeito salvar nossa moeda, como impedir a fome sem trabalho livre com polpudo ganho – preso dentro de casa e ainda amordaçado com máscara, a qual chamo focinheira! como pagar conta. Os Governadores estão contra o Presidente eleito já sonhando inclusive sua reeleição! Tais políticos andam mancomunados com a Imprensa e a procurar uma forma de acabar com o estado de direito e a democracia.
          Mas senhores, essa corja toda de detratores de meu governo – a Imprensa mostra como desgoverno... – essa corja tenta instigar os políticos honestos e dignos do Congresso; mormente os dos partidos que me apoiam (a Imprensa insiste que a troco de verbas para alguns políticos e aos seus estados) inclusive a mexer com os da oposição... A Imprensa espalha que nos meus 28 anos na política o Presidente como deputado nunca participou de uma comissão; mais: que eu votava sempre junto com o PET, o partido esquerdista no trabalho, meu arqui-inimigo, agremiação corrupta e condenada pelas falcatruas, portanto criminosa. A Imprensa inteirinha comprometida com os crimes e a me difamar. Essa gente só à bala. Aliás o Povo me elegeu na promessa de limpar Bananas a bala! Faço como Presidente todo empenho em armar o País e mesmo criei acampamentos de apoiadores de meu partido, o qual aliás se voltou contra mim recentemente; a Imprensa explora isso me acusa de reunir esses patriotas, com o beneplácito da gente fardada, para tomar o poder de vez, acabando com os comunistas, um perigo universal! A Imprensa apenas vê o lado mau da verdade e mancha o nome honrado do Presidente. Mais: ela mancha meu nome vendendo e distorcendo a opinião aos outros representantes estrangeiros adversos a meu governo, governo quer dizer Vocês Sinistros e o Presidente. No entanto o Presidente recebe amparo dos religiosos e assim a Imprensa age igualmente contra Deus. Valha-me Deus!
          Agora a Imprensa teimosa propõe que os políticos decentes abram processo de impeachment e torce para que o Presidente não tenha maioria no Congresso, pois os mandatários derrubados anteriormente no País das Bananas o foram por não contar com apoio no Legislativo e no Judiciário. Neste ponto ouço um sininho no Plenário, olho enfezado o despertador, aquele barulhento; e escuto a mulher zangada. Ela:
          Seu dorminhoco, seu porco roncador não deixa ninguém dormir, seu burro, seu vagabundo – o trabalho à espera, o sol alto, as crianças brincando e brigando no terreiro, as comadres no falatório – e a enxada enferrujando na tulha as pragas crescendo no cafezal, assim o patrão reclama e Você?
          "Ué, os ricaços não acabaram com a roça!"
São Paulo   maio  2020




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