3582-(conto
satírico)Um Dia em
a Noite do Presidente
Digo
na reunião ministerial extraordinária o que iremos tratar como emergência, em
vista da crise assustadora que o País atravessa. O País sabe a Imprensa 'sabe
tudo', é a Terra das Bananas.
Uns atentos outros a conversar entre
si, a maioria dorme no plenário, o salão fica em silêncio vou em frente a dar
exemplo aos Ministros; aliás só tenho a me acompanhar Sinistros, sobrou na
defecção somente um Ministro; o qual entende de como salvar as finanças. Os demais
membros, incompetentes e politicoides recebendo salários nababescos. Volto-me a
ele. Ele:
Presidente, não temos saída nessa
falta de entrada: a população bananeira não paga impostos e taxas alegando o
subemprego na informalidade o desemprego em toda parte e até o desespero.
Precisamos urgente recorrer a empréstimos no exterior... (nisso ou por isso
acordam alguns Sinistros sonolentos).
Não se desespere Senhor Doutor
Ministro, já cuido da resolução – entregar ao meu sócio superior o território
de Bananas, o qual se tornará o 51º estado na confederação, a agradar Tio Sam,
um santo milagreiro e protetor do Planeta quiçá do Universo. Fácil, fácil... o
51, aquele da boa ideia.
Dou-lhe já a palavra Senhora Sinistra;
o problema capital é fechar a boca da Imprensa; mas porei a metediça no seu
lugar – como fala o Sinistro da Educação, todos na cadeia.
Não ouvi bem. Ah, não foi seu colega
da Educação, de fato ele não se referiu à Imprensa e sim ao Supremo. Não muda o
drama, todo mundo é contra meu governo, sobretudo os esquerdistas, bando de
comunistas, acabaremos com a baderna desses filhos da mãe (eu pronunciei outro
nome, a Sinistra ficou envergonhada). Ora ora, tudo isso porque o Ministro da Justiça
desertou e fez afirmativas na mídia que o Presidente interferira num órgão sob
seu comando, a Polícia Federal, para obter informes sigilosos em caso
envolvendo um de meus filhos, o qual a Imprensa trata como corrupto e até
criminoso; os meus herdeiros estariam envolvidos na queima de arquivo
eliminando um miliciano assassino – mentira deslavada dos jornais e daí o
porquê cortei as verbas antes oferecidas às televisões. Saiu o Ministro, pus o
melhor dos Sinistros no lugar, ninguém aceitou o manejo, muito mais a Imprensa
mentirosa.
Agora a coisa piorou nas Bananas por
culpa não só da Imprensa porém das Potências Orientais: todos nós sabemos que
espalharam uns vírus nas outras nações, não aqui em Nossa Querida Bananas onde
apenas viceja resfriadinhos e gripezinhas mansas; além de o bananeiro ser um
ser forte e a crescer na lama, sem doenças sem mortes. No entanto nada convence
a Imprensa criadora de casos. A verdade é que, atingindo a crise de saúde os
males no exterior, as exportações bananeiras sentiram e daí a falta de recursos
a atingir nossa moeda, não é Ministro?
O Ministro responde sim de cabeça.
Contudo, ainda a faladeira Imprensa
apresenta em letras garrafais na primeira página que o Presidente nunca ampara
o Ministério da Saúde (não é mesmo, Sinistro?) e diz ainda que troco meus
insubordinados auxiliares por Sinistros sem competência a gerir instituições
tão importantes. Diz que não oferecemos meios à Saúde para combater
resfriadinhos e desviando verbas a fim de garantir minha reeleição! Cadeia aos
membros da Imprensa.
Neste pondo examino os Sinistros: até
o Ministro incomodado.
Além da Imprensa – prossigo meu
discurso – além tenho a combater os Governadores de Províncias nas Bananas, uns
estrumes. São frontalmente contra meu direito a representar este povo ordeiro;
uns outros abusam nas funções fazem planos para me derrubar e o fazem a isolar
o cidadão da província em quarentena, obstando o funcionamento da economia da Nação
(não é assim, Ministro? consentiu novamente de cabeça). De que jeito salvar
nossa moeda, como impedir a fome sem trabalho livre com polpudo ganho – preso
dentro de casa e ainda amordaçado com máscara, a qual chamo focinheira! como
pagar conta. Os Governadores estão contra o Presidente eleito já sonhando
inclusive sua reeleição! Tais políticos andam mancomunados com a Imprensa e a
procurar uma forma de acabar com o estado de direito e a democracia.
Mas senhores, essa corja toda de
detratores de meu governo – a Imprensa mostra como desgoverno... – essa corja tenta
instigar os políticos honestos e dignos do Congresso; mormente os dos partidos
que me apoiam (a Imprensa insiste que a troco de verbas para alguns políticos e
aos seus estados) inclusive a mexer com os da oposição... A Imprensa espalha
que nos meus 28 anos na política o Presidente como deputado nunca participou de
uma comissão; mais: que eu votava sempre junto com o PET, o partido esquerdista
no trabalho, meu arqui-inimigo, agremiação corrupta e condenada pelas falcatruas,
portanto criminosa. A Imprensa inteirinha comprometida com os crimes e a me
difamar. Essa gente só à bala. Aliás o Povo me elegeu na promessa de limpar
Bananas a bala! Faço como Presidente todo empenho em armar o País e mesmo criei
acampamentos de apoiadores de meu partido, o qual aliás se voltou contra mim
recentemente; a Imprensa explora isso me acusa de reunir esses patriotas, com o
beneplácito da gente fardada, para tomar o poder de vez, acabando com os
comunistas, um perigo universal! A Imprensa apenas vê o lado mau da verdade e
mancha o nome honrado do Presidente. Mais: ela mancha meu nome vendendo e distorcendo
a opinião aos outros representantes estrangeiros adversos a meu governo, governo
quer dizer Vocês Sinistros e o Presidente. No entanto o Presidente recebe
amparo dos religiosos e assim a Imprensa age igualmente contra Deus. Valha-me
Deus!
Agora a Imprensa teimosa propõe que os
políticos decentes abram processo de impeachment e torce para que o Presidente não tenha
maioria no Congresso, pois os mandatários derrubados anteriormente no País das
Bananas o foram por não contar com apoio no Legislativo e no Judiciário. Neste
ponto ouço um sininho no Plenário, olho enfezado o despertador, aquele
barulhento; e escuto a mulher zangada. Ela:
Seu dorminhoco, seu porco roncador não
deixa ninguém dormir, seu burro, seu vagabundo – o trabalho à espera, o sol
alto, as crianças brincando e brigando no terreiro, as comadres no falatório – e
a enxada enferrujando na tulha as pragas crescendo no cafezal, assim o patrão
reclama e Você?
"Ué, os ricaços não acabaram com
a roça!"
São Paulo maio
2020
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