segunda-feira, 21 de setembro de 2020

(conto) Não Falar Errado

 

(conto)– Não falar errado

 

          Não falava errado a envergonhar sua gente perante a sociedade; também não indo ao exagero a analisar profundamente a etimologia e, isto verdade nisso: não feria outrem em ignorâcia das coisas da gramática da ortografia da acentuação; donde se deduz escrever certo podendo até falar errado. Na fala não era tomado esdrúxulo, antes simples. Aqui é dose 'simples' num ser complicado. Noutras palavras podendo chegar a esboçar atrever ferir mesmo alguém do seu meio – embora de família pobretona e sem instrução, pois viveram os parentes sempre na roça, onde ou não havendo escola e quando escola sem escola por sem professor, professora melhor afirmar beirando 1950. Ela, estivesse lotada como funcionária, faltava demais ao serviço e os meninos a voltar cedo à enxada. Ou a permanecer em casa para as briguinhas dentro dela, sob o ralhar da mãe. Mãe dele. Mãe deles, no meio rural geralmente uma penca de filhos. O pai sempre ausente ou no trabalho ou apenas ausente por não existir. Aquele velho drama humano: o homem 'faz' a cria deixa a cria à mulher criar, precisando lavar roupa para fora a sustentar a cria; enfim dá no pé. Ou simplesmente vira um desconhecido.  Cada geração tem seus casos a narrar. E curiosamente quase nunca dando razão à razão feminina. Mas a família perdura.

          Não falava errado. Já grande (adulto de pequena estatura) e com todos vícios na sociedade, onde mais se usa termos de gíria; ainda assim não falava ele errado. O comum é falar errado toda população não só a da roça – a roça  logo desapareceria com o êxodo rural e a exploração do solo pelos mais endinheirados – não só na roça e ainda mais talvez na zona urbana, em que se fala se escreve errado e os que se acham certos ou sábios pegam no pé dos que não sabem fazer uma frase; sabem escrever e dizem também erradamente ao pronunciar; porém mais grave na questão sempre foi e é o escrever falho.

          Não falava errado e sequer escrevendo igualmente falho; falho a diminuir a falta. Ora, todos entendiam mesmo não entendendo palavras frases períodos etc.. Enfim um mau uso da língua; a língua de falar? a língua de falar de comer de  engolir e de mostrar, sim mostrar visto haver gente que põe para fora a língua a ofender outrem; não ele, ele tendo a língua de falar.

          Não falava errado por não falar nem certo nem errado. Não falava por mudez. Também por surdez, nascera surdo-mudo. Pronunciaria certo ou errado quando a aprender a 'falar' ou se manifestar e daí tão somente gesticulando. O que bastante numa gente bastarda grosseira sem berço; enfim desafortunada. Contudo e os outros seus irmãos?

          Aprendeu, a duras penas, 'conversar' com os próximos... sabe-se bem o quanto os nossos próximos nos ensinam, até nas brigas em família.

          Bem, os outros se falassem e de fato falavam, falavam sem expressar-se igual Camões Camilo Machado Vieira. No entanto conseguiam a contento se comunicar – ele no meio aos demais manos e colegas de brinquedo e depois anos depois colegas de trabalho, mesmo porque como se sustentaria a família. Aí já tendo a mãe deles ninhada respeitável; não respeitada pois o povo não perdoando gente com tantos filhos nenhum do mesmo pai... A deixar um saldo enorme como herança herdeira, a qual é a pobreza generalizada todos desejando comer havendo ainda poucos braços a puxar a enxada. Ele também trabalhador.

          Ele, um mudo um surdo um grosso sem voz e sem insultar ninguém, primeiro nos contatos com os coleguinhas de brinquedo e manos mais próximos na idade; depois insultaria a gerar brigas mais sérias de adultos (sem pô-lo valentão, desses temidos por toda uma província). Não obstante, sim enfrentava qualquer. Claro preferir enfrentar a colher o garfo o arroz o feijão. Não reclamava do alho queimado ou falta ou sobra do sal. Nem punha a culpa das coisas na sua genitora; apenas olhava enigmaticamente pros lados dela, ela a aguentar reclamação dos meninos depois ainda meninos porém adultos a se dizer (e diziam mesmo) com direitos, visto operarem a fim de trazer à casa o pão de cada dia; embora ausente o pai, ou desconhecido, conhecido somente pelas comadres num falatório a diminuir a mãe deles todos, no costume das mulheres nunca se porem favoráveis quando, qual galinha, estando a bicar uma vítima.

          Ele não, não tomava partido. Não falava contra nem a favor a ninguém. Sim, tomava as dores dela, sem saber e não ouvindo a extensão da intriga e a língua afiada no falar fiado. Ele não. Mas mentalmente tomava sempre o lado da genitora – em resposta ao trato materno, visto as mães terem queda pelos filhos frágeis contra os outros herdeiros (de quê! o que deixa em herança o pobretão?) ela carinhava mais defendia mais atendia mais e mesmo entendia mais aquele filhote sem fala. Sem fala!

          Ora, ele não matracava borrachas e abobrinhas nem a falar pelos cotovelos como o povão. Os outros manos ou colegas cotovelavam-se até o atrito gerar controvérsia e briga de fato. Ele não, não falava. Falasse falaria decerto certo mais que os demais, pois que não errava na gramática pontuava (se pontuasse e não o sabia) acentuava correto. E desconhecendo etimologia a se desentender certo no errado com outrem.

          Não falava todavia injusto garantir que não se expunha não se punha a defender aquilo que a gente supõe certo podendo ser errado. Apenas não falando e não escrevendo errado a temer se expor como ignorantes que todos somos, só dependendo a escala do erro ou só distorcido ou não suficientemente explicado. Mas isso não quer dizer não se comunicar.

          Não falava não obstante se comunicando. Dentro de sua compreensão do mundo se punha a confirmar as coisas. O ser humano entretanto quase sempre a negar até o direito alheio... aí complicando.

          Com o tempo fora se enfronhando no mundo, como  o mundo era; era não, não chegando aos pés em ser. Dessa maneira se relacionou com demais surdos e mudos a gesticular o desejo do que dizer.

          Numa ocasião e nessa já os familiares dispersos e/ou formando novas famílias; enfim na comunidade em que vivia, a mãe morrera outros membros da antiga casa também partiram. Ele então se bastava – lógico com ajuda pública como religiosos e até gente do governo (o que extraordinário). Assim é visto num pequeno grupo com as mesmas deficiências indo de São Paulo a Campinas, a certa festividade deles. Uma instituição filantrópica fez os contatos alugou uma kombi que um sócio da entidade possuía; a levá-los ao destino.

          No caminho (segundo comentário do pobre chofer...) aí foram batendo, literalmente socando, o infeliz motorista. Isso tudo em alegria dos surdos na estrada, um trajeto de uns cem quilômetros. Então, não falando não falavam os jovens ainda moços perto do velho condutor; a se comunicar e sobretudo ele, ele que não falava é dito, ele eles socavam o peito do homenzinho a se comunicar sob gritos como som, a se conversar 'amenamente' entre si; e a sobrar ao dono do carro.

          Passou.

          Não passou o fato de que realmente ele não falava.

          Mas também não errava o português. Porém desconhecendo o sujeito no volante em qual língua se expressavam. Caso falassem.

São Paulo   setembro  2020

 

         

 

 

 

             

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