(contolouco) – A Imagem
Cheguei-me ao espelho o vidro o cristal
o reflexo em meu reflexo; a me devolver a imagem pura a me tomar como um todo
de beleza e esplendor. Fiquei séculos de minutos a estudar a visão e me
entusiasmei com que via vendo a que perfeição chegara e me comovi com aquilo
que media-me e media a minha beleza sem igual. Achegava-me ao vidro plano belo
reflexo e me distanciava para ver melhor e explorar os lances de beleza. Foi
numa dessas aproximações, tendo estado distante para avaliar melhor aquele ser
formidável preso ali no cristal transparente; foi aí haver acontecido uma
explosão assombrosa, de grande estouro, de pujante som – a assustar um
quarteirão quiçá o mundo. Imediato olhei conscientizei analisei constatei do
estouro o estilhaçamento e os mil pedaços a que fui reduzido... Via agora mil e
um de mim espalhados ainda no quadro de vidro com separaçõezinhas minúsculas e
quase microscópicas; nenhuma transparente e todas a refletir a mesma criatura,
bela e inteira, não obstante em pedaços aos pedacinhos iguais e medidos pela
força da beleza. Não ri não me ri, chorei diante a grandeza daquelas ínfimas
infinitudes em miniatura de um todo. Contudo – diante tanto entusiasmo e força
na expressão – contudo tudo arrebentou na frente de minha frente em frente do rosto
e cedeu e caiu e juntou tudinho cristalizado e refletido no chão sujo imundo e
indigno e bárbaro! Olhei então e me vi espalhado nos mil pedaços, pedacinhos a
conservar ainda a beleza. Daí desistindo não descansei mas fugi... Nunca mais a
me 'espectar' diante doutro espelho, qualquer outro que me não devolvesse em
integridade vistosidade serenidade. Fugi. Fugi a comparar os incomparáveis
vidros planos que decerto não poderiam refletir nenhuma perfeição, nem de
perto. Longe passei ficar, evitar confrontos com demais espelhos pequenos
grandes ínfimos e qualquer. Evitei inclusive vidros de lojas e retrovisores de
carros, os quais a distorcer de propósito imagens; quiçá belas. Fugi de vez.
Nunca mais veria, me prometi, nunca outro quadro com areia transformada a
exibir para quem ver a própria imagem; nunca mais a minha santa reprodução. A
fugir do banal dos que creem no absoluto. Todavia, anos após, me defronto com o
inesperado o impossível. As águas claras no sol pujante num córrego me puseram
à crítica: eu de novo refletido, ao todo e não aos pedaços e com a força da
correnteza, a dar maior e melhor brilho à perfeição. Tornei a me entusiasmar;
porém indagava, não poderia que a imagem em reflexo se partisse em mil
fragmentos! embora esperasse o milagre de todos pedacinhos refletir a perfeição
do todo. Andava nisso, a mirar nas águas plenas de figuras de perfeição, quando
notei com espanto mil outros seres de outras espécies ali em torno a adorar
aquele ápice de beleza. Havia tubarão lambari baleia e mais muito mais
animálculos do fundo do mar nas proximidades, na expectativa de um ato de
êxtase! Foi quando vi a vir – decerto não para admirar o belo supremo –
percebi, e era ontem, uma vaca braba feroz de chifre armada até aos dentes.
Corri até amanhã.
Itapecerica novembro
2017
Nenhum comentário :
Postar um comentário