sábado, 16 de dezembro de 2017

(contolouco) Sobremesa sob a mesa

          A favela onde residindo a família dos Vermes Cadavéricos da Silva andava em falta na sobra da fome, quando por azar, azar dele, desfalece antes depois falece um tal de João ou Zé (pouco importa, importa a morte à vida:) e então foi uma festa. Aguardaram um ou dois dias à decomposição do João e então puseram-se a acabar de vez com a fome que grassava; faltando o que comer sobrando violências na favela.
          Mamãe falou, depois gritou por não ouvirem os filhotes, mil filhotes, mil e um; um e todos vieram correndo deslizando deslizando e tudo o mais, o menos fora o grito materno "a janta na mesa!"
          Começaram prosseguiram no come e bebe, gulosamente, rapidamente, finalmente findando o ágape.
          Aí mamãe – sem precisar berrar falou, ela também um pouco enfastiada – aí disse. "Pronto, meus pequenos e belos  vermes cadavéricos, pronto: agora é só tomar a sobremesa".
          Continuou a falar. Temos hoje uma sobremesa variada, como osso de costela defumada (o João era quando era, era queimado curtido pelo sol) temos ainda fêmur seco, desengraxado, tíbia perônio artelhos (artelhinhos umas gracinhas, o João de mãos e pés delicados) e crânio! ah, meninos, crânio limpo sem merda dentro... aliás houvera sido cheirosa e das de Primeiro Mundo. Nem acabara de esclarecer sobre a sobremesa, já ninguém perto; longe e de barriga cheia num fastio que costuma dar sonolência nos adultos (na mãe por exemplo) e vontade de correr brincar nas crianças...

Itapecerica da Serra   dezembro  2017

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