segunda-feira, 4 de junho de 2018


(contolouco)O Julgamento Absurdo

Andava no salão enorme e solene um zum-zum significativo. Quando penetrou aquele santuário – não qualquer dos deuses – o Juiz encanecido e estapafurdiamente nervoso... nervoso? mostrava-se de fato neurastênico. Postou-se, carrancudo, entre iguais desemelhantes e mequetrefes submissos fardados, estes supondo-se suprassumo na arte de não ceder ao povo.
Sentou-se. A Autoridade sentou-se, ajeitou gulosa e vaidosamente a toga; e toca a tocar a sessão, o sininho calando o povaréu desguarnecido e deseducado.
À gente a assistir embasbacada e afoita também, sobrava o absurdo de em tão pequeno no grande espaço do salão de julgamento andar a gente parada (embora a se remexer indômita qual tendo bicho-carpinteiro...) parada sentada se bem que mais da metade do auditório se espremendo de pé sem cadeira – a tudo compensando a expectativa e a curiosidade banais bastardas popularescas.
O Deus Máximo daquela corte determinou o início dos trabalhos por um porta-voz, o qual pôs ao corrente o público sobre que oficialmente se tratando. Em voz alta melosa pastosa e decidida falou lendo a tremer uma lauda interminável, mais ou menos isto abaixo, tratado aqui não ipsis litteris.
Antes de mais nada, tudo é o seguinte, senhores e senhoras, estando o público já nesta altura indócil e arreliento. Isto calou um pouco o burburinho incontido da plateia.
Ela composta por uma estação do metrô duma megalópole; outra estação de trem secundário e de apoio popular à gentalha; um terminal inteirinho de ônibus superlotados a par de outros despejadas a carga humana cheia de sangue e suor; e ainda o zé-povinho das praças e demais vias públicas (a rigor, estas verdadeiras latas de lixo a céu aberto e a feder na vista dos narizes do mundo:) Realmente era ali naquele solene recinto a boca e o fim do mundo!
'Blá-blá-blou' a voz oficial a comunicar 'o quê' 'do quê' e 'o porquê' da sessão e do julgamento. E só então a Autoridade Máxima se dignou aceitar a fala criminosa (admitida como fala criminosa, espelharia um prejulgamento ou sentença a priori...)
Concedeu a palavra à boca, esta seguida da língua para análise do pé. Realmente os pés, ambos pretos sujos usados pelo muitíssimo andar por aí. Por aí. Foi por aí.
Aí ocorreram senões. Claro, a bulir com o povo, impacientando a assistência – a ponto de o Juiz bater enfezado na mesa, tocar a sineta e finalmente gritar berrando o silêncio próprio a um julgamento decente e, sobretudo, oficial.
Calou-se não a boca não a língua, a língua da plateia ou indignada ou curiosa apenas. Amordaçada seria aqui demais. Calou-se.
Os pés – disse perguntando e ao mesmo tempo impondo a Autoridade – os pés são gêmeos, pelo visto, e...
(Não completou, a língua disparou seu tagarelar...)
Não são gêmeos, Senhor Doutor Excelência; pois não se nota que um repuxa o dedão à direita outro à esquerda!
Lógico, se eleva o Poço de Sabedoria. Quis dizer não gêmeos idênticos, univitelinos. Gêmeos, portanto os dois criminosos no crime que está sendo julgado.
Pois bem – enfatiza ainda o Alto Funcionário – são acusados de andarem por aí dia todo, sem parar sem parar sem parar, quase a assassinar o corpo! Extravasaram abusos e se infiltraram por uma urbe inteira!! e...
Protesto! bicou em defesa a boca; não foram eles a deslizar em erro e crime; porém as pernas determinaram que...
Não lhe autorizei a palavra, isto não é um mero bate-boca, não é um debate mundano; não é sequer um sinistro metido a ministro corrupto dando entrevista na televisão.
O povo burburinha aquietando e o Chefe do 'Antro' de Justiça continua (dir-se-ia um lenga-lenga pra ser aberrante e absurdo, pois solene:) enfim prossegue o comunicado.
A troco de quê!
Mais, por que praticaram os pés tanta asneira, insiste o Juiz-Mor.
 Não ocorreu assim, ó Sua Santidade. Pode agora testemunhar sobre o assunto as nádegas (pronunciou "bunda" grosseiramente). O Juiz concedeu num senão de cabeça.
Elas "pum-pum".
O público esgoelou educação 'quá-quá-quando' rebuliçoso e escancarado. A ponto de a Douta Autoridade gritar exigindo parar ao silêncio.
O silêncio.
O prosseguimento da continuação.
Andou, andou, andou, andaram os pés criminosos, a ponto gastar os paralelepípedos e o asfalto pago (enfatiza) com o dinheiro do contribuinte! Além de expor a saúde do corpo.
Protesto, esgoelaram a boca e a língua, cada qual desejando ter mais voz e mais razão sem razão de ser. O Chefão cassa-lhes a palavra e o desentendimento e segue na formalização do crime. Nesse momento pergunta meio de chofre aos pés, quase aniquilados eles por tímidos e encolhidos no seu temor:
A fim de quê!?
Calaram-se, calados.
Elas (a boca a língua mais esta que aquela, ambas falando ao mesmo tempo:) elas "a fim de levar mais cultura ao povo, doando uns livros à biblioteca pública".
O Juiz.
Ora bolas, isto configura o absurdo pois livro serve na opinião hoje da gente para fazer  embalagens de pizzas. Mais nada porque o povo não lê, vê tevê e celular e joguinhos e intriguinhas nas redes sociais. Portanto cansaço desnecessário e até criminoso.
O auditório arregala, abre mas nada fala, mudo.
Que mais alegam? completa o Mandachuva.
A língua (em disputa absurda com a boca:) a língua: desejavam encontrar também numa loja de ferragens uma verruma para um arco de pua.
Retruca o Anjo Togado. Mas isso é fora de moda – não existe mais, não se fabrica a peça a ferramentazinha, agora se usa furadeira e broca de furadeira. Buscar algo inexistente é crime ou loucura consumados.
Elas, sempre mudas, assopram alto qualquer "pum".
O público vai ao delírio, em risotas, uns gargalham outros gritam e até assobiam.
Contudo nesse instante a Autoridade exorta sem moderar sua voz; ainda mais que a boca e a língua pretendendo ainda disparar...
Basta! Fica suspensa a sessão, remarco a solenidade para o dia de São Nunca; ou enlouqueço eu; eu enlouqueceria, o que seria séria absurdidade.
São Paulo   maio  2018

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