(contolouco) – O Julgamento Absurdo
Andava
no salão enorme e solene um zum-zum significativo. Quando penetrou aquele
santuário – não qualquer dos deuses – o Juiz encanecido e estapafurdiamente
nervoso... nervoso? mostrava-se de fato neurastênico. Postou-se, carrancudo, entre
iguais desemelhantes e mequetrefes submissos fardados, estes supondo-se
suprassumo na arte de não ceder ao povo.
Sentou-se.
A Autoridade sentou-se, ajeitou gulosa e vaidosamente a toga; e toca a tocar a
sessão, o sininho calando o povaréu desguarnecido e deseducado.
À
gente a assistir embasbacada e afoita também, sobrava o absurdo de em tão
pequeno no grande espaço do salão de julgamento andar a gente parada (embora a
se remexer indômita qual tendo bicho-carpinteiro...) parada sentada se bem que
mais da metade do auditório se espremendo de pé sem cadeira – a tudo
compensando a expectativa e a curiosidade banais bastardas popularescas.
O
Deus Máximo daquela corte determinou o início dos trabalhos por um porta-voz, o
qual pôs ao corrente o público sobre que oficialmente se tratando. Em voz alta
melosa pastosa e decidida falou lendo a tremer uma lauda interminável, mais ou
menos isto abaixo, tratado aqui não ipsis
litteris.
Antes
de mais nada, tudo é o seguinte, senhores e senhoras, estando o público já
nesta altura indócil e arreliento. Isto calou um pouco o burburinho incontido
da plateia.
Ela
composta por uma estação do metrô duma megalópole; outra estação de trem
secundário e de apoio popular à gentalha; um terminal inteirinho de ônibus superlotados
a par de outros despejadas a carga humana cheia de sangue e suor; e ainda o
zé-povinho das praças e demais vias públicas (a rigor, estas verdadeiras latas
de lixo a céu aberto e a feder na vista dos narizes do mundo:) Realmente era
ali naquele solene recinto a boca e o fim do mundo!
'Blá-blá-blou' a voz oficial a comunicar 'o quê' 'do
quê' e 'o porquê' da sessão e do julgamento. E só então a Autoridade Máxima se
dignou aceitar a fala criminosa (admitida como fala criminosa, espelharia um
prejulgamento ou sentença a priori...)
Concedeu
a palavra à boca, esta seguida da língua para análise do pé. Realmente os pés,
ambos pretos sujos usados pelo muitíssimo andar por aí. Por aí. Foi por aí.
Aí
ocorreram senões. Claro, a bulir com o povo, impacientando a assistência – a
ponto de o Juiz bater enfezado na mesa, tocar a sineta e finalmente gritar
berrando o silêncio próprio a um julgamento decente e, sobretudo, oficial.
Calou-se
não a boca não a língua, a língua da plateia ou indignada ou curiosa apenas.
Amordaçada seria aqui demais. Calou-se.
Os
pés – disse perguntando e ao mesmo tempo impondo a Autoridade – os pés são
gêmeos, pelo visto, e...
(Não
completou, a língua disparou seu tagarelar...)
Não
são gêmeos, Senhor Doutor Excelência; pois não se nota que um repuxa o dedão à
direita outro à esquerda!
Lógico,
se eleva o Poço de Sabedoria. Quis dizer não gêmeos idênticos, univitelinos.
Gêmeos, portanto os dois criminosos no crime que está sendo julgado.
Pois
bem – enfatiza ainda o Alto Funcionário – são acusados de andarem por aí dia
todo, sem parar sem parar sem parar, quase a assassinar o corpo! Extravasaram
abusos e se infiltraram por uma urbe inteira!! e...
Protesto!
bicou em defesa a boca; não foram eles a deslizar em erro e crime; porém as
pernas determinaram que...
Não
lhe autorizei a palavra, isto não é um mero bate-boca, não é um debate mundano;
não é sequer um sinistro metido a ministro corrupto dando entrevista na
televisão.
O
povo burburinha aquietando e o Chefe do 'Antro' de Justiça continua (dir-se-ia
um lenga-lenga pra ser aberrante e absurdo, pois solene:) enfim prossegue o
comunicado.
A
troco de quê!
Mais,
por que praticaram os pés tanta asneira, insiste o Juiz-Mor.
Não ocorreu assim, ó Sua Santidade. Pode agora
testemunhar sobre o assunto as nádegas (pronunciou "bunda" grosseiramente).
O Juiz concedeu num senão de cabeça.
Elas
"pum-pum".
O
público esgoelou educação 'quá-quá-quando' rebuliçoso e escancarado. A ponto de
a Douta Autoridade gritar exigindo parar ao silêncio.
O
silêncio.
O
prosseguimento da continuação.
Andou,
andou, andou, andaram os pés criminosos, a ponto gastar os paralelepípedos e o
asfalto pago (enfatiza) com o dinheiro do contribuinte! Além de expor a saúde
do corpo.
Protesto,
esgoelaram a boca e a língua, cada qual desejando ter mais voz e mais razão sem
razão de ser. O Chefão cassa-lhes a palavra e o desentendimento e segue na
formalização do crime. Nesse momento pergunta meio de chofre aos pés, quase
aniquilados eles por tímidos e encolhidos no seu temor:
A
fim de quê!?
Calaram-se,
calados.
Elas
(a boca a língua mais esta que aquela, ambas falando ao mesmo tempo:) elas
"a fim de levar mais cultura ao povo, doando uns livros à biblioteca
pública".
O
Juiz.
Ora
bolas, isto configura o absurdo pois livro serve na opinião hoje da gente para
fazer embalagens de pizzas. Mais nada porque o povo não lê, vê tevê e celular e
joguinhos e intriguinhas nas redes sociais. Portanto cansaço desnecessário e
até criminoso.
O
auditório arregala, abre mas nada fala, mudo.
Que
mais alegam? completa o Mandachuva.
A
língua (em disputa absurda com a boca:) a língua: desejavam encontrar também numa
loja de ferragens uma verruma para um arco de pua.
Retruca
o Anjo Togado. Mas isso é fora de moda – não existe mais, não se fabrica a peça
a ferramentazinha, agora se usa furadeira e broca de furadeira. Buscar algo
inexistente é crime ou loucura consumados.
Elas,
sempre mudas, assopram alto qualquer "pum".
O
público vai ao delírio, em risotas, uns gargalham outros gritam e até assobiam.
Contudo
nesse instante a Autoridade exorta sem moderar sua voz; ainda mais que a boca e
a língua pretendendo ainda disparar...
Basta!
Fica suspensa a sessão, remarco a solenidade para o dia de São Nunca; ou
enlouqueço eu; eu enlouqueceria, o que seria séria absurdidade.
São Paulo maio
2018
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