Conto
Tétrico
Cai a noite avança o escuro e o escuro
no ser, o ser se achando um infeliz desprotegido mas a realidade é o lúgubre e
o escuro, escuras nuvens espaços silêncios, silêncios infindáveis para um mundo
poluído e mais poluído sonoramente. Rondam no inferno do céu aves de rapina. Não
há bem um frio, o frio é no ser, é no seu ser e então pensa ou pensa andar
pensando, para atirar longe o imaginário. Longe, perto, onde se quiser (não
quer, porém à revelia do ser brada um outro ser:) esta não 'essa', esta noite visitarei o seu cadáver (põe exclamação
a marcar o recado). Quanta bobagem a falar quem nada tendo que fazer, que tal
dormir!! isto responde ao silêncio à noite escura já avançada e de nuvens mais
escuras ainda. Ele – quer dizer o outro, a rigor outrinho insignificante, desses
que se quase não vê, mesmo com óculos lente-grossa e ainda assim encostando bem
o nariz no objeto... de fato invisível de tão pequeno e disforme, embora o
perceba qual certa minhoca sem forma todavia ativa; tanto que enfrenta a defesa
indefesa do ser maior quiçá Rei do Universo – Ele ouve a insignificante
criaturinha: Esta não essa, nesta noite estarei
no seu cadáver. Não chega ao sinal de exclamação pois a verdade não exclama e
dispensa avisos e conclusões. Ora ora redargui sem muita força e nenhuma
convicção e mesmo sem coragem o homem, homem já que sempre assim se viu. Não
tem 'ora' nem hora, pronto, irei visitar
seu cadáver. O quê! exclama perguntando o devoto de São Medo, santo milagroso.
Sim, insiste o respondãozinho na sua sem significância "estarei nele, no seu cadáver".
Melhor, agora é a vítima que se pensa vítima, ela acresce à conversa sem fruto
(sem fruto... ouvi sem fruto outra
vez Elinho) melhor realmente é dormir – relaxar acordar, acordar aos afazeres mundanos
tão úteis à sociedade. Contudo não dorme, menos que isso afrouxa relaxa um
pouco estica forçadamente o corpo. E entregar-se para que ao sono chamando o
sonho e este escancarando o pesadelo? É um pesadelo, afirma para se sentir. Entretanto
ouve nitidamente e com as todas letras o som. Esta noite sugarei seu Meu cadáver.
Ai, aí diz a reclamar a vítima: durma-se com um barulho desses; no entanto
reinava o silêncio... Em virtude dessa desvirtude a um mundo demais poluído, e
nisso escutou claramente Nesta noite
disputarei com meus colegas vermes cadavéricos
o sugar suas partes moles. Ando
surdo, diz o ser sonhador, será cera? mamãe dizia décadas atrás "menino,
tem sujeira para plantar repolho na sua orelha". Riu-se, não tendo para
quem rir. Lavo levo a baciinha limpo o ouvido e... ouviu Nesta noite chuparei e absorverei todo seu cadáver, deixo ossos duros de roer ao poço...
Xô pesadelo xô sonho xô sono, acordem-me para sentir este lugar (não será
esse?) e a fim de raciocinar e apreender um salão frio úmido escuro e cheio do
nada de pedaços de corpos humanos pútridos malcheirosos. Xô urubu de bico retorcido.
São Paulo agosto
2020
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