Continho surrealista
(e safado!)
Parecia ser impossível – ora toda hora
até o impossível vira possível; todo e qualquer texto de loucura mostra exemplos...
Parecendo impossível. Sim. Não seria e foi possível esbarrar na verdade da
mentira na Verdade; dessa forma é que esbarrou (ele, elinho, bem dito) no
pichador. Qualquer? quanto? onde? pra quê!? Puxa.
Parece ser que nem todos se deparam
com alguém sujando paredes manchando cenários se expondo desnecessariamente à
lei ora a lei. Não com ele, ele todo borrado era só tinta pincel lata e ainda ali
buzina ronco de automóvel no trânsito parado em saída na saída dos burgueses da
cidade grande, megalópole, a fugir à praia no litoral e/ou ao interior, para
não morrer de tédio na quarentena eterna sem amém. Ele, Ele se defronta ali com
a indignação de Elinho. Por quê? por andar o palpiteirinho a corrigir um texto,
texto depravado por um erro; errinho de
nada mas grandalhão, por ferir a língua. A dele? e a delinho menininho e
criança não é uma gracinha? Não. Sim a língua que todos (quase) falam (errado:)
agora errado mesmo por um errozinho assinzinho de pequeno e por desnecessário,
de ortografia... Era para grafar com X de Xisto pichara com ch do chapéu,
ninguém mais usa chapéu e... ué, nem como acentuação! Esse caretinha aí, aqui a
meu lado de olho comprido no grude que fiz na parede no muro na entrada, não
entrada e sim saída como avenida onde passam os loucos a fugir da pandemia é
claro e principalmente do escuro da loucura desta megalópole. Que faço então!?
Olhe aqui, garoto – quer parar de
chocar o que deveria haver escrito nesta parede imunda (lembra algo mais feio)
ter enfim posto numa palavra devendo ser ch um xis, aí o xis da questão... vai
que, ia pois no momento errado errei ou me enganei, engano se for de gente da
gente, porque aos outros a dureza da lei – olhe aqui, fica terminantemente
proibido me fiscalizar neste local imundo do mundo imundo (nisto não lembra
imundície). Errei, pronto, não se fala mais nisso e suma agora mesmo ou... eu
sei o que fazer com moleque a cozinhar um artista, quer dizer me tratam sujador
da beleza pública outros me epitetam mero pichador e nisto é sim com ch e não
entra o xis da questão.
Olhei. Olhei alheio nem a orelha do
pirralho: sumiu.
Era um urubu pouco mais que nenê,
pássaro de pescoço pelado penas pretas; decerto farejando almoço e está de fato
cheirando carniça por estes lados. Dizem que onde urubu a voar, podridão!
Sou urubuzinho... Que horror aquele
cara se supondo artista de rua no entanto sujando de tinta a rua, simples pichador,
desses tipos grudados às paredes lá no alto a rabiscar enfear edifícios. No meu
meio no meio de meu grupo não há disso, ou seja tais desservicos que... não
importa, importa meus pares. Aqui, lá, reunidos desunidos. Nós crianças não temos
vez, os grandes, até mamãe já me passou a perna fugindo ao instinto maternal.
Os demais então e sobretudo os machos, me tocam. Serão capazes de tirar do bico
de menino uma vianda bem temperada pelo tempo, isto é condizentemente no limiar
da podridão. Sobra a sobra que nunca sobra na sobra ou ir procurar uma criança
igual a gente porém doutra espécie... como aquele gatinho enroscado já cadáver
num vão do prédio a espera vivo do bombeiro desengastalhar. Cheirava bem, mal
ficara o pichador imaginando-me a olhar seu erro de português. Olhava, não abro
mão de meu direito em ver algo. Por exemplo o sujeito pôs 'x' de Xisto no lugar
de 'ch' do chapéu; na verdade ninguém mais usa chapéu nem gravata nem anda
pendurado no estribo do bonde, não tem mais bonde apenas carros – uns loucos a
fugir desta loucura de cidade é claro. Pois Ele embirrou pro meu lado. Todavia,
a voar longe, ainda o vi raspando o X na parede e tentaria certamente pôr
espremido ch, sem caber no espaço porque duas letras; o que lembrei ao sujador
e perguntara sobre o chapéu, nem servindo para acento!? Ficou feroz. Sumi.
Estou no meu povo. Comemos (eles
comem, eu... não me sobra sobra) jantamos almoçamos lanchamos um boi, antes
touro e no acougue vira carne de vaca. Se fosse bezerrinho talvez ganhasse um
naco. Não deixam aproximar-me. Chegaram os meus, sempre dedurada a vítima por
um de nossos olheiros. Aterrissamos. O mais valente ou mais faminto logo bicando
os olhos do defunto, a eliminar fiscalização e medo. Aí entramos direto na festa;
isto é, eu fui barrado. Então que voei subi desci das nuvens sentindo o gato.
Gato é um felino que só sabe dormir. Gatos cruzam-se a miúdo entre si, os
próximos, como pai com filha filho com mãe e assim morrem fracos com frequência
antes de crescerem ou por entalados a feder na fenda da parede do pichador.
Acho que o camarada sujo de tintas imitando palhaço andava nervoso por ruim do
fígado ou nem mais tendo fígado pois dizem beberem muito esses 'artistas' e assim
apodrece o órgão, daí o neurotismo desse comigo. Ah é isso mesmo, o cheiro do
gatinho sentido na área me atraiu mas também o artesão (o qual reclamou haver
descido do 19º andar, lembrando a pixotada no erro da palavra no texto lá
embaixo e, nisso, não poderia haver despencado de lá de cima igual outros pichadores!)
esse artesão fez igual os adultos de minha espécie: me enxotou quando curioso
notara o erro de ortografia dele.
Agora a hora da fome. os mais ansiosos
ou mais famintos ou mais apressados, vão aos pulinhos e estraçalham a vítima,
deixam no fim tão só a caveira do bicho. Nem os vermes cadavéricos querem osso:
osso ao poço.
Levanto voo, plano, ah tenho um plano:
que tal um cheiro atraente que sinto vindo daquela casa pobre de gente pobre.
Vai que, ia que, pensei, encontre o filhote dum animal grande que os grandes
entre os nossos tenham comido e não chegaram ver o menininho filhote do bicho
adulto – prato cheio ao meu estômago. Isso não vejo, vejo o homem. Magro mediano
no tamanho e na idade entretanto creio burro ou louco pois escreve, escrevera
não sei o quê; fez a seguir bolota, desinteressante a um filhote o bilhete,
atirou a coisa no lixo. Agora vasculha o lixo põe a lata de plástico de boca
pra baixo, espalha tudo – um carnaval! – e daí grita rouco ou louco eureca!
achei. Desenrola a bolota com anotações e repete entusiasmado: achei o erro.
Estica o papelinho que antes embolara e constata o deslize na língua. Que
horror comenta o solitário aos seus botões. A seguir corrige se corrigindo com
esferográfica vermelha. É quando coloca X no lugar do grupo ch posto errado
numa palavra, em não ferir a ortografia e a língua pura. Imediato repõe o lixo
no lixo, já tem um xereta ali, um vira-lata cheirando se tem cheiro não tem,
tem fedor de lixo, de pouco interesse a um menino-urubu. Enrola de novo o papel
de lembrete como bolota e o atira bolotado no lixo...
Voo, subo desalentado com um fim sem
fim. Próprio dos loucos da megalópole, embora na periferia dessa loucura. O
indivíduo sequer me vê, vê o cachorro o qual dispara numa ladração infernal;
quem aguentaria isso no solo a procurar carniça... São
Paulo outubro 2020
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