quarta-feira, 14 de outubro de 2020

Continho Surrealista (e safado!)

 

Continho surrealista (e safado!)

 

          Parecia ser impossível – ora toda hora até o impossível vira possível; todo e qualquer texto de loucura mostra exemplos... Parecendo impossível. Sim. Não seria e foi possível esbarrar na verdade da mentira na Verdade; dessa forma é que esbarrou (ele, elinho, bem dito) no pichador. Qualquer? quanto? onde? pra quê!? Puxa.

          Parece ser que nem todos se deparam com alguém sujando paredes manchando cenários se expondo desnecessariamente à lei ora a lei. Não com ele, ele todo borrado era só tinta pincel lata e ainda ali buzina ronco de automóvel no trânsito parado em saída na saída dos burgueses da cidade grande, megalópole, a fugir à praia no litoral e/ou ao interior, para não morrer de tédio na quarentena eterna sem amém. Ele, Ele se defronta ali com a indignação de Elinho. Por quê? por andar o palpiteirinho a corrigir um texto, texto depravado por um erro;  errinho de nada mas grandalhão, por ferir a língua. A dele? e a delinho menininho e criança não é uma gracinha? Não. Sim a língua que todos (quase) falam (errado:) agora errado mesmo por um errozinho assinzinho de pequeno e por desnecessário, de ortografia... Era para grafar com X de Xisto pichara com ch do chapéu, ninguém mais usa chapéu e... ué, nem como acentuação! Esse caretinha aí, aqui a meu lado de olho comprido no grude que fiz na parede no muro na entrada, não entrada e sim saída como avenida onde passam os loucos a fugir da pandemia é claro e principalmente do escuro da loucura desta megalópole. Que faço então!?

          Olhe aqui, garoto – quer parar de chocar o que deveria haver escrito nesta parede imunda (lembra algo mais feio) ter enfim posto numa palavra devendo ser ch um xis, aí o xis da questão... vai que, ia pois no momento errado errei ou me enganei, engano se for de gente da gente, porque aos outros a dureza da lei – olhe aqui, fica terminantemente proibido me fiscalizar neste local imundo do mundo imundo (nisto não lembra imundície). Errei, pronto, não se fala mais nisso e suma agora mesmo ou... eu sei o que fazer com moleque a cozinhar um artista, quer dizer me tratam sujador da beleza pública outros me epitetam mero pichador e nisto é sim com ch e não entra o xis da questão.

          Olhei. Olhei alheio nem a orelha do pirralho: sumiu.

          Era um urubu pouco mais que nenê, pássaro de pescoço pelado penas pretas; decerto farejando almoço e está de fato cheirando carniça por estes lados. Dizem que onde urubu a voar, podridão!

          Sou urubuzinho... Que horror aquele cara se supondo artista de rua no entanto sujando de tinta a rua, simples pichador, desses tipos grudados às paredes lá no alto a rabiscar enfear edifícios. No meu meio no meio de meu grupo não há disso, ou seja tais desservicos que... não importa, importa meus pares. Aqui, lá, reunidos desunidos. Nós crianças não temos vez, os grandes, até mamãe já me passou a perna fugindo ao instinto maternal. Os demais então e sobretudo os machos, me tocam. Serão capazes de tirar do bico de menino uma vianda bem temperada pelo tempo, isto é condizentemente no limiar da podridão. Sobra a sobra que nunca sobra na sobra ou ir procurar uma criança igual a gente porém doutra espécie... como aquele gatinho enroscado já cadáver num vão do prédio a espera vivo do bombeiro desengastalhar. Cheirava bem, mal ficara o pichador imaginando-me a olhar seu erro de português. Olhava, não abro mão de meu direito em ver algo. Por exemplo o sujeito pôs 'x' de Xisto no lugar de 'ch' do chapéu; na verdade ninguém mais usa chapéu nem gravata nem anda pendurado no estribo do bonde, não tem mais bonde apenas carros – uns loucos a fugir desta loucura de cidade é claro. Pois Ele embirrou pro meu lado. Todavia, a voar longe, ainda o vi raspando o X na parede e tentaria certamente pôr espremido ch, sem caber no espaço porque duas letras; o que lembrei ao sujador e perguntara sobre o chapéu, nem servindo para acento!? Ficou feroz. Sumi.

          Estou no meu povo. Comemos (eles comem, eu... não me sobra sobra) jantamos almoçamos lanchamos um boi, antes touro e no acougue vira carne de vaca. Se fosse bezerrinho talvez ganhasse um naco. Não deixam aproximar-me. Chegaram os meus, sempre dedurada a vítima por um de nossos olheiros. Aterrissamos. O mais valente ou mais faminto logo bicando os olhos do defunto, a eliminar fiscalização e medo. Aí entramos direto na festa; isto é, eu fui barrado. Então que voei subi desci das nuvens sentindo o gato. Gato é um felino que só sabe dormir. Gatos cruzam-se a miúdo entre si, os próximos, como pai com filha filho com mãe e assim morrem fracos com frequência antes de crescerem ou por entalados a feder na fenda da parede do pichador. Acho que o camarada sujo de tintas imitando palhaço andava nervoso por ruim do fígado ou nem mais tendo fígado pois dizem beberem muito esses 'artistas' e assim apodrece o órgão, daí o neurotismo desse comigo. Ah é isso mesmo, o cheiro do gatinho sentido na área me atraiu mas também o artesão (o qual reclamou haver descido do 19º andar, lembrando a pixotada no erro da palavra no texto lá embaixo e, nisso, não poderia haver despencado de lá de cima igual outros pichadores!) esse artesão fez igual os adultos de minha espécie: me enxotou quando curioso notara o erro de ortografia dele.

          Agora a hora da fome. os mais ansiosos ou mais famintos ou mais apressados, vão aos pulinhos e estraçalham a vítima, deixam no fim tão só a caveira do bicho. Nem os vermes cadavéricos querem osso: osso ao poço.

          Levanto voo, plano, ah tenho um plano: que tal um cheiro atraente que sinto vindo daquela casa pobre de gente pobre. Vai que, ia que, pensei, encontre o filhote dum animal grande que os grandes entre os nossos tenham comido e não chegaram ver o menininho filhote do bicho adulto – prato cheio ao meu estômago. Isso não vejo, vejo o homem. Magro mediano no tamanho e na idade entretanto creio burro ou louco pois escreve, escrevera não sei o quê; fez a seguir bolota, desinteressante a um filhote o bilhete, atirou a coisa no lixo. Agora vasculha o lixo põe a lata de plástico de boca pra baixo, espalha tudo – um carnaval! – e daí grita rouco ou louco eureca! achei. Desenrola a bolota com anotações e repete entusiasmado: achei o erro. Estica o papelinho que antes embolara e constata o deslize na língua. Que horror comenta o solitário aos seus botões. A seguir corrige se corrigindo com esferográfica vermelha. É quando coloca X no lugar do grupo ch posto errado numa palavra, em não ferir a ortografia e a língua pura. Imediato repõe o lixo no lixo, já tem um xereta ali, um vira-lata cheirando se tem cheiro não tem, tem fedor de lixo, de pouco interesse a um menino-urubu. Enrola de novo o papel de lembrete como bolota e o atira bolotado no lixo...

          Voo, subo desalentado com um fim sem fim. Próprio dos loucos da megalópole, embora na periferia dessa loucura. O indivíduo sequer me vê, vê o cachorro o qual dispara numa ladração infernal; quem aguentaria isso no solo a procurar carniça... São Paulo   outubro 2020  

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