segunda-feira, 14 de agosto de 2017

  
 (contolouco)Estória de era uma vez: o Homem sem boca

Era uma vez, diz ela, ela disse milhares de vezes assim, era um sujeito que não tinha boca... Quer isso dizer que não nascera, nascera claro que sim não teria nascido com boca – lábios de beijar buraco de se ver dentões pobres podres e falhos e faltos e... chega. Teve boca até aí por uns trinta quarenta anos mas depois se cansou do cansaço de falar; porque nessa altura já falando muita bobagem (e isto descobriu de tanto descobrir não levarem a sério o que dizia ao mundo). Era uma vez ele estafado, estufado também visto além de falar comer demais. Enfim a coisa o levou a pensar analisar pesar descobrir a coisa. A coisa: falava e falara muitíssimo. Sim, tem muita gente tagarela, no entanto não tão falante em asneiras. Essa a grande descoberta! A descoberta o encaminhou riscar da gente que ele representava os pensamentos expostos até aí e ai! parou de uma vez nesta estória de era uma vez; parou de falar. O que não era um grande drama ao Universo somente ao seu universo. Passou... bem passou apenas a escutar, mesmo porque ninguém afirma até aqui não tivesse orelha, orelhas, era só sem boca com boca fechada e nisto se intromete o pegador de roupas, o prendedor dizem alguns, o de peças a gotejar no varal (xô ladrão de galinhas!) O indivíduo botou  segurando os lábios então sem função o tal prendedor – no que resultando algo esdrúxulo e imensamente ridículo, sobremaneira ao andar por aí nas compras no trabalho e no trabalho de pagar as contas, atividade detestada pela população. Evidente haver curiosos e os curiosos a indagar o quê o porquê e outros quês irrepondíveis 'irrespondidos' – não tinha mais boca; falava por sinais e todos entendiam, ninguém de fato a entender. Contudo havendo orelha. Para ouvir bastante. Bastante ouviria daí em frente, inclusive mais que o normal ou o comum das coisas. Isto porque já esdrúxulo à beça sem boca com duas orelhas, acresceu mais umas duas ou três dessa feiura exemplar; exemplar porque não tem parte do corpo humano mais feia que orelha, as dele horripilantes com uns ganchos na extremidade, naturais ou mal postos pela natureza no bebê quando ainda nenê, o que não impedia escutar porém enroscavam na fronha do travesseiro. Em suma, botou duas ou três, uma na testa outra no queixo – a fim de ouvir bem mais, a compensar supressão da boca (ou seria melhor haver cortado tão só a língua, mas burro e caso burro não dito, dito agora). No final das contas, idoso e a vagar devagar por aí no centro comercial. Fora pagar contas, burro todavia bom cidadão, e aí se enroscou... Era uma vez um homem sem boca sim, não sem orelha e nisto exagerando a exibir um punhado de feiuras, parecendo um veado-galheiro, diziam passantes apressados daquela coisa a entrar na lotérica da sorte com o azar ter pagar contas. A moça, casada e com cinco filhos para tratar e sem companheiro o companheiro dera no pé mas isto sem importância; a moça arrregalou olhos àquilo no guichê, chamou o segurança, o segurança temeu tremeu, chamou a polícia, a polícia abriu a porta (antes brincou de burocracia preencheu fichas indagou muito sem resposta) fechou a porta a ranger, pisou no pé, deu-lhe pontapé, às gargalhadas dos albergados do Estado no estado em que ainda se encontra, eles que não se encontravam de vez em era uma vez.

Itapecerica da Serra   agosto  2017

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