(contolouco)Estória de era uma vez: o Homem sem boca
Era uma vez,
diz ela, ela disse milhares de vezes assim, era um sujeito que não tinha
boca... Quer isso dizer que não nascera, nascera claro que sim não teria
nascido com boca – lábios de beijar buraco de se ver dentões pobres podres e falhos
e faltos e... chega. Teve boca até aí por uns trinta quarenta anos mas depois
se cansou do cansaço de falar; porque nessa altura já falando muita bobagem (e
isto descobriu de tanto descobrir não levarem a sério o que dizia ao mundo).
Era uma vez ele estafado, estufado também visto além de falar comer demais.
Enfim a coisa o levou a pensar analisar pesar descobrir a coisa. A coisa:
falava e falara muitíssimo. Sim, tem muita gente tagarela, no entanto não tão
falante em asneiras. Essa a grande descoberta! A descoberta o encaminhou riscar
da gente que ele representava os pensamentos expostos até aí e ai! parou de uma
vez nesta estória de era uma vez; parou de falar. O que não era um grande drama
ao Universo somente ao seu universo. Passou... bem passou apenas a escutar, mesmo
porque ninguém afirma até aqui não tivesse orelha, orelhas, era só sem boca com
boca fechada e nisto se intromete o pegador de roupas, o prendedor dizem
alguns, o de peças a gotejar no varal (xô ladrão de galinhas!) O indivíduo
botou segurando os lábios então sem
função o tal prendedor – no que resultando algo esdrúxulo e imensamente
ridículo, sobremaneira ao andar por aí nas compras no trabalho e no trabalho de
pagar as contas, atividade detestada pela população. Evidente haver curiosos e
os curiosos a indagar o quê o porquê e outros quês irrepondíveis 'irrespondidos'
– não tinha mais boca; falava por sinais e todos entendiam, ninguém de fato a entender.
Contudo havendo orelha. Para ouvir bastante. Bastante ouviria daí em frente,
inclusive mais que o normal ou o comum das coisas. Isto porque já esdrúxulo à
beça sem boca com duas orelhas, acresceu mais umas duas ou três dessa feiura
exemplar; exemplar porque não tem parte do corpo humano mais feia que orelha,
as dele horripilantes com uns ganchos na extremidade, naturais ou mal postos
pela natureza no bebê quando ainda nenê, o que não impedia escutar porém enroscavam
na fronha do travesseiro. Em suma, botou duas ou três, uma na testa outra no
queixo – a fim de ouvir bem mais, a compensar supressão da boca (ou seria
melhor haver cortado tão só a língua, mas burro e caso burro não dito, dito agora).
No final das contas, idoso e a vagar devagar por aí no centro comercial. Fora
pagar contas, burro todavia bom cidadão, e aí se enroscou... Era uma vez um
homem sem boca sim, não sem orelha e nisto exagerando a exibir um punhado de
feiuras, parecendo um veado-galheiro, diziam passantes apressados daquela coisa
a entrar na lotérica da sorte com o azar ter pagar contas. A moça, casada e com
cinco filhos para tratar e sem companheiro o companheiro dera no pé mas isto
sem importância; a moça arrregalou olhos àquilo no guichê, chamou o segurança,
o segurança temeu tremeu, chamou a polícia, a polícia abriu a porta (antes
brincou de burocracia preencheu fichas indagou muito sem resposta) fechou a
porta a ranger, pisou no pé, deu-lhe pontapé, às gargalhadas dos albergados do
Estado no estado em que ainda se encontra, eles que não se encontravam de vez
em era uma vez.
Itapecerica da Serra agosto
2017
Nenhum comentário :
Postar um comentário