(conto) – Meros desencontros no
encontro
Deu-se
no mundo do faz de conta um encontro e nele um entrevero conjugal entre, é
lógico, ele e ela, ela dizendo ser culpa dele ele dizendo ela a culpada. Ele? o
ano-luz; ela? a hora. Mas não se entendiam de jeito nenhum e não se entenderam
nunca sobre a questão do tempo; em acalorada discussão, dessa de chamar atenção
de vizinhos e provocar primeiro preocupação nos filhos vendo a tragédia que é uma
briga de casal, maismente papai-mamãe. Discussão feia. Ela tomada da incerteza
de que ela e todas horas sendo a soma dos minutos (estes já grandinhos filhos;
também discutindo ou entrando na indignação os segundos, segundo más fontes
netos do casal). Ele a balançar, já rouco na discussão (leia-se agressão) a balançar
a cabeça pra lá e milênios depois pra cá num não tem jeito. Decerto nem o certo
por mais errado concordando, somente concordando no apartar das partes. Mesmo
porque é horroroso assistir desentendimento conjugal (dos outros, o da gente a
gente sequer percebe e não vê). Os vizinhos satisfeitos pela distração de graça,
pois aquela no shopping center custa
o olho da cara de cara. E torcendo (pra acabar tudinho? capaz, pra terem o de
que falar lá no escritório na hora do almoço e entremeio o cafezinho longe do
chefe, aquele...) Chegaram ao cúmulo de apagarem suas respectivas luzes, as
luzes de cada apartamento naquela espécie de colmeia gigante que são os atuais
edifícios ou torres – apenas para verem melhor. O que viram? o que ouviram?
bem... A voz fina materna maternal feminil dela, ela arrebenta no grito
endereçado ao seu macho, dona hora a afirmar ter a troco de quê! dado à luz os minutos
e ele: "mentira deslavada" (sempre num ferir usando tal expressão) elinhos
é que lhe deram à luz. Quem fez a hora foram os sessenta minutos e antes deles
houve os sessenta netos que temos, os quais deram à luz aos que... A hora
sem-hora a senhora, a senhora perde as estribeiras e antes de precisar gritar mais
altão pros lados dele, o que demoraria mil anos com ou sem luz, antes chora,
arma mui mortal anos a fio no mundo e no mundo do faz de conta. Esgotado o
arsenal de argumentos e no cruzar de 'argumentos' de ambos contendores, ela, a
hora, lança um que seria final e a arrasar situação e oposição. Esbraveja a acusação
principal dela sobre ele "você fica a paquerar as estrelas, por conta e
sugestão desse verme presunçoso que é o homem". Debalde. Ele já longe um
ano-luz, nem dando pra ver...
São Paulo abril 2018
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