segunda-feira, 23 de abril de 2018


(conto)Meros desencontros no encontro

Deu-se no mundo do faz de conta um encontro e nele um entrevero conjugal entre, é lógico, ele e ela, ela dizendo ser culpa dele ele dizendo ela a culpada. Ele? o ano-luz; ela? a hora. Mas não se entendiam de jeito nenhum e não se entenderam nunca sobre a questão do tempo; em acalorada discussão, dessa de chamar atenção de vizinhos e provocar primeiro preocupação nos filhos vendo a tragédia que é uma briga de casal, maismente papai-mamãe. Discussão feia. Ela tomada da incerteza de que ela e todas horas sendo a soma dos minutos (estes já grandinhos filhos; também discutindo ou entrando na indignação os segundos, segundo más fontes netos do casal). Ele a balançar, já rouco na discussão (leia-se agressão) a balançar a cabeça pra lá e milênios depois pra cá num não tem jeito. Decerto nem o certo por mais errado concordando, somente concordando no apartar das partes. Mesmo porque é horroroso assistir desentendimento conjugal (dos outros, o da gente a gente sequer percebe e não vê). Os vizinhos satisfeitos pela distração de graça, pois aquela no shopping center custa o olho da cara de cara. E torcendo (pra acabar tudinho? capaz, pra terem o de que falar lá no escritório na hora do almoço e entremeio o cafezinho longe do chefe, aquele...) Chegaram ao cúmulo de apagarem suas respectivas luzes, as luzes de cada apartamento naquela espécie de colmeia gigante que são os atuais edifícios ou torres – apenas para verem melhor. O que viram? o que ouviram? bem... A voz fina materna maternal feminil dela, ela arrebenta no grito endereçado ao seu macho, dona hora a afirmar ter a troco de quê! dado à luz os minutos e ele: "mentira deslavada" (sempre num ferir usando tal expressão) elinhos é que lhe deram à luz. Quem fez a hora foram os sessenta minutos e antes deles houve os sessenta netos que temos, os quais deram à luz aos que... A hora sem-hora a senhora, a senhora perde as estribeiras e antes de precisar gritar mais altão pros lados dele, o que demoraria mil anos com ou sem luz, antes chora, arma mui mortal anos a fio no mundo e no mundo do faz de conta. Esgotado o arsenal de argumentos e no cruzar de 'argumentos' de ambos contendores, ela, a hora, lança um que seria final e a arrasar situação e oposição. Esbraveja a acusação principal dela sobre ele "você fica a paquerar as estrelas, por conta e sugestão desse verme presunçoso que é o homem". Debalde. Ele já longe um ano-luz, nem dando pra ver...
São Paulo   abril 2018

         



             

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