(conto) Elas e Eles, eles não:
ele
A
comadre da comadre Rita em vindita acredita e grita essa dita por liberdade na
casa e conviver com ela, ela Rita, e assim elas numa tagarelice bastante mas
nunca bastante pois que não param não sabem parar quando começam a conversar;
sim bastante, dá no bate-papo esquentado um basta Jeromão naquele vozeirão de
homem grandão – mas alarme falso! – Jerônimo apenas chega não interfere, interfere
sim por sua presença porém não fala nada dirigindo-se às mulheres vizinhas ali num
barulho de assustar o mundo. Chega descansa a enxada cansada coitada da enxada
pelo trabalho, agora tardezinha à boca da noite já, já o galo a cantar alertar
suas mulheres irem ao poleiro, nada mais que galhos forquilhas da mamoneira e,
portanto, não deu nelas propriamente um basta, bastando de fato sua aparição diante
da discussão sem tamanho ou ao menos barulhenta das vozes finas; tanto assim
que os meninos andavam assustados porque as crianças não sabem o que fazer
abusando os adultos a dar mau exemplo; as vizinhas na cozinha cheiinha delas
(quer dizer, meia dúzia mas a cozinha apertada, pisada por chão de terra batida
e espaço em área mínima). E aqui dá para enumerar as comadres ali a se
esfalfarem de tanto falar, todo mundo querendo ter razão sem razão dado o
assunto, o Peri. O Peri de novo! o Peri de novo a comer ovos no ninho e
daí estando no quintal, isto é no mato
em volta da casa da comadre Geni, que veio a reclamar, tirar satisfação com a
dona do cachorro. Pois o cachorro come ovos assusta as criações e lá vem a
gritaria das penosas, irrita outros cães donos do pedaço, a Geni tendo bem uns
três vira-latas, na roça não havendo lata porque não tem lixeiro como na Vila.
Contudo dá um quiprocó. Entra na conversa as duas outras, duas ou três, a enumerar:
Tereza, Chica e Bastiana – todinhas cumádis da Cumádi Rita do Cumpádi Jeromão
ali chegado... Então, elas dando mau exemplo aos pequenos, têm uns grandinhos
inclusive trabalhando com o pai na enxada e os menores também, naquele negócio
a dar recado, os meninos imbatíveis nisso, se bem que mal ocorre também darem recado
errado, errando a pensar suas brincadeiras. Ah mas por que motivo elas a se
desgastar... Não. Não se desgastaram demais as comadres no entrevero delas na
cozinha de Rita, após só ficando meio emburradas enfunadas zangadas enfim mas...
ah houveram por bem naquele dia mesmo e no dia imediato reatamento e tudo já
nas boas entre as boas senhoras e boas mães e boas esposas, apenas uma tida
realmente por 'boa' (linguajar macho pra valer) enfim relação de amizade sólida
de anos de convivência e vizinhança e de compadrio (ou comadrio!?) dando o
barulho tudo em nada, a desvirar depois chegando naquela hora crítica o marido
de Rita. Mais ainda noutro dia, chegando aquele pãozinho gostoso de casa, oh
mas assim mesmo o roceiro adora o treque no mastigar o pão de padeiro feito na cidade
e vindo da Vila. Sobre o pão, o hábito exige de cada uma das casas numa colônia
que, feito a assadura desse alimento, se ofereça um aos vizinhos, com recíproca
esperada e verdadeira; assim sempre tendo o confeito pois alguém há de haver
usado seu forno com as unidades e também o que os meninos chamam
"pombinhas" que são bolotazinhas da mesma massa às crianças. E não é
que retomaram a tagarelice mansa costumeira! Na discussão e naquela hora uma entre
elas alerta: "Cumádi dona Rita" chega de papo porque tava já
esquentando fervendo quem sabe onde nóis ia pará... e afinal a senhora precisa
atender o Cumpádi Jerómo que chegou... Jerómo guarda os instrumentos de ganhar
o pão, aqui em linguagem figurada, pensa não no pão pensa no peixe e não é que
o cumpádi Dito prometeu peixe aqui, lá no rio o pobre não pegará sequer
lambarizinho, o que nem dá para sua penca comer, que dirá dar como oferta aqui
em casa; eh Peri! some daqui, pulguento, vai namonar as linguiças dependuradas
lá no quartinho. Oh, e lá cheirando vianda e fumo e outros secos & molhados
na reserva (isso em tempo de vacas gordas, agora estamos no das magras, os preços
não ajudam). E assim descalça o sapatão fedido o chulé se espalhando desde o
botinão de elástico, depõe no chão nem engancha mesmo o chapelão, ao solão, e o
sol já se pôs, se põe ele a seguir tomar banho – o que um exagero porque o
matuto aprecia tomar banho só nos sábados... banho diário... banho? nada disso,
lavar 'pé cara e mão', não apenas pra ingerir a janta, a boia, igual os
intalianu da olaria dizem, "bóia".
São Paulo setembro
2018
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