terça-feira, 18 de setembro de 2018


(contolouco) O Vermezinho e o Tempo

Cheguei-me àquela coisa, coisinha pra ser mais preciso; uma que se espremia esgueirava assoprava engolia estufava e quase sumia outra vez – prontifiquei-me a analisá-la; ou que fosse tão somente para vê-la. De perto. De longe em longe o sol o céu o todo se mostrando ou se esgueirando e sumindo tal qualinho ali.
Não foi nada fácil a empreitada, visto o tamanhinho dele (dela!) e doutro lado a imensidão do tempo. Por fim, num instante em que o ser se exteriorizando a decerto tomar ar respirar para ter força a embrenhar-se de novo no se embrenhar; nesse instante, fugaz embora, consegui ouvi-lo e piormente entendê-lo, ou não... Por que pior? ora, o melhor na melhor seria o absurdo e ninguém vivo creria.
O diálogo, se tanto, ou dialoguinho.
Olá. Olá respondeu também a custo.
Você anda comendo barbaridade... reticenciei espicaçando o curioso.
Não ando me espremo me empurro deslizo... ah sim, vá-se poder com a pobre linguagem humana. Ando e me sacio e me saio bem, o prato é saboroso.
Carne, creio, proteínas à beça.
Vianda das mais puras por estar já em decomposição. Xô urubus! (Voaram temerosos e retomei a atenção:)
Ouça-me, o que recorda de quando era pequenininho?
Puxa, tinha a mamadeira e logo mamãe me pegava no pé e... de fato, não tenho pés e apesar disso dia e noite me pegava me cobrava gritando ao mesmo tempo com milhares de meus irmãos, concorrentes ao prato cheio. Que não fizesse isso e aquilo, mastigasse trinta e três vazes antes de engolir e... e vai, ia, por aí. Mais falava ainda, não sugue carne contaminada com agrotóxicos, por tabela a vaca come o veneno e envenena morta. Um dia, explicava a mãe, um chegará a comer gente e iniciará por criancinha, uma gracinha. Treinávamos todos vermes cadavéricos.
E quando crescer como deseja ser o seu ser?
Grande, quero experimentar gente pura honesta justa santa – um político igual o mundo vê o político. Já na época ela alertando incerta a morte certa: congestão envenenamento susto...
Susto!
Ora bolas, nunca viu alguém morrer de susto ou assassinado pela tapeação? Contudo a coisa (afirma a coisinha) a coisa levará tempo. Quem sabe se não precisarei em virtude disso transferir-me a outro cemitério.
Tempo! que é o tempo a você.
Tempo um viver da consciência de viver, depois comer comer deglutir tudo e nada sobrar sobrando ainda vida.
Longo?
Longo como a eternidade.
Isso mais de um dia? arrisquei.
Sim, mais outro dia no qual necessário deslizar por aí em procura de carne apodrecida ou a apodrecer. É o tempo.
Não! falei peremptório para exibir erudição quiçá sabedoria. Daí ajuntei qual estivesse no parlamento a discutir ou no púlpito a doutrinar.
Saiba que o tempo vai além de um dia, além do amanhecer ao entardecer e anoitecer à 'tranquilidade' da gente. Vai além.
Um dia são vinte e quatro horas. As horas assim assinaladas e somadas dão a semana o mês o ano, início talvez da eternidade.
!!!
(Continuei a massacração:)
Esse o tempo em ração módica a medir a distância; não é apenas entrar sugar sair dum pedaço de carne, mesmo sendo de gente vaidosamente pura vaidosamente honesta vaidosamente justa vaidosamente santa, dum político de escol por exemplo – o político que discursa promete é eleito e vira chefe de Estado e antes de virar matéria alimentícia de enorme grandeza à sua ingestão, antes de virar, vira ladrão consumado com processos a caducar na justiça humana.
O tempo vai mais longe, insisti.
O tempo é de tal forma grande que os homens o medem em ano-luz ou seja à velocidade de trezentos mil quilômetros por segundo durante um ano. Se vocêzinho piscar o olho já um segundo. Caso quisesse ver a Terra após o piscado estando na outra extremidade do piscar – sequer veria este nosso planeta nem o Sol muitas vezes maior que a Terra. E note bem, se desejasse então avaliar a Eternidade, supondo haver entendendido todo o Cosmo... daí vocêzinho teria que... está me ouvindo?
Sumira e tornara a emergir mastigando saciando uma fome maior que a eternidade. Nem me ouvira decerto.
São Paulo   setembro  2018

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