(contolouco) O Vermezinho e o Tempo
Cheguei-me
àquela coisa, coisinha pra ser mais preciso; uma que se espremia esgueirava
assoprava engolia estufava e quase sumia outra vez – prontifiquei-me a
analisá-la; ou que fosse tão somente para vê-la. De perto. De longe em longe o
sol o céu o todo se mostrando ou se esgueirando e sumindo tal qualinho ali.
Não
foi nada fácil a empreitada, visto o tamanhinho dele (dela!) e doutro lado a
imensidão do tempo. Por fim, num instante em que o ser se exteriorizando a
decerto tomar ar respirar para ter força a embrenhar-se de novo no se
embrenhar; nesse instante, fugaz embora, consegui ouvi-lo e piormente entendê-lo,
ou não... Por que pior? ora, o melhor na melhor seria o absurdo e ninguém vivo
creria.
O
diálogo, se tanto, ou dialoguinho.
Olá.
Olá respondeu também a custo.
Você
anda comendo barbaridade... reticenciei espicaçando o curioso.
Não
ando me espremo me empurro deslizo... ah sim, vá-se poder com a pobre linguagem
humana. Ando e me sacio e me saio bem, o prato é saboroso.
Carne,
creio, proteínas à beça.
Vianda
das mais puras por estar já em decomposição. Xô urubus! (Voaram temerosos e
retomei a atenção:)
Ouça-me,
o que recorda de quando era pequenininho?
Puxa,
tinha a mamadeira e logo mamãe me pegava no pé e... de fato, não tenho pés e
apesar disso dia e noite me pegava me cobrava gritando ao mesmo tempo com milhares
de meus irmãos, concorrentes ao prato cheio. Que não fizesse isso e aquilo,
mastigasse trinta e três vazes antes de engolir e... e vai, ia, por aí. Mais falava
ainda, não sugue carne contaminada com agrotóxicos, por tabela a vaca come o
veneno e envenena morta. Um dia, explicava a mãe, um chegará a comer gente e
iniciará por criancinha, uma gracinha. Treinávamos todos vermes cadavéricos.
E
quando crescer como deseja ser o seu ser?
Grande,
quero experimentar gente pura honesta justa santa – um político igual o mundo
vê o político. Já na época ela alertando incerta a morte certa: congestão
envenenamento susto...
Susto!
Ora
bolas, nunca viu alguém morrer de susto ou assassinado pela tapeação? Contudo a
coisa (afirma a coisinha) a coisa levará tempo. Quem sabe se não precisarei em
virtude disso transferir-me a outro cemitério.
Tempo!
que é o tempo a você.
Tempo
um viver da consciência de viver, depois comer comer deglutir tudo e nada
sobrar sobrando ainda vida.
Longo?
Longo
como a eternidade.
Isso
mais de um dia? arrisquei.
Sim,
mais outro dia no qual necessário deslizar por aí em procura de carne
apodrecida ou a apodrecer. É o tempo.
Não!
falei peremptório para exibir erudição quiçá sabedoria. Daí ajuntei qual estivesse
no parlamento a discutir ou no púlpito a doutrinar.
Saiba
que o tempo vai além de um dia, além do amanhecer ao entardecer e anoitecer à
'tranquilidade' da gente. Vai além.
Um
dia são vinte e quatro horas. As horas assim assinaladas e somadas dão a semana
o mês o ano, início talvez da eternidade.
!!!
(Continuei
a massacração:)
Esse
o tempo em ração módica a medir a distância; não é apenas entrar sugar sair dum
pedaço de carne, mesmo sendo de gente vaidosamente pura vaidosamente honesta
vaidosamente justa vaidosamente santa, dum político de escol por exemplo – o
político que discursa promete é eleito e vira chefe de Estado e antes de virar
matéria alimentícia de enorme grandeza à sua ingestão, antes de virar, vira
ladrão consumado com processos a caducar na justiça humana.
O
tempo vai mais longe, insisti.
O
tempo é de tal forma grande que os homens o medem em ano-luz ou seja à
velocidade de trezentos mil quilômetros por segundo durante um ano. Se vocêzinho
piscar o olho já um segundo. Caso quisesse ver a Terra após o piscado estando
na outra extremidade do piscar – sequer veria este nosso planeta nem o Sol
muitas vezes maior que a Terra. E note bem, se desejasse então avaliar a
Eternidade, supondo haver entendendido todo o Cosmo... daí vocêzinho teria
que... está me ouvindo?
Sumira
e tornara a emergir mastigando saciando uma fome maior que a eternidade. Nem me
ouvira decerto.
São Paulo setembro
2018
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