(conto)
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Cinza e Brasa
Era
uma tarde de luz e poente fugidios na sombra da escuridão da noite a chegar para
quem sabe logo também sumir – era um ser
entre tantos seres humanos, só; só como nascera e agora decerto só a enfrentar
seu próprio fim, houvesse um dia um fim. O fim do dia em meio o quase tudo de
todos, a deixar no isolamento um homem; já acostumado à solidão, porém nunca de
fato conformado. Por só, nada comenta nem inventa não lamenta (e por que
reclamar!) E se move na direção da janela da casa pobre, a pobre podre janela a
despencar na dobradiça velha cansada enferrujada qual a madeira de batente a se
desfazer. Olha pra ver e por hábito talvez, examina o escuro que vem. Aguça por
rotina a vista e a audição no que não pode ver (ainda por costume) e assim ouve,
longe, um cão a latir, quem sabe distante qual o mundo.
Dos vivos.
Dos mortos.
Reata a paz; a que não é realmente paz
mas sossego ou apenas ausência de outros sons – o cão mantém sua impertinência,
felizmente longe dali.
Abre melhor, arreganha tal janela;
antes força o emperro e ela geme nos gonzos e por fim cede abre e lhe mostra
aos olhos curiosos o que ver naquela penumbra: nada.
Está só.
Só existe ali sua casa a cair e um
terreno enorme a tanta pequenice no mundo tão grande mas sem mais nada. Além da
sombra, do escuro, da noite no negror da lua-nova, velha como o sol que já se
escondeu a dormir talvez.
É um homem, macho na espécie, esta que
pode ser de bons objetivos e que pode conter seres bons e outros voltados ou
tendentes ao mal.
Fecha a janela, prende os engates
enganosos na suposição de ladrões e bandidos a ferir sua paz. A paz num ser que
se supõe pacífico...
Ainda assim escuta o ladrar; longe, se
conscientiza disso e acalma seu temor. Os pacíficos não são integralmente seguros
e o medo persiste na acusação talvez da consciência. Mas entende andar na
solidão (benfazeja? malfazeja?) No entanto os ladrados destroem mesmo na
distância a sensação de paz; absoluta.
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A noite é quente, quente a mente,
mente a si a paz que é o silêncio do mundo. Ouve-esquece o cão, o qual some lá
longe na sonolência, embora mil insetos e mais o grilo a cricrilar ali próximo.
Todavia dormita mas não dorme, em temor à insistência do pensamento no seu
possível encontro por autoridades ou por fortuitos cobradores e/ou vingadores, todos
sempre desconhecidos.
Um sono de pouco sono e muitas
lembranças importunas às suas necessidades cansaços e fugas. É um sono em
vigília.
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Tido como ser pacífico na vila – quem
sabe trabalhador fiel à lei quiçá à religião dominante – embora assim, a sociedade sempre o considerou também simples
e meio simplorião, quase folclórico na bondade que se atribui aos mansos.
Aqueles de tarefas humildes que não se casam nem se exigindo deles heroísmos.
Contudo, um desconhecido pode ter
brasas encobertas por cinzas... Que se podem acender, iluminar dificilmente mas
queimar, ferir, destruir com certeza, haja certeza.
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Impossível precisar o como, não se
sabe onde nem quando, sequer se conscientizando o porquê – relacionou-se com um
desconhecido, sujeito de grande porte, enquanto ele inexpressivo homem de estatura
modesta.
Ninguém soube disso. Ao menos a
contento, sabendo-se apenas a amizade banal; a qual se arruinou; aqui entrando
mulher decerto e bebida certamente, talvez algum choque de interesses na
profissão ou nos negócios. Ocorreu afinal na amizade um desfecho trágico – o
amigo, 'amigo', fraco pequeno simples, assassinou o outro, forte grandalhão
sabido, sem ser sábio. O amigo esfaqueou o amigo antes que o amigo acordasse de
manhã!
Agora? Agora era sumir com o morto. E
aqui entra a destreza que um simplório desconhece.
Um dia após a noite, outra noite
doutro dia, um em que a janela, a porta também com mais razão, permanece fechada
no meio do silêncio (a paz seria o silêncio). Um dia no cuidado da vigília do
homem simples e estimado, pelo menos não conhecido a fundo pela vizinhança. Mais
um dia com sua namorada noite.
O homem, o homem vivo, vivo na
esperteza tão distante dos simples, o homem desperto resolve dar mais um dia ao
homem a 'dormir', dormir diz o quem sabe. Porém como depois executar aquilo!
Planejara todas horas disponíveis, e
as tinha à vontade e de sobra; idealizara o como. Logo se põe ao como.
Usando a experiência do açougueiro,
ele que fora auxiliar e aprendiz na aldeia; se põe a esquartejar o defunto. Quase
não improvisa, só o ato no todo sendo improviso. Afia a ferramenta lima bem o
corte; e se põe a serviço, quieto no silêncio da noite – e o cheiro do amigo já
enjoando... Corta separa junta acomoda ensaca as parte (e aí precisa despedaçar
melhor com machado barulhento e no fim já num estardalhaço, inimigo do silêncio
da paz). Daí interrompe o afazer para examinar curiosos enxeridos; entretanto
nada mais ouve além do silêncio da solidão nas imediações; exceto um cachorro
que ladra longe seja o fio da lua ou a presença de alguém. E assim prossegue. Pior:
sem sentir remorsos, talvez ouça a rusga do ódio ou do acaso. Prossegue célere
mas compassado qual conhecedor do métier.
Após horas acaba o serviço.
Agora é seu próprio policial ali de
plantão, a vigiar a janela e a examinar em todo instante uma visita indesejável.
mas o serviço não andava completo, pois necessário apagar vestígios e piormente
no melhor as provas mais flagrantes do delito...
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Ontem no ontem do tempo policiou todas
horas; se policiando ao mesmo tempo todo tempo. Até ao fim dos tempos, para
esconder sem poder se esconder. Acabou sua existência, que julgava ser a vida
na vila.
A vida não obstante prosseguiu. O mato
cresceu a casa caiu. No meio e de entremeio surgiram e cresceram na área flores
silvestres em promessa de vida.
São Paulo fevereiro
2019
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