segunda-feira, 1 de julho de 2019


 (conto) -Morrer na Praia

O sujeito, jeito apenas de falar, um sujeitinho miúdo cansado dos seus dias e mais ainda nos últimos dias, quase em inanição em fome braba, vivia o seu desespero na orla litorânea da ilha quem sabe a maior do mundo menor nas parcas oferendas. Cansado inclusive do próprio cansaço. Debalde olhando areias a sumir calor vaporizante a sumir árvores sim assim mesmo a sumir. Todas elas de comum acordo contra ele elas secas isoladas entre si e pouquíssimas às muitíssimas necessidades de sombras e mais negadoras ainda de frutos. Até que no até que enfim encontrou um coqueiro.
O coqueiro andava arcado ao vento e ao seu próprio peso: os cocos numa abundância mas lá no alto! olhava o alto no seu baixo ser, que o rebaixava ainda mais na fome, os cachos as pencas os frutos sazonados ofertantes qual seios de mulher bela madura sadia sábia no seus dotes. No entanto inalcançáveis inalcançados...
Parou no seu andar trôpego, olhou olhou em volta em cima em baixo e se viu; não viu o como. Entregou-se na extenuação a pensar.
Aos poucos reconheceu as armas possíveis por volta, já que a mais valorosa não tinha valor algum pois não sabia não podia subir galgar o tronco; e no ápice do tronco lá o fruto!
Percebeu um recurso e ajuntou as armas disponíveis: objetos poucos ao deus-dará. Iniciou a batalha contra a fome que o comia e mais contra a sede que o limitava. A sede, ah se pudesse beber toda água salgada ali a roncar na praia. Examinou melhor agora aquela altura de coqueiro. Assim iniciou a guerra contra o contra sua vida.
Tomou seixos, arremessou pedras grandes e menores conforme suas forças. Atirou-os para cima. Errou para baixo. Cansou, extenuou-se mais pudesse no seu estado haver ‘mais’. Esgotou a reserva de munição: os cocos lá no alto intactos com seu líquido precioso e sua castanha de matar a fome e dar o reviver. Não acertava. A rigor não tendo sequer forças para atirar mais suas balas e isso em razão da perda da energia com o tempo e a fome, estes inimigos palpáveis...
Por fim encontrou um crânio já despojado da gosma do pensamento, de músculos, de nervos e de sangue, já seco no sol ardente. Pediu constrangido e medroso perdão ao proprietário e assim enviou a cabeça aos cachos de coco, prenhes qual os seios na única mulher encontrada naquele deserto de calor e horror. Fez um esforço na força sobrante aprumou impulsionou expulsou o objeto humano rumo aos frutos.
Contudo mais uma vez falhando, recebendo de volta não cocos porém fragmentos de ossos quase podres e dentes cariados, que lhe saraivaram o ser lá embaixo na areia quente... Chorou o desastre e o fracasso, lanceou olhares no perto e no distante e nada mais havendo. Cedeu.
Caiu fraco inerte morto.
Sequer esperou que ondas gigantescas fizessem o serviço de graça e sem dispêndio de horas cansaços e fraquezas. Então foi envolvido no todo que enterra e ao mesmo tempo esparge morte e vida a mancheias.
Marília   fevereiro  2010


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