(conto) -Morrer na Praia
O
sujeito, jeito apenas de falar, um sujeitinho miúdo cansado dos seus dias e
mais ainda nos últimos dias, quase em inanição em fome braba, vivia o seu
desespero na orla litorânea da ilha quem sabe a maior do mundo menor nas parcas
oferendas. Cansado inclusive do próprio cansaço. Debalde olhando areias a sumir
calor vaporizante a sumir árvores sim assim mesmo a sumir. Todas elas de comum
acordo contra ele elas secas isoladas entre si e pouquíssimas às muitíssimas
necessidades de sombras e mais negadoras ainda de frutos. Até que no até que
enfim encontrou um coqueiro.
O coqueiro andava arcado ao vento e ao seu próprio
peso: os cocos numa abundância mas lá no alto! olhava o alto no seu baixo ser,
que o rebaixava ainda mais na fome, os cachos as pencas os frutos sazonados
ofertantes qual seios de mulher bela madura sadia sábia no seus dotes. No
entanto inalcançáveis inalcançados...
Parou no seu andar trôpego, olhou olhou em volta em
cima em baixo e se viu; não viu o como. Entregou-se na extenuação a pensar.
Aos poucos reconheceu as armas possíveis por volta,
já que a mais valorosa não tinha valor algum pois não sabia não podia subir
galgar o tronco; e no ápice do tronco lá o fruto!
Percebeu um recurso e ajuntou as armas disponíveis:
objetos poucos ao deus-dará. Iniciou a batalha contra a fome que o comia e mais
contra a sede que o limitava. A sede, ah se pudesse beber toda água salgada ali
a roncar na praia. Examinou melhor agora aquela altura de coqueiro. Assim
iniciou a guerra contra o contra sua vida.
Tomou seixos, arremessou pedras grandes e menores
conforme suas forças. Atirou-os para cima. Errou para baixo. Cansou,
extenuou-se mais pudesse no seu estado haver ‘mais’. Esgotou a reserva de
munição: os cocos lá no alto intactos com seu líquido precioso e sua castanha
de matar a fome e dar o reviver. Não acertava. A rigor não tendo sequer forças
para atirar mais suas balas e isso em razão da perda da energia com o tempo e a
fome, estes inimigos palpáveis...
Por fim encontrou um crânio já despojado da gosma
do pensamento, de músculos, de nervos e de sangue, já seco no sol ardente.
Pediu constrangido e medroso perdão ao proprietário e assim enviou a cabeça aos
cachos de coco, prenhes qual os seios na única mulher encontrada naquele
deserto de calor e horror. Fez um esforço na força sobrante aprumou impulsionou
expulsou o objeto humano rumo aos frutos.
Contudo mais uma vez falhando, recebendo de volta
não cocos porém fragmentos de ossos quase podres e dentes cariados, que lhe
saraivaram o ser lá embaixo na areia quente... Chorou o desastre e o fracasso,
lanceou olhares no perto e no distante e nada mais havendo. Cedeu.
Caiu fraco inerte morto.
Sequer esperou que ondas gigantescas fizessem o
serviço de graça e sem dispêndio de horas cansaços e fraquezas. Então foi
envolvido no todo que enterra e ao mesmo tempo esparge morte e vida a
mancheias.
Marília fevereiro 2010
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