(conto)
–
Comadre
Pimenta
Minha
mulher é uma capeta. Boa pra danar, boa mesmo no sentido de bom coração, devo
muito a ela. Não obstante vem bem a calhar o apelido que carregou na casa da
gente dela, lá tratada "Pimentinha" porque sabe com imensa sabedoria ou
por falta de sabedoria pôr cisco na alheia engrenagem – onde você vê branco
encontra pedras negras onde você vê preto dá uma de boazinha e conclui a
sentenciar "não é tanto assim..." Resumindo, se não contradiz direto
alguém outro, ela me contradiz a três por dois. Contudo a gente vai remando
contra a corrente da vida. Aliás até neste pormenor, pormenor inclusive de
grande envergadura, até nele, convenhamos, encontro sua discordância: digo
vida, diz e contraria com "existência" e ainda completa "esse aí
carrego como pedra no sapato nesta existência e olhe, comadre..." daí me
picha me puxa orelhas – apesar o casal vai se aguentando.
Agora,
ora, embora nossos dias aqui numa torre de não sei quantos andares, moramos no
sexto, mesmo assim acha o que falar criticar mudar na sua visão do centro da
cidade grande; tal qual era em residindo no interior donde viemos e lá dizia a
todas vizinhas as verdades dela e... bem... fofocava um pouco, bastante, com as
outras da rua. Eu seu pomo de discórdia, creio; não apenas este seu companheiro
mas quem ao seu olhar fazendo as coisas tidas por erradas.
Agora,
ora, embora nossos dias aqui, aqui mesmo me arranja encrencas. Não é que além
do costumeiro dizer "essa veia
aí do sétimo anda dia inteiro de salto alto e derruba a vassoura na cabeça da
gente aqui embaixo lá em cima!" Além me descobre que uma 'sirigaita'
doutro prédio, veja bem dum outro edifício e localizado na outra rua; essa tal badernou
a noite inteirinha altão de estourar os miolos, apenas pra gente não dormir! ouvindo
um disco berrante do Beto Guedes, é Guedes? oh João. Não, falei não, não mulher
é Batista, sei lá um cantor nordestino e eu nem gosto muito, "nada"
reforçou ela. Então...
Aí
falou falou falou e me fez ir atrás da outra, reclamar. Eu disse, verdade que eram
21h. e 55min., faltando 5 minutinhos para ultrapassar a lei do silêncio, que
antigamente marcava a partir das 22 horas. Verdade não, mentira; 22:05' olhei
bem o despertador em cima da geladeira e ainda gritava a louca na farra de
ontem. Hoje eu indo totoc-totoc em minha bengala como cicerone a sondar o
porquê da desgraça que levou a companheira não dormir e por tabela eu não dormindo
por não dormir ela (ela: ocê é surdo, graças a Deus; enquanto que eu sou obrigada
escutar o barulhão e não pego de jeito nenhum no sono...) Uma capeta! Vai lá,
diz-me imperando, vai lá xingar aquela vagabunda...
A
vagabunda. Bastou-me afirmar que poderia ser apenas um aniversário uma festa inocente
ou manifestação social dentro dos conformes. Qual, capaz! é nada, tudo uma p.
(aqui sujou a mãe da outra e dos outros naquele carnaval eterno). Qual o quê.
Lá vou eu, no início resmungando depois não aceitando a coisa mas indo assim
mesmo passar carão frente aos outros. Ah e conversando comigo mesmo no trajeto
e a caminhar nas ruas já ensolaradas. "Não, meu bem, eu me disse, nada podemos
na questão"; iria falar com o síndico com os vizinhos de nosso prédio!
não, nem ocorrendo em nosso edifício, noutro apartamento lá longe noutra rua o
dito barulho infernal ontem, hoje dormem visto ninguém ser de ferro para suportar
noite toda pulando gritando bebendo decerto.
Contorno
a rua, ainda a me falar: ninguém de longe tem que reclamar barulho dos outros
ou então precisaria calar a voz duma metrópole inteira; ela, a minha mulher, ela
nem quis ouvir-me: vai lá João, fui vou indo me arrastando pisando na rua em
tantos excrementos de cachorro – aqui só tem madames "e homens
sem-vergonha" garantiu-me um dia: só se vive levando na cordinha bicho a
sujar na rua. Bom, bem, piso ando chego paro na rua de lá. Lá tem é muita
mulher bonita! (ah se ela soubesse...) Olho. Aperto a campainha, o zelador esfrega
olhos, me explico como posso e o sujeito me permite falar com outros moradores
ali – acabo sabendo por alto que a jovem do Beto passara no vestibular e comemorara,
e mui lógico, beberam os amigos
participantes um pouco... "pouco!" ela diria mexendo a cabeça pra lá
pra cá. Deve, devia minha capeta ter razão nisso: a porta escancarada; e num
descuido da sonolência do zelador entro, atrevido, curioso... tem um sujeito
com outro sujeito enrolado no chão e uma fêmea jovem bela da espécie na cama de
sua quitinete, todinha e lindamente pelada (ai se ela soubesse, ai se ela
visse... não furaria meus olhos! mas que horror de sina a minha ficar cego no
fim da vida:) "existência", seu burro, vida é o todo abarcando as existências
de uma pessoa... eu me corrijo concordo, "tá bão existência",
discordo não poder daí em diante apreciar aquela gostosura dormindo, a curtir a
bagunça e os excessos de ontem à noite além do silêncio impossível após as 22
horas.
Fecho
os olhos pra não ver coisas feias belas. Vou de ré, de fasto, trombo na tromba
do porteiro, acordo de vez o funcionário; agradeço o que agradecer, a gentileza
por exemplo, me despeço.
Totoc-totoc
de volta.
Não
querida. Sim Querida, houve de fato uma festa da braba lá. Lá não tem mais
ninguém, só o zelador o zelador que falou. A quem reclamei sua reclamação por
não dormir. E garantiu (aqui menti minha verdade à verdade da mentira dela:) o
prédio lá encontra-se vazio e estão para alugar ou vender os apartamentos. O
funcionário quis saber ainda "o senhor não quer alugar? tem uma quitinete
vaga no 6º andar, o apartamento é número 63", igual o número deste nosso.
Não
creu. Mostrou gostoso um riso manhoso. Uma capeta (pensei).
São Paulo março
2018
Nenhum comentário :
Postar um comentário