quinta-feira, 15 de março de 2018


(conto) Comadre Pimenta
Minha mulher é uma capeta. Boa pra danar, boa mesmo no sentido de bom coração, devo muito a ela. Não obstante vem bem a calhar o apelido que carregou na casa da gente dela, lá tratada "Pimentinha" porque sabe com imensa sabedoria ou por falta de sabedoria pôr cisco na alheia engrenagem – onde você vê branco encontra pedras negras onde você vê preto dá uma de boazinha e conclui a sentenciar "não é tanto assim..." Resumindo, se não contradiz direto alguém outro, ela me contradiz a três por dois. Contudo a gente vai remando contra a corrente da vida. Aliás até neste pormenor, pormenor inclusive de grande envergadura, até nele, convenhamos, encontro sua discordância: digo vida, diz e contraria com "existência" e ainda completa "esse aí carrego como pedra no sapato nesta existência e olhe, comadre..." daí me picha me puxa orelhas – apesar o casal vai se aguentando.
Agora, ora, embora nossos dias aqui numa torre de não sei quantos andares, moramos no sexto, mesmo assim acha o que falar criticar mudar na sua visão do centro da cidade grande; tal qual era em residindo no interior donde viemos e lá dizia a todas vizinhas as verdades dela e... bem... fofocava um pouco, bastante, com as outras da rua. Eu seu pomo de discórdia, creio; não apenas este seu companheiro mas quem ao seu olhar fazendo as coisas tidas por erradas.
Agora, ora, embora nossos dias aqui, aqui mesmo me arranja encrencas. Não é que além do costumeiro dizer "essa veia aí do sétimo anda dia inteiro de salto alto e derruba a vassoura na cabeça da gente aqui embaixo lá em cima!" Além me descobre que uma 'sirigaita' doutro prédio, veja bem dum outro edifício e localizado na outra rua; essa tal badernou a noite inteirinha altão de estourar os miolos, apenas pra gente não dormir! ouvindo um disco berrante do Beto Guedes, é Guedes? oh João. Não, falei não, não mulher é Batista, sei lá um cantor nordestino e eu nem gosto muito, "nada" reforçou ela. Então...
Aí falou falou falou e me fez ir atrás da outra, reclamar. Eu disse, verdade que eram 21h. e 55min., faltando 5 minutinhos para ultrapassar a lei do silêncio, que antigamente marcava a partir das 22 horas. Verdade não, mentira; 22:05' olhei bem o despertador em cima da geladeira e ainda gritava a louca na farra de ontem. Hoje eu indo totoc-totoc em minha bengala como cicerone a sondar o porquê da desgraça que levou a companheira não dormir e por tabela eu não dormindo por não dormir ela (ela: ocê é surdo, graças a Deus; enquanto que eu sou obrigada escutar o barulhão e não pego de jeito nenhum no sono...) Uma capeta! Vai lá, diz-me imperando, vai lá xingar aquela vagabunda...
A vagabunda. Bastou-me afirmar que poderia ser apenas um aniversário uma festa inocente ou manifestação social dentro dos conformes. Qual, capaz! é nada, tudo uma p. (aqui sujou a mãe da outra e dos outros naquele carnaval eterno). Qual o quê. Lá vou eu, no início resmungando depois não aceitando a coisa mas indo assim mesmo passar carão frente aos outros. Ah e conversando comigo mesmo no trajeto e a caminhar nas ruas já ensolaradas. "Não, meu bem, eu me disse, nada podemos na questão"; iria falar com o síndico com os vizinhos de nosso prédio! não, nem ocorrendo em nosso edifício, noutro apartamento lá longe noutra rua o dito barulho infernal ontem, hoje dormem visto ninguém ser de ferro para suportar noite toda pulando gritando bebendo decerto.
Contorno a rua, ainda a me falar: ninguém de longe tem que reclamar barulho dos outros ou então precisaria calar a voz duma metrópole inteira; ela, a minha mulher, ela nem quis ouvir-me: vai lá João, fui vou indo me arrastando pisando na rua em tantos excrementos de cachorro – aqui só tem madames "e homens sem-vergonha" garantiu-me um dia: só se vive levando na cordinha bicho a sujar na rua. Bom, bem, piso ando chego paro na rua de lá. Lá tem é muita mulher bonita! (ah se ela soubesse...) Olho. Aperto a campainha, o zelador esfrega olhos, me explico como posso e o sujeito me permite falar com outros moradores ali – acabo sabendo por alto que a jovem do Beto passara no vestibular e comemorara, e mui  lógico, beberam os amigos participantes um pouco... "pouco!" ela diria mexendo a cabeça pra lá pra cá. Deve, devia minha capeta ter razão nisso: a porta escancarada; e num descuido da sonolência do zelador entro, atrevido, curioso... tem um sujeito com outro sujeito enrolado no chão e uma fêmea jovem bela da espécie na cama de sua quitinete, todinha e lindamente pelada (ai se ela soubesse, ai se ela visse... não furaria meus olhos! mas que horror de sina a minha ficar cego no fim da vida:) "existência", seu burro, vida é o todo abarcando as existências de uma pessoa... eu me corrijo concordo, "tá bão existência", discordo não poder daí em diante apreciar aquela gostosura dormindo, a curtir a bagunça e os excessos de ontem à noite além do silêncio impossível após as 22 horas.
Fecho os olhos pra não ver coisas feias belas. Vou de ré, de fasto, trombo na tromba do porteiro, acordo de vez o funcionário; agradeço o que agradecer, a gentileza por exemplo, me despeço.
Totoc-totoc de volta.
Não querida. Sim Querida, houve de fato uma festa da braba lá. Lá não tem mais ninguém, só o zelador o zelador que falou. A quem reclamei sua reclamação por não dormir. E garantiu (aqui menti minha verdade à verdade da mentira dela:) o prédio lá encontra-se vazio e estão para alugar ou vender os apartamentos. O funcionário quis saber ainda "o senhor não quer alugar? tem uma quitinete vaga no 6º andar, o apartamento é número 63", igual o número deste nosso.
Não creu. Mostrou gostoso um riso manhoso. Uma capeta (pensei).
São Paulo   março  2018

         



             

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