(conto) Um Roubo Perfeito
Andava despreocupado, talvez em não perder o costume na
ocupação do nada fazer. Foi quando deparou-se com um prato cheio.
Ao ladrão contumaz, larápio nas horas
vagas, afanador nas oportunidades que surgem – era mesmo um prato cheio.
Descobriu que tudo estava por descobrir naquela terra maravilhosa, numa cidade
virgem como a que presenciava! Certamente, iria comprovar, nenhum dos
seguidores de Latronis teria feito a
praça, ninguém se apossara da propriedade alheia na urbe abandonada. Estava
para confirmar.
De fato, tudo era deserto, as
casas os casarões os palácios andavam desabitados; havia casebres é certo, mas
a um ladrão profissional isso não conta, porque em lar de pobre um artista só
leva susto e raiva. Optou na sua longa vida pelos ricos e admirava os ricaços.
Na verdade, lembrava-se, nunca tivera lá muita sorte nem coragem demais nas
mansões. Agora entretanto mais fácil andava o serviço, que tomar doce da mão de
guri.
Momentaneamente achou que era
muita oferta para pouco artista ‘muita banana por um tostão’ rezava a máxima do
seu tempo. Mas a tentação venceu.
Sim havia o abandono, a se
desconfiar de uma possível cilada por parte do destino! todavia notava
movimento: alguns passantes, trajados à moda de séculos anteriores, uma ou
outra carroça, burricos transportando lenha, escravos levando água; o falar
mesmo se parecia o de seu país, mas era muita oferta, com certeza. E os automóveis
e as outras máquinas? sequer ouvia o soprar ensurdecedor dos jatos. Uma coisa
ficando certa – estava numa cidade atrasada e conservando maneiras coloniais.
Porém isso tudo não importando,
diante do fato de estar o lugar escancarado para sua benfazeja arte de furtar.
Olhou em volta, por mero costume,
e nada viu, não percebeu de soslaio ninguém por perto a policiá-lo. Entrou.
Preferiu escalar o muro aos fundos, por via das dúvidas. Assim mesmo ficou
temeroso, como ensinava a experiência. Havia cães no quintal vizinho, ou antes,
na quadra vizinha, chácara imponente, contudo sequer acordaram para ele.
Suspirou aliviado, penetrou vitorioso ao pálácio escolhido; tomou logicamente
cuidado em não esbarrar nos objetos indevidos. Esteve ao ponto de quase soprar
o pó calculado em mais de ano ali dormindo. Uma que outra teia no salão. A
prataria descansava aqui acolá, cristais intactos brilhavam em móveis pesados e
belos, tapetes e quadros; era o quadro geral daquela riqueza mal usada, dizia a
si próprio mal usada, para justificar seus atos e acalmar a consciência cobradeira...
Não quis pensar entretanto; preferiu gastar o tempo em equacionar o problema de
como levar tudo. Estava claro que duma vez não seria possível. Muitas viagens
teria pela frente. Havendo também a questão de como desfazer-se do roubo, a
quem vender e como depois gastar o dinheiro. Eram senões, porque já conhecia os
costumeiros receptadores e acharia fácil como gastar, pois sempre solucionara
bem o problema; era bom profissional. Ah, tinha igualmente o drama da possível
violência, todavia ela não contava em sua arte, nem havia necessidade em
usá-la: ninguém se encontrava naquela estranha e esquecida urbe a enfrentá-lo.
Fez daí nova opção.
Resolveu – dada a facilidade
encontrada – visitar outros casarões. Constatou estarem todos, sem o quase,
abandonados. Ocorreu-lhe pudesse ter havido uma grande peste e morto os
habitantes (daí tremeu diante o fato de igual poder ele ser contaminado) mas
sossegou ouvindo passantes pobres nas ruas estreitas; além do mais, onde
estariam os cadáveres? não era, positivamente, ataque de peste; aventou hipótese
em destruição por ácido, culpando complexos industriais químicos, porém as conclusões
foram as mesmas. Ficou descansado e deixou a sondagem das mansões, para
recolher nelas então seus objetos. Como havia demais, fez inteligentemente uma
seleção. Preferiu bens de ouro. Noutra viagem levaria as pratas. Noutras o restante.
Era muito claro, não iria deixar toda riqueza aos fantasmas.
Esse pensamento o assustou um
bocado. Sempre fôra
supersticioso e não gostava de assombrações. Recolheu rápido e assustado o que
pôde, saiu muito mansinho e trêmulo, atravessou espevitado a parede do casarão,
nem mesmo procurou a porta demorada e ringideira, ainda pensava pudesse ser o
lugar assombrado. Era.
Ribeirão Preto
dezembro 1984
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