sexta-feira, 2 de março de 2018

(conto) Um Roubo Perfeito

Andava despreocupado, talvez em não perder o costume na ocupação do nada fazer. Foi quando deparou-se com um prato cheio.
Ao ladrão contumaz, larápio nas horas vagas, afanador nas oportunidades que surgem – era mesmo um prato cheio. Descobriu que tudo estava por descobrir naquela terra maravilhosa, numa cidade virgem como a que presenciava! Certamente, iria comprovar, nenhum dos seguidores de Latronis teria feito a praça, ninguém se apossara da propriedade alheia na urbe abandonada. Estava para confirmar.
De fato, tudo era deserto, as casas os casarões os palácios andavam desabitados; havia casebres é certo, mas a um ladrão profissional isso não conta, porque em lar de pobre um artista só leva susto e raiva. Optou na sua longa vida pelos ricos e admirava os ricaços. Na verdade, lembrava-se, nunca tivera lá muita sorte nem coragem demais nas mansões. Agora entretanto mais fácil andava o serviço, que tomar doce da mão de guri.
Momentaneamente achou que era muita oferta para pouco artista ‘muita banana por um tostão’ rezava a máxima do seu tempo. Mas a tentação venceu.
Sim havia o abandono, a se desconfiar de uma possível cilada por parte do destino! todavia notava movimento: alguns passantes, trajados à moda de séculos anteriores, uma ou outra carroça, burricos transportando lenha, escravos levando água; o falar mesmo se parecia o de seu país, mas era muita oferta, com certeza. E os automóveis e as outras máquinas? sequer ouvia o soprar ensurdecedor dos jatos. Uma coisa ficando certa – estava numa cidade atrasada e conservando maneiras coloniais.
Porém isso tudo não importando, diante do fato de estar o lugar escancarado para sua benfazeja arte de furtar.
Olhou em volta, por mero costume, e nada viu, não percebeu de soslaio ninguém por perto a policiá-lo. Entrou. Preferiu escalar o muro aos fundos, por via das dúvidas. Assim mesmo ficou temeroso, como ensinava a experiência. Havia cães no quintal vizinho, ou antes, na quadra vizinha, chácara imponente, contudo sequer acordaram para ele. Suspirou aliviado, penetrou vitorioso ao pálácio escolhido; tomou logicamente cuidado em não esbarrar nos objetos indevidos. Esteve ao ponto de quase soprar o pó calculado em mais de ano ali dormindo. Uma que outra teia no salão. A prataria descansava aqui acolá, cristais intactos brilhavam em móveis pesados e belos, tapetes e quadros; era o quadro geral daquela riqueza mal usada, dizia a si próprio mal usada, para justificar seus atos e acalmar a consciência cobradeira... Não quis pensar entretanto; preferiu gastar o tempo em equacionar o problema de como levar tudo. Estava claro que duma vez não seria possível. Muitas viagens teria pela frente. Havendo também a questão de como desfazer-se do roubo, a quem vender e como depois gastar o dinheiro. Eram senões, porque já conhecia os costumeiros receptadores e acharia fácil como gastar, pois sempre solucionara bem o problema; era bom profissional. Ah, tinha igualmente o drama da possível violência, todavia ela não contava em sua arte, nem havia necessidade em usá-la: ninguém se encontrava naquela estranha e esquecida urbe a enfrentá-lo. Fez daí nova opção.
Resolveu – dada a facilidade encontrada – visitar outros casarões. Constatou estarem todos, sem o quase, abandonados. Ocorreu-lhe pudesse ter havido uma grande peste e morto os habitantes (daí tremeu diante o fato de igual poder ele ser contaminado) mas sossegou ouvindo passantes pobres nas ruas estreitas; além do mais, onde estariam os cadáveres? não era, positivamente, ataque de peste; aventou hipótese em destruição por ácido, culpando complexos industriais químicos, porém as conclusões foram as mesmas. Ficou descansado e deixou a sondagem das mansões, para recolher nelas então seus objetos. Como havia demais, fez inteligentemente uma seleção. Preferiu bens de ouro. Noutra viagem levaria as pratas. Noutras o restante. Era muito claro, não iria deixar toda riqueza aos fantasmas.
Esse pensamento o assustou um bocado. Sempre fôra supersticioso e não gostava de assombrações. Recolheu rápido e assustado o que pôde, saiu muito mansinho e trêmulo, atravessou espevitado a parede do casarão, nem mesmo procurou a porta demorada e ringideira, ainda pensava pudesse ser o lugar assombrado. Era.

 Ribeirão Preto   dezembro 1984

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