terça-feira, 31 de julho de 2018


(conto)Chefias & Mandonismos

Andava parado sentado esparramado naquela mesa diante de certa máquina de escrever, daquelas antigonas, no espaço reservado que representava um 'museu' naquela organização super-moderna, hiper – quando ela chegou. Ela?
Mulher bela e voluntariosa dos altos escalões da companhia. Uma companhia multinacional, a funcionária enviada pela matriz para pôr ordem na casa; admitido que o Terceiro Mundo seja pouco mais que povoado por sub-humanos; desorganizados portanto.
Ela de extraordinária beleza mas não grandalhona e alta e loura no costumeiro ver mas ciosa de si embora pequena magra presente e, repito, formosa.
Os outros nessa altura já haviam se deslocado às pressas murchos temerosos ao salão no sétimo andar da torre da empresa; um que outro retardatário a passar olhar com respeito pro nosso lado; nosso a bem esclarecer: Ela com olhares ferozes, eu não entendendo o que tudo ali a representar.
Foi quando Ela me fuzilou falando, educada via-se, mas alto e firme. Disse, terá dito, misérias do que vendo: um homem passado sentado parado no tec-tec da máquina e como se falava antigamente, a catar grão de milho. Terá sim me espinafrado no flagrante do ato... contudo na sua língua de Primeiro Mundo, mui desenvolvido à minha ignorância, pois quase nem me expresso até na minha língua por falar errado e aqui o absurdo de, por essa razão, ser mudo. Enfim, entendi por cima, que me determinava e intimava a deixar aquele monstrengo do outro século e partir dali rumo ao salão com demais funcionários.
Cheguei lá mui constrangido. Aquele negócio de sequer saber onde ficar que dizer que fazer ou fingir imitando a maioria, silenciosa, inclusive no salão calara o burburinho manso do público. E ocorreu então Ela adentrar, calando de vez até o silêncio...
Olhou-nos, severa quiçá indignada, impelindo certamente devedores; eu me incluía nisso porém sem saber direito em que falhara, supondo houvesse na sala alguns também intimidados também devedores; todavia todos ali a mim desconhecidos, fora uma funcionária com a qual fizera antes amizade. Nesse momento Ela se dirigiu aos aborígines presentes na sua língua, imposta creio.
O auditório reagiu se olhando resmungando o pensamento baixinho e a se mexer nervoso, ainda constrangido. Se é que toda gente (ouvisse, sim, mas:) entendesse a algaravia primeiro-mundista. Tossiram silênciosos, tossi em imitação. Ela se voltou de olhar por meu lado; até me esfriando...
Então alguém graduado tentou explicar o que a chefa dizendo, supondo ou sabendo da parcela enorme apenas versada na fala de nossa gente. Aqui me alcançando, parei mesmo o fungar funguei mais baixo, em respeito às sabedorias.
A seguir e imediato Ela expôs acredito sua visão sobre os desmandos da diretoria anterior da empresa e as falhas funcionais; e sobretudo o que pretendendo como chefa suprema mudar. O intérprete, já de cabelos prateados e experiente, traduziu-nos o programa. A plateia reagiu suspirando temerosa em expectativa; no entanto não pedindo a palavra, decerto no óbvio do que exposto pela nova gerência.
Nesse ponto, já quase todo mundo silencioso ou silenciado; nesse o funcionário-intérprete tornou à Chefa, Ela bela consciente como general de sua autoridade e, me apontando, esclareceu não ser do quadro funcional, apenas um visitante amigo duma servidora; que no instante em que a chefa adentrara à repartição exemplificava como no seu tempo se preenchia uma lauda...
Ela? Ela fez oh oh oh prolongadamente e sem acrescer nada de tudo, mesmo na língua primeiro-mundista.
São Paulo   julho  2018

         



             

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