(conto)Chefias & Mandonismos
Andava
parado sentado esparramado naquela mesa diante de certa máquina de escrever,
daquelas antigonas, no espaço reservado que representava um 'museu' naquela
organização super-moderna, hiper – quando ela chegou. Ela?
Mulher
bela e voluntariosa dos altos escalões da companhia. Uma companhia multinacional,
a funcionária enviada pela matriz para pôr ordem na casa; admitido que o
Terceiro Mundo seja pouco mais que povoado por sub-humanos; desorganizados
portanto.
Ela
de extraordinária beleza mas não grandalhona e alta e loura no costumeiro ver
mas ciosa de si embora pequena magra presente e, repito, formosa.
Os
outros nessa altura já haviam se deslocado às pressas murchos temerosos ao
salão no sétimo andar da torre da empresa; um que outro retardatário a passar
olhar com respeito pro nosso lado; nosso a bem esclarecer: Ela com olhares
ferozes, eu não entendendo o que tudo ali a representar.
Foi
quando Ela me fuzilou falando, educada via-se, mas alto e firme. Disse, terá
dito, misérias do que vendo: um homem passado sentado parado no tec-tec da
máquina e como se falava antigamente, a catar grão de milho. Terá sim me espinafrado
no flagrante do ato... contudo na sua língua de Primeiro Mundo, mui
desenvolvido à minha ignorância, pois quase nem me expresso até na minha língua
por falar errado e aqui o absurdo de, por essa razão, ser mudo. Enfim, entendi
por cima, que me determinava e intimava a deixar aquele monstrengo do outro
século e partir dali rumo ao salão com demais funcionários.
Cheguei
lá mui constrangido. Aquele negócio de sequer saber onde ficar que dizer que
fazer ou fingir imitando a maioria, silenciosa, inclusive no salão calara o
burburinho manso do público. E ocorreu então Ela adentrar, calando de vez até o
silêncio...
Olhou-nos,
severa quiçá indignada, impelindo certamente devedores; eu me incluía nisso
porém sem saber direito em que falhara, supondo houvesse na sala alguns também
intimidados também devedores; todavia todos ali a mim desconhecidos, fora uma
funcionária com a qual fizera antes amizade. Nesse momento Ela se dirigiu aos
aborígines presentes na sua língua, imposta creio.
O
auditório reagiu se olhando resmungando o pensamento baixinho e a se mexer
nervoso, ainda constrangido. Se é que toda gente (ouvisse, sim, mas:) entendesse
a algaravia primeiro-mundista. Tossiram silênciosos, tossi em imitação. Ela se
voltou de olhar por meu lado; até me esfriando...
Então
alguém graduado tentou explicar o que a chefa dizendo, supondo ou sabendo da
parcela enorme apenas versada na fala de nossa gente. Aqui me alcançando, parei
mesmo o fungar funguei mais baixo, em respeito às sabedorias.
A
seguir e imediato Ela expôs acredito sua visão sobre os desmandos da diretoria
anterior da empresa e as falhas funcionais; e sobretudo o que pretendendo como
chefa suprema mudar. O intérprete, já de cabelos prateados e experiente, traduziu-nos
o programa. A plateia reagiu suspirando temerosa em expectativa; no entanto não
pedindo a palavra, decerto no óbvio do que exposto pela nova gerência.
Nesse
ponto, já quase todo mundo silencioso ou silenciado; nesse o
funcionário-intérprete tornou à Chefa, Ela bela consciente como general de sua
autoridade e, me apontando, esclareceu não ser do quadro funcional, apenas um
visitante amigo duma servidora; que no instante em que a chefa adentrara à
repartição exemplificava como no seu tempo se preenchia uma lauda...
Ela?
Ela fez oh oh oh prolongadamente e sem acrescer nada de tudo, mesmo na língua
primeiro-mundista.
São Paulo julho
2018
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