terça-feira, 31 de julho de 2018


(conto) Meu de cima barulhento

Pois é, chamei o Sr... por não saber a quem me dirigir num probleminha aqui no prédio Sr... é José? o senhor precisaria expor à imobiliária a questão que pra mim já anda ficando velha e insolúvel. Por isso lembrei do porteiro Sr.José... ah é zelador? ficamos no mesmo porque meu drama perdura – a vizinha aí de cima da minha quitinete.
Bem, vou falar em rápidas palavras para não lhe tomar o tempo precioso. Faz tempo que essa mulher me azucrina: dos três meses em que aqui resido, três meses me aborrece!
É um arrasta as coisas; parece que nunca se acostuma com seu mobiliário, a empurrar móveis pra lá pra cá, todos os dias, todos os dias!
Dias não, noites. Vem do serviço aí pelas vinte horas e daí anda pra lá volta pra cá – sempre num pisado duro como de um mastodonte na minha cabeça e já estou deitado, dormindo não também mas tentando conciliar o sono e o barulho lá de cima no 73 eu aqui no 63 por baixo dela...
Parece-me que pesa toneladas sobre os pés, de tão duro e sonante o pisar! Outro dia, outra noite: rolava lá em cima certa bola, não sei se a um cachorrinho a brincar se a uma criança, não deu pra distinguir bem: o fato é o barulho irritante e assim quem a dormir aqui embaixo! Mas isso da bola só uma noite; o comum é andar apressadamente aos tropeções do dormitório à cozinha da cozinha ao quarto de dormir.
Nesse ponto – quem sabe ciente de que o vizinho do 63 já perdeu de vez o sono, ela para o andar, vai decerto ao descanso. Noutro dia, aí pelas seis da manhã, se levanta e escuto girar a chave ringir a porta seca chamar o elevador ele por si só já demais barulhento; distingo o som de entrar descer abrir passar à portaria e sumir na rua rumo ao trabalho – esse mérito vejo nela: correta funcionária não perde tempo não faltando lá nesses três meses de convívio... convívio! ora, nunca vi a jovem suponho jovem e bela, o Sr. confirma de cabeça. Deve ser atraente.
Mas que diabo, a barulhar sem respeito todas as noites, todas as noites! É dose, não acha?
O Sr. concorda. Não concordaria com sua inquilina, sim do prédio e da imobiliária não sua; não concordaria com o desleixo ou só desatenção da moça... pois acredite que todinha noite esbarra certamente no cabo da vassoura e a derruba fazendo aquele tchaf no chão, aqui na minha cabeça. Isso sem parar. Quer dizer, só ouço assim à noite porque no dia ela ausente a trabalhar, não amola. E daí só escuto sirene na rua e barulhinhos habituais nos outros apartamentos; enfim fica em silêncio.
Entretanto já sei: voltará à noite, baterá a porta ao fechá-la, girará a chave – isso fora o barulho do velho elevador deste prédio igualmente velho. E, a finalizar seu preparo para dormir e de não me deixar dormir – andará pra lá pra cá num pisado duro forte pesado tum-tum-tum barulhento, a tanto imaginar que me despregará um dia o reboco de sustento do 73 contra o 63 meu, meu desespero...
Quer dizer, estou exagerando um pouquinho porque não temo isso – só temo saber que nestes três meses de relações provocou a senhorita vizinha o barulho diário, em a noite e que o futuro me reserva a mesma barulheira!
Oh senhor Sr.José, não poderia antes de comunicar a imobiliária falar com ela! sobre isso, isto sem ofensa e com diplomacia em não ferir a donzela. Não quero dar queixa nem arranjar encrenca com vizinhos; apenas o senhor me ajuda nisso porque não aguento mais tal rotina...
O quê!? o que me diz, que antes de me mudar para este apartamento ela falecera dormindo e as autoridade lacraram interditando o quarto e o processo não terminou??
São Paulo  julho 2018

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