terça-feira, 17 de julho de 2018


(conto) – Enterro do João

O João morreu!
Mas essa a pergunta mais idiota que se puderia fazer pois todos na Vila conhecem o João, sabem ao menos dele; e mais, que anda vivinho da silva. Quer dizer, andava quando andando por aí à cata ter o que fazer ou viver; enfim era-é como os outros relegados ao chão ao sereno ao deus-dará. Sempre visto, visto parar qual morador na pracinha abandonada. Abandonada ou não e não mais frequentada pela gente tida decente; isto é, sabe-se que a gente não fica próxima dessa gente. Todos o conhecem (ou conheciam) como um sujeito pacífico.
Todavia o João na terça-feira fora encontrado no seu canto porém visto duro frio roxo morto!
Ninguém se impressionou... bem, não bem assim: quantos não se condoeram antes ao vê-lo no relento, por manso. De minha parte – porque o via sempre e sempre me condoendo: seus pés sujos pretos rachados de tanto andar e errar por esse mundo – de minha parte senti deveras e comentamos entre amigos, amigos ou somente conhecidos, lastimamos a triste sorte dos miseráveis e bem mais a dele, pela sorte ou falta de sorte do infeliz, tido por incapaz de praticar o mal. Além do mais, há um senão que é a burguesice de agora, a qual atinge o mundo e também a Vila. Nela, dos prédios altos que surgiram recentemente, aparecem a miúdo os novos ricos a paparicar seus cachorros; cria-se demais gatos e cachorros e os tratam qual fossem humanos, filhos, conversam somente sobre bichos: esquecem-se do bicho-homem, igual ao João e a tantos outros a morrer de fome... às vezes as madames e senhoritas e ainda os velhotes ex-machos têm seus animais a defecar nas árvores, por vezes próximo da gente de rua! não obstante parecem não perceberem os coitados, a sobrecarregar de carinho seus bichos de estimação. Enfim lamentamos o João e os outros decaídos e lamentamos também o abuso no tratamento animal.
Não apenas lamentamos (comentando a triste sina) mas resolvemos fazer alguma coisa pelo João.
Pra quê! se já morto?
Bem, mal não faríamos e não fizemos a dar uma sepultura digna à desventurada criatura.
Sim, tem nisso as autoridades, entretanto no rebuliço social em que o centro se envolveu nestes dias – quem poderia encontrar sequer um polícia nestas bandas hoje.
Então resolvemos, após falar à boca pequena essas coisas, resolvemos arranjar uma padiola improvisada e transportar o cadáver ao menos à beira da cova; levar até o cemitério mais ou menos desativado da Vila.
Foi o que de fato fizemos. Inclusive convidamos a nos ajudar os moços da Academia, aquele negócio de exercício que fazem para ficar mais fortes e verdadeiros titãs em tamanho e força; a fim de que pudéssemos melhor carregar o corpo inanimado. Antes que ficasse relegado o mesmo a feder e desmanchar na praça, no seu lugar preferido em vida, morto agora.
Assim cumprimos o desiderato. Com muito respeito, sem as graçolas das quais abusamos contra o pobre; então nem protestava; enquanto que outros mendigos reagindo ofendendo pela ofensa recebida. Ele um exemplo de paz; se bem saibamos ser paz velada porque todos somos gente e sentimos a língua mal usada da gente na rua.
Foram horas,  toda a tarde nesse afazer ou seja levando o João à sua última morada. Esta expressão, apesar do cacófato 'ma-mo', é mui usada. No entanto não pretendíamos arranjar encrenca com a polícia, então ausente, e por isso combinamos deixá-lo pertinho da cova aberta pelo Alberto Coveiro nosso compadre e amigo. Aí pararíamos e paramos; pronto.
Suamos. Chegamos. Descemos ao solo santo o corpo magérrimo esquelético do João, apesar da magreza pesado. Inclusive dissemos à guisa de consolo ao desditoso, caso pudesse ainda sua alma ouvir: esta noite você não precisa passar frio nem dormir com fome...
Contudo ocorreu um imprevisto por não estarmos os poucos que ainda carregavam a geringonça com o morto no final do cortejo fúnebre e já dentro do cemitério da Vila, não estarmos esclarecidos: – o corpo magro e pesado do João estremeceu, de roxo passou a avermelhado, e ele de boca aberta gritou ao mundo "ocêis tão pensando que eu sou o quê!"
Olhe, não ficou ali ninguém a escutar o resto...
Mesmo os meninões fortalhões da Academia havendo já pulado o muro dessa necrópole tão abandonada quanto a Vila; ninguém entre todos nos lembramos haver um portão, por onde o féretro antes passara.
São Paulo   junho  2018

         



             

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