(conto)
–
Enterro
do João
O
João morreu!
Mas
essa a pergunta mais idiota que se puderia fazer pois todos na Vila conhecem o
João, sabem ao menos dele; e mais, que anda vivinho da silva. Quer dizer,
andava quando andando por aí à cata ter o que fazer ou viver; enfim era-é como
os outros relegados ao chão ao sereno ao deus-dará. Sempre visto, visto parar
qual morador na pracinha abandonada. Abandonada ou não e não mais frequentada
pela gente tida decente; isto é, sabe-se que a gente não fica próxima dessa gente.
Todos o conhecem (ou conheciam) como um sujeito pacífico.
Todavia
o João na terça-feira fora encontrado no seu canto porém visto duro frio roxo
morto!
Ninguém
se impressionou... bem, não bem assim: quantos não se condoeram antes ao vê-lo
no relento, por manso. De minha parte – porque o via sempre e sempre me
condoendo: seus pés sujos pretos rachados de tanto andar e errar por esse mundo
– de minha parte senti deveras e comentamos entre amigos, amigos ou somente
conhecidos, lastimamos a triste sorte dos miseráveis e bem mais a dele, pela
sorte ou falta de sorte do infeliz, tido por incapaz de praticar o mal. Além do
mais, há um senão que é a burguesice de agora, a qual atinge o mundo e também a
Vila. Nela, dos prédios altos que surgiram recentemente, aparecem a miúdo os
novos ricos a paparicar seus cachorros; cria-se demais gatos e cachorros e os
tratam qual fossem humanos, filhos, conversam somente sobre bichos: esquecem-se
do bicho-homem, igual ao João e a tantos outros a morrer de fome... às vezes as
madames e senhoritas e ainda os velhotes ex-machos têm seus animais a defecar
nas árvores, por vezes próximo da gente de rua! não obstante parecem não
perceberem os coitados, a sobrecarregar de carinho seus bichos de estimação.
Enfim lamentamos o João e os outros decaídos e lamentamos também o abuso no
tratamento animal.
Não
apenas lamentamos (comentando a triste sina) mas resolvemos fazer alguma coisa
pelo João.
Pra
quê! se já morto?
Bem,
mal não faríamos e não fizemos a dar uma sepultura digna à desventurada
criatura.
Sim,
tem nisso as autoridades, entretanto no rebuliço social em que o centro se
envolveu nestes dias – quem poderia encontrar sequer um polícia nestas bandas hoje.
Então
resolvemos, após falar à boca pequena essas coisas, resolvemos arranjar uma
padiola improvisada e transportar o cadáver ao menos à beira da cova; levar até
o cemitério mais ou menos desativado da Vila.
Foi
o que de fato fizemos. Inclusive convidamos a nos ajudar os moços da Academia,
aquele negócio de exercício que fazem para ficar mais fortes e verdadeiros
titãs em tamanho e força; a fim de que pudéssemos melhor carregar o corpo inanimado.
Antes que ficasse relegado o mesmo a feder e desmanchar na praça, no seu lugar
preferido em vida, morto agora.
Assim
cumprimos o desiderato. Com muito respeito, sem as graçolas das quais abusamos
contra o pobre; então nem protestava; enquanto que outros mendigos reagindo
ofendendo pela ofensa recebida. Ele um exemplo de paz; se bem saibamos ser paz velada
porque todos somos gente e sentimos a língua mal usada da gente na rua.
Foram
horas, toda a tarde nesse afazer ou seja
levando o João à sua última morada. Esta expressão, apesar do cacófato 'ma-mo',
é mui usada. No entanto não pretendíamos arranjar encrenca com a polícia, então
ausente, e por isso combinamos deixá-lo pertinho da cova aberta pelo Alberto
Coveiro nosso compadre e amigo. Aí pararíamos e paramos; pronto.
Suamos.
Chegamos. Descemos ao solo santo o corpo magérrimo esquelético do João, apesar
da magreza pesado. Inclusive dissemos à guisa de consolo ao desditoso, caso pudesse
ainda sua alma ouvir: esta noite você não precisa passar frio nem dormir com fome...
Contudo
ocorreu um imprevisto por não estarmos os poucos que ainda carregavam a
geringonça com o morto no final do cortejo fúnebre e já dentro do cemitério da
Vila, não estarmos esclarecidos: – o corpo magro e pesado do João estremeceu, de
roxo passou a avermelhado, e ele de boca aberta gritou ao mundo "ocêis tão
pensando que eu sou o quê!"
Olhe,
não ficou ali ninguém a escutar o resto...
Mesmo
os meninões fortalhões da Academia havendo já pulado o muro dessa necrópole tão
abandonada quanto a Vila; ninguém entre todos nos lembramos haver um portão,
por onde o féretro antes passara.
São Paulo junho
2018
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