terça-feira, 2 de outubro de 2018


(contolouco) – Surpresa na Rotina

Andava ali agora um frescor inusitado, levando-se em conta o calor imenso a esturricar a população urbana desamparada; uns do povo diziam que beirando quarenta outros que bem mais de trinta; os marcadores nas esquinas aferiam trinta e dois, trinta e três graus. Contudo naquele santo lugar, silencioso e protegido, estando fresco; não frio, fresquinho. Resolveu comparar, subiu ao nível mais conhecido e constatou o despropósito da temperatura na seca. Em torno donde parado percebeu algumas pessoas, quase sempre circunspectas ao menos silenciosas. No entanto num grupo de senhoras e jovens mulheres com um menino assopravam toadas; esse ajuntamentinho orava mas em altas vozes, o cantochão de hábito, pensou; umas entre tais mulheres choravam outras bradavam, assustando um pouco o garoto a olhar para mãe. Uns pequenos também corriam nas imediações em brincadeiras. Mesmo porque a vida é um faz de conta a moleques. Mais adiante percebeu coroas flores velas e cheiros, os cheiros não viu sentiu mas com certa repugnância pois manifestação no... ah oh ih encontrava-se agora no cemitério! Deu-lhe um arrepio e assim procurou fugir do grupo humano entre as tumbas, estas exposição milenar da fraqueza da gente. Não fora entretanto mui longe no abarcar o quadro em seu olhar; porém dando para examinar um conjunto rico na 'cidade dos pés juntos', isto um falar do povo miúdo. Viu capelas cujo brilho a ficar por cima da opaca residência da morte; daí condenou a situação – condenara vida inteira a morte e as manifestações vivas da morte. Aliás andava nítido na memória não simpatizar-se com representações fúnebres; a rigor não passava sequer frente à necrópole municipal; entrar nela então? capaz. Mesmo velórios de amigos deixando a amigos restritos e aos íntimos do morto. Finados! ora tem gente que passeia nesse feriado no local para ver os mortos que não podem ver... Em síntese, tudo achava bobagem. Por fim resolveu passear ele mesmo no seu tempo disponível por aquelas ruas meio desertas, até chegar olhar pelo portão a rua dos vivos; curiosamente tida por Avenida Saudade. Balançou a cabeça pra lá pra cá condenando tudo no todo. Mas não conseguindo fugir do calorão. Apesar do abrasamento, não tomaria agora naquela hora um sorvete. Poderia causar mal à saúde. Nesse pensamento e num átimo tornou quase que milagrosamente ao frescor, medindo por alto uns sete palmos na viagem em triz à descida. E se viu, não vira antes, viu-se, examinou cada membro cada parte do seu ser ali a gozar o frescor. Só então sentindo o horror de se encontrar preso inerte duro frio, mais frio que o frescor.
São Paulo   setembro  2018

         



             

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