(contolouco)
–
Surpresa
na Rotina
Andava
ali agora um frescor inusitado, levando-se em conta o calor imenso a esturricar
a população urbana desamparada; uns do povo diziam que beirando quarenta outros
que bem mais de trinta; os marcadores nas esquinas aferiam trinta e dois,
trinta e três graus. Contudo naquele santo lugar, silencioso e protegido,
estando fresco; não frio, fresquinho. Resolveu comparar, subiu ao nível mais
conhecido e constatou o despropósito da temperatura na seca. Em torno donde
parado percebeu algumas pessoas, quase sempre circunspectas ao menos silenciosas.
No entanto num grupo de senhoras e jovens mulheres com um menino assopravam
toadas; esse ajuntamentinho orava mas em altas vozes, o cantochão de hábito,
pensou; umas entre tais mulheres choravam outras bradavam, assustando um pouco
o garoto a olhar para mãe. Uns pequenos também corriam nas imediações em
brincadeiras. Mesmo porque a vida é um faz de conta a moleques. Mais adiante
percebeu coroas flores velas e cheiros, os cheiros não viu sentiu mas com certa
repugnância pois manifestação no... ah oh ih encontrava-se agora no cemitério!
Deu-lhe um arrepio e assim procurou fugir do grupo humano entre as tumbas,
estas exposição milenar da fraqueza da gente. Não fora entretanto mui longe no abarcar
o quadro em seu olhar; porém dando para examinar um conjunto rico na 'cidade
dos pés juntos', isto um falar do povo miúdo. Viu capelas cujo brilho a ficar por
cima da opaca residência da morte; daí condenou a situação – condenara vida
inteira a morte e as manifestações vivas da morte. Aliás andava nítido na
memória não simpatizar-se com representações fúnebres; a rigor não passava
sequer frente à necrópole municipal; entrar nela então? capaz. Mesmo velórios
de amigos deixando a amigos restritos e aos íntimos do morto. Finados! ora tem
gente que passeia nesse feriado no local para ver os mortos que não podem
ver... Em síntese, tudo achava bobagem. Por fim resolveu passear ele mesmo no seu
tempo disponível por aquelas ruas meio desertas, até chegar olhar pelo portão a
rua dos vivos; curiosamente tida por Avenida Saudade. Balançou a cabeça pra lá
pra cá condenando tudo no todo. Mas não conseguindo fugir do calorão. Apesar do
abrasamento, não tomaria agora naquela hora um sorvete. Poderia causar mal à
saúde. Nesse pensamento e num átimo tornou quase que milagrosamente ao frescor,
medindo por alto uns sete palmos na viagem em triz à descida. E se viu, não
vira antes, viu-se, examinou cada membro cada parte do seu ser ali a gozar o
frescor. Só então sentindo o horror de se encontrar preso inerte duro frio,
mais frio que o frescor.
São Paulo setembro
2018
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