terça-feira, 2 de outubro de 2018


(conto) Exemplar Tabefe

Zé Mão de Onça era um sujeito exemplar no que fazia, humilde mas ignorante. Querido ou respeitado entre colegas no trabalho, sendo servidor até honesto. Mão por defeito na sua mão direita meio fechada, parecendo pata de onça. Um dia passou por experiência insólita ao ir faxinar a capela: na moradia de Deus, encontrou o diabo na forma de assombração.
A urbe mais vila que cidade fora tomada de pânico horror atarantamento nos improvisos por uma tragédia próxima, um ônibus que chamavam jardineira despencou matou dezenas duma vez; e o hospitaleco não suportava a demanda – muitos pedaços de gente à pouca gente classificada atender! Vieram médicos e enfermeiros e policiamento dos arredores. Nessas horas tristes também faleceu um cidadão sem nome, e morto tratado como indigente; na soma da correria diante o desastre rodoviário, ficou de barriga aberta fora da geladeira e posto, sem lugar para pôr, em depósito na capelinha, o necrotério mui ocupado...
Bem, Zé fora limpar a área.
Chegando ali fez o que pôde, logo chamado a atender na correria dos pedaços visitantes. Ao sair praticou um desmandozinho na pressa: deu um tapa no desconhecido morto, um na bunda exposta do comportado ser; fria. Mas... ouviu imediato um grito "ai!" de dor ou indignação. Saiu correndo o coração pela boca.
Narrou por cima aquele por baixo aos poucos iguais. E ficaria nisso, fosse e parecia ser mesmo alma penada. Decerto do morto que levara a corrigenda num tabefe quente na traseira fria.
Chegou o caso às autoridades em trabalho no hospital e assim um médico e seu assistente acompanharam Onça para verificação in loco.
Senhor José, diz o Dr. José, está vendo o cadáver autopsiado e cadáver não fala, menos ainda grita...
Sorriu desesperançado a vítima da vítima sem vida. Iam já abandonar o recinto e o morto no recinto quando o Doutor, numa graçola inusitada e despropositada a uma autoridade clínica, quando esta dá em exemplo um tabefe na fria nádega do corpo inanimado... Imediato os três vivos notaram um vivo grito "ai!"
O mais corajoso e sério do grupelho, o primeiro a correr fora... os outros saíram aflitos atrás.
Todos, em acordo agora, todos silenciaram a fraqueza...
Só mais tarde, passado o tormento dos pedaços humanos reconhecidos e/ou identificados e enterrados é que puderam explicar certa minúcia no caso.
No rebuliço da tragédia uma tragédia insignificante individual dera oportunidade a um bêbado se esconder num canto da capela – talvez sequer percebendo o cadáver de barriga aberta – e ali dormiu escondendo a embriaguez. Apenas notara a custo o susto no susto com a palmada da onça despreparada e a da autoridade a exibir sua própria coragem.
O que não aliviaria a ignorância de ninguém.
São Paulo   setembro  2018
             

Nenhum comentário :

Postar um comentário