(conto)
Exemplar
Tabefe
Zé
Mão de Onça era um sujeito exemplar no que fazia, humilde mas ignorante. Querido
ou respeitado entre colegas no trabalho, sendo servidor até honesto. Mão por
defeito na sua mão direita meio fechada, parecendo pata de onça. Um dia passou
por experiência insólita ao ir faxinar a capela: na moradia de Deus, encontrou
o diabo na forma de assombração.
A
urbe mais vila que cidade fora tomada de pânico horror atarantamento nos
improvisos por uma tragédia próxima, um ônibus que chamavam jardineira
despencou matou dezenas duma vez; e o hospitaleco não suportava a demanda –
muitos pedaços de gente à pouca gente classificada atender! Vieram médicos e
enfermeiros e policiamento dos arredores. Nessas horas tristes também faleceu
um cidadão sem nome, e morto tratado como indigente; na soma da correria diante
o desastre rodoviário, ficou de barriga aberta fora da geladeira e posto, sem
lugar para pôr, em depósito na capelinha, o necrotério mui ocupado...
Bem,
Zé fora limpar a área.
Chegando
ali fez o que pôde, logo chamado a atender na correria dos pedaços visitantes.
Ao sair praticou um desmandozinho na pressa: deu um tapa no desconhecido morto,
um na bunda exposta do comportado ser; fria. Mas... ouviu imediato um grito
"ai!" de dor ou indignação. Saiu correndo o coração pela boca.
Narrou
por cima aquele por baixo aos poucos iguais. E ficaria nisso, fosse e parecia
ser mesmo alma penada. Decerto do morto que levara a corrigenda num tabefe
quente na traseira fria.
Chegou
o caso às autoridades em trabalho no hospital e assim um médico e seu
assistente acompanharam Onça para verificação in loco.
Senhor
José, diz o Dr. José, está vendo o cadáver autopsiado e cadáver não fala, menos
ainda grita...
Sorriu
desesperançado a vítima da vítima sem vida. Iam já abandonar o recinto e o
morto no recinto quando o Doutor, numa graçola inusitada e despropositada a uma
autoridade clínica, quando esta dá em exemplo um tabefe na fria nádega do corpo
inanimado... Imediato os três vivos notaram um vivo grito "ai!"
O
mais corajoso e sério do grupelho, o primeiro a correr fora... os outros saíram
aflitos atrás.
Todos,
em acordo agora, todos silenciaram a fraqueza...
Só
mais tarde, passado o tormento dos pedaços humanos reconhecidos e/ou
identificados e enterrados é que puderam explicar certa minúcia no caso.
No
rebuliço da tragédia uma tragédia insignificante individual dera oportunidade a
um bêbado se esconder num canto da capela – talvez sequer percebendo o cadáver
de barriga aberta – e ali dormiu escondendo a embriaguez. Apenas notara a custo
o susto no susto com a palmada da onça despreparada e a da autoridade a exibir
sua própria coragem.
O
que não aliviaria a ignorância de ninguém.
São Paulo setembro
2018
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