quarta-feira, 26 de junho de 2019


(conto) Ossos do Ofício

Aquela mulher atraente bela charmosa, um anjo, olhou sério ao companheiro – isso um indício de contrariedade segundo o histórico de família – e assim logo tentou o homem se compor ao figurino dela, na linguagem de um pingo ser letra. Mexeu-se, sem que estivesse como os olhares de sua mulher indicavam ele estando a flertar com uma beldade noutro banco dentro do ônibus circular. Enfim aquiesceu às ordens da ciumenta ainda bonita esposa. Ela não se fez de rogada nessa vitória, tendo por isso relembrado um abuso quando nos primeiros tempos, sem o filho ali debaixo do casal agora; então o macho vivia sonhando outra... Mas a crise passara, as brigas conjugais não. Ela examinou o ambiente com sua loca escura pra ver se não via a pretensa rival, olhou para baixo o comportamento do filhote a brincar com amigo imaginário e a conversar animadamente com o outro; seu esqueletinho arcado ali no chão do veículo perfazia curva interessante porém a mãe desgastada pela lembrança de antigas rusgas com o pai da criança sequer se prendeu ao menino; e carregou de propósito “amor, você de tanto olhar a sirigaita perderá outra vez a bola dos olhos...” Sorriu sem graça o contraventor. Ela emendou daí problemas sérios do dia a dia, os mais palpáveis como as contas as compras ou necessidades que o consumismo exige que se adquira. O esqueletinho, criança sempre parece não prestar atenção porém: relacionou elinho também os brinquedos necessários segundo a necessidade, sem esquecer os caríssimos eletrônicos os novos e sofisticados celulares coloridos e, claro, mais caros. Papai fez que sim a dizer não ou pelo menos num aceitar provisoriamente para não provocar escândalo no coletivo lotado. Ela sorriu ou para ele ou dele e não esquecendo as compras dela; aí despencou mostrar o que estragado no seu túmulo – não seriam tumbas mas túmulo como grafado pois jazigo coletivo e familiar, daqueles de gavetas à espera – mostrando assim as necessidades novas ditadas pela tevê e pela internet com belíssimas ofertas e razoáveis preços conforme pensamento seu da carteira do consorte. E acresceu nisso pagamentos aluguéis impostos dívidas dúvidas... De maneira que o esqueleto macho quase se desfez em mil pedaços, a custo juntados pela própria imaginação. Iam por essas razões começar, fosse no lar ou túmulo coletivo, iam dar início a um lance da tragédia do bate-boca conjugal com menino no meio forçando fosse ouvido lá em cima a fala dos seus dentes, os dentinhos inteiros e da primeira dentição enquanto os da mãe já implantados e os do genitor meras dentaduras postiças, inclusive estas com uns filetes de ouro atraindo ladrões de cemitério municipal. Não. Não prosseguiram, a ficar no início e projeto de batalha campal quiçá guerra fosse na casa e não no ônibus, a dar vexame aos circunstantes. Nessa altura o chofer já olhava com rabo de olhos, quer dizer de buracos dos olhos para o lado do casal e aí lhe aparecendo o nariz, o qual terá sido torto grande comprido, faltando agora por cima dos dentes cariados no lugar onde decerto tivera bigodes apenas a parte óssea das fossas nasais já sem cartilagem que a terra comera certamente obedecendo a lei da natureza. Então o casal se constrangeu, se compôs se comportou normal (o que seria normal!) até o esqueletinho gracioso notou o público a olhar curioso condenando a quebra do silêncio no veículo. Nesse transtorno que felizmente não se completou, ela voltou a sentar-se (havia se levantado um pouco ou para ver a rival outra ou para ferir melhor a oposição macha pega no flagrante). O esqueleto macho ruborizou-se, nessa situação em que a gente não sabe onde põe o chapéu; aliás usava mesmo um chapéu para cobrir esconder uma cicatriz na testa, onde recebera antanho um tiro do esposo doutra amante, amante que hoje tem o belo apelido de ‘namorada’. Sentou-se sua fêmea, ajeitando as costelas e compondo os ossos da medula. Enquanto, pilhado ele no descuido, sequer percebendo no ato de se pôr no assento o assento e mostrar o ilíaco trincado. Fez mais, fizeram: ele esparramando sem educação o metatarso e os cinco metatársicos e ela os artelhos bem ajuntados para não dar na vista com suas pontas esmaltadas de vermelho quase ‘cheguei!’ e num segurar a indefectível bolsa feminina. Nessa altura o esqueletinho já nem via o drama adulto caso houvesse observado e assim dialogava com outro imaginário, quem sabe também um exemplar ajuntado de ossos formando um belo garoto.
Marília   outubro  2012


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