A Casa Vazia (conto)
Dona Maria não mais é Dona Maria, agora
que é agora de hoje; ontem o drama... Até o velório parecendo longínquo igual
miragem ou sonho do pesadelo, quando se não pode acordar. Embora o calor amigo
de conhecidos e parentes, a dor. E as flores tentando balsamizar o sofrimento,
com mentiras e verdades forçadas. Contudo precisava suportar. Agora os dias iam
ficando na esteira do tempo, do tempo sem volta e da volta sem tempo. Não
obstante andava só. Tudo a improvisar soluções... Pior que isso: a casa
crescera, o espaço se alargara em não cabendo paradoxalmente uma viúva tão
pequena tão pobre tão só, tão só. Abriu no ranger portas e janelas e o vento
veio curioso e irreverente mexer com seus pertences; os cômodos devolveram a
ele um cheiro de casa fechada e triste. Ela prometera, a quem? a si mesma, que
seria forte, tendo a vida pela frente; porém não cumpriu a palavra empenhada –
chorou quase sem lágrimas o seu passado ali presente. Visitou cada
compartimento cada objeto cada pertence cada lembrança que se não pega mas
fere. Agora inda agora, agora noite, uma noite não aceitando as luzes. E aí
mergulhou no passado no futuro no presente, a poder sumir de si mesma, a sumir
em si mesma. Nem podendo mais ser Dona Maria do Seu Zé, com tanto espaço e
tanto vazio.
Marília
dezembro 2006
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