quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

A Casa Vazia  (conto)
        
         Dona Maria não mais é Dona Maria, agora que é agora de hoje; ontem o drama... Até o velório parecendo longínquo igual miragem ou sonho do pesadelo, quando se não pode acordar. Embora o calor amigo de conhecidos e parentes, a dor. E as flores tentando balsamizar o sofrimento, com mentiras e verdades forçadas. Contudo precisava suportar. Agora os dias iam ficando na esteira do tempo, do tempo sem volta e da volta sem tempo. Não obstante andava só. Tudo a improvisar soluções... Pior que isso: a casa crescera, o espaço se alargara em não cabendo paradoxalmente uma viúva tão pequena tão pobre tão só, tão só. Abriu no ranger portas e janelas e o vento veio curioso e irreverente mexer com seus pertences; os cômodos devolveram a ele um cheiro de casa fechada e triste. Ela prometera, a quem? a si mesma, que seria forte, tendo a vida pela frente; porém não cumpriu a palavra empenhada – chorou quase sem lágrimas o seu passado ali presente. Visitou cada compartimento cada objeto cada pertence cada lembrança que se não pega mas fere. Agora inda agora, agora noite, uma noite não aceitando as luzes. E aí mergulhou no passado no futuro no presente, a poder sumir de si mesma, a sumir em si mesma. Nem podendo mais ser Dona Maria do Seu Zé, com tanto espaço e tanto vazio.

Marília   dezembro  2006

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