terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Como Foi que se Comeu o Primo Basílio

Não fossem exigir o absoluto das coisas, todavia ele conversava bem; isto é, falava sem parar. Pra todos ouvirem na refeição. Isso incomoda um pouco provocando raspagem na garganta arrastar a cadeira remexer a toalha da mesa ou fazer bolinho de migalha de pão. Mas ele era tão impiedoso quanto falante. Muitos largavam a comida alegando falta de fome outros barriga cheia. Contava e mais dizia indiferente a estômagos fracos a exigir bílis pra fora em cena nojenta.
Despejara o costume chinês de comer ratos, passara entre o feijão-com-arroz para as baratas os piolhos e os bigatos ingeridos por primitivos e macacos. Ninguém se aguentando, muito bife deixado, a salada do antes pro depois. E contava e recontava.  Trouxe a hiena para a mesa de refeição, o urubu a curtir podres. Nessa altura já não se aturava o mundo cão ali atirado. Ele sem se importar cortava o alcatre gordo com faquinha dentilhada. Foi daí que serviu o primo Basílio para quem ainda esfomeado!

Nesse ponto do campeonato trouxe o primo por via da sardinha. Tendo afirmado alto grau de canibalismo, passou a provar por “a” mais “bê”, civilizadamente, que a sardinha comera o primo Basílio. A fim de provar ou causar melhor má-impressão, descreveu a retirada do cadáver parente desfigurado que a praia vomitara, ela também não quisera as gorduras do filho de tia Joana igualzinho aos comensais largando o bife a salada o feijão o arroz; teve a honestidade em não deixar nada a contar sobre o defunto carcomido, ficando ainda alguns retardatários peixes incrustados no interior do saboroso morto, a chupá-lo gostoso...

Então havia ânsia em senhores respeitáveis e torpor em velhas gastas – todos com pratos abandonados no fim ou pelo meio. E foi quando ele, o impiedoso contador risonho, trincou uma sardinha bem alimentada, a qual se fazia acompanhar por um gole de vinho tinto (ele por sua vez amassado com os pés finíssimos de ótimo chulé europeu de uma quinta lusitana, insistiu o homem) quando também foi seguido pelo “oh” da plateia e mesmo dele próprio acrescentando pesaroso: “pobre do priminho! está uma gostosura.”

 Ribeirão Preto  março 1981     


                     

Nenhum comentário :

Postar um comentário