Como Foi que se Comeu o Primo Basílio
Não fossem exigir o absoluto das coisas, todavia ele
conversava bem; isto é, falava sem parar. Pra todos ouvirem na refeição. Isso
incomoda um pouco provocando raspagem na garganta arrastar a cadeira remexer a
toalha da mesa ou fazer bolinho de migalha de pão. Mas ele era tão impiedoso
quanto falante. Muitos largavam a comida alegando falta de fome outros barriga
cheia. Contava e mais dizia indiferente a estômagos fracos a exigir bílis pra
fora em cena nojenta.
Despejara o costume chinês de comer ratos, passara entre
o feijão-com-arroz para as baratas os piolhos e os bigatos ingeridos por primitivos
e macacos. Ninguém se aguentando, muito bife deixado, a salada do antes pro
depois. E contava e recontava. Trouxe a
hiena para a mesa de refeição, o urubu a curtir podres. Nessa altura já não se
aturava o mundo cão ali atirado. Ele sem se importar cortava o alcatre gordo
com faquinha dentilhada. Foi daí que serviu o primo Basílio para quem ainda
esfomeado!
Nesse
ponto do campeonato trouxe o primo por via da sardinha. Tendo afirmado alto
grau de canibalismo, passou a provar por “a” mais “bê”, civilizadamente, que a
sardinha comera o primo Basílio. A fim de provar ou causar melhor má-impressão,
descreveu a retirada do cadáver parente desfigurado que a praia vomitara, ela
também não quisera as gorduras do filho de tia Joana igualzinho aos comensais
largando o bife a salada o feijão o arroz; teve a honestidade em não deixar
nada a contar sobre o defunto carcomido, ficando ainda alguns retardatários
peixes incrustados no interior do saboroso morto, a chupá-lo gostoso...
Então
havia ânsia em senhores respeitáveis e torpor em velhas gastas – todos com
pratos abandonados no fim ou pelo meio. E foi quando ele, o impiedoso contador
risonho, trincou uma sardinha bem alimentada, a qual se fazia acompanhar por um
gole de vinho tinto (ele por sua vez amassado com os pés finíssimos de ótimo
chulé europeu de uma quinta lusitana, insistiu o homem) quando também foi
seguido pelo “oh” da plateia e mesmo dele próprio acrescentando pesaroso: “pobre
do priminho! está uma gostosura.”
Ribeirão Preto março 1981
Nenhum comentário :
Postar um comentário